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Banquete
com os Deuses, de Luis Fernando Verissimo (Objetiva; 226
páginas; 22,90 reais) Nos últimos três
anos, os fãs do gaúcho Luis Fernando Verissimo foram
brindados com reedições das crônicas mais divertidas
que ele escreveu em sua carreira. Depois de coletâneas recheadas
com seus escritos sobre sexo e com as histórias do analista
de Bagé, agora chegou a vez das crônicas em que o autor
fala sobre música, cinema e literatura. Se normalmente os
textos de Verissimo são engraçados, em Banquete
com os Deuses revelam-se outras qualidades do autor: a erudição
e o gosto pela cultura pop. As 73 crônicas reunidas no livro
trazem suas impressões sobre os filmes de Fellini, o jazz
de Miles Davis, as peças de Shakespeare e o humor do americano
Seinfeld, entre muitos outros temas.
Leia
trechos do livro
Americanos
imaginários
Você
e eu somos americanos imaginários. Nossa experiência
do Novo Mundo se deu, até agora, vicariamente, no escuro
e seguro recesso das salas de cinema. Não vivemos nossa história,
nós a assistimos. Há gerações que
somos hóspedes formais e um pouco constrangidos deste
lado selvagem da Terra, europeus transplantados em permanente
e hereditário susto com a ameaça de rejeição.
Reconstituímos nossa civilização ibérica
na praia, timidamente, com sacadas rendadas para o mar, e protelamos
o sujo trabalho de desbravarmos nossa própria fronteira.
O mato persiste na imaginação nacional como a seara
sombria de todos os terrores. No subconsciente de cada brasileiro,
não duvido, vive a secreta certeza de que os índios
um dia ainda se reagruparão e nos mandarão de volta
às caravelas. Calcamos toda uma cultura sobre o provisório.
Não existe lugar mais improvável para se erguer uma
cidade do que aquela estreita faixa de terra pantanosa entre o mar
e a rocha onde construíram o Rio de janeiro e aí está:
o Rio é o escandaloso protótipo do modo de ser brasileiro.
A angústia de Brasília não é sua desolação
futurista, é a distância que a separa das caravelas.
0 Rio, a vida provisória, era o nosso álibi.
Certamente ninguém poderia nos acusar do crime da conquista
se preferíamos o inocente lazer da praia à incerta
e aviltante faina dos pioneiros. A custo decidimos trocar nossa
inocência por um continente. E ainda há gente aterrorizada
com as conseqüências, antevendo represálias atrás
de cada arbusto. Ninguém faz história impunemente,
sussurram, arrumando seus baús para a fuga. E o que vão
dizer de nós na Europa?
Os
norte-americanos não protelaram o seu crime, protelaram a
culpa. Os heróis da nossa infância levavam a virtude
no coldre e distribuíam rajadas de civilização.
Sem piscar e sem remorsos. Você pode imaginar a Cavalaria
Americana dando explicações para o mundo sobre o seu
último massacre de índios? Ou Tom Mix entregue a dúvidas
ético existenciais sobre seu direito de quebrar a cara
do bandido? A violência era o seu próprio pretexto.
E nós, no cinema, vibrando. Conquistando o nosso oeste espiritual
sem sair da praia. Matando de mãos limpas. A nossa inocência
enclausurada no escuro. O nosso álibi intacto. E não
foi só a fronteira que experimentamos por procuração.
0 crescimento, a aventura, o ápice e a decadência do
Novo Mundo resumem-se na história, e no cinema, dos Estados
Unidos como uma daquelas pantominas que reproduzem todas as idades
do Homem em alguns segundos sobre o palco. Variam os mocinhos e
os vilões, mas o enredo é sempre o mesmo: a violência
justificada em pias metáforas, os rituais de passagem incorporados
à trajetória de um herói mais ou menos humano
e seus triunfos creditados à livre iniciativa individual
e à superioridade inerente ao homem branco, cristão
e empreendedor. Assim o cinismo de Humphrey Bogart é uma
arma de sobrevivência tão válida e defensável
numa civilização industrial quanto era o revólver
de Durango Kid na primeira etapa da aventura americana. Bogart representa
o herói urbano às voltas com outra fronteira selvagem,
a livre-empresa beirando o gangsterismo, mas a sua ironia não
era ainda um sinal de reconhecimento da decadência iminente.
Os heróis de Peckimpah, sim, são protagonistas
conscientes da derrocada. Neles, finalmente, a culpa alcança
o crime. Neles a aventura desbravadora é demascarada e a
violência. perde todos os seus disfarces.
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