Dissolução,
de C.J. Sansom (tradução de Domingos Demasi; Record; 432 páginas;
46,90 reais) Nesse livro de estréia, o inglês Sansom mistura
ficção histórica e policial, na linha de O Nome da Rosa.
Tal como no livro de Umberto Eco, Dissolução trata de um
crime num monastério. A história transcorre na Inglaterra do século
XVI, durante o reinado de Henrique VIII. Thomas Cromwell, braço-direito
do rei, está implantando a reforma religiosa no país, dissolvendo
as instituições ligadas à Igreja Católica. Quando
um emissário seu é morto, Cromwell chama o advogado Matthew Shardlake
para investigar o caso. O herói da história é uma figura
curiosa: nas primeiras páginas do livro, é definido como "o corcunda
mais esperto dos tribunais da Inglaterra".
Leia
trecho Capítulo
1 Eu
estava em Surrey, a serviço do gabinete de lorde Cromwell, quando chegou
a convocação. As terras de um mosteiro dissolvido tinham sido concedidas
a um membro do Parlamento, de cujo apoio ele necessitava, e as escrituras de posse
de alguns terrenos arborizados haviam sumido. Não houve dificuldade para
localizá-las e, posteriormente, aceitei o convite do MP para passar alguns
dias com sua família. Desfrutaria a breve folga, observando as últimas
folhas caírem, antes de retornar a Londres e à minha banca de advogado.
Sir Stephen possuía uma excelente casa nova de tijolos, de agradáveis
proporções, e ofereci-me para desenhá-la para ele; mas havia
feito apenas alguns esboços preliminares, quando o cavaleiro chegou. O
jovem havia cavalgado a noite toda, desde Whitehall, e chegara ao amanhecer. Eu
o reconheci como um dos mensageiros particulares de lorde Cromwell e, com um mau
pressentimento, rompi o selo do ministro-chefe na carta. Era do secretário
Grey, e dizia que lorde Cromwell exigia minha presença, imediatamente,
em Westminster. Outrora,
a perspectiva de encontrar o meu benfeitor e conversar com ele, vê-lo no
assento de poder que ele agora ocupava, teria me emocionado, mas, nesse último
ano, eu começara a ficar cansado; cansado da política e do Direito,
dos artifícios dos homens e do infindável emaranhado de seus métodos.
E afligia-me o fato de o nome de Lorde Cromwell, muito mais do que o do rei, agora
evocar temor em toda a parte. Comentava-se em Londres que os bandos de mendigos
se dispersariam ao simples aviso de sua aproximação. Não
era esse o mundo que nós, os jovens reformadores, aspirávamos a
criar, quando ficávamos sentados à mesa, conversando, durante os
intermináveis jantares nas casas uns dos outros. Outrora acreditávamos,
como Erasmo, que fé e caridade seriam suficientes para resolver diferenças
religiosas entre os homens; mas, por volta do início daquele inverno de
1537, elas se tornaram rebelião, um número sempre crescente de execuções
e gananciosos conflitos pela posse das terras dos monges. Chovera
pouco naquele outono e as estradas continuavam boas, mas, por causa da minha imperfeição,
não consigo cavalgar com rapidez, e somente na metade da tarde cheguei
a Southwark. Meu bom e velho cavalo, Chancery, ficou perturbado com o ruído
e os odores, depois de um mês no campo, e eu também. Ao me aproximar
da Ponte de Londres, desviei o olhar da abóbada, onde as cabeças
dos executados por traição permaneciam em suas compridas estacas,
as gaivotas circundado e bicando. Sempre tive um temperamento delicado e não
gostava nem mesmo do esporte de açular cães contra um urso acorrentado.
A enorme
ponte, como sempre, estava atulhada de gente; muitos das classes mercantis pranteavam
a rainha Jane, que morrera duas semanas antes de febre puerperal. Vendedores anunciavam
as mercadorias de suas lojas localizadas no rés-do-chão dos prédios,
construídos tão grudados uns nos outros que pareciam poder tombar
a qualquer momento para dentro do rio. Nos pavimentos superiores, mulheres estendiam
suas roupas lavadas, pois as nuvens encobriam o céu desde a parte ocidental
da cidade. Mexericando e gritando umas com as outras, a mim pareceram, naquele
meu temperamento melancólico, corvos crocitando em uma árvore alta.
Suspirei, lembrando-me de que tinha tarefas a cumprir. Deviase em grande parte
ao patrocínio de lorde Cromwell que, aos 35 anos, eu tivesse uma próspera
banca de advogado e uma excelente casa nova. E trabalhar para ele era trabalhar
para a Reforma, louvável aos olhos de Deus; portanto, eu continuava acreditando.
E isso era importante, pois, normalmente, trabalhar para ele se dava através
de Grey; e eu não via o secretário-chefe e vigário-geral,
o que ele era agora, fazia dois anos. Sacudi os arreios e conduzi Chancery por
entre a multidão de viajantes e negociantes, batedores de carteiras e pretensos
cortesãos, em meio à grande agitação de Londres. |