| Tudo
Se Ilumina, de
Jonathan Safran Foer (tradução de Paulo Reis e Sergio Moraes Rego;
Rocco; 365 páginas; 48 reais) Em 1997, o americano Jonathan Safran
Foer viajou para a Ucrânia com uma idéia fixa: achar a mulher que
salvou seu avô da perseguição nazista aos judeus. Não
obteve sucesso, mas tirou daí o mote de seu original romance de estréia
que o transformou, aos 24 anos, em revelação da literatura
americana. Tudo Se Ilumina tem o próprio escritor como protagonista.
Ele busca suas raízes em companhia do ucraniano Alex, filho de um agente
de viagens, de seu avô e do cão deste. A história é
contada de vários pontos de vista e a narração do
guia Alex, com seu sotaque carregado, rende boas piadas. Foer aborda, com humor,
questões como história, família e a fragilidade da memória.
Leia
trecho ABERTURA
PARA O ENCERRAMENTO DE UMA JORNADA MUITO RÍGIDA. MEU
NOME DE REGISTO É ALEXANDER PERCHOV. Mas todos os meus muitos amigos me
apelidam de Alex, pois essa é uma versão mais solta de pronunciar
meu nome oficial. Mamãe me apelida de Alexi-pare-de-me-enfezar!, pois está
sempre enfezada comigo. Se você quer saber por que eu vivo enfezando minha
mãe, é porque eu estou sempre em outros lugares com amigos, disseminando
moeda-corrente demais e executando ações que podem enfezar uma mãe.
Papai costumava me apelidar de Chapa, por causa do chapéu de pele que eu
usava até no mês do verão. Parou de me apelidar assim porque
eu ordenei que ele parasse de me apelidar assim. Aquilo me parecia infantil, e
sempre pensei em mim mesmo como muito potente e gerador. Tenho muitas, muitas
garotas, podem acreditar, e cada uma tem um nome diferente para mim. Uma me apelida
de Bebê, não porque eu seja um bebê, mas porque ela cuida de
mim. Outra me apelida de Noite Toda. Querem saber por quê? Uma terceira
me apelida de Moeda-Corrente, pois dissemino muita moeda-corrente à volta
dela. Ela lambe os meus beiços por causa disso. Também tenho um
irmão-miniatura que me apelida de Alli. Não curto muito esse nome,
mas curto muito meu irmão; por isso, tudo bem, permito que ele me chame
de Alli. O nome dele é Pequeno Igor, mas Papai só o apelida de Sem-Jeito,
porque ele vive abalroando as coisas. Há quatro dias prévios, por
exemplo, ele azulou o próprio olho ao cometer um equívoco com um
muro de tijolos. E se você quer saber qual é o nome da minha cadela,
ela se chama Sammy Davis, Junior, Junior. Ela tem esse nome porque Sammy Davis,
Junior era o cantor preferido do meu avô, e a cadela é dele, não
minha, pois não sou eu que penso que sou cego. Quanto
a mim, fui gerado em 1977, o mesmo ano do herói desta história.
Na verdade, minha vida sempre foi muito ordinária. Como já mencionei,
faço muitas coisas boas comigo e com outros, mas são coisas ordinárias.
Eu curto filmes americanos. Curto negros, principalmente Michael Jackson. Curto
disseminar muita moeda-corrente nas boates famosas de Odessa. Os Lamborghini Countaches
são excelentes, bem como os cappuccinos. Muitas garotas querem ter relações
carnais comigo de muitas maneiras boas, como o Canguru Inebriado, a Cócega
Gorky e o Tratador Inflexível. Se você quer saber por que tantas
garotas querem ficar comigo, é porque eu sou uma pessoa muito excepcional
para se ficar. Sou caseiro, e também severamente engraçado, e essas
coisas são fascinantes. Mas também conheço muita gente que
curte carros velozes e discotecas famosas. Há tanta gente que executa o
Folguedo do Busto Sputnik – sempre encerrado com subprodutos pegajosos – que não
consigo contar todo mundo nos dedos das mãos. Há até muita
gente chamada Alex. ( Três só na minha casa!) É por isso que
eu estava tão efervescente para ir a Lutsk e traduzir Jonathan Safran Foer.
Seria algo inordinário. Eu
tivera um desempenho destemidamente bom no meu segundo ano de inglês na
universidade. Isso foi uma coisa majestosa que fiz, porque o meu instrutor estava
tendo merda entre os miolos. Mamãe ficou tão orgulhosa de mim que
disse: - Alexi-para-de-me-enfezar!, você me deixou orgulhosa. Eu
requisitei que ela me comprasse calças de couro, mas ela disse que não. -
E shorts? -
Não. Papai
também ficou muito orgulhoso, e disse: - Chapa... -
Não me chame de Chapa – disse eu -
Alex, você deixou sua mãe orgulhosa – disse ele.
Mamãe é uma mulher muito humilde. Muito, muito humilde. Ela labuta num pequeno
café que fica a uma hora de distância da nossa casa. Lá apresenta
comida e bebida para os fregueses, e diz para mim: - Eu faço uma jornada
de uma hora de ônibus para trabalhar o dia todo fazendo coisas que odeio.
Quer saber por quê? É para você, Alexi-pare-de-me-enfezar!
Um dia você também vai fazer coisas para mim que odeia. É
isso que significa ser uma família. |