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Fogo Negro, de C.J. Sansom (tradução de Flávia Rössler; Record; 560 páginas; 60 reais) – Formado em história e ex-advogado, o inglês C.J. Sansom faz uma convincente reconstituição da Londres do século XVI em Fogo Negro. Mais importante, o autor também sabe armar uma envolvente trama policial. A história é narrada em primeira pessoa pelo corcunda Matthew Shardlake, advogado e detetive que já estrelava Dissolução, livro de estréia de Sansom. A serviço de Thomas Cromwell, poderoso conselheiro do rei Henrique VIII, Shardlake investiga o assassinato de dois alquimistas que teriam descoberto o segredo do fogo negro, lendária arma utilizada em batalhas navais. Ao mesmo tempo, Shardlake tem doze dias para salvar da execução uma jovem injustamente acusada de assassinato.

Leia trecho

Capítulo 1

Eu saíra cedo de minha casa em Chancery Lane para ir à Prefeitura discutir um processo em que atuava representando o Conselho Municipal. Embora não conseguisse tirar da cabeça o problema muito mais sério que teria de enfrentar na minha volta, pude encon - trar um pouco de prazer na suave brisa matinal enquanto des cia uma ainda tranqüila Fleet Street. Fazia muito calor para fins de maio, o sol já era uma bola de fogo no céu azul cristalino e eu usava apenas um gibão leve por baixo da toga preta de advogado. Enquanto meu velho cavalo Chancery seguia em passo preguiçoso, a visão das árvores de folhagem exuberante me fez de novo pensar em abandonar a profissão, em escapar das incômodas multidões londrinas. Em dois anos eu completaria 40, a idade em que se inicia a velhice de um homem; se os negócios corressem bem, era prová vel que eu conseguisse. Atravessei Fleet Bridge com suas estátuas dos antigos reis Gog e Magog. O muro da cidade elevou-se à frente e me preparei para enfrentar o mau cheiro e o alarido de Londres.

Na Prefeitura, tive um encontro com o prefeito Hollyes e o advo - ga do sênior do Conselho dos Comuns. O conselho instaurara uma ação contra um dos gananciosos especuladores imobiliários que com - pra vam mosteiros extintos, o último dos quais fora derrubado naquela primavera de 1540. Esse especulador específico era, para minha vergonha, meu colega, também advogado em Lincoln's Inn, um trapaceiro falso e ambicioso chamado Bealknap. Ele se apossara de um pequeno mosteiro de Londres e, em vez de demolir a igreja, a transformara em uma insalubre e nada recomendável casa de cômo dos. Cavara uma fossa sanitária para uso comum dos inquilinos, porém o trabalho fora mal executado e os locatários das casas vizi nhas, de propriedade da Câmara, padeciam com a infiltração da imundície para seus porões.

A corte determinara que Bealknap providenciasse condições ade quadas aos usuários, mas o patife apresentara recurso ao tribunal superior sob a alegação de que o alvará original excluía o mosteiro da jurisdição municipal e que, portanto, ele não estava obrigado a nada. A audiência para a apreciação da matéria pelos juízes estava marcada para dali a uma semana. Avisei o prefeito que as chances de Bealknap eram escassas, assinalando que se tratava de um daqueles trapaceiros de arrancar os cabelos com os quais os advogados se deparam e que sentem um prazer perverso em gastar tempo e dinhei - ro em demandas incertas em vez de admitir a derrota e providenciar uma solução adequada, como qualquer pessoa civilizada.

Planejei voltar para casa via Cheapside, o mesmo caminho da ida, porém quando cheguei no entroncamento com a Lad Lane encontrei a Wood Street bloqueada por uma carroça virada, carre gada de chumbo e telhas da demolição do mosteiro de St. Bar tholomew. Uma grande quantidade de telhas cobertas de musgo tinha se espa lhado pelo chão e interrompido a via. A carroça era grande, puxa da por dois cavalos robustos e, embora o condutor tivesse soltado um deles, o outro permanecia descontro lado no seu posto entre os varais. Seus imensos cascos escoiceavam com violência, despedaçando telhas e levantando nuvens de pó. Relinchava, furio so, os olhos fixos na multidão que se formava. Ouvi alguém dizer que a fila de carroças blo quean do as ruas chegava quase a Cripplegate.

Não era a primeira cena desse tipo que a cidade presenciava nos últimos tempos. Por toda parte ouvia-se o barulho das pedras dos velhos prédios que vinham abaixo: tanta terra ficara desocupada que, mesmo na superpovoada Londres, os cortesãos e outros espolia - dores gananciosos em cujas mãos essas terras acabavam caindo nem sempre sabiam como administrá-las.

Fiz Chancery dar meia-volta e segui pelo labirinto de estreitos caminhos que levavam a Cheapside, com trechos cuja largura quase não permitia que cavalo e cavaleiro passassem sob os beirais salientes das casas. Embora ainda fosse cedo, as oficinas estavam abertas e as alamedas repletas de gente, o que tornava minha passagem vagarosa, além de vendedores ambulantes e carregadores de água que também avançavam com dificuldade sob seus imensos cestos cônicos. Quase não chovera durante o mês inteiro, as pipas estavam secas e eles faziam bons negócios. Pensei de novo na reunião que estava por acontecer; eu andava apreensivo por causa dela e agora me atrasaria.

Franzi o nariz para o terrível mau cheiro que o ar quente trazia do canal de esgoto e praguejei com raiva quando um porco que fuçava a terra, o focinho lambuzado de algum lixo anônimo, cruzou guinchando o caminho de Chancery e o obrigou a um movimento brusco para o lado. Uma dupla de aprendizes em seus gibões azuis, que voltavam com ar satisfeito de alguma festa tardia, olharam ao redor quando me ouviram xingar e um deles, um jovem atarracado e de feições rudes, dirigiu-me um sorriso de desdém. Apertei os lá bios e esporeei Chancery. Eu me vi como o jovem devia ter me visto, um advogado corcunda e pálido vestido com toga e barrete pretos, estojo para caneta e punhal na cintura em vez de espada.

Foi um alívio chegar à larga via pavimentada de Cheapside. Multidões circulavam pelas barracas do Mercado Popular; sob toldos coloridos os mascates gritavam "O que vai querer?" ou argumen ta - vam com donas-de-casa de toucado branco. Uma ou outra senho ra de posses circulava entre as barracas acompanhada de criados armados, o rosto coberto por uma viseira de pano que protegia do sol a cútis clara.

Depois, quando passei diante da imponente catedral de St. Paul, ouvi a voz estridente de um vendedor de panfletos. Esquelético, vestido com um gibão preto manchado, uma pilha de papéis embai - xo do braço, o sujeito gritava para a multidão: "Assassina de crian - ça de Walbrook levada para Newgate!" Interrompi a marcha e inclinei-me para entregar-lhe uma moeda. Ele lambeu o dedo, sepa - rou uma folha para mim e voltou a gritar: "O crime mais terrível do ano!"

inclinei-me para entregar-lhe uma moeda. Ele lambeu o dedo, sepa - rou uma folha para mim e voltou a gritar: "O crime mais terrível do ano!":

Crime terrível em Walbrook; menino é assassinado por prima ciu menta.

Na noite do último domingo, 16 de maio, na bela casa de Walbrook de Sir Edwin Wentworth, membro da Mercers' Company, seu único filho, um menino de 12 anos, foi encontrado no fundo de um poço exis - tente no jardim com o pescoço quebrado. As filhas de Sir Edwin, de 15 e 16 anos, contaram como o menino havia sido atacado pela prima, Elizabeth Wentworth, uma órfã que Sir Edwin abrigara por caridade após a morte do pai, e empurrado por ela para dentro do poço. A assassina foi levada para Newgate, onde prestará depoimento no próximo dia 29 de maio. Ela se recusa a depor, motivo pelo qual é provável que seja condenada à morte sob tortura, ou, se decidir depor, que seja conside - rada culpada e siga para Tyburn no próximo dia de enforcamento.

A impressão ruim em papel barato manchou meus dedos de tinta quando enfiei o panfleto no bolso e fiz a curva para descer Pater - noster Row. Então o caso já era de conhecimento público; mais uma sensação ao preço de meio pêni. Inocente ou culpada, como a jovem conseguiria um julgamento justo de um júri londrino agora? A propagação da imprensa nos trouxera a Bíblia em inglês e a orientação, no ano anterior, de que um exemplar fosse colocado em cada igreja; mas trouxera também panfletos como esse, que proporcionavam dinheiro para tipógrafos clandestinos e forragem para o carrasco. Na verdade, como os antigos nos ensinaram, não existe nada sob a lua, por melhor que seja, que não esteja sujeito à corrupção.

Era quase meio-dia quando parei Chancery diante da porta de casa. O sol estava a pino e, quando desamarrei a fita do barrete, uma linha de suor ficou marcada sob meu queixo. Joan, minha governan - ta, abriu a porta assim que apeei, com uma expressão preocupada no rosto redondo.

- Ele está aqui - sussurrou, olhando para trás. - O tio da moça...

- Eu sei - respondi. Joseph devia ter atravessado Londres. Talvez também tivesse visto o panfleto. - Como ele está?

- Arrasado, senhor. Está na sala de visitas. Dei-lhe um copo de cerveja.

- Obrigado.

Entreguei as rédeas para Simon, o menino louro e magro como um varapau que Joan acabara de empregar para ajudá-la no serviço de casa. Chancery ainda não estava acostumado com ele e agitou os cascos no pedregulho, quase pisoteando um dos pés descalços do menino. Simon disse baixinho algumas palavras macias, fez uma reverência apressada na minha direção e conduziu o cavalo para o estábulo.

- Esse menino devia usar sapatos - adverti.

Joan sacudiu a cabeça.

- Ele não quer, senhor. Diz que esfolam os pés. Falei que na casa de um cavalheiro ele precisa calçar sapatos.

- Diga-lhe que ganhará meio xelim se usar sapatos durante uma semana - propus. Respirei fundo. - E agora é melhor que eu veja Joseph.


 
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