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Lutando na Espanha, de George Orwell (tradução de Ana Helena Souza; Globo; 400 páginas; 45 reais) – Conhecido por seu jornalismo combativo e libertário, o escritor inglês George Orwell (1903-1950) lutou na Guerra Civil Espanhola contra as tropas fascistas de Franco – e também contra os comunistas que esfacelaram a causa republicana. Essa experiência foi fundamental para a crítica que Orwell faria a todas as formas de totalitarismo em livros como 1984. Lutando na Espanha reúne vários ensaios de Orwell sobre a Espanha. Homenagem à Catalunha, suas memórias da guerra, aparece em nova tradução, incorporando revisões que o autor fez pouco antes de morrer.

Leia trecho

No quartel Lênin em Barcelona, um dia antes de ingressar na milícia, vi um miliciano italiano de pé, em frente à mesa dos oficiais.

Era um jovem com ar de durão, de vinte e cinco ou vinte e seis anos, cabelos louro-avermelhados e ombros largos. Seu quepe pontudo de couro estava puxado ferozmente sobre um olho. De perfil para mim, queixo no peito, olhava intrigado, de cenho franzido, um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa. Algo em seu rosto me tocou profundamente. Era o rosto de um homem que iria matar e jogar sua vida fora por um amigo — o tipo de rosto que se esperaria num anarquista, embora, contra todas as expectativas, ele fosse comunista. Havia tanto candura quanto ferocidade nele; havia, também, a reverência patética que os analfabetos têm para com seus supostos superiores. Era óbvio que o mapa não tinha nem pé nem cabeça para ele; era óbvio que ele encarava a leitura de um mapa como um feito intelectual estupendo. Difícil saber por que, mas raramente encontrei alguém — quer dizer, algum homem — que tenha me agradado tão de imediato. Enquanto conversavam ao redor da mesa, alguma observação trouxe à tona que eu era estrangeiro. O italiano levantou a cabeça e disse logo:

— Italiano?

Respondi com meu espanhol ruim:

— No, Inglés. Y tú?

— Italiano.

Quando saímos, ele cruzou a sala e apertou minha mão com força. Estranho, a afeição que se pode sentir por um desconhecido! Foi como se o espírito dele e o meu tivessem por um instante conseguido atravessar o abismo da linguagem e das tradições e se conhecer na mais profunda intimidade. Esperava que ele gostasse de mim tanto quanto gostava dele. Mas também sabia que para conservar minha primeira impressão não deveria vê-lo de novo; e, nem é preciso dizer que nunca mais o vi de novo. Estávamos sempre fazendo contatos desse tipo na Espanha.

Falo sobre esse miliciano italiano, porque ele se fixou vividamente à minha memória. Com seu uniforme mal-amanhado e seu rosto patético e feroz, tornou-se típico para mim da atmosfera especial daquela época. Está entranhado em todas as minhas recordações daquele período da guerra: as bandeiras vermelhas em Barcelona, os trens sombrios, cheios de soldados malvestidos, arrastando-se para o front e, mais adiante na linha, as cidades cinzentas devastadas pela guerra, as trincheiras enlameadas e geladas nas montanhas.

Estávamos no fim de dezembro de 1936, há menos de sete meses de quando escrevo e, no entanto, é um período que já recuou a uma distância enorme. De resto, acontecimentos posteriores o obliteraram muito mais completamente do que o ano de 1935, ou mesmo o de 1905. Viera para a Espanha com a vaga idéia de escrever artigos para a imprensa, mas ingressei na milícia quase imediatamente, porque naquele tempo e naquela atmosfera parecia a única coisa imaginável a se fazer. Os anarquistas tinham o controle virtual da Catalunha, e a revolução ainda ia de vento em popa. Para qualquer um que estivesse lá desde o começo, provavelmente parecia, já em dezembro ou janeiro, que o período revolucionário estivesse terminando; mas para alguém vindo direto da Inglaterra, o aspecto de Barcelona era algo surpreendente e irresistível. Pela primeira vez na vida me encontrava numa cidade onde a classe trabalhadora estava no comando. Praticamente todos os prédios, do tamanho que fosse, tinham sido tomados pelos trabalhadores e estavam enfeitados com bandeiras vermelhas ou com a bandeira rubro-negra dos anarquistas; todas as paredes estavam rabiscadas com a foice e o martelo e com as iniciais dos partidos revolucionários; quase todas as igrejas tinham sido pilhadas e suas imagens queimadas. Igrejas aqui e ali estavam sendo sistematicamente demolidas por bandos de trabalhadores. Todas as lojas e cafés exibiam uma inscrição dizendo que tinham sido coletivizadas; até mesmo os engraxates tinham sido coletivizados e suas caixas pintadas de vermelho e preto. Garçons e lojistas nos encaravam e nos tratavam de igual para igual. As formas de tratamento servis e até mesmo as de cortesia haviam desaparecido temporariamente. Ninguém dizia "señor" ou "don" ou mesmo "usted"; todo mundo chamava todo mundo de "camarada" e "tu", e dizia "salud" ao invés de "buenos días". Uma de minhas primeiras experiências foi levar uma lição do gerente do hotel por tentar oferecer uma gorjeta ao ascensorista. Não havia carros particulares, eles tinham sido confiscados, e todos os bondes e táxis e a maior parte dos demais meios de transporte tinham sido pintados de vermelho e preto. Os cartazes revolucionários estavam por toda a parte, flamejantes nas paredes com seus vermelhos e azuis vivos, que faziam os poucos anúncios restantes parecerem estuques de lama. Descendo a Ramblas, a larga artéria central da cidade onde multidões fluíam sem parar, de um lado para o outro, auto-falantes berravam canções revolucionárias o dia inteiro e noite adentro. E era o aspecto das multidões a coisa mais estranha de todas. Na aparência exterior, era uma cidade em que as classes abastadas tinham praticamente deixado de existir. Exceto por um pequeno número de mulheres e estrangeiros, não havia pessoas "bem vestidas" de jeito nenhum. Praticamente todo mundo usava as roupas rudes da classe trabalhadora, ou macacões azuis, ou alguma variante do uniforme da milícia. Tudo isso era estranho e emocionante. Havia muita coisa que eu não compreendia, e de muitas delas de certa forma nem gostava, mas reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar. Também acreditava que as coisas eram como pareciam ser, que aquele era realmente um Estado dos trabalhadores e que toda a burguesia tinha fugido, ou sido morta, ou passado voluntariamente para o lado dos trabalhadores; não percebia que muitos dos burgueses abastados estavam simplesmente escondidos e disfarçados de proletários, por enquanto.

Junto com tudo isso, havia algo da atmosfera demoníaca da guerra. A cidade tinha uma aparência suja e lúgubre, vias e prédios estavam em mau estado; à noite, as ruas eram pouco iluminadas, por temerem ataques aéreos, a maioria das lojas estava desmazelada e semivazia. A carne era pouca e o leite praticamente impossível de se obter; havia escassez de carvão, açúcar e gasolina, e a escassez de pão era gravíssima. Já nesse período, as filas para consegui-lo se estendiam por centenas de metros. Ainda assim, até onde se podia perceber, as pessoas estavam satisfeitas e esperançosas. Não havia desemprego e o custo de vida ainda era extremamente baixo; encontravam-se muito poucos pobres de fato e nenhum mendigo, com exceção dos ciganos. Acima de tudo, havia uma crença na revolução e no futuro, um sentimento de ter-se subitamente emergido numa era de igualdade e liberdade. Os seres humanos estavam tentando se comportar como seres humanos e não como dentes da engrenagem capitalista. Nas barbearias havia cartazes anarquistas (os barbeiros eram na maioria anarquistas), nos quais se explicava solenemente que os barbeiros não eram mais escravos. Nas ruas, cartazes coloridos conclamavam as prostitutas a deixarem de ser prostitutas. Para qualquer um que viesse da calejada e sarcástica civilização das raças de língua inglesa, havia algo de muito patético no caráter literal com que aqueles espanhóis idealistas empregavam as desgastadas expressões da revolução. Naquela época, as baladas revolucionárias de teor mais ingênuo, todas sobre a irmandade proletária e a maldade de Mussolini, eram vendidas nas ruas por alguns centavos cada. Muitas vezes vi milicianos semi-analfabetos comprarem uma dessas baladas, soletrarem com dificuldade a letra e depois, quando pegavam o jeito, saírem cantarolando com uma melodia adequada.

Estive todo esse tempo no quartel Lênin, em treinamento ostensivo para o front. Quando ingressei na milícia, disseram-me que seria enviado para lá no dia seguinte, mas na verdade tive de esperar enquanto uma nova centúria era preparada. As milícias dos trabalhadores, formadas apressadamente pelos sindicatos no começo da guerra, ainda não tinham sido organizadas em uma estrutura de exército comum. As unidades de comando eram a "seção" com cerca de trinta homens, a centúria, com cerca de cem homens e a "coluna" que, na prática, queria dizer qualquer número maior de homens. O quartel Lênin era um conjunto de prédios de pedra maravilhoso, com uma escola de equitação e enormes pátios pavimentados com paralelepípedos; tinha sido um quartel de cavalaria e fora capturado durante as lutas de julho. A minha centúria dormia num dos estábulos sob os cochos de pedra onde os nomes dos cavalos de batalha ainda estavam inscritos. Todos os cavalos tinham sido confiscados e mandados para o front, mas o lugar inteiro ainda cheirava a mijo de cavalo e aveia podre. Fiquei no quartel mais ou menos uma semana. Lembro-me sobretudo do cheiro dos cavalos, dos trêmulos toques de corneta (todos os corneteiros eram amadores — só fui aprender os toques de corneta espanhóis ao ouvi-los do outro lado das linhas fascistas), do tropel das botas de tachões no pátio do quartel, das longas marchas matinais sob o sol de inverno, das desenfreadas partidas de futebol, com cinqüenta de cada lado, no saibro da escola de equitação. Talvez houvesse mil homens no quartel e umas vinte mulheres mais ou menos, fora as esposas dos milicianos, que faziam a comida. Ainda havia mulheres servindo nas milícias, embora não muitas. Nas primeiras batalhas, lutaram lado a lado com os homens, normalmente. Porém, as idéias já estavam mudando. Os milicianos tinham de ser mantidos fora da escola de equitação, enquanto as mulheres recebiam treinamento, porque riam delas e as desconcertavam. Poucos meses antes, ninguém teria visto nada de cômico numa mulher empunhando uma arma.

O quartel inteiro estava no estado de imundície e caos ao qual a milícia reduzia cada prédio que ocupava, e que parecia ser um dos subprodutos da revolução. Em cada canto encontrávamos pilhas de mobília destroçada, selas quebradas, capacetes de latão da cavalaria, bainhas de sabre vazias e comida apodrecendo. Havia um terrível desperdício de comida, de pão sobretudo. Só de meu alojamento, uma cesta cheia de pão era jogada fora a cada refeição — uma coisa vergonhosa, quando faltava pão para a população civil. Comíamos em compridas mesas armadas sobre cavaletes, usando vasilhas de lata permanentemente engorduradas, e bebíamos usando uma coisa horrorosa chamada porrón. Um porrón é uma espécie de garrafa de vidro com uma biqueira pontuda, da qual espirra um jato de vinho toda vez que se vira o fundo para cima; assim, pode-se beber a distância, sem tocá-la com os lábios e pode passar de mão em mão. Entrei em greve e exigi uma caneca assim que vi um porrón sendo usado. Aos meus olhos, aquelas coisas pareciam-se demais com urinóis, sobretudo quando cheias de vinho branco.

Aos poucos, distribuíam-se os uniformes para os recrutas e, porque esta era a Espanha, tudo era distribuído por etapas, de modo que nunca se sabia ao certo quem recebera o que, e muitas das coisas de que mais precisávamos, tais como cintos e cartucheiras, não eram entregues até o último momento, quando o trem já estava esperando para nos levar para o front. Falei do "uniforme" da milícia, o que provavelmente dá uma impressão equivocada. Não era exatamente um uniforme. Talvez um "multiforme" fosse o nome mais adequado para ele. As roupas de todos seguiam o mesmo plano geral, mas nunca chegavam a ser iguais, caso fossem comparadas. Praticamente todos, no exército, usavam culotes de veludo cotêlé, mas terminava aí a uniformidade. Alguns usavam grevas, outros polainas de veludo cotêlé, outros perneiras ou botas de cano alto. Todos usavam uma jaqueta com zíper, mas algumas jaquetas eram de couro, outras de lã, e de todas as cores imagináveis. Os tipos de quepe eram tão numerosos quanto as cabeças que os portavam. Era comum enfeitar a frente do quepe com um distintivo do partido; além disso, quase todos os homens usavam um lenço vermelho ou vermelho e preto ao redor do pescoço. Uma coluna da milícia naquele tempo parecia uma turba extraordinária. Mas as roupas só podiam ser distribuídas à medida que uma ou outra fábrica se apressasse em fornecê-las e, considerando-se as circunstâncias, não eram ruins. As camisas e meias, no entanto, eram umas porcarias de algodão, totalmente inúteis contra o frio. Detesto pensar no quanto os milicianos devem ter sofrido nos primeiros meses, antes que qualquer coisa tivesse sido organizada. Lembro-me de ter visto um jornal de apenas dois meses antes em que um dos líderes do Partido Obrero de Unificación Marxista (poum), depois de uma visita à frente de batalha, dizia que tentaria providenciar para que "cada miliciano tivesse um cobertor". Uma declaração para fazer a pessoa tremer, caso já tenha dormido numa trincheira.

No meu segundo dia no quartel, começou o que era comicamente chamado de "instrução". No começo, houve cenas terríveis de caos. Os recrutas eram na maioria garotos de dezesseis ou dezessete anos, da periferia de Barcelona, cheios de ardor revolucionário, mas completamente ignorantes do significado da guerra. Era impossível até mesmo fazê-los permanecer em fila. Não existia disciplina; se um homem não gostasse de uma ordem, saía das fileiras e discutia ferozmente com o oficial. O tenente que nos preparava era um jovem robusto, de rosto claro e agradável. Tinha sido um oficial do Exército Regular e ainda parecia um, com sua postura elegante e seu uniforme impecável. O curioso é que era um socialista sincero e ardoroso. Até mais do que os próprios soldados, ele insistia em uma igualdade total entre todas as patentes. Lembro-me de sua expressão de magoada surpresa, quando um recruta incauto se dirigiu a ele, tratando-o por "Señor":

— O quê! Señor? Quem está me chamando de Señor? Então não somos todos camaradas?

Duvido que isso lhe facilitasse o trabalho. Ao mesmo tempo, os recrutas inexperientes não faziam nenhum treinamento que fosse ser de qualquer utilidade para eles. Disseram-me que os estrangeiros não eram obrigados a participar da "instrução" (os espanhóis, notara, tinham a crença patética de que todos os estrangeiros sabiam mais sobre assuntos militares do que eles), mas naturalmente apresentei-me com os outros. Estava ansioso para aprender a usar uma metralhadora; arma que nunca tivera a chance de manusear. Foi desanimador descobrir que não nos ensinavam nada sobre armas. A assim chamada instrução era simplesmente ordem unida do tipo mais antiquado e estúpido; direita-volver, esquerda-volver, meia-volta-volver, marcha em continência em colunas de três e todo o resto daquela baboseira inútil que eu aprendera aos quinze anos. Era um tipo de treinamento extraordinário para se dar a um exército de guerrilha. É óbvio que se temos apenas alguns dias para treinar um soldado, devemos ensinar-lhe as coisas de que ele mais precisa: como se proteger, como avançar em terreno aberto, como montar guarda e construir um parapeito — e, acima de tudo, como usar suas armas. Entretanto, aquela malta de crianças ansiosas, que seria despejada na linha de frente em poucos dias, não aprendera sequer a disparar um fuzil ou destravar uma bomba. Na época, não percebi que isso acontecia porque não havia armas disponíveis. Na milícia do poum, a falta de fuzis era tão desesperadora que as tropas novas, ao chegarem à frente de batalha, sempre tinham de pegar os fuzis das que vinham render. Em todo o quartel Lênin não havia, creio, nenhum fuzil, a não ser os usados pelas sentinelas.

Depois de alguns dias, embora ainda não passássemos de uma turba, segundo qualquer padrão aceitável, fomos considerados aptos para aparições públicas e, de manhã, encaminhavam-nos marchando para os jardins públicos, no morro depois da Praça de Espanha. Essa era a área de treinamento de todas as milícias de partido, além dos carabineiros e dos primeiros contingentes do recém-formado Exército Popular. Lá nos jardins públicos, tinha-se uma visão estranha e encorajadora. Em todos os passeios e aléias, por entre os canteiros convencionais, esquadrões e companhias de homens marchavam empertigados de um lado para outro, estufando o peito e tentando desesperadamente parecer soldados. Estavam todos desarmados, e ninguém vestia o uniforme completo, embora na maioria o uniforme da milícia despontasse em retalhos aqui e ali. O procedimento era quase sempre o mesmo. Durante três horas, marchávamos de um lado para outro (o passo de marcha espanhol é muito curto e rápido), então parávamos, dispersávamos e debandávamos sedentos para uma mercearia que ficava no meio da descida e estava fazendo um excelente negócio com vinho barato. Todos eram muito simpáticos comigo. Como inglês, eu era objeto de curiosidade, e os oficiais carabineiros me tinham em alta conta e me pagavam bebidas. Enquanto isso, toda vez que podia pegar nosso tenente num canto, vociferava sobre ser ensinado a usar uma metralhadora. Costumava puxar meu dicionário Hugo do bolso e partir para cima dele, no meu espanhol infame:

— Yo sé manejar fusil. No sé manejar ametralladora. Quiero apprender ametralladora. Quándo vamos aprender ametralladora?

A resposta era sempre um sorriso constrangido e uma promessa de que haveria treinamento de metralhadora mañana. Nem é preciso dizer que mañana nunca chegava. Vários dias se passaram e os recrutas aprenderam a marchar cadenciado e a se colocar em posição de sentido quase com presteza, mas quando muito sabiam de que lado a bala saía do fuzil. Um dia um carabineiro armado caminhou em nossa direção enquanto descansávamos e nos deixou examinar seu fuzil. No fim das contas, em toda a minha seção, ninguém, a não ser eu, sabia como carregar um fuzil e muito menos como fazer pontaria.

Durante todo esse tempo, travava batalhas regulares com a língua espanhola. Além de mim, só havia mais um inglês no quartel, e ninguém, nem mesmo entre os oficiais, falava uma palavra

de francês. As coisas não melhoravam em nada para mim pelo fato de meus companheiros, ao falarem entre si, normalmente falarem catalão. O único jeito de me virar era carregar por toda parte meu pequeno dicionário, que sacava do bolso em momentos de crise. Mas antes ser um estrangeiro na Espanha do que na maioria dos outros países. Como é fácil fazer amigos na Espanha! Em um ou dois dias já havia uma porção de milicianos que me chamavam pelo primeiro nome, davam dicas e me cumulavam de hospitalidade. Não estou escrevendo um livro de propaganda e não quero idealizar a milícia do poum. Todo o sistema de milícias tinha falhas graves e os próprios soldados eram um bando heterogêneo, pois, por essa época, o recrutamento voluntário estava diminuindo e muitos dos melhores soldados já estavam no front ou mortos. Havia sempre entre nós uma certa porcentagem que era completamente inútil. Garotos de quinze anos eram trazidos pelos pais para se alistar, sem esconder que o faziam por causa do soldo do miliciano, dez pesetas por dia, e também por causa do pão que a milícia recebia em quantidade e que podia ser contrabandeado para a casa dos pais. Mas desafio qualquer um que fosse lançado, como fui, no meio da classe trabalhadora espanhola — talvez devesse dizer classe trabalhadora catalã, pois salvo alguns aragoneses e andaluzes, eu só andava com catalães — a não ficar tocado pela sua decência intrínseca; acima de tudo, pela sua franqueza e generosidade. A generosidade de um espanhol, no sentido comum da palavra, é, às vezes, embaraçosa. Se você lhe pede um cigarro, ele faz questão que fique com todo o maço. Além disso, existe uma generosidade no sentido mais profundo, uma verdadeira largueza de espírito, que encontrei várias vezes nas circunstâncias menos promissoras. Alguns jornalistas e outros estrangeiros que viajaram pela Espanha durante a guerra declararam que, em segredo, os espanhóis amargavam ciúmes da ajuda estrangeira. Tudo que posso dizer é que nunca observei nada parecido. Lembro-me de que, alguns dias antes de deixar o quartel, um grupo de homens voltou de licença do front. Contavam animadamente suas experiências e mostravam-se muito entusiasmados com algumas tropas francesas que estiveram a seu lado em Huesca. Os franceses eram muito corajosos, diziam; completando com entusiasmo:

— Más valientes que nosostros!

Claro que contestei, ao que replicaram dizendo que os franceses sabiam mais sobre a arte da guerra — eram melhores conhecedores de bombas, metralhadoras e assim por diante. Todavia o comentário era significativo. Um inglês preferiria arrancar a própria mão a dizer algo assim.

Todos os estrangeiros que serviam nas milícias passavam as primeiras semanas aprendendo a amar os espanhóis e exasperando-se com algumas de suas características. Na linha de frente, minha exasperação às vezes atingia o ápice da fúria. Os espanhóis são bons em muitas coisas, mas não em fazer guerras. Todos os estrangeiros ficam igualmente estarrecidos com a ineficiência deles, sobretudo com sua enlouquecedora falta de pontualidade. A palavra espanhola que nenhum estrangeiro pode deixar de aprender é mañana, amanhã. Em todas as vezes possíveis de se imaginar, adia-se o trabalho de hoje até mañana. É tão notório que até os espanhóis fazem piadas a respeito. Na Espanha nada, de uma refeição a uma batalha, jamais ocorre na hora prevista. Via de regra as coisas acontecem muito mais tarde, mas em algumas poucas ocasiões — só para que você não seja capaz de se acostumar com o fato de acontecerem mais tarde — elas acontecem muito mais cedo. Um trem que deve partir às oito, normalmente partirá a qualquer momento entre nove e dez, mas talvez uma vez por semana, graças a um capricho íntimo do maquinista, ele parta às sete e meia. Essas coisas podem ser um pouco desgastantes. Em teoria, admiro muito os espanhóis por não compartilharem da neurose temporal dos setentrionais; mas, infelizmente, eu mesmo compartilho dela.

Depois de incontáveis boatos, mañanas e atrasos, de repente recebemos ordens para ir para o front, com duas horas de antecedência, quando grande parte de nosso equipamento ainda não tinha sido distribuída. Houve tumultos terríveis na intendência; por fim, vários homens tiveram de partir sem o equipamento completo. O quartel imediatamente se encheu de mulheres que pareciam ter brotado do chão e ajudavam seus homens a enrolar os cobertores e preparar as mochilas. Foi muito humilhante ter sido ensinado a colocar minhas novas cartucheiras de couro por uma moça espanhola, a mulher de Williams, o outro miliciano inglês. Era uma criatura delicada, de olhos escuros, intensamente feminina, que parecia ter como único trabalho na vida balançar um berço, mas que na verdade lutara bravamente nas batalhas de rua, em julho. Naquele momento, estava carregando um bebê que nascera exatos dez meses depois do início da guerra, e que talvez tenha sido gerado atrás de uma barricada.

O trem deveria sair às oito, e eram oito e dez quando os oficiais, suados e atordoados, conseguiram nos reunir na praça do quartel. Lembro-me muito vividamente da cena, iluminada por tochas: o alvoroço e a excitação, as bandeiras vermelhas adejando à luz das tochas, as fileiras compactas de milicianos com suas mochilas nas costas e seus cobertores enrolados e atravessados no ombro a tiracolo; e os gritos e o bater de botas e vasilhas de lata e, depois, um tremendo e finalmente bem-sucedido assobio pedindo silêncio; e depois, em pé, debaixo de um imenso e ondulante estandarte vermelho, algum comissário político nos fazendo um discurso em catalão. Finalmente, marcharam conosco para a estação, tomando o caminho mais longo, cinco ou seis quilômetros, a fim de nos exibirem para toda a cidade. Na Ramblas, fizeram-nos parar enquanto uma banda improvisada tocava uma ou outra música revolucionária. Mais uma vez aquela história do herói conquistador — gritos e entusiasmo, bandeiras vermelhas e bandeiras rubro-negras por toda a parte, multidões amistosas entupindo as calçadas para ver-nos, mulheres acenando das janelas. Como tudo parecia natural, então; agora, como é remoto e inacreditável! O trem estava tão lotado de homens que mal havia lugar no chão, que dirá nos assentos. No último instante, a mulher de Williams veio correndo pela plataforma e nos deu uma garrafa de vinho e um palmo daquela salsicha vermelho-vivo que tem gosto de sabão e dá diarréia. O trem se arrastava saindo da Catalunha e entrando no planalto de Aragão na velocidade normal de tempos de guerra, algo abaixo dos vinte quilômetros por hora.


 
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