Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

IBM e o Holocausto, de Edwin Black, Editora Campus

Introdução
Este livro será uma leitura extremamente desconfortável. Do mesmo modo como sua elaboração foi profundamente constrangedora, pois conta a história da participação consciente da IBM - diretamente e por meio de subsidiárias - no Holocausto, assim como do envolvimento da empresa na máquina de guerra nazista, que assassinou milhões de outras pessoas em toda a Europa.

A humanidade mal deu conta de quando surgiu discretamente o conceito de organização maciça da informação, para transformar-se em ferramenta de controle social, em arma de guerra e em manual de orientação para a destruição em massa. O único acontecimento catalisador foi a data mais fatídica do século passado, 30 de janeiro de 1933, dia em que Adolf Hitler chegou ao poder. Hitler e seu ódio aos judeus foi a força impulsora, cheia de ironia, que forçou esse ponto de inflexão intelectual. No entanto, a cruzada de Hitler foi vigorosamente ampliada e energizada pela engenhosidade e ambição pelo lucro de uma única empresa americana e de seu lendário e autocrático chairman. A empresa foi a International Business Machines, e o chairman foi Thomas J. Watson.

A obsessão do Führer pela destruição dos judeus não foi algo original. Antes dele, czares e tiranos nutriram o mesmo ódio. Mas, pela primeira vez na história, o anti-semitismo contava com os poderes da automação. Hitler não o fez sozinho. Teve ajuda.

No mundo de ponta-cabeça do Holocausto, profissionais de destaque eram as tropas de choque de Hitler. A polícia ignorava seus deveres, para proteger vilões e perseguir as vítimas. Juristas pervertiam conceitos de justiça para formular leis anti-semitas. Médicos conspurcavam a arte da medicina para perpetrar os mais pavorosos experimentos e até selecionavam os mais saudáveis para trabalhar até a morte - identificando os que, por uma questão de eficácia em relação ao relação ao custo, deveriam ser enviados para as câmaras de gás. Cientistas e engenheiros aviltavam as mais nobres vocações, concebendo instrumentos e explicações para a destruição. E estatísticos recorriam à sua disciplina ainda pouco conhecida, mas poderosa, para identificar as vítimas, projetar e racionalizar os benefícios da mortandade, organizar a perseguição e até mesmo auditar a eficiência do genocídio. E neste ponto entram em cena a IBM e suas subsidiárias no exterior.

Ofuscada e inebriada pelo turbilhão de seu próprio universo de perspectivas tecnológicas, a IBM deixou-se dominar por um mantra corporativo sobremodo amoral: se pode ser feito, deve ser feito. Para o tecnocrata cego, os meios eram mais importantes que os fins. A destruição do povo judeu tornava-se cada vez menos relevante, enquanto a fantástica rentabilidade da empresa potencializava ainda mais o efeito revigorante de suas proezas técnicas, numa época em que as filas para o pão se estendiam por todo o mundo.

E como tudo ocorreu?

Quando Hitler chegou ao poder, um dos objetivos centrais do nazismo era identificar e destruir os 600.000 judeus da Alemanha. Para os nazistas, judeus não eram apenas aqueles que praticavam o judaísmo, mas os de sangue judeu, qualquer que tivessem sido as assimilações, os casamentos interétnicos, o credo religioso e até mesmo a conversão ao cristianismo. Apenas depois da identificação dos judeus seria possível o confisco de bens, o confinamento em guetos, a deportação e, por fim, o extermínio. A pesquisa de sucessivas gerações de registros comunitários, paroquiais e governamentais por toda a Alemanha - e depois em toda a Europa - era uma tarefa tão monumental de indexação cruzada que demandava o auxílio de computadores. Mas, em 1933, ainda não existia computador.

Quando o Reich precisou montar uma campanha sistemática de destituição dos direitos econômicos dos judeus e, mais tarde, iniciou a transferência maciça dos judeus europeus de suas residências para os guetos, a tarefa era, mais uma vez, tão prodigiosa que também impunha a utilização de computadores. Mas, em 1933, ainda não existia computador.

Quando a Solução Final consistiu em transportar os judeus, com eficiência, dos guetos europeus até os campos de concentração, com base em planejamento tão exato que as vítimas fossem capazes de caminhar diretamente dos vagões de carga para as câmaras de gás já em prontidão, a logística era missão tão complexa que também requeria computador. Mas, em 1933, ainda não existia computador.

Contudo, havia outra invenção: o cartão perfurado e o sistema de classificação de cartões da IBM - tecnologia precursora do computador. A IBM, de início por meio de sua subsidiária alemã, converteu o programa hitlerista de destruição dos judeus em incumbência tecnológica executada pela empresa com sucesso horripilante. A IBM da Alemanha, usando seu próprio staff e equipamentos, projetou, produziu e forneceu a assistência técnica indispensável de que o Terceiro Reich de Hitler necessitava para realizar o que jamais fora feito antes - a automação da destruição humana. Mais de 2.000 desses conjuntos de máquinas foram distribuídos por toda a Alemanha e milhares de outros por toda a Europa dominada pela Alemanha. Operações de classificação de cartões foram implementadas em todos os campos de concentração. As pessoas eram transferidas de um para outro lugar, trabalhavam exaustivamente até a morte e seus restos eram catalogados com exatidão gélida.

A IBM da Alemanha, conhecida naqueles dias como Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, ou Dehomag, não se limitava a vender as máquinas ao Reich, afastando-se em seguida. A subsidiária da IBM, com o conhecimento da sede, em Nova York, personalizou com entusiasmo os complexos dispositivos e especializou as aplicações, como projeto oficial de toda a corporação. A alta administração da Dehomag era composta de nazistas ostensivamente fanáticos, que foram presos depois da guerra pela filiação ao partido. A IBM de Nova York sempre compreendeu - desde o início, em 1933 - que estava cortejando o escalão superior do Partido Nazista e com ele fazendo negócios. A empresa tirou proveito de suas conexões com o Partido Nazista para ampliar continuamente suas relações de negócios com o Reich de Hitler, não só na Alemanha, como em toda a Europa sob o jugo nazista.

A Dehomag e outras subsidiárias da IBM personalizavam as aplicações. Protótipos de cartões perfurados circulavam ida e volta entre os oficiais do Reich e os técnicos das empresas, até que as colunas de dados fossem aceitas, do mesmo modo como hoje ocorre com qualquer projeto de software. As máquinas não eram vendidas, mas alugadas, sujeitas a manutenção e atualização constante apenas por uma fonte: a IBM. As subsidiárias da IBM treinaram oficiais nazistas e seus prepostos em toda a Europa; instalaram escritórios regionais e representações locais em todo o continente sob domínio nazista, cujo provimento de pessoal era assegurado por um fluxo constante e itinerante de empregados da IBM; e esvaziavam fábricas de papel para a produção de 1,2 bilhões de cartões perfurados por ano, apenas na Alemanha.

Fui sobressaltado por uma indagação cuja resposta de há muito se esquiva dos historiadores. Os alemães sempre dispuseram de listas de nomes judeus. De repente, um mal-encarado esquadrão da SS irrompe na praça da cidade e afixa um aviso exigindo que as pessoas constantes da lista se apresentem no dia seguinte na estação ferroviária, a fim de serem deportadas para o Oriente. Mas como será que os nazistas conseguiram aquelas listas? Durante décadas ninguém soube. Poucos formularam a pergunta.

Resposta: as operações censitárias da IBM da Alemanha e outras tecnologias avançadas de contagem e cadastramento de pessoas. A IBM foi fundada em 1898, pelo inventor alemão Herman Hollerith, como empresa de tabulação de recenseamentos. Seu negócio era recenseamento. Mas quando a IBM da Alemanha constituiu sua aliança filosófica e tecnológica com os nazistas, as operações de recenseamento e registro assumiram nova missão. A IBM da Alemanha inventou o recenseamento racial - listando não apenas filiações religiosas, mas linhagens étnicas que remontavam a gerações. Nisso consistia a concupiscência de dados dos nazistas. Não apenas contar os judeus - mas também identificá-los.

O registro de pessoas e bens era apenas um dos muitos usos que a Alemanha Nazista descobriu para os programas de classificação de dados de alta velocidade. A distribuição de alimentos era planejada com base nos bancos de dados, de modo a matar de fome os judeus. A mão-de-obra escrava era identificada, rastreada e gerenciada principalmente por meio de cartões perfurados. A tecnologia contribuía até para que os trens circulassem com pontualidade e para a exata catalogação da carga humana. A rede ferroviária alemã, a Reichsbahn, maior cliente da Dehomag, tratava diretamente com a alta administração em Berlim. A Dehomag mantinha instalações de cartão perfurado nos depósitos ferroviários em toda a Alemanha e, por fim, em toda a Europa.

Quanto de tudo isso era do conhecimento da IBM? A empresa recebeu informações diárias sobre parte desses fatos durante os doze anos de existência do Reich. A IBM optou por não saber do pior - "não pergunte, não diga", era a ordem do dia. Decerto, a dinâmica e o contexto da parceria da IBM com a Alemanha Nazista mudou durante os 12 anos de existência do Reich. Gostaria que toda a história fosse compreendida no respectivo contexto. A leitura desordenada do livro redundará apenas em conclusões falhas e errôneas. Portanto, se alguém tiver a intenção de ler o livro de maneira superficial e aleatória ou deter-se somente em determinadas partes, é melhor desistir de qualquer leitura. Quem acreditar que de algum modo o Holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado. O Holocausto teria prosseguido - e muitas vezes foi adiante - apenas com munição, marchas fúnebres e massacres resultantes de perseguições movidas a lápis e papel. Mas há razões para examinar os números fantásticos atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos, com tanta rapidez, e analisar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio. A prestação de contas é imprescindível.

Que fatores me induziram a buscar respostas para as perguntas não formuladas sobre a IBM e o Holocausto? Defrontei-me com a realidade do envolvimento da IBM num dia de 1993, em Washington, no Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Lá, logo na primeira exposição, uma máquina IBM Hollerith D-11, de classificação de cartões - apinhada de circuitos, escaninhos e fios - ocupava lugar destaque. Afixada de maneira bem visível no painel frontal da máquina, fulgurava uma placa com o nome IBM. Depois disso, ela foi substituída por outra máquina IBM de menor porte, pois muitas pessoas se juntavam em torno dela, criando um ponto de retenção. A mostra ia pouco além da explicação de que a IBM foi responsável pela organização do recenseamento de 1933, o primeiro a identificar os judeus. Ainda me lembro da ocasião, quando mantive o olhar fixo na máquina durante uma hora. Virei-me então para minha mãe e meu pai, que estavam comigo no museu, e prometi que descobriria mais fatos.

Meus pais são sobreviventes do Holocausto, depois de arrancados de nossa casa, na Polônia. Minha mãe fugiu de um vagão de carga na ida para Treblinka, foi baleada e em seguida enterrada numa cova rasa coletiva. Meu pai conseguiu fugir de uma fila de judeus e descobriu as pernas de minha projetando-se na neve. Sob o luar e como ato de pura coragem, os dois fugitivos sobreviveram ao frio, à fome e ao Reich. Ao meu lado, cinco décadas depois, a imagem de ambos refletida no vidro dos mostruários, com estilhaços e fragmentos de bala incrustados para sempre em seus corpos, meus pais apenas expressavam perplexidade.

Mas eu tinha outras perguntas. Os nazistas sabiam o nome de meus pais. Como?
Qual era a relação dessa máquina cintilante, pintada de preto, bege e prata, aboletada naquele museu discretamente iluminado, com os milhões de judeus e outros europeus assassinados - massacre que não ocorreu em caóticas frações de segundo, da maneira como pereceram tantas vítimas da guerra, mas como resultado de uma campanha hedionda e altamente organizada de humilhação, desumanização e, finalmente, extermínio em massa, que se prolongou durante 12 anos.

Durante anos após aquela descoberta acidental, fui assediado pela constatação de que a IBM de alguma forma se envolvera no Holocausto, dele participando com algum tipo de contribuição tecnológica, cujas peças ainda não haviam sido reunidas. Os fragmentos se espalhavam por todos os lugares, mas era preciso interligá-los.

Ciente de que a International Business Machines sempre intitulara-se provedora de "soluções", compreendi que a IBM não se limitava a esperar chamadas de clientes governamentais. A empresa acumulou fortuna e fama exatamente por antecipar-se às necessidades dos setores público e privado, até mesmo antes de serem detectadas, e então oferecer, projetar e fornecer soluções personalizadas - mesmo que precise executar as soluções tecnológicas com seu próprio pessoal e equipamentos. A IBM tem agido assim com inúmeras órgãos governamentais, gigantes empresariais e associações industriais.

Durante anos, prometi a mim mesmo que um dia responderia à seguinte indagação: quantas soluções a IBM forneceu à Alemanha Nazista? Conhecia a primeira solução: o recenseamento. Até que ponto prosseguiram essas soluções?

Em 1998, iniciei a busca obsessiva por respostas. Avançando sem o financiamento de fundações, sem o patrocínio de qualquer organização, sem os dólares de editoras, parti para o recrutamento de uma equipe de pesquisadores, estagiários, tradutores e assistentes, tudo por conta própria.

Em breve, desenvolvia-se uma rede por todos os Estados Unidos, assim como na Alemanha, Israel, Inglaterra, Holanda, Polônia e França. Com o tempo, a rede continuou a se ampliar. Sobreviventes do Holocausto, filhos de sobreviventes, refugiados, e estudiosos sem ligações com o Holocausto - além de pesquisadores profissionais, destacados arquivistas e historiadores, e até antigos investigadores do Tribunal de Nuremberg - todos iniciaram a procura de documentos.

A equipe era composta principalmente de voluntários. Todos se comprometiam com a confidencialidade. Todos se chocavam e se entristeciam com as implicações do projeto e demonstravam forte motivação. Alguns afirmaram que não conseguiram dormir durante alguns dias, depois de tomarem conhecimento da conexão. Muitas vezes fui encorajado por suas palavras de estímulo.

No final, reuni mais de 20.000 páginas de documentação extraída de 50 arquivos, coleções de manuscritos, bibliotecas de museus e outros repositórios. No processo, tive acesso a milhares de papéis do Departamento de Estado, do antigo Office of Strategic Services e outras fontes que no passado foram consideradas confidenciais. Outros documentos obscuros de origem européia até então nunca haviam sido traduzidos ou relacionados com pesquisas semelhantes. Todos foram organizados em meu próprio arquivo central, com identificação da procedência original.

Nenhum dos 20.000 documentos era carta marcada. Os papéis eram muito mais complexos. Isoladamente, nada revelavam sobre a história. Na verdade, a maioria era profundamente enganadora como pistas solitárias. O verdadeiro significado só emergia quando eram justapostos a vários outros documentos correlatos, muitas vezes de fontes totalmente díspares.

Estudava e analisava certos documentos durante meses, até que seu significado finalmente se tornava claro, por meio do confronto com novos papéis. Por exemplo, encontrei uma referência da IBM à acumulação de "pontos". Finalmente, descobri que "pontos" significava cumprimento de quotas de vendas para inclusão no Clube Cem Por Cento da IBM. A empresa estabelecia quotas de vendas para todas as subsidiárias, durante a era de Hitler.

Na mais verdadeira acepção do termo, a história da IBM e do Holocausto foi estilhaçada em milhares de fragmentos. Apenas reunindo todas a peças consegui compor uma imagem panorâmica que me permitiu visualizar os verdadeiros acontecimentos. Esse relato comprovado é reapresentado neste livro.

Em minha busca, recebi extraordinária cooperação de numerosas fontes privadas, públicas e governamentais em todos os países. Lamentavelmente, a única recusa foi da própria IBM, que rechaçou qualquer pedido de acesso a documentos e de entrevistas pessoais. Eu não estava sozinho. Desde a Segunda Guerra Mundial, a empresa recusou-se inflexivelmente a colaborar com autores estranhos à empresa. Praticamente todos os livros recentes sobre a IBM, escritos por conceituados historiadores de negócios ou por ex-empregados da empresa, contêm referências à recusa da organização em cooperar com os respectivos autores. Finalmente, consegui acesso propício. Centenas de documentos da IBM foram colocados à minha disposição. Li-os todos. Por trás de cada nota de rodapé existe uma pasta de arquivo com toda a documentação em cópia impressa (papel, filme ou outro meio permanente) para a qualquer momento confirmar todas as afirmações do livro.
Ao reconstituir os fatos, orientei-me em cada página por dois princípios: contexto e conseqüências. Por exemplo, embora tivesse acesso a grande quantidade de informações diplomáticas e de serviços de inteligência, tive o cuidado de concentrar-me no que era de conhecimento público, por meio da mídia, a respeito de atrocidades e práticas anti-semitas na Europa. Assim, os leitores perceberão que recorri numerosas vezes aos artigos de The New York Times. Cito o Times não porque fosse o principal jornal da América, mas porque os executivos da IBM, inclusive Thomas Watson, estavam sediados em Nova York. Se estivessem em Chicago, teria preferido o Chicago Tribune. Se morassem em Cleveland, teria optado pelo Cleveland Plain Dealer.

Os leitores também observarão que freqüentemente optei por reproduzir as palavras exatas das próprias fontes, em telegramas, cartas e transcrições de telefonemas. Assim, os leitores julgarão por si próprios exatamente o que foi dito no contexto.

Com poucas exceções (ver Bibliografia), a literatura sobre o Holocausto praticamente não menciona as máquinas Hollerith - não obstante a posição de destaque do equipamento no Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Os historiadores não devem ficar na defensiva em virtude da ausência em seus trabalhos até mesmo de referências a tais fatos. Os documentos públicos estavam todos em seus lugares, mas existem literalmente milhões de estantes e páginas de documentos sobre o Holocausto nos principais arquivos do mundo. Boa parte desse material jamais foi pesquisado, muitos não estavam disponíveis e alguns se baseiam em cronologias falsas ou parecem tratar apenas de detalhes de negócios.

Além da obscuridade dos documentos, tal investigação exigia conhecimentos específicos sobre a história do Holocausto antes e depois do começo da guerra, sobre a história da mecanização da Revolução Pós-Industrial, sobre a história da tecnologia e, mais especificamente, sobre o arcaico sistema de cartões perfurados.

Tive a felicidade de dispor de bons conhecimentos sobre economia do Reich e sobre comércio multinacional, em razão de meu livro anterior, The Transfer Agreement, além de antecedentes na indústria de computadores e anos de experiência como jornalista investigador, especializado em má conduta corporativa. Dediquei-me a este projeto como caso típico, embora grandioso, de comportamento empresarial, com uma grande diferença: a conduta em questão afetou a vida e a morte de milhões de pessoas.

A constituição de meu grupo de revisores especializados, antes da publicação, também foi em si um processo difícil. Procurava não apenas importantes historiadores do holocausto, mas também especialistas em nichos mais restritos, como França de Vichy, Romênia, recenseamento e perseguição.

A mudança de perspectiva talvez tenha sido a principal razão pela qual as relações entre a IBM e o Holocausto jamais foram exploradas. Quando escrevi The Transfer Agreement, em 1984, ninguém queria concentrar-se em ativos. Hoje, todos falam em ativos. A formação da maioria dos acadêmicos dedicados ao Holocausto foi anterior à era do computador, e bem anterior à era da Informação. Atualmente, todos compreendem a maneira como a tecnologia pode ser utilizada em assuntos de guerra e paz. Agora, temos condições de retroceder e analisar a mesma documentação sob nova ótica.

Muitos de nós ficamos fascinados pela era da computação e pela era da informação. Sou uma dessas pessoas. Mas hoje estou dominado por uma nova percepção que, para mim, filho de sobreviventes do Holocausto, significa toda uma nova consciência. Chamo-a de Era da Compreensão, à medida que olhamos para trás e observamos a onda da tecnologia. A não ser que compreendamos como os nazistas adquiriram os nomes dos judeus, novas listas serão compostas, contra outras pessoas.

A história da IBM e o Holocausto é apenas o começo. Poderia ter escrito 20 livros com os documentos que descobri, um para cada país da Europa. Estimo que haja outros 100.000 documentos espalhados em porões e arquivos corporativos em todos os Estados Unidos e na Europa. Os arquivistas das empresas devem atentar para o seguinte: esses documentos estão relacionados com um crime e não devem ser transferidos, adulterados ou destruídos. É preciso que sejam remetidos para instituições arquivísticas apropriadas, capazes de colocá-los imediatamente à disposição de acadêmicos e de promotores em crimes de guerra, de modo a assegurar a continuidade do processo de responsabilização.

Apenas mediante a exposição e análise do que realmente ocorreu, o mundo da tecnologia finalmente terá condições de professar o mote bem conhecido: Nunca Mais.

Edwin Black
Washington DC
Outubro de 2000.





Voltar
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio