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Tchekova: a serviço de Hitler ou espiã soviética? |
O
Mistério de Olga Tchekova, de
Antony Beevor (tradução de Clóvis Marques; Record; 336 páginas;
45,90 reais) A trajetória da russa Olga Tchecova (1897-1980) é
digna de um filme. Sobrinha do escritor Anton Tchecov, ela deixou a União
Soviética para se tornar uma estrela de cinema na Alemanha nazista. Bela
e ambiciosa, Olga freqüentava o círculo do ditador Adolf Hitler e
de seus auxiliares. Mas há indícios de que colaborou com a espionagem
soviética o que ela sempre negou. Especialista em II Guerra Mundial
e autor de relatos históricos como Stalingrado, o britânico
Beevor esmiúça essa biografia cheia de sombras e lacunas de maneira
fascinante.
Leia
trecho O jardim das
cerejeiras da vitória Na
noite de 8 de maio de 1945, as luzes ficaram acesas em toda Moscou. As pessoas
esperavam impacientemente notícias da rendição final dos
alemães. Só os mais privilegiados membros da elite soviética,
como o escritor Ilia Ehrenburg, tinham um aparelho de rádio e ousavam sintonizá-lo
com estações estrangeiras. Na Rússia de Stalin, a vitória
não significava liberdade em relação à polícia
secreta. O anúncio
da rendição alemã ao marechal Jukov em Berlim acabou sendo
feito por Levitan, o locutor da Rádio Moscou, às dez horas e um
minuto da manhã da quarta-feira, 9 de maio. "Atenção,
aqui Moscou. A Alemanha capitulou (...) Este dia, em homenagem à Grande
Guerra Patriótica, será feriado nacional, um festival da vitória."1
Foi tocada a Internacional, seguida pelos hinos nacionais dos Estados Unidos,
da Grã-Bretanha e da França. Os
habitantes dos prédios de apartamentos comunitários não esperaram
que a música terminasse, saindo para os corredores vestidos como estavam
para se congratular. Os que tinham telefone chamaram parentes e amigos mais próximos
para compartilhar o momento histórico. "Acabou! Acabou!", repetiam.
Muitos prorromperam em lágrimas de alívio e dor. Depois de uma guerra
que causara a morte de cerca de 25 milhões de pessoas, não havia
praticamente em toda a União Soviética uma família que não
tivesse passado pelo sofrimento. Às 4 horas da manhã, observou Ehrenburg,
"a rua Gorki estava tomada: as pessoas se reuniam em frente a seus prédios
ou desciam a rua em direção à Praça Vermelha".2 Como
escreveu Ehrenburg, aquele era "um extraordinário dia de alegria e
tristeza". Ele viu uma senhora, chorando e sorrindo, mostrando uma fotografia
do filho uniformizado aos passantes e contando-lhes que fora morto no outono.
Além de uma comemoração, era um verdadeiro festival de recordações.
Quando as garrafas de vodca começaram a circular, o primeiro brinde era
para os que não estavam mais ali para ver aquele acontecimento, embora
a lealdade mandasse que os membros do partido primeiro prestassem homenagem ao
camarada Stalin, o "grande arquiteto e gênio da vitória". Oficiais
uniformizados, especialmente os que ostentavam medalhas, eram festejados e às
vezes jogados para o ar, como grandes vencedores. Até Ehrenburg, o mais
famoso propagandista do Exército Vermelho, foi reconhecido na rua e submetido
à mesma honraria, para seu grande embaraço. Também os estrangeiros
eram "beijados, abraçados e festejados".3 Em torno da Praça
Vermelha, "carros estrangeiros eram parados e seus ocupantes, arrastados
para fora, abraçados e até jogados para o ar". Em frente à
embaixada americana, a multidão clamava sua admiração pelo
presidente Roosevelt, que morrera um mês antes, para sincero pesar dos que
ali se encontravam. Khmelev,
diretor do Teatro de Arte de Moscou, falou aos membros da companhia, que se haviam
reunido espontaneamente no saguão. "Que imensa alegria toma conta
de nós hoje!", disse. "Há tanto tempo esperávamos
por isto, mas agora que aconteceu não consigo encontrar palavras para expressar
o que sentimos. Quando o rádio começou a tocar as marchas da vitória,
vi uma mulher pela janela iluminada de uma casa, dançando e cantando sozinha."4 Ao
longo daquele dia, algo entre 2 e 3 milhões de pessoas acorreram ao centro
da capital, das margens do rio Moskva até a estação de Belorusski.
A maioria trazia garrafas de vodca ou champanhe georgiano, religiosamente guardadas
para este dia. Operários deslocavam-se dos subúrbios com as famílias
em direção ao centro, usando suas melhores roupas. Os moscovitas
que tinham permanecido na capital durante a guerra vestiam-se melhor que os forasteiros
porque, durante o pânico de outubro de 1941, os que haviam sido evacuados
da cidade venderam aos brechós todas as roupas que não puderam levar.5
Embora tivesse sido bombardeada naquele inverno, Moscou realmente tivera sorte.
Eram poucos, comparativamente, os prédios danificados. Em outras partes
do país, no sul e no oeste, viam-se cidades e aldeias arrasadas ao longo
de centenas e centenas de quilômetros. Cerca de 25 milhões de pessoas
não tinham onde morar. Os sobreviventes viviam em abrigos subterrâneos
— literalmente, buracos cavados no chão, cobertos com troncos, galhos e
capim. Naquela noite,
o discurso da vitória de Stalin foi transmitido pelo rádio, sendo
disparada uma salva de mil tiros, cuja reverberação sacudia as vidraças.
Centenas de aviões sobrevoaram a capital, projetando clarões vermelhos,
dourados e roxos. Holofotes das baterias antiaéreas de Moscou iluminavam
uma gigantesca bandeira vermelha elevada por balões invisíveis.
Stalin foi alvo de vivas espontâneos. Muitos, como seu protegido Ehrenburg,
só mais tarde refletiriam sobre o destino daqueles cujas vidas haviam sido
desperdiçadas ou que tinham sido executados sob acusações
falsas para acobertar os erros crassos do líder. Mas ainda em meio aos
abraços trocados por estranhos nas ruas, na profunda emoção
daquele dia, de alguma forma não parecia ao alcance um verdadeiro sentimento
de vitória e exultação. A única sensação
certa era de um alívio exausto e ligeiramente embotado. Depois
das comemorações, os membros do Teatro de Arte de Moscou sentiram
a necessidade de também marcar bem o fim da guerra. O Kremlin planejava
uma gigantesca parada militar na Praça Vermelha para comemorar as conquistas
da Grande Guerra Patriótica. Por sua vez, eles decidiram promover uma récita
especial. Queriam simplesmente agradecer por ter a cultura russa sobrevivido ao
terrível massacre dos nazistas. Com
a gaivota de Anton Tchekov desenhada nas cortinas, não era difícil
escolher o autor. As peças que ele escrevera para o Teatro de Arte de Moscou,
dando-lhe tanto prestígio internacional, eram conhecidas antes da revolução
como "navios de guerra" da trupe. E a obra escolhida para a ocasião
foi a última escrita por Tchekov, O jardim das cerejeiras.6 A
viúva de Tchekov, Olga Knipper-Tchekova, que participara da fundação
da companhia, ficaria com o papel da espiritualizada proprietária de terras
Ranievskaia. Um papel que havia interpretado na estréia da peça
em janeiro de 1904, diante dos amigos Feodor Chaliapin, Máximo Gorki7 e
Rachmaninoff. E que trazia lembranças dolorosas. Seu marido, Anton, estivera
gravemente doente. Para dizer a verdade, estava tão "mortalmente pálido"
que se ouviram murmúrios de horror quando ele apareceu no palco para ser
homenageado. Konstantin Stanislavski, o gênio tutelar do Teatro de Arte
de Moscou, observou que aquele momento triunfal "cheirava a funeral".8
Seis meses depois, o dramaturgo morreria. Naqueles
tempos, Olga Knipper-Tchekova, com seus olhinhos vívidos e o maxilar pronunciado,
tinha a aparência de uma bela, decidida e inteligente governanta. Já
agora, no entanto, aos 76 anos de idade e bastante vigorosa apesar do racionamento
da guerra, era um monumento vivo do teatro russo. Já em 1928 havia sido
feita Artista do Povo da União Soviética. Debaixo do tacão
de Stalin, no entanto, não era necessariamente uma proteção.
Ela passara boa parte da guerra temendo ser detida a qualquer momento pela polícia
secreta do NKVD. No
clima de paranóia da época, sua preocupação era perfeitamente
compreensível. Seus pais eram de origem alemã. Seu irmão
fora ajudante do almirante Kolchak, o comandante branco da Sibéria durante
a guerra civil. Seu sobrinho predileto, o compositor Lev Knipper, fora oficial
da Guarda Branca no combate contra os bolcheviques no sul da Rússia. De
longe o maior perigo, no entanto, residia no fato de que sua sobrinha, Olga Tchekova,
era a maior estrela de cinema de Berlim, detentora desde 1936 do título
de "Atriz de Estado" do Terceiro Reich e supostamente adorada por Hitler.
Havia inclusive fotos suas ao lado de Hitler e em recepções nazistas.
E o ex-marido de sua sobrinha, Mikhail Tchekov, estava em Hollywood. Era uma família
de emigrados numa época de xenofobia stalinista. A
velha atriz era quase a última sobrevivente do extraordinário grupo
liderado por Stanislavski que começara a revolucionar a arte dramática
em 1898. Stanislavski,9 a quem ela se referia como "um enorme capítulo"10
em sua vida e que em todos insuflara seus ideais artísticos, morrera em
1938. Alto e elegante, com seus cabelos brancos e sobrancelhas negras, ele poderia
ter sido um professor ou diplomata de grande distinção quando não
estivesse por trás da aparência dos muitos papéis em que mergulhava.
A intensidade com que se entregava em cada interpretação deixava-o
esgotado após os espetáculos. Os atores que o visitavam no camarim
verificavam que seu jeito de relaxar era despir-se e fumar um charuto. "Assim
como era capaz de envergar qualquer figurino", observou um dos membros do
elenco, "ele podia também ostentar a própria carne nua com
a maior autenticidade e a mais pura e helênica simplicidade."11 Pouco
antes da doença final em 1938, Stanislavski manifestara o desejo de que
o brilhante ator e diretor Vsevolod Meyerhold, companheiro dos primeiros tempos,
o sucedesse no Teatro de Arte de Moscou. Mas Meyerhold suscitara a ira das autoridades
soviéticas, e Stanislavski pouco poderia fazer para ajudar no além-túmulo.
Meyerhold, que apoiara os bolcheviques na época da revolução,
caíra em desgraça com o regime stalinista porque suas peças
não se conformavam à nova doutrina do realismo socialista. Em discurso
de coragem suicida proferido no Congresso de Diretores Cênicos da União,
ele investira contra a esterilidade do teatro soviético. Foi detido em
junho de 1939. Duas semanas depois, sua mulher, a conhecida atriz judia Zinaida
Raikh, foi assassinada em seu apartamento. Seu corpo foi mutilado, e seus olhos,
arrancados. Meyerhold pode ter sido um dos que foram pessoalmente torturados por
Lavrenti Beria antes de ser morto. Stalin assinou sua sentença de morte.12
Eram poucos agora os que tinham coragem de pronunciar seu nome, ou de mencionar
o fato de que uma ex-amante de Beria ficara com o apartamento dos Meyerhold.13 Até
a peça escolhida para comemorar a vitória soviética sobre
a Alemanha parecia assombrada por fantasmas. Em 1917, o Teatro de Arte de Moscou
apresentara O jardim das cerejeiras na noite do golpe de estado bolchevique.
E em maio de 1919, Olga Knipper-Tchekova estava em turnê com sua companhia
em Kharkov, para escapar da fome em Moscou, quando ficou sabendo durante o segundo
ato da peça que a cidade caíra subitamente nas mãos do Exército
Branco do general Denikin. Mas o avanço das tropas brancas não durou
muito. As forças de Denikin recuaram caoticamente em direção
ao litoral do mar Negro. Juntamente com uma onda de refugiados civis temerosos
da vingança dos bolcheviques, foram dizimadas pelo tifo e a fome. Olga
Knipper-Tchekova e seus colegas da trupe itinerante fugiram para o sul, chegando
à Geórgia através do Cáucaso. Lá, O jardim
das cerejeiras constituíra sua última apresentação
na capital, Tiflis,14 pouco antes de atravessarem o mar Negro para um exílio
cheio de incertezas. De
setembro de 1920 até o retorno a Moscou na primavera de 1922, Olga Knipper-Tchekova
foi uma emigrada, categoria profundamente suspeita aos olhos das autoridades soviéticas.
Mas este breve período, embora não deixasse de ser perigoso, não
era nada em comparação com a brilhante carreira de sua sobrinha
e homônima na Alemanha. No
outono de 1943, o Teatro de Arte de Moscou solicitara uma homenagem especial a
sua maior atriz, por ocasião de seu 75º aniversário, mas o pedido
teve como resposta um pesado silêncio das autoridades soviéticas.15
Ao longo de toda a guerra, ela nunca fora convidada a falar no rádio nem
a fazer apresentações solo, como antes. Outros membros da família
deparavam-se com desfeitas não menos sinistras. Na União Soviética,
sinais como esses não podiam ser ignorados. E agora as pessoas constatavam
que a grande vitória não amainara a paranóia do regime stalinista.
A recente onda de denúncias e batidas policiais do NKVD antes do amanhecer
incutira nos moscovitas o receio de que tivesse começado outra série
de expurgos. Pelo menos
o prédio parecia familiar e tranqüilizador. Aquele teatro literalmente
constituíra para ela um segundo lar por mais de metade de sua vida. À
parte um grande baixo relevo art nouveau sobre a entrada, o exterior não
era tão diferente da maioria das fachadas de três andares de Moscou.
Lá dentro, o círculo de lâmpadas no teto e as maçanetas
das portas também eram em estilo art nouveau. Os encostos das cadeiras
tinham forração de pelúcia, mas as paredes e o piso careciam
de qualquer ornamentação. Stanislavski reprovava qualquer coisa
que distraísse a atenção da performance. No cortinado de
um verde-acinzentado, o único emblema era a gaivota estilizada de Tchekov
alçando vôo. Este símbolo de uma nova realidade teatral fora
preservado durante a revolução e o período de fome da guerra
civil. Sobrevivera até ao terror stalinista e ao fato de a companhia ter
sido forçada a montar peças de realismo socialista e pura propaganda. Olga
Knipper-Tchekova pouco tinha a temer em termos profissionais num papel tão
conhecido quanto o que interpretaria na montagem especial de O jardim das cerejeiras.
No outono de 1943, ela o havia desempenhado pela milésima vez diante
das tropas, recebendo posteriormente cartas de fãs enviadas da frente de
batalha.16 Anton Tchekov
não tivera sua mulher em mente ao escrever o papel de Ranievskaia — destinara-o
na realidade a uma atriz muito mais velha —, mas posteriormente isto conspiraria
a favor dela.17 Permitiu que, mesmo passados os 70 anos, ela continuasse a interpretar
o personagem, sendo aplaudida delirantemente, embora o público estivesse
mais provavelmente aclamando nela uma instituição venerada. Ela
era conhecida pela expressividade das mãos — que no papel de Ranievskaia
se mostravam esvoaçantes e graciosamente desajeitadas, para expressar confusão
emocional —, mas Olga Knipper-Tchekova tendia a exagerar quando nervosa. Nemirovitch-Dantchenko
enviou-lhe certa vez uma mensagem que ela nunca esqueceria: "Um par de mãos
é o bastante. Deixe as outras dezenas de pares no camarim."18 Naquela
noite, ao fecharem-se as cortinas enquanto era ouvido das coxias o último
efeito sonoro concebido por Stanislavski19 — o golpe surdo de um machado derrubando
cerejeiras no jardim perdido —, uma platéia de 500 pessoas aclamou de pé
aquele momento de grande emoção. Olga Knipper-Tchekova veio agradecer
logo depois. Os olhos baixos detiveram-se nas primeiras fileiras. Uma bela mulher
na casa dos 40, muito bem-vestida, cumprimentou-a discretamente. Olga Knipper-Tchekova
recuou, em estado de choque, e desmaiou por trás das cortinas, confusa
e aterrorizada. A glamourosa mulher que lhe havia acenado, em plena e triunfante
capital soviética, era sua sobrinha, Olga Tchekova, a grande estrela do
cinema nazista. |