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As Vozes de Marrakech, de Elias Canetti (tradução de Samuel Titan Jr.; Cosac Naify; 112 páginas; 39 reais) – Consagrado por obras ambiciosas como o romance Auto-de-Fé e a análise da psicologia do fascismo de Massa e Poder, o escritor búlgaro Elias Canetti (1905-1994), Prêmio Nobel de 1981, revela aqui um estilo mais modesto e informal – mas não menos elegante. O livro reúne catorze crônicas sobre a visita que Canetti fez ao Marrocos, em 1954. Em algumas delas, Canetti se deixa levar pela sensação de "exotismo" do turista que visita uma terra muito diversa da sua. Mas a diferença cultural também suscita reflexões originais – com destaque para a crônica em que Canetti compara o ofício do escritor ocidental ao dos narradores orais das feiras de Marrakech.

Leia trecho

"Narradores e escreventes"

Muitas vezes teria dado tudo para entender o que diziam, e espero que chegue o dia em que eu possa fazer justiça a esses narradores ambulantes. Mas também ficava feliz de não entendê-los. Seguiam sendo para mim um enclave de vida antiga e intocada. Sua língua lhes era tão cara quanto a minha para mim. As palavras eram seu alimento, e ninguém os seduziria a trocá-lo por algum outro melhor. Eu tinha orgulho do poder narrativo que eles exerciam sobre seus conterrâneos. Pareciam meus irmãos mais velhos e mais experientes. Nos melhores momentos, eu me dizia: eu também sei juntar pessoas à minha volta quando narro uma história, também a mim elas dão ouvidos. Mas, em vez de ir de um lugar para o outro, sem nunca saber quem vou encontrar pela frente, quais ouvidos vão se abrir para mim, em vez de viver da plena confiança no que tenho a narrar, eu me entreguei ao papel. Vivo agora sob a proteção de portas e escrivaninhas, um sonhador covarde, enquanto eles vivem no tumulto do mercado, entre cem rostos desconhecidos, mudando diariamente, livres do fardo de um saber frio e supérfluo, sem livros, ambição ou nomeada. Poucas vezes me senti bem entre os homens das nossas terras que vivem de literatura. Eu os desprezei porque desprezo alguma coisa em mim mesmo, e creio que essa alguma coisa é o papel. E de repente estava entre poetas que eu podia olhar com admiração, pois deles não havia nada que ler.


 
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