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Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie (tradução de Donaldson M. Garschagen; Companhia das Letras; 608 páginas; 64 reais) – Segundo livro do escritor anglo-indiano, essa foi a obra que o consagrou, antes da indesejável fama conquistada quando o aiatolá Khomeini condenou o autor à morte por Os Versos Satânicos. Prêmio Booker de 1981, o romance narra a história de Salim Sinai, indiano que nasce à meia-noite de 15 de agosto de 1947, data da independência de seu país. A nova edição traz um prefácio recente do escritor, no qual ele rememora o período de criação da obra. Rushdie também lembra o processo que a então primeira-ministra indiana Indira Gandhi moveu contra ele em 1984, por causa de uma única frase do livro – a insinuação de que o filho dela tinha influência demais no governo.

Leia trecho

O lençol furado

Nasci na cidade de Bombaim... há muito tempo. Não, assim não vai funcionar, não há como fugir da data: nasci na Casa de Saúde do dr. Narlikar em 15 de agosto de 1947. A hora? A hora também é importante. Então, vamos lá: à noite. Não, é importante ser mais... Para dizer a verdade, quando o relógio batia meia-noite. Os ponteiros se juntaram, numa saudação respeitosa, no instante em que nasci. Ora, seja claro, seja claro: no momento exato em que a Índia chegou à independência, eu surgi no mundo. Houve arquejos. E, do lado de fora da janela, fogos de artifício e multidões. Segundos depois, papai quebrou o dedão do pé; no entanto, seu acidente não passou de uma ninharia em comparação com o que me acontecia naquele momento envolto em escuridão, uma vez que, graças às ocultas tiranias daqueles relógios em lisonjeira saudação, eu havia sido misteriosamente algemado à história, meu destino indissoluvelmente acorrentado ao de meu país. Durante as três décadas seguintes, não haveria escapatória. Adivinhos me tinham profetizado; jornais, comemorado minha chegada; políticos, ratificado minha autenticidade. Não me coube dizer uma única palavra a respeito. Eu, Salim Sinai, que mais tarde viria a ser chamado por vários nomes - Catarrento, Cara-suja, Careca, Farejador, Buda e até Pedaço-de-lua -, enredara-me profundamente no Destino - um envolvimento que, mesmo na melhor das épocas, é sempre perigoso. E num tempo em que eu nem sabia limpar meu próprio nariz.

Hoje, porém, o tempo (que já não tem serventia para mim) está se esgotando. Logo farei trinta e um anos. Talvez. Se meu corpo em pedaços e desgastado permitir. Mas não tenho nenhuma esperança de salvar minha vida nem de dispor de mil e uma noites. Preciso trabalhar depressa, mais depressa do que Sherazade, se é que pretendo acabar contando alguma coisa que faça sentido - isso mesmo, sentido. Admito: acima de tudo, tenho medo do absurdo.

E são tantas as histórias para contar, tantas, até demais, um excesso de vidas, acontecimentos, milagres, lugares e boatos entrelaçados, uma mistura tão densa do improvável e do mundano! Tenho sido um engolidor de vidas; e para conhecer a mim, somente a mim, vocês terão de engolir todas elas também. Dentro de mim se entrechocam e se acotovelam multidões consumidas. E guiado apenas pela lembrança de um enorme lençol branco, que tinha no meio um buraco quase circular, com mais ou menos dezessete centímetros de diâmetro, agarrando-me ao sonho daquele pedaço de pano perfurado e mutilado, que é meu talismã, meu abre-te-sésamo, devo principiar o trabalho de refazer minha vida a partir do ponto em que ela realmente começou, cerca de trinta e dois anos antes de algo tão óbvio, tão presente, quanto meu nascimento, marcado por relógios, manchado por um crime.

(O lençol, aliás, também está manchado, com três gotas de sangue de um vermelho desbotado. Como nos conclama o Corão: Recita, em nome do Senhor, teu Criador, que criou o Homem de coágulos de sangue.)

 

Numa manhã em Caxemira, no começo da primavera de 1915, meu avô Aadam Aziz bateu com o nariz num montículo de terra endurecida pela neve enquanto tentava rezar. Três gotas de sangue saltaram de sua narina esquerda, endureceram instantaneamente no ar gelado e caíram, diante de seus olhos, transformadas em rubis, sobre o tapete de oração. Jogando o corpo para trás, até ficar com a cabeça novamente ereta, ele percebeu que as lágrimas que lhe haviam surgido nos olhos também tinham se solidificado; e naquele momento, enquanto desdenhosamente afastava diamantes dos cílios, ele decidiu que nunca mais voltaria a beijar a terra por nenhum deus ou homem. Essa resolução, entretanto, criou um buraco dentro dele, um vazio numa câmara vital interna, deixando-o vulnerável às mulheres e à história. Sem perceber isso de início, apesar de ter acabado de completar sua formação médica, ele se levantou, enrolou o tapete de oração na forma de um grosso charuto e, segurando-o sob o braço direito, contemplou o vale com olhos claros e livres de diamantes.

O mundo se renovava outra vez. Depois de uma gestação de inverno no seu ovo de gelo, o vale havia aberto caminho a bicadas, úmido e amarelo. Debaixo da terra, o novo capim aguardou seu tempo; as montanhas começavam a voltar às colinas, para a estação quente. (No inverno, quando o vale se encolhia sob o gelo, as montanhas se aproximavam e mostravam os dentes como mandíbulas coléricas em torno da cidade à beira do lago.)

Naqueles tempos a antena de rádio ainda não tinha sido construída, e o templo de Sankara Acharya, uma pequenina bolha negra num monte cáqui, dominava as ruas e o lago de Srinagar. Naqueles tempos não havia nenhum acampamento militar à margem do lago, nem intermináveis serpentes de caminhões e jipes camuflados a obstruir as estreitas estradas das montanhas, nem soldados se escondendo atrás das cristas dos montes depois de Baramulla e Gulmarg. Naqueles tempos, viajantes não eram fuzilados como espiões se tirassem fotografias de pontes, e com exceção das casas flutuantes dos ingleses no lago, o vale praticamente não mudara desde o império mogol, apesar de sua perpétua renovação na primavera; no entanto, os olhos de meu avô - que tinham, como ele todo, vinte e cinco anos - viam as coisas de maneira diferente... e seu nariz começara a coçar.

Revelemos o segredo da visão alterada de meu avô: ele havia passado cinco anos, cinco primaveras, longe de casa. (Apesar de sua presença essencial, o montículo de terra, oculto sob uma ruga fortuita do tapete de oração, no fundo não fora mais que um catalisador.) Agora, ao regressar, ele enxergava com olhos viajados. Em vez da beleza do minúsculo vale circundado por dentes gigantescos, observou a estreiteza, a proximidade do horizonte; e se sentiu triste por estar em casa e sentir-se tão completamente aprisionado. Sentiu também - inexplicavelmente - como se o velho lugar lamentasse a sua instruída e estetoscópica volta. Sob o gelo do inverno, o vale tinha sido de uma frieza neutra, mas agora não restava dúvida; os anos passados na Alemanha haviam-no devolvido a um ambiente hostil. Muitos anos depois, quando o buraco dentro dele já se entupira de ódio, e ele fora sacrificar a si mesmo no santuário do deus de pedra negra no templo da colina, tentaria recordar as primaveras de sua meninice no Paraíso, da maneira como ele era antes que as viagens, os montículos de terra e os tanques do Exército tivessem estragado tudo.

Na manhã em que o vale, enluvado num tapete de oração, o esmurrara no nariz, ele estivera tentando, absurdamente, fingir que nada mudara. Por isso havia se levantado no frio cortante das quatro e quinze da manhã, lavara-se segundo os preceitos, vestira-se e colocara na cabeça o gorro de astracã do pai. Feito isso, levara o tapete de oração enrolado como um charuto para o pequeno jardim à beira do lago, em frente da casa velha e escura, e o desenrolara sobre o montículo que estava à sua espera. A terra parecia ilusoriamente macia sob seus pés, deixando-o ao mesmo tempo inseguro e descuidado. - "Em nome de Deus, Clemente, Misericordioso..." - o exórdio, pronunciado com as mãos postas diante de si, como um livro, consolava uma parte dele e fazia outra parte, maior, sentir-se inquieta - "... Louvado seja Alá, Senhor da Criação..." -, mas agora Heidelberg lhe invadia a mente; aqui estava Ingrid, por pouco tempo a sua Ingrid, com uma expressão de zombaria por causa daquela sua papagueação voltada para Meca; aqui, os amigos Oskar e Ilse Lubin, os anarquistas, escarnecendo de sua oração com suas antiideologias - "... Clemente, Misericordioso, Soberano do Dia do Juízo!..." -, Heidelberg, onde, juntamente com a medicina e a política, ele aprendeu que a Índia - como o rádio - havia sido "descoberta" pelos europeus; até mesmo Oskar encheu-se de admiração por Vasco da Gama, e fora isso que por fim separara Aadam Aziz de seus amigos, essa convicção que eles tinham de que ele era, de alguma maneira, uma invenção de seus antepassados europeus - "... Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda..." -, de modo que ali estava ele, apesar da presença dos amigos na sua cabeça, tentando voltar a se unir com um antigo eu que lhes ignorava a influência, mas sabia tudo que devia saber - por exemplo, a respeito de submissão, a respeito do que estava fazendo agora -, enquanto suas mãos, guiadas por velhas lembranças, adejavam para o alto, os polegares comprimidos nos ouvidos, os dedos bem abertos, enquanto ele se punha de joelhos - "... Guia-nos à senda reta, À senda dos que agraciaste..." Mas não adiantava, ele estava preso num meio-termo estranho, apanhado entre a fé e a incredulidade, e afinal de contas isso era apenas uma charada - "... Não à dos abominados nem à dos extraviados." Meu avô baixou a testa em direção à terra. Curvou-se para a frente, e a terra, coberta pelo tapete de oração, curvou-se na direção dele. E então foi a vez do montículo. Ao mesmo tempo uma censura de Ilse-Oskar-Ingrid-Heidelberg, tanto quanto do vale e de Deus, a terra golpeou-o na ponta do nariz. Três gotas caíram. Surgiram rubis e diamantes. E meu avô, pondo-se de pé num salto, tomou um decisão. Ergueu-se. Charuto enrolado. Contemplou o lago. E foi atirado para sempre àquele lugar intermediário, tornando-se incapaz de adorar um Deus de cuja existência não conseguia descrer inteiramente. Alteração permanente: um buraco.

O jovem e recém-diplomado dr. Aadam Aziz estava de pé, olhando o lago primaveril, farejando as exalações da mudança; enquanto suas costas (que eram extremamente eretas) estavam voltadas para ainda outras mudanças. Durante sua ausência no exterior, o pai sofrera um ataque, e a mãe guardara segredo. A voz da mãe, sussurrando estoicamente: - ... Porque seus estudos eram importantes demais, meu filho. - Essa mãe, que havia passado a vida presa em casa, de purdah, de repente encontrara uma força enorme e tinha saído à rua, a fim de levar avante o pequeno negócio de pedras preciosas (turquesas, rubis, diamantes) que sustentara Aadam na escola de medicina, com ajuda de uma bolsa; por isso, ao voltar, ele encontrara a ordem aparentemente imutável de sua família virada de cabeça para baixo, com a mãe saindo para trabalhar enquanto o pai ficava sentado, oculto atrás do véu que o derrame lançara sobre seu cérebro... Ele ficava sentado num quarto escurecido, numa cadeira de madeira, imitando o barulho de pássaros. Trinta espécies diferentes de pássaros o visitavam e pousavam no peitoril de sua janela fechada, conversando sobre isso e aquilo. Ele parecia bastante feliz.

(... E já a esta altura vejo as repetições começando. Porventura também minha avó não encontrou enormes... nem o derrame foi, também, a única... e a Macaca de Cobre tinha seus pássaros... já começa a maldição, e nem chegamos sequer aos narizes!)

O lago não estava mais congelado. O degelo tinha acontecido depressa, como de costume; muitos dos pequenos barcos, as shikaras, haviam sido apanhados cochilando, o que também era normal. Mas enquanto esses mandriões continuavam a dormir, em terra seca, roncando tranqüilamente ao lado de seus donos, o barco mais antigo madrugava, como em geral fazem as pessoas idosas, e por conseguinte foi a primeira embarcação a atravessar o lago descongelado. A shikara de Tai... também isso era habitual.

Vejam como o velho barqueiro, Tai, corre célere pela água brumosa, curvado, de pé na popa de sua embarcação! Como seu remo - um coração de madeira preso num pau amarelo - se movimenta aos arrancos entre as plantas aquáticas! Naquelas bandas ele é considerado muito estranho por remar de pé... entre outros motivos. Tai, vindo com um chamado urgente para o dr. Aziz, está prestes a fazer girar a roda da história... enquanto Aadam, baixando o olhar para a água, recorda o que Tai lhe ensinou muitos anos antes: "O gelo está sempre à espera, Aadam baba, logo abaixo da flor d’água". Os olhos de Aadam são de um azul-claro, o assombroso azul da montanha, que costuma gotejar nas pupilas dos homens de Caxemira; eles não haviam se esquecido como se olha. Eles vêem - ali! como se fosse o esqueleto de um fantasma, logo abaixo da superfície do lago Dal! - o rendilhado delicado, o complexo entrecruzado de linhas sem cor, as veias frias e expectantes do futuro. Seus anos na Alemanha, que embotaram tantas outras coisas, não o privaram do dom da visão. O dom de Tai. Ele ergue o olhar, avista o V do barco de Tai que se aproxima, acena. O braço de Tai se levanta... mas isso é uma ordem. "Espere!" Meu avô espera; e durante esse hiato, enquanto ele experimenta a última paz de sua vida, uma espécie turva e pressaga de paz, convém que eu enfim passe a descrevê-lo.

Deixando de lado a inveja natural do homem feio pelo notavelmente bem-apessoado, eu me lembro de que dr. Aziz era um homem alto. Encostado a uma parede da casa de sua família, ele media vinte e cinco tijolos (um tijolo para cada ano de existência), ou um metro e oitenta e oito. Além disso, era um homem robusto. A barba, densa e vermelha, incomodava sua mãe, que dizia que apenas os hadjis, homens que realizaram a peregrinação a Meca, tinham direito de usar barba vermelha. Seus cabelos, no entanto, eram bem mais escuros. De seus olhos cor do céu, já falei. Ingrid dissera: "Quando fizeram seu rosto, enlouqueceram com as cores". Entretanto, o traço principal da anatomia de meu avô não era nem a cor nem a altura, nem a força do braço ou o aprumo das costas. Ali estava aquele apêndice, ondulando como uma louca banana-da-terra no meio de seu rosto... Aadam Aziz, esperando Tai, contempla seu nariz na água agitada. Tal nariz teria, facilmente, dominado rostos menos impressionantes que o seu; mesmo no dele, é a primeira coisa que se vê, e a que mais deixa recordações. "Um ciranaso", dizia Ilse, ao que Oskar acrescentava: "Uma proboscidíssima...". E Ingrid proclamava: "Você poderia atravessar um rio nesse nariz". (A ponte do nariz era extensa.)

O nariz de meu avô: narinas bem abertas, curvilíneas, como bailarinas. Entre elas projeta-se o arco triunfal do nariz, primeiro para cima e para fora, depois para baixo e para trás, lançando-se na direção do lábio superior com um volteio soberbo e, daí a pouco, puntirrubro. Um excelente nariz para bater num montículo de terra. Eu gostaria de deixar aqui registrada minha gratidão a esse formidável órgão - não fosse ele, quem acreditaria que eu realmente fosse filho de minha mãe, neto de meu avô? -, esse apêndice colossal que também seria minha herança. O nariz do dr. Aziz - só comparável à tromba do deus Ganesh, o de cabeça de elefante - anunciava de modo incontroverso seu direito a ser um patriarca. Foi Tai quem também lhe ensinou isso. Quando o jovem Aadam mal passara da puberdade, o arruinado barqueiro disse: "Esse é um nariz para dar início a uma família, principezinho. Não haverá engano quanto ao fundador da linhagem. Os imperadores mogóis teriam dado a mão direita por um nariz assim. Dentro dele dinastias estão à espera - e nesse ponto Tai descambou para a grosseria -, como catarro.

Em Aadam Aziz, o nariz assumia um aspecto patriarcal. Em minha mãe, parecia nobre e um tantinho sofredor. Em minha tia Esmeralda, esnobe; em minha tia Alia, intelectual; em meu tio Hanif, era o órgão de um gênio frustrado; meu tio Mustafá tornou-o o cheirador de um fracassado; a Macaca de Cobre escapou dele inteiramente; em mim, entretanto... em mim, passou a ser outra coisa. Mas não devo revelar de uma vez todos os meus segredos.

(Tai se aproxima. Ele, que revelou o poder do nariz, e que agora leva a meu avô a mensagem que há de catapultá-lo a seu futuro, está empurrando a shikara pelo lago, de manhãzinha...)

Ninguém se lembrava de quando Tai fora jovem. Ele vinha conduzindo esse mesmo barco, em pé e na mesma posição recurvada, atravessando os lagos Dal e Nagin... desde sempre. Desde que todos se conheciam por gente. Morava em algum lugar das entranhas insalubres do velho bairro de casas de madeira, e sua mulher cultivava raízes de lótus e outras plantas curiosas em um dos muitos "jardins flutuantes" que na primavera e no verão boiavam na água. O próprio Tai admitia jovialmente que não fazia idéia de sua idade. Nem sua mulher. Segundo ela, Tai já tinha a pele curtida quando se casaram. Seu rosto era uma escultura de vento na água: ondulações feitas de couro. Possuía dois dentes de ouro na boca, e só. Na cidade, tinha poucos amigos. Poucos barqueiros ou comerciantes convidavam-no para um hookah quando ele passava defronte ao cais das shikaras ou por um dos muitos armazéns e casas de chá decrépitos à beira dos lagos.

A opinião geral a respeito de Tai havia sido expressa muito tempo antes pelo pai de Aadam Aziz, o comerciante de pedras preciosas: "O cérebro dele desapareceu junto com os dentes". (Agora, porém, era o velho Aziz sahib quem ficava sentado, perdido em gorjeios de pássaros, enquanto Tai, com simplicidade e grandeza, prosseguia.) Essa era uma impressão que o barqueiro fomentava com suas conversas fantásticas, grandiloqüentes e incessantes, quase sempre dirigidas apenas a si próprio. A água conduz bem o som, e no lago as pessoas riam de seus monólogos, mas com certa admiração, e até mesmo com medo. Admiração porque o velho amalucado conhecia os lagos e os montes melhor do que qualquer um de seus detratores; medo por causa de sua pretensão a uma antiguidade tão imensa que desafiava cálculos e que, além do mais, pendia com tal leveza em torno de seu pescoço de frango que não o impediu de arranjar uma mulher bastante desejável e de lhe ter feito quatro filhos... e mais alguns, segundo se dizia, em outras esposas que moravam à beira do lago. Os rapazes que ficavam no cais das shikaras estavam convictos de que ele possuía um monte de dinheiro escondido em algum lugar - um tesouro, quem sabe, de preciosíssimos dentes de ouro, chacoalhando como nozes num saco. Anos depois, quando o tio Puffs tentou me vender a filha, propondo extrair os dentes dela e substituí-los por ouro, lembrei-me do tesouro esquecido de Tai... e do quanto Aadam Aziz amara o barqueiro quando criança.

A despeito de todos os boatos de riqueza,Tai ganhava a vida como simples barqueiro, transportando pelos lagos, em troca de pagamento, feno, cabritos e hortaliças; e também passageiros. Quando fazia seu serviço de táxi, erguia um pavilhão no meio da shikara, uma coisa alegre, com cortinas e dossel com estamparias de flores e almofadas combinando; e perfumava o barco com incenso. A aproximação da shikara de Tai, com suas cortinas esvoaçantes, sempre fora para o dr. Aziz uma das imagens marcantes da chegada da primavera. Em breve viriam os sahibs ingleses, e Tai os conduziria aos Jardins de Shalimar e à Fonte do Rei, sempre tagarela, mordaz e recurvado. Era a antítese viva da crença de Oskar-Ilse-Ingrid na inevitabilidade da mudança... um excêntrico e antiqüíssimo espírito do vale. Um Calibã das águas, um tanto amigo demais da aguardente barata de Caxemira.

Lembrança da parede azul de meu quarto, na qual, ao lado da carta do primeiro-ministro, durante muitos anos ficou pendurado o Menino Raleigh, fitando, extasiado, um velho pescador, que vestia o que parecia ser um dhoti vermelho, sentado em - o quê? - uma madeira levada pela correnteza? - e que apontava para o mar enquanto contava suas histórias fantásticas... e o Menino Aadam, que viria a ser meu avô, caiu de amores pelo barqueiro Tai precisamente por causa do palavreado interminável que levava os outros a considerá-lo um maluco. Era uma falsa mágica, palavras que fluíam dele como dinheiro da mão dos tolos, passando por seus dois dentes de ouro, temperadas com soluços e aguardente, alçando-se às mais remotas cordilheiras do Himalaia e depois descendo astutamente para algum pormenor do presente, ao nariz de Aadam, por exemplo, para esmiuçá-lo como se fizesse a vivissecção de um camundongo. Essa afeição fizera com que a mãe de Aadam o escaldasse com grande regularidade. (Água fervente. Literalmente. A mãe lhe dizia: "Vamos matar os piolhos desse barqueiro, nem que isto mate você".) Mesmo assim, o velho soliloquista seguia tagarelando em seu barco, às margens do lago, e Aziz ficava sentado a seus pés até que vozes o chamassem de casa para que ele ouvisse um sermão a respeito da imundície de Tai e para que fosse advertido sobre as legiões pilhadoras de germes que sua mãe via saltando daquele velho corpo hospitaleiro para os largos pijamas brancos e engomados do filho. No entanto, Aadam sempre voltava à beira do lago, a fim de procurar entre as névoas o vulto recurvado e andrajoso do réprobo, conduzindo seu barco mágico pelas águas encantadas da manhã.

- Mas, Taiji, quantos anos você tem de verdade? - (Agora adulto, de barba ruiva, já inclinado para o futuro, o dr. Aziz recorda o dia em que fez a pergunta que não podia ser feita.) Por um instante o silêncio, mais barulhento que uma catarata. Interrupção do monólogo. Barulho do remo na água. Ele seguia na shikara com Tai, acocorado entre cabritos, sobre um monte de palha, com plena consciência da vara e da banheira de água fervente que o esperavam em casa. Viera em busca de histórias... e com uma única pergunta fizera calar o contador de histórias.

- Não, Taiji, diga! Qual é a sua idade realmente? - E agora uma garrafa de aguardente, que surgia do nada; bebida barata que aparecia dentre as dobras do enorme e quente chugha. Depois um estremecimento, um arroto, um olhar. Brilho de ouro. E... finalmente... a voz.

- Minha idade? Você pergunta a minha idade, seu bestinha, seu narigudo... - Tai, prenunciando o pescador em minha parede, apontou para as montanhas. - A idade delas, nakku! - Aadam, o nakku, o narigudo, acompanhou o dedo que apontava. - Eu vi as montanhas nascerem. Vi imperadores morrerem. Escute. Escute, nakku... - Outra vez a garrafa de aguardente, seguida por uma voz etílica e por palavras mais inebriantes que o álcool. - Eu vi aquele Isa, aquele Cristo, quando ele veio a Caxemira. Pode sorrir, é a sua história que estou guardando na cabeça. Antigamente ela estava gravada em velhos livros perdidos. Antigamente eu sabia onde ficava um túmulo com pés perfurados, que sangravam uma vez por ano, talhados na lápide. Até minha memória está me deixando. Mas conheço as coisas, embora não saiba ler. - O analfabetismo era lançado às favas com um gesto; a literatura destroçava-se debaixo da energia de sua mão rápida. A mesma mão que corre de novo ao bolso do chugha, à garrafa de aguardente, aos lábios rachados pelo frio. Tai sempre teve lábios de mulher. - Nakku, escute, escute. Já vi muita coisa. Yara, devia ter visto aquele Isa quando ele veio, com a barba até o umbigo, careca como um ovo. Estava velho e acabado, mas tinha boas maneiras. "Você primeiro, Taiji", dizia ele, ou "Sente-se, por favor". Sempre uma palavra respeitosa, nunca me chamava de cabeça-de-vento, sempre se dirigia a mim como aap. Educado, não? E que apetite! Tinha tanta fome que eu tapava os olhos, assustado. Santo ou demônio, juro que ele era capaz de comer um bezerro de uma vez só. E daí? Eu lhe dizia: come, enche a barriga, o que um homem vem fazer em Caxemira é gozar a vida, acabar com ela, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Sua obra estava terminada. Ele só veio para cá a fim de viver um pouco. - Magnetizado por esse ébrio retrato de um Cristo careca e glutão, Aziz ouvia, repetindo mais tarde cada uma das palavras, para consternação de seus pais, que comercializavam pedras e não tinham tempo para conversa fiada.

- Ah, não acredita? - Lambendo os lábios com um sorriso de mofa, sabendo que a verdadeira impressão do rapaz era a oposta. - Está perdendo a atenção? - mas ele sabia com que fúria Aziz se pendurava em suas palavras. - Talvez a palha esteja machucando sua bunda, não é? Ah, sinto muito, babaji, desculpe eu não ter providenciado almofadas de seda com brocados de ouro... almofadas como as que o imperador Jehangir usava! Sem dúvida, você pensa que o imperador Jehangir foi um simples jardineiro - Tai repreendia meu avô - porque ele construiu Shalimar! Bobo! O nome dele significava Soberano do Mundo. Por acaso isso é nome de jardineiro? Só Deus sabe o que estão ensinando a vocês, meninos, hoje em dia. Enquanto isso, eu... - e aqui ele arquejava um pouco - ... eu sabia o peso dele com exatidão! Pergunte-me quantos adivinhos, quantos videntes! Quando ele estava feliz, ficava mais pesado, e era em Caxemira que o peso dele chegava ao máximo. Eu costumava carregar sua liteira... Não, não, veja só, de novo você não está acreditando, esse pepinão na sua cara está se mexendo como o pepininho aí no seu pijama! Então, vamos, faça perguntas! Faça um interrogatório! Pergunte quantas vezes as tiras de couro se enrolavam em torno dos varais da liteira... A resposta é trinta e uma. Pergunte qual foi a última palavra do imperador ao morrer... e eu lhe digo que foi "Caxemira". Ele tinha mau hálito e bom coração. O que pensa que eu sou? Algum cachorro vadio ignorante? Agora, saia deste barco, já, seu nariz faz com que ele fique muito pesado para remar. Além disso, seu pai está à sua espera para lhe dar uma surra por tudo o que eu disse, e sua mãe para escaldar sua pele.

Na garrafa de aguardente do barqueiro Tai eu vejo a profecia de meu próprio pai possuído por espíritos... e haverá outro estrangeiro calvo... e a tagarelice de Tai profetiza um outro tipo de mentira, que foi o consolo da velhice de minha avó e que também lhe ensinou histórias... e os cachorros vadios não estão muito longe... Basta. Estou assustando a mim mesmo.

Apesar das surras e da água escaldante, vira e mexe Aadam Aziz ia navegar com Tai em sua shikara, entre cabritos, feno, flores, móveis e raízes de lótus, ainda que nunca com os sahibs ingleses, e ouvia repetidamente as respostas miraculosas àquela pergunta aterradora: "Mas, Taiji, quantos anos você tem, de verdade?".

Com Tai, Aadam aprendeu os segredos do lago - onde era possível nadar sem ficar preso nas plantas; as onze variedades de cobras-d’água; onde os sapos se acasalavam; como se cozinhava uma raiz de lótus; e onde as três mulheres inglesas haviam morrido afogadas poucos anos antes.

- Algumas mulheres de uma tribo feringhi vêm a estas águas para se afogar - dizia Tai. - Às vezes elas têm consciência disso, às vezes não, mas eu sei no momento em que sinto o cheiro delas. Elas se escondem debaixo d’água, só Deus sabe de que ou de quem... mas não conseguem se esconder de mim, baba! - O riso de Tai, que subia para contagiar Aadam - um riso imenso, altissonante, que parecia macabro quando saído daquele corpo velho e murcho, mas tão natural em meu gigantesco avô, que ninguém soube, tempos depois, que não era verdadeiramente dele (meu tio Hanif herdou esse riso; assim, até ele morrer, um pedaço de Tai viveu em Bombaim). Também de Tai, meu avô escutava histórias sobre narizes.

Tai deu um tapinha na narina esquerda de Aadam: - Sabe o que é isto, nakku? É o lugar onde o mundo de fora se encontra com o mundo que existe dentro da gente. Se eles não combinam, você sente aqui. Aí você, envergonhado, esfrega o nariz para fazer a coceira desaparecer. Um nariz como esse, seu idiotinha, é um grande dom. Ouça o que lhe digo: confie nele. Quando ele lhe der um aviso, preste atenção, ou você estará liquidado. Siga seu nariz e você há de ir longe. - Tai limpou a garganta; seus olhos se voltaram para as montanhas do passado. Aziz recostou-se na palha. - Certa vez conheci um oficial... no exército daquele Iskandar, o Grande. Não importa o nome dele. Ele tinha um pepino igual a esse seu, pendurado entre os olhos. Quando o Exército acampou perto de Gandhara, ele se apaixonou por uma sirigaita do lugar. Imediatamente, o nariz dele começou a coçar como doido. Ele coçava, mas não adiantava nada. Ele inalou os vapores de uma infusão de folhas de eucalipto. Nada, nada, baba! A coceira o deixava louco. Mas o bestalhão bateu pé e, quando o exército voltou para casa, lá ficou com a sua bruxinha. Ele se transformou... em quê?... numa coisa estúpida, nem isso nem aquilo, uma pessoa perdida no meio-termo, com uma mulher enjoada e uma coceira no nariz, até que por fim enfiou a espada na barriga. O que você acha disso?

... O dr. Aziz, em 1915, o dr. Aziz a quem rubis e diamantes transformaram num homem sem pátria certa, lembra-se dessa história enquanto Tai se aproxima. Seu nariz ainda coça. Ele esfrega, dá de ombros, sacode a cabeça; e então ouve o grito de Tai.

- Ohé! Doutor sahib! A filha do fazendeiro Ghani está doente.

A mensagem, passada laconicamente, gritada sem cerimônia pela superfície do lago, embora barqueiro e pupilo não se encontrem há meia década, pronunciada por lábios femininos que não sorriem num cumprimento do tipo "Há quanto tempo não nos vemos", dispara o tempo numa revoada de excitação, veloz, turbilhonante, borrada...

... - Imagine só, meu filho - está dizendo a mãe de Aadam, enquanto toma um refresco de lima, reclinando-se num takht, numa atitude de resignada exaustão -, como é a vida. Durante tantos anos até meus tornozelos foram um segredo, e agora tenho de ser examinada por estranhos que nem são da família.

... O fazendeiro Ghani está parado diante de um enorme quadro a óleo de Diana, a Caçadora, com uma moldura dourada e descascada. Usa grossos óculos escuros e seu célebre sorriso venenoso, e discute arte.

- Comprei esse quadro de um inglês meio arruinado, doutor sahib. Foram só quinhentas rupias... e nem me preocupei em regatear. O que são quinhentas rupias? Sabe, sou um admirador da arte.

... - Veja, meu filho - diz a mãe de Aadam, enquanto ele começa a examiná-la -, o que as mães não fazem pelos filhos. Veja como eu sofro. Você é médico... veja essas feridas, essas partes inchadas, acredite que minha cabeça dói dia e noite. Filho, encha meu copo de novo.

... Entretanto, o jovem médico, ao escutar o brado do barqueiro, foi tomado de uma emoção muito pouco hipocrática e gritou:

- Já estou indo! Só vou pegar minhas coisas!

A proa da shikara toca a margem do jardim. Aadam corre para dentro de casa, o tapete de oração enrolado como um charuto debaixo do braço, os olhos azuis luzindo na repentina escuridão do interior; colocou o charuto numa prateleira alta, em cima de exemplares empilhados de Vorwarts e de Que fazer?, de Lênin, e de outros panfletos, ecos empoeirados de sua já desbotada vida na Alemanha; está puxando, de debaixo da cama, uma maleta de couro de segunda mão, que a mãe chamava de sua "valise de doutor", e no momento em que a impele, e a si próprio, para cima, ao sair do quarto, a palavra HEIDELBERG aparece, rapidamente, gravada a fogo no couro do fundo da maleta. Com efeito, a filha de um fazendeiro representa boas notícias para um médico com a carreira por fazer, mesmo se ela estiver doente. Não: Porque ela está doente.

... Enquanto isso, estou sentado como um pote de picles vazio sob o frouxo cone de luz da minha luminária Anglepoise, visitado por essa visão de meu avô há sessenta e três anos, que exige ser registrada, enchendo minhas narinas com o fedor acre do embaraço da mãe dele, que a fez empolar-se toda, com a força vinagrenta da determinação de Aadam Aziz de obter tamanho sucesso na medicina, para que ela jamais tivesse de retornar à loja de pedras preciosas, com o ranço cego de um casarão ensombrecido no qual se encontra o jovem médico, pouco à vontade, diante de um quadro que representa uma moça simples de olhos vivos e atrás dela, no horizonte, um veado transfixado, atravessado por um dardo disparado do arco que ela tem nas mãos. A maior parte do que importa em nossa vida acontece em nossa ausência: mas é como se eu tivesse descoberto, em algum lugar, o truque pelo qual preencho as lacunas de meu conhecimento, de modo que está tudo na minha cabeça, até o último detalhe, até a maneira como a névoa parecia atravessar o ar da manhãzinha... tudo, e não somente as poucas pistas com que a gente se depara quando, por exemplo, abre um velho baú de lata que deveria ter permanecido coberto de teias de aranhas e fechado.

... Aadam volta a encher o copo da mãe e continua a examiná-la, preocupado. - Ponha um pouco de creme nessas erupções e pústulas, amma. Para a dor de cabeça, existem comprimidos. Os furúnculos têm de ser abertos. Mas, quem sabe, se a senhora usar um purdah quando fica sentada na loja... para que olhos desrespeitosos não... esses sintomas geralmente começam no espírito...

... Barulho de remo na água. Um chape de cuspe no lago. Tai pigarreia e resmunga, aborrecido: - Um belo negócio! Uma criança nariguda, ainda nos cueiros, vai embora antes de ter aprendido qualquer coisa, e volta como um grande dr. sahib, com uma maleta cheia de máquinas estrangeiras, e ainda continua bobo feito uma coruja. Juro: uma coisa muito feia!

... O dr. Aziz muda de posição, inquieto, de um pé para o outro, sob a influência do sorriso do fazendeiro, em cuja presença não é possível permanecer tranqüilo; e está à espera de uma reação mínima a seu próprio aspecto extraordinário. Já se habituou a essas crispações involuntárias de surpresa ante seu tamanho, seu rosto de muitas cores, seu nariz... mas Ghani não dá nenhum sinal, e o jovem médico, por sua vez, resolve não deixar transparecer seu constrangimento. Pára de mudar de posição. Encaram-se, cada qual reprimindo (ou assim parece) sua opinião sobre o outro, estabelecendo a base do futuro relacionamento entre eles. E agora Ghani muda, passando de amante das artes a sujeito durão:

- Esta é uma grande oportunidade para você, rapaz - diz. Os olhos de Aziz desviaram-se para Diana. Vêem-se enormes áreas danificadas em sua pele rósea.

... Sua mãe está gemendo, balançando a cabeça. - Não, você não sabe nada disso, meu filho. Tornou-se um médico importante, mas o negócio de pedras preciosas é diferente. Quem compraria uma turquesa de uma mulher escondida dentro de uma capa preta? É uma questão de estabelecer confiança. Vá, vá, não se preocupe com sua velha mãe.

... - Grande coisa! - Tai cospe no lago. - Maleta grande, um figurão. Bah! Por acaso já não temos maletas suficientes por aqui, para que o senhor me apareça com essa coisa feita de pele de porco, que deixa uma pessoa impura só de olhar para ela? Só Deus sabe o que tem aí dentro!

Sentado entre cortinas floridas e o cheiro de incenso, o dr. Aziz tem os pensamentos arrancados da paciente que o espera do outro lado do lago. O monólogo irritadiço de Tai irrompe em sua consciência, criando uma sensação de choque obtuso, um cheiro de pavilhão de feridos de guerra se sobrepõe ao do incenso... evidentemente o velho está furioso com alguma coisa, possuído de uma ira incompreensível que parece dirigida a seu acólito do passado ou, mais exata e estranhamente, à sua maleta. O dr. Aziz tenta falar de amenidades...

- Sua mulher está bem? Ainda falam sobre aquela sua sacola de dentes de ouro?... - tenta refazer uma velha amizade; no entanto, Tai agora está transtornado, uma torrente de invectivas derramando de dentro dele. A maleta trazida de Heidelberg estremece sob o jorro furioso.

- Maleta de porco fuçador do estrangeiro, cheia de truques de forasteiros. Maleta de figurão. Agora, se um homem quebrar o braço, essa maleta não vai deixar o consertador de ossos envolvê-lo com folhas. Agora um homem tem de deixar sua mulher se deitar ao lado dessa maleta e ver sair as facas que irão cortá-la. Um belo negócio, o que esses estrangeiros enfiam na cabeça dos nossos rapazes. Mas eu juro: é uma coisa muito feia. Essa maleta devia queimar no Inferno com os testículos dos ímpios.

... Ghani, o fazendeiro, puxa e solta os suspensórios com os polegares: - Uma grande oportunidade, realmente. Na cidade estão dizendo grandes coisas a seu respeito. Uma boa formação médica. Uma família... boa... bem boa. E agora que nossa própria doutora está doente, chegou a sua oportunidade. Essa mulher anda sempre adoentada, está velha demais, eu imagino, e um tanto desatualizada com os últimos avanços, ou sei lá o que mais. Eu sempre digo: médico, cura-te a ti mesmo. E lhe digo uma coisa: sou uma pessoa inteiramente objetiva nas minhas relações de negócios. Sentimentos, amor, guardo essas coisas só para a minha família. Se uma pessoa não faz um trabalho de primeira categoria para mim, rua! Entende o que eu digo? Então, vamos lá: minha filha Nasim não está bem. Você vai tratar dela de maneira primorosa. Lembre-se que tenho amigos; e a doença atinge tanto os grandes quanto os humildes.

... - Você ainda conserva cobras-d’água na aguardente para lhe dar virilidade, Taiji? Ainda gosta de comer raízes de lótus sem nenhum tempero? - Perguntas hesitantes, atropeladas pela torrente de fúria de Tai. O dr. Aziz começa a diagnosticar. Para o barqueiro, a maleta representa o estrangeiro; é a coisa que vem de fora, o invasor, o progresso. E, com efeito, ela tomou conta do espírito do jovem doutor; com efeito, ela contém bisturis, curas para o cólera, a malária e a varíola; e, com efeito, acha-se colocada entre o médico e o barqueiro, transformou-os em antagonistas. O dr. Aziz põe-se a lutar contra a tristeza e contra a raiva de Tai, e essa raiva já começa a contagiá-lo, a se tornar dele próprio, uma raiva que só raramente irrompe, mas que, quando acontece, vem sem anúncio, num rugido que emana de seus sítios mais recônditos, arrasando tudo à vista; e que depois desaparece, deixando-o a imaginar por que estão todos tomados de tanta indignação... Estão se aproximando da casa de Ghani. Um criado espera a shikara, de pé e com as mãos entrelaçadas, num pequeno atracadouro de madeira. Aziz concentra os pensamentos no trabalho que tem a fazer.

... - A médica de sua família concordou com minha visita, Ghani sahib? - Mais uma vez, uma pergunta hesitante é desconsiderada.

O fazendeiro responde: - Ah, ela vai concordar. Agora me acompanhe, por favor.

... O criado está esperando no atracadouro. Firma a shikara enquanto Aadam Aziz desce, com a maleta na mão. E agora, por fim, Tai fala diretamente com meu avô. Com desdém estampado no rosto, pergunta:

- Diga-me uma coisa, doutor sahib: o senhor por acaso tem nessa maleta feita de porcos mortos uma daquelas máquinas que os médicos estrangeiros usam para cheirar? - Aadam balança a cabeça, sem compreender. A voz de Tai recobre-se de novas camadas de repugnância: - O senhor sabe, uma coisa parecida com a tromba de um elefante. - Percebendo o que ele quer dizer, Aziz responde:

- Um estetoscópio? Claro. - Tai empurra a shikara para longe do atracadouro. Cospe. Começa a remar. - Eu sabia - diz. - Agora vai usar essa máquina, em vez de usar seu narigão.

Meu avô não se dá o trabalho de explicar que um estetoscópio está mais para um par de ouvidos do que para um nariz. Reprime sua própria irritação, a raiva ressentida de uma criança rejeitada; além disso, há uma paciente à espera. O tempo se acomoda e se concentra na importância do momento.

 

A casa era opulenta, porém mal iluminada. Ghani era viúvo, e os empregados evidentemente se aproveitavam disso. Havia teias de aranha nos cantos e camadas de poeira nos ressaltos. Seguiram por um longo corredor. Uma das portas estava entreaberta e por ela Aziz viu um cômodo em estado de violenta desordem. Esse vislumbre, ligado a uma cintilação de luz nos óculos escuros de Ghani, informou subitamente a Aziz que o dono da casa era cego. Isso agravou sua sensação de desconforto: um cego que se declarava apreciador da pintura européia? Além disso, ele estava admirado de Ghani não haver tropeçado em coisa alguma... Detiveram-se diante de uma grossa porta de teca. Ghani disse:

- Espere aqui um momento - e entrou no aposento.

Anos depois, o dr. Aadam Aziz juraria que durante aquele momento de solidão, nos sombrios corredores desmazelados da mansão do fazendeiro, foi invadido por um desejo quase incontrolável de dar meia-volta e fugir o mais depressa que suas pernas o conseguissem levar. Perturbado pelo enigma do cego amante da arte, tendo as entranhas cheias de pequeninos insetos rastejantes, resultado do veneno insidioso dos resmungos de Tai, com as narinas coçando a ponto de convencê-lo de que havia contraído uma doença venérea, ele sentiu os pés começarem a se virar lentamente, como se metidos em botas de chumbo; sentiu o sangue latejando nas têmporas; e foi tomado por uma tão poderosa sensação de estar se colocando num ponto sem volta, que quase molhou a calça de lã alemã. Sem perceber, começou a corar violentamente; e nesse ponto sua mãe apareceu diante dele, sentada no chão ao lado de uma mesinha baixa, com uma erupção se alastrando pelo rosto como um enrubescimento, enquanto erguia uma turquesa em direção à luz. O rosto da mãe havia adquirido todo o desprezo do barqueiro Tai: "Vá, vá, fuja", disse ela com a voz de Tai. "Não se preocupe com sua velha mãe." O dr. Aziz deu consigo próprio a tartamudear: "Que filho inútil eu sou, amma. Não vê que existe em mim um buraco do tamanho de um melão?". A mãe sorriu, triste. "Você sempre foi um menino sem coração", suspirou, e depois se transformou numa lagartixa na parede do corredor, mostrando-lhe a língua. O dr. Aziz parou de sentir vertigem, ficou em dúvida se havia ou não falado em voz alta, imaginou o que quis dizer com aquela história de buraco, descobriu que seus pés já não tentavam fugir e percebeu que estava sendo observado. Uma mulher com bíceps de lutador o encarava, sinalizando para que a seguisse ao interior do aposento. O estado de seu sári mostrava tratar-se de uma serviçal; mas não era servil.

- O senhor está verde que nem peixe - disse. - Esses médicos jovens! Chegam a uma casa estranha, e o fígado deles vira geléia. Venha, doutor sahib, estão à sua espera.

Apertando a alça da maleta com um pouquinho mais de força que o necessário, ele a seguiu pela porta escura de teca.

... O quarto de dormir era tão mal iluminado quanto o restante da casa, embora aqui e ali houvesse feixes de uma luz empoeirada que entravam por uma clarabóia no alto da parede. Esses raios sufocantes iluminavam uma das cenas mais extraordinárias que o médico jamais contemplara: uma situação de tão notável estranheza que seus pés mais uma vez começaram a se crispar em direção à porta. Duas outras mulheres, também com porte de lutadoras profissionais, estavam rigidamente de pé, cada qual segurando uma ponta de um enorme lençol branco, os braços levantados bem alto sobre a cabeça, de maneira que o lençol pendia entre elas como uma cortina. Ghani saiu da escuridão que circundava o tecido iluminado pelo sol e permitiu ao perplexo Aadam contemplar a estranha cena durante, talvez, meio minuto, tempo após o qual, e sem que uma palavra tivesse sido pronunciada, o doutor fez uma descoberta:

Bem no centro do lençol fora aberto um buraco, um círculo de mais ou menos quinze centímetros de diâmetro.

- Feche a porta - ordenou Ghani à primeira das lutadoras, e então, voltando-se para Aziz, adotou um tom confidencial: - Esta cidade está cheia de imprestáveis que em mais de uma ocasião tentaram subir ao quarto de minha filha. Ela precisa de - fez um gesto de cabeça na direção das três mulheres musculosas - protetoras.

Aziz ainda olhava para o lençol furado.

- Tudo bem, vamos lá - disse Ghani. - Agora pode examinar minha Nasim. Imediatamente.

Meu avô olhou em torno do quarto. - Mas onde está ela, Ghani sahib? - perguntou afinal. As lutadoras assumiram expressões altaneiras e, pareceu a ele, retesaram a musculatura, apenas para o caso de ele tentar alguma brincadeira.

- Ah, entendo sua confusão - disse Ghani, alargando o sorriso venenoso. - Vocês, rapazes que estudaram na Europa, esquecem-se de certas coisas. Doutor sahib, minha filha é moça recatada, nem preciso dizer. Ela não exibe o corpo debaixo do nariz de homens estranhos. O senhor compreenderá que não terá autorização para vê-la. Não, não, em hipótese alguma. Por isso, providenciei para que ela se colocasse atrás desse lençol. Ela está ali, como uma boa moça.

Um tom de angústia se insinuara na voz do dr. Aziz. - Ghani sahib, diga-me como posso examiná-la sem vê-la?

Ghani continuou a sorrir. - Você fará o favor de especificar qual parte de minha filha é preciso inspecionar. Então, eu darei a ela instruções para colocar a parte desejada junto do buraco que se vê ali. E assim o exame poderá ser realizado.

- Mas, diga-me, pelo menos, do que a senhorita se queixa? - perguntou meu avô, desesperançado. Ao que Ghani, os olhos virados para cima em suas órbitas, e o sorriso transformando-se num esgar de aflição, respondeu:

- Coitadinha! Ela está com uma terrível, horrenda, dor de estômago.

- Nesse caso - disse o dr. Aziz, com certa relutância -, peça-lhe, por favor, que me mostre o estômago.


 
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