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O Sapo e o Príncipe, de Paulo Markun (Objetiva; 374 páginas; 48,90 reais) – As biografias de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva não poderiam ser mais contrastantes. O primeiro é filho de uma família de classe média carioca na qual figuram generais e ministros. O segundo vem de uma família de retirantes nordestinos. Jornalista com vasta experiência na imprensa escrita e na televisão e atual apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura, Markun reconstitui a trajetória desses dois personagens até o momento em que FHC passa a Lula a faixa presidencial, em 2003. Entre outras revelações curiosas, o leitor fica sabendo que, já em 1989, o PT tinha o projeto de montar um comitê para controlar as atividades da imprensa.

Leia trecho

Urra o sapo-boi:

- Meu pai foi rei.

- Foi!

- Não foi.

- Foi.

- Não foi.

Do poema "Os Sapos", de Manuel Bandeira,
lido na Semana de Arte Moderna de 1922.

Fatos e Fábulas

Em outubro de 2002, pela vontade dos eleitores, Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se o primeiro brasileiro de origem realmente popular a chegar à Presidência da República. Sua vitória levou um partido de esquerda, que até pouco antes apontava o socialismo como objetivo, a controlar a máquina administrativa federal. Marcante por si só, o fenômeno ganhou mais relevância por resultar da decisão livre e soberana da maioria da população, que Fernando Henrique Cardoso soube culminar com uma transição impecável, sem traumas ou sobressaltos.

Depois de quatro décadas de mandatos interrompidos e presidentes sem voto, tal evento já seria merecedor de registro, análise e interpretação. Até para identificar o papel que o marketing político desempenhou nessa virada.

Baseado em informações obtidas junto a fontes identificáveis e supostamente confiáveis, como entrevistas e depoimentos dos protagonistas, feitas pelo próprio autor ou por outros profissionais, bem como documentos, artigos e reportagens, este livro pretende ser apenas um primeiro olhar sobre tal episódio. Uma obra que se destina ao público em geral, não a especialistas ou aficionados da política.

O autor agradece aos que deram entrevistas e depoimentos exclusivos, a saber, Airton Soares, Aluísio Mercadante, Almir Pazzianoto, Antonio Carlos Félix Nunes, Chico de Oliveira, Duda Mendonça, Enílson Simões de Moura, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Morais, Frei Chico, Jorge Caldeira, José Dirceu, José Genoino, José Serra, Laerte, Luís Dulci, Luiz Gushiken, Lourdes Maria Coelho Barelli, Nildo Masini, Paulo Vidal, Pedro Malan, Ricardo Kotscho, Walter Barelli.

A fase de pesquisa e apuração teve a participação de Ana Paula Lacerda, Aiuri Rebello, Lucianne Hamilton, Marcelo Aith, Maryanne Linz, Renata Gomes e Sameila Brandão. Eliane Sobral ajudou a elaborar o capítulo que procura resumir os acontecimentos dos oito anos de governo de FHC.

No processo de edição, foram indispensáveis as críticas, observações e o empenho de Isa Pessôa, Roberto Feith e toda a equipe da editora Objetiva.

Muito deve este trabalho à gentileza e colaboração de Ana Tavares, Antonio Risério, Danielle Adaillon, Duda Hamilton, Duda Mendonça, Eduardo Freha, Fausto Macedo, Jayme Spitscovsky, José Roberto Toledo, Igor Rosado, Kennedy Alencar, Leão Serva, Luís Nassif, Manoel Canabarro, Marcelo Netto, Marcelo Pontes, Maria Elisa Meirelles, Maurício Rivero, Regina Echeverria, Sergio Gomes e Telma Feher.

Com seu inédito A Virada - do Exílio ao Planalto Central, Petterson Rodrigues foi de grande valia. Feito para a conclusão de seu curso na Universidade Brás Cubas, o trabalho é um primeiro passo para a reconstituição da cinematográfica biografia de José Dirceu, que Petterson pretende agora completar e publicar.

Boa parte da trajetória de Fernando Henrique Cardoso foi desvendada por Brigitte Hersant Leoni, autora de Fernando Henrique Cardoso, O Brasil do Possível (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997), e Ted Goertzel, com seu Fernando Henrique Cardoso e a Reconstrução da Democracia no Brasil (Editora Saraiva, São Paulo, 2002).

Uma fonte importante sobre a história de Lula é o site www.abcdeluta.org.br, que preserva abrangentes e reveladores depoimentos dele próprio e de outras lideranças sindicais do ABC.

Outra fonte é a tese de doutoramento que a jornalista e escritora Denise Paraná defendeu em 1995 junto ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entusiasta da história oral, Denise registrou os depoimentos de Lula e seus irmãos em Lula, o Filho do Brasil (Perseu Abramo, São Paulo, 2002) e assim garantiu material para que outros pesquisadores pudessem trabalhar, como se fez aqui.

Sobre o sapo e o príncipe do título, eles remetem tanto aos apelidos dos protagonistas, quanto a uma das histórias infantis celebrizadas por Jacob Ludwig e Wilhelm Carl Grimm. No século XIX, a dupla resolveu preservar as tradições culturais de seu povo na Alemanha subjugada por Napoleão, em que o francês havia se tornado a língua oficial. Os irmãos Grimm levaram tão a sério a missão de recolher as histórias contadas pelos camponeses que acabaram imortalizando muitas delas.

O Sapo Príncipe, ou Henrique de Ferro, começa quando uma linda princesinha perde sua bola de ouro num lago. Socorrida por um sapo, faz com ele um acordo, que tenta romper logo adiante. Mas o sapo era persistente e acaba conseguindo o que queria - comer e dormir com a princesa no castelo. Na hora agá, ela se revolta e o joga contra a parede. Descobre então que, na verdade, ele é um príncipe encantado. Os dois casam-se e vivem felizes para sempre. Na última cena, Henrique de Ferro, o fiel lacaio do príncipe-sapo, quase morre de alegria ao ver o amo voltar à velha forma.

Na política, mudanças como as registradas recentemente no Brasil costumam ser resultado de um longo processo - embora, aparentemente, sejam tão súbitas e radicais quanto a transformação do sapo em príncipe no conto dos irmãos Grimm.

Com o objetivo de identificar o quanto existe de fato e fábula nessa história é que surgiu este livro.

A Faixa

(2003)

Primogênito de uma família carioca de classe média, a vasta árvore genealógica de um inclui mais de dez generais, dois ministros da Guerra, um presidente do Banco Central, um senador e um prefeito do Distrito Federal. Do outro, o penúltimo dos oito filhos de um casal de agricultores nordestinos, nem há registro preciso dos antepassados.

Um brincou nas praias e morros de Copacabana até os nove anos.

O outro tinha cinco quando deixou Garanhuns, interior de Pernambuco, em direção a São Paulo na carroceria de um pau-de-arara.

Aos 15 anos, um usava terno e gravata nas férias, em pleno verão do Rio. Pouco mais novo, o outro carregava os ternos passados e engomados por uma tinturaria na periferia de São Paulo, mas pedia paletó emprestado para ir ao cinema.

Um viveu semanas de fervor religioso na época da primeira comunhão, mas trocou a fé pela lógica e acabou apontado como ateu. O outro, devoto de Jesus e de São Francisco de Assis, vai à missa de vez em quando e faz o sinal-da-cruz antes das refeições.

Ser militar ou cardeal era o sonho de um, que recebeu o primeiro salário como professor de História Econômica da Europa. O outro, que oscilou entre motorista de caminhão-tanque e bombeiro, foi vendedor ambulante, engraxate e office boy, antes de sentir-se o dono do mundo ao receber meio salário mínimo por mês, envergando o macacão azul de operário.

Um é poliglota, o outro volta e meia escorrega nas concordâncias do português. Um considera a leitura um grande prazer; o outro tem preguiça de ler. Um é contido, o outro, chorão. Um é santista, o outro, corintiano. Um joga pôquer, o outro, truco. Um bebe uísque e vinho, o outro, cachaça. Um admitiu ter dado uma tragada num baseado, mas não fuma nada; o outro chegou a catar bitucas de cigarro no chão da fábrica e ainda hoje não dispensa cigarrilhas e, eventualmente, charutos feitos só para ele em Itabuna, na Bahia.

Um escuta ópera, música clássica e, eventualmente, jazz. O gosto do outro alcançou as árias popularizadas por Pavarotti, depois de apreciar Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Elis Regina, Chico Buarque e, mais recentemente, baianos e sertanejos.

Um não gosta do contato físico com estranhos e sofre quando precisa apertar milhares de mãos, abraçar centenas de corpos e erguer criancinhas no colo. O outro cultiva a proximidade e se expande nos cumprimentos, passando um braço pelas costas do interlocutor e batendo várias vezes em seu peito com a mão espalmada.

Um admira o pai, um militar que queria ser escritor. O outro venera a mãe, camponesa e retirante que conseguiu criar os filhos em meio a todas as adversidades.

Um se declara um ingênuo que acredita nas pessoas; o outro diz que, em sua terra, o fio do bigode valia mais que qualquer documento, mas reconhece que hoje já não se pode agir assim, porque há muita esperteza no mundo.

Um nunca chamou o outro de sapo, ainda que este tenha lhe pespegado o epíteto de príncipe muitas vezes, sempre com um sentido pejorativo.

Um meteu-se na política ainda no colégio, defendendo o monopólio estatal do petróleo. O outro passou ao largo do sindicato nos primeiros anos como operário. Nenhum dos dois imaginou o poder como projeto de vida, mas por força dos caminhos do país - e da manifesta vontade de 52.793.264 brasileiros -, um acabou entregando ao outro o comando da nação.

Mais de 200 mil pessoas acompanharam o ritual, no que foi a maior festa popular já ocorrida em Brasília. No momento mais aguardado, a faixa verde-e-amarela resvalou sobre a cabeça de um e jogou seus óculos ao chão. Sem qualquer hesitação, o outro abaixou-se, apanhou os óculos e devolveu-os a seu dono, que prosseguia com a cerimônia, como se nada tivesse acontecido.

Foi apenas outro imprevisto no estranho pas de deux vivido por estes brasileiros com trajetórias totalmente distintas, às vezes opostas, mas que se entrelaçaram em várias ocasiões. Na porta do elevador privativo do Palácio do Planalto, já presidente, Luiz Inácio Lula da Silva deixou o protocolo e as desavenças de lado e garantiu para Fernando Henrique Cardoso, agora sem poder algum:

- Você sabe que aqui deixa um amigo...

Há quem assegure que os dois irão confrontar-se novamente nas urnas. E, antes que a hipótese seja confirmada ou desmentida pelos fatos, é conveniente mergulhar mais fundo na história de um e outro, que, como todas as histórias, não pode ser resumida a diferenças, semelhanças e alcunhas superficiais como sapo e príncipe.



 
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