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Hell,
de Lolita Pille (tradução de Julio Bandeira; Intrínseca;
206 páginas; 34 reais) A francesa Lolita Pille estreou
na literatura com apenas 19 anos e já produziu barulho.
Hell, seu primeiro romance, satiriza de forma corrosiva a
juventude parisiense de classe alta, meio ao qual a própria
autora pertence. Hell, a protagonista do livro, é uma figura
tão atraente quanto repulsiva, que se vangloria de seu jeito
fútil de ser. Ela gasta seu tempo comprando roupas de grife,
faz sexo promíscuo e usa drogas como quem bebe água.
Ao descrever os excessos desse universo, Lolita desagradou às
altas-rodas de Paris: por causa de suas indiscrições,
acabou sendo barrada em certos círculos.
Leia
trecho do livro
Capítulo
1
Eu sou o símbolo manifesto da persistência do
esquema marxista, a encarnação dos privilégios,
sou os eflúvios inebriantes do Capitalismo.
Como
digna herdeira de gerações de mulheres da sociedade,
eu passo mais tempo na boa vida cobrindo de esmalte as minhas unhas,
folgada tomando banho de sol, ou com a bunda sentada numa poltrona
com a cabeça entregue às mãos de Alexandre
Zouari, ou olhando vitrines na rue du Faubourg-Saint-Honoré,
enquanto vocês passam o tempo todo trabalhando para pagar
as porcariazinhas de que precisam.
Eu
sou o mais puro produto da geração Think Pink, meu
credo: seja bela e consumista.
Mergulhada
na loucura policefálica das tentações ostentatórias,
eu sou a musa da deusa Aparência, no altar da qual eu imolo
alegremente todo mês o equivalente ao que você recebe
como salário.
Um
dia, eu vou detonar o meu visual.
Eu
sou francesa e parisiense e estou me lixando pro resto, eu pertenço
a uma única comunidade, a mui cosmopolita e controversa tribo
Gucci Prada - a grife é meu distintivo.
Sou
um pouquinho caricatural. Confessa que você me acha uma completa
babacona com meu visual Gucci, o sorriso branco de louça
de banheiro e os cílios de borboleta.
Mas
é engano seu me subestimar, estas são armas ameaçadoras,
é graças a elas que eu vou descolar mais tarde um
marido que seja pelo menos tão rico quanto papai, condição
sine qua non da razão desta minha existência tão
deliciosa e exclusivamente fútil.
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