Viagens
no Scriptorium,
de Paul Auster (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 128
páginas; 33 reais) Um homem idoso acorda em um quarto monitorado
por uma câmera e um microfone ocultos. Ele parece sofrer de amnésia:
conserva algumas recordações remotas da infância, mas não
sabe se é um prisioneiro ou um hóspede naquele quarto, não
conhece as pessoas que vêm visitá-lo (e que dizem conhecê-lo
de longa data), não lembra o que fez no dia anterior. As únicas
pistas para seu passado estão em uma pilha de fotos e num estranho relato
ficcional misto de faroeste e romance de espionagem que ele encontra
na escrivaninha. Em seu novo livro, Paul Auster mostra a ousadia que o consagrou
como um dos grandes nomes da literatura americana contemporânea: essa é
uma história para levantar dúvidas existenciais, e não para
resolvê-las.
Leia
trecho
"O velho está sentado na beira da cama estreita, mãos espalmadas
sobre os joelhos, cabeça baixa, olhando fixo para o chão. Não
faz idéia de que há uma câmera instalada no teto, bem em cima
dele. Em silêncio, o obturador clica de segundo em segundo, produzindo oitenta
e seis mil e quatrocentas fotos a cada revolução da Terra. Mesmo
que ele soubesse que está sendo vigiado, isso não faria a menor
diferença. Sua mente está em outra parte, perdida em meio às
fantasias que lhe passam pela cabeça enquanto busca uma resposta para a
pergunta que o atormenta. Quem
é ele? O que faz aí? Quando chegou e quanto tempo vai ficar? Com
um pouco de sorte, o tempo nos dirá. Por enquanto, nossa única tarefa
é examinar as fotos com o máximo de atenção e evitar
tirar conclusões apressadas. Há
uma série de objetos no quarto, e na superfície de cada um deles
foi grudada uma tira de esparadrapo, com uma só palavra escrita em letras
de fôrma. Na mesa-de-cabeceira, por exemplo, a palavra é mesa. Na
luminária, a palavra é luminária. Mesmo na parede, que não
é um objeto no sentido estrito da palavra, há uma tira de esparadrapo
em que se lê parede. O velho ergue a cabeça por alguns instantes,
vê a parede, vê a tira de esparadrapo colada na parede, e pronuncia
suavemente a palavra parede. O que não se pode saber, a esta altura,
é se ele está lendo a palavra na tira de esparadrapo ou apenas se
referindo à própria parede. Pode ser que não saiba mais ler
mas ainda reconheça as coisas pelo que são e consiga chamá-las
pelo nome, ou, ao contrário, talvez tenha perdido a capacidade de reconhecer
as coisas pelo que são mas ainda saiba ler. Ele
usa um pijama de algodão listrado de amarelo e azul, e seus pés
estão calçados com chinelos pretos de couro. Não sabe ao
certo onde está. No quarto, sem dúvida, mas em que prédio
fica o quarto? Numa casa? Num hospital? Num presídio? Não lembra
há quanto tempo está aí nem a natureza das circunstâncias
que precipitaram sua remoção para esse lugar. Talvez tenha estado
aí desde sempre; talvez esse seja o lugar onde viveu desde o dia em que
nasceu. Só o que sabe é que seu coração está
repleto de um implacável sentimento de culpa. Ao mesmo tempo, não
consegue se livrar da sensação de estar sendo vítima de uma
injustiça terrível. Há
uma janela no quarto, mas a persiana está fechada, e, até onde ele
lembra, ainda não olhou lá para fora. Tampouco olhou para a porta
com sua maçaneta branca de louça. Vive trancado ou é livre
para ir e vir como bem entender? Ainda precisa investigar essa questão
— sim, porque, como foi dito no primeiro parágrafo deste relato, sua mente
está em outra parte, perdeu-se no passado, enquanto ele passeia entre os
fantasmas que tem amontoados no cérebro, tentando responder à pergunta
que o atormenta. As
fotos não mentem, mas também não contam a história
inteira. São apenas um registro da passagem do tempo, a evidência
exterior. É difícil, por exemplo, estabelecer a idade do velho com
base nessas imagens em preto-e-branco levemente desfocadas. O único fato
que pode ser afirmado com alguma certeza é que ele não é
jovem, mas a palavra velho é um termo elástico que pode ser
aplicado a gente com qualquer coisa entre sessenta e cem anos. Vamos, por isso,
deixar de lado o epíteto velho e passar a chamar a pessoa que está
no quarto de Blank. Por enquanto, não há necessidade de um primeiro
nome." |