Lutando
na Espanha, de George Orwell (tradução de Ana Helena Souza;
Globo; 400 páginas; 45 reais) Conhecido por seu jornalismo combativo
e libertário, o escritor inglês George Orwell (1903-1950) lutou na
Guerra Civil Espanhola contra as tropas fascistas de Franco e também
contra os comunistas que esfacelaram a causa republicana. Essa experiência
foi fundamental para a crítica que Orwell faria a todas as formas de totalitarismo
em livros como 1984. Lutando na Espanha reúne vários
ensaios de Orwell sobre a Espanha. Homenagem à Catalunha, suas memórias
da guerra, aparece em nova tradução, incorporando revisões
que o autor fez pouco antes de morrer.
Leia
trecho No
quartel Lênin em Barcelona, um dia antes de ingressar na milícia,
vi um miliciano italiano de pé, em frente à mesa dos oficiais. Era
um jovem com ar de durão, de vinte e cinco ou vinte e seis anos, cabelos
louro-avermelhados e ombros largos. Seu quepe pontudo de couro estava puxado ferozmente
sobre um olho. De perfil para mim, queixo no peito, olhava intrigado, de cenho
franzido, um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa. Algo em seu rosto me
tocou profundamente. Era o rosto de um homem que iria matar e jogar sua vida fora
por um amigo — o tipo de rosto que se esperaria num anarquista, embora, contra
todas as expectativas, ele fosse comunista. Havia tanto candura quanto ferocidade
nele; havia, também, a reverência patética que os analfabetos
têm para com seus supostos superiores. Era óbvio que o mapa não
tinha nem pé nem cabeça para ele; era óbvio que ele encarava
a leitura de um mapa como um feito intelectual estupendo. Difícil saber
por que, mas raramente encontrei alguém — quer dizer, algum homem — que
tenha me agradado tão de imediato. Enquanto conversavam ao redor da mesa,
alguma observação trouxe à tona que eu era estrangeiro. O
italiano levantou a cabeça e disse logo: —
Italiano? Respondi
com meu espanhol ruim: —
No, Inglés. Y tú? —
Italiano. Quando
saímos, ele cruzou a sala e apertou minha mão com força.
Estranho, a afeição que se pode sentir por um desconhecido! Foi
como se o espírito dele e o meu tivessem por um instante conseguido atravessar
o abismo da linguagem e das tradições e se conhecer na mais profunda
intimidade. Esperava que ele gostasse de mim tanto quanto gostava dele. Mas também
sabia que para conservar minha primeira impressão não deveria vê-lo
de novo; e, nem é preciso dizer que nunca mais o vi de novo. Estávamos
sempre fazendo contatos desse tipo na Espanha. Falo
sobre esse miliciano italiano, porque ele se fixou vividamente à minha
memória. Com seu uniforme mal-amanhado e seu rosto patético e feroz,
tornou-se típico para mim da atmosfera especial daquela época. Está
entranhado em todas as minhas recordações daquele período
da guerra: as bandeiras vermelhas em Barcelona, os trens sombrios, cheios de soldados
malvestidos, arrastando-se para o front e, mais adiante na linha, as cidades cinzentas
devastadas pela guerra, as trincheiras enlameadas e geladas nas montanhas. Estávamos
no fim de dezembro de 1936, há menos de sete meses de quando escrevo e,
no entanto, é um período que já recuou a uma distância
enorme. De resto, acontecimentos posteriores o obliteraram muito mais completamente
do que o ano de 1935, ou mesmo o de 1905. Viera para a Espanha com a vaga idéia
de escrever artigos para a imprensa, mas ingressei na milícia quase imediatamente,
porque naquele tempo e naquela atmosfera parecia a única coisa imaginável
a se fazer. Os anarquistas tinham o controle virtual da Catalunha, e a revolução
ainda ia de vento em popa. Para qualquer um que estivesse lá desde o começo,
provavelmente parecia, já em dezembro ou janeiro, que o período
revolucionário estivesse terminando; mas para alguém vindo direto
da Inglaterra, o aspecto de Barcelona era algo surpreendente e irresistível.
Pela primeira vez na vida me encontrava numa cidade onde a classe trabalhadora
estava no comando. Praticamente todos os prédios, do tamanho que fosse,
tinham sido tomados pelos trabalhadores e estavam enfeitados com bandeiras vermelhas
ou com a bandeira rubro-negra dos anarquistas; todas as paredes estavam rabiscadas
com a foice e o martelo e com as iniciais dos partidos revolucionários;
quase todas as igrejas tinham sido pilhadas e suas imagens queimadas. Igrejas
aqui e ali estavam sendo sistematicamente demolidas por bandos de trabalhadores.
Todas as lojas e cafés exibiam uma inscrição dizendo que
tinham sido coletivizadas; até mesmo os engraxates tinham sido coletivizados
e suas caixas pintadas de vermelho e preto. Garçons e lojistas nos encaravam
e nos tratavam de igual para igual. As formas de tratamento servis e até
mesmo as de cortesia haviam desaparecido temporariamente. Ninguém dizia
"señor" ou "don" ou mesmo "usted"; todo mundo
chamava todo mundo de "camarada" e "tu", e dizia "salud"
ao invés de "buenos días". Uma de minhas primeiras experiências
foi levar uma lição do gerente do hotel por tentar oferecer uma
gorjeta ao ascensorista. Não havia carros particulares, eles tinham sido
confiscados, e todos os bondes e táxis e a maior parte dos demais meios
de transporte tinham sido pintados de vermelho e preto. Os cartazes revolucionários
estavam por toda a parte, flamejantes nas paredes com seus vermelhos e azuis vivos,
que faziam os poucos anúncios restantes parecerem estuques de lama. Descendo
a Ramblas, a larga artéria central da cidade onde multidões fluíam
sem parar, de um lado para o outro, auto-falantes berravam canções
revolucionárias o dia inteiro e noite adentro. E era o aspecto das multidões
a coisa mais estranha de todas. Na aparência exterior, era uma cidade em
que as classes abastadas tinham praticamente deixado de existir. Exceto por um
pequeno número de mulheres e estrangeiros, não havia pessoas "bem
vestidas" de jeito nenhum. Praticamente todo mundo usava as roupas rudes
da classe trabalhadora, ou macacões azuis, ou alguma variante do uniforme
da milícia. Tudo isso era estranho e emocionante. Havia muita coisa que
eu não compreendia, e de muitas delas de certa forma nem gostava, mas reconheci
imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar. Também
acreditava que as coisas eram como pareciam ser, que aquele era realmente um Estado
dos trabalhadores e que toda a burguesia tinha fugido, ou sido morta, ou passado
voluntariamente para o lado dos trabalhadores; não percebia que muitos
dos burgueses abastados estavam simplesmente escondidos e disfarçados de
proletários, por enquanto. Junto
com tudo isso, havia algo da atmosfera demoníaca da guerra. A cidade tinha
uma aparência suja e lúgubre, vias e prédios estavam em mau
estado; à noite, as ruas eram pouco iluminadas, por temerem ataques aéreos,
a maioria das lojas estava desmazelada e semivazia. A carne era pouca e o leite
praticamente impossível de se obter; havia escassez de carvão, açúcar
e gasolina, e a escassez de pão era gravíssima. Já nesse
período, as filas para consegui-lo se estendiam por centenas de metros.
Ainda assim, até onde se podia perceber, as pessoas estavam satisfeitas
e esperançosas. Não havia desemprego e o custo de vida ainda era
extremamente baixo; encontravam-se muito poucos pobres de fato e nenhum mendigo,
com exceção dos ciganos. Acima de tudo, havia uma crença
na revolução e no futuro, um sentimento de ter-se subitamente emergido
numa era de igualdade e liberdade. Os seres humanos estavam tentando se comportar
como seres humanos e não como dentes da engrenagem capitalista. Nas barbearias
havia cartazes anarquistas (os barbeiros eram na maioria anarquistas), nos quais
se explicava solenemente que os barbeiros não eram mais escravos. Nas ruas,
cartazes coloridos conclamavam as prostitutas a deixarem de ser prostitutas. Para
qualquer um que viesse da calejada e sarcástica civilização
das raças de língua inglesa, havia algo de muito patético
no caráter literal com que aqueles espanhóis idealistas empregavam
as desgastadas expressões da revolução. Naquela época,
as baladas revolucionárias de teor mais ingênuo, todas sobre a irmandade
proletária e a maldade de Mussolini, eram vendidas nas ruas por alguns
centavos cada. Muitas vezes vi milicianos semi-analfabetos comprarem uma dessas
baladas, soletrarem com dificuldade a letra e depois, quando pegavam o jeito,
saírem cantarolando com uma melodia adequada. Estive
todo esse tempo no quartel Lênin, em treinamento ostensivo para o front.
Quando ingressei na milícia, disseram-me que seria enviado para lá
no dia seguinte, mas na verdade tive de esperar enquanto uma nova centúria
era preparada. As milícias dos trabalhadores, formadas apressadamente pelos
sindicatos no começo da guerra, ainda não tinham sido organizadas
em uma estrutura de exército comum. As unidades de comando eram a "seção"
com cerca de trinta homens, a centúria, com cerca de cem homens e a "coluna"
que, na prática, queria dizer qualquer número maior de homens. O
quartel Lênin era um conjunto de prédios de pedra maravilhoso, com
uma escola de equitação e enormes pátios pavimentados com
paralelepípedos; tinha sido um quartel de cavalaria e fora capturado durante
as lutas de julho. A minha centúria dormia num dos estábulos sob
os cochos de pedra onde os nomes dos cavalos de batalha ainda estavam inscritos.
Todos os cavalos tinham sido confiscados e mandados para o front, mas o lugar
inteiro ainda cheirava a mijo de cavalo e aveia podre. Fiquei no quartel mais
ou menos uma semana. Lembro-me sobretudo do cheiro dos cavalos, dos trêmulos
toques de corneta (todos os corneteiros eram amadores — só fui aprender
os toques de corneta espanhóis ao ouvi-los do outro lado das linhas fascistas),
do tropel das botas de tachões no pátio do quartel, das longas marchas
matinais sob o sol de inverno, das desenfreadas partidas de futebol, com cinqüenta
de cada lado, no saibro da escola de equitação. Talvez houvesse
mil homens no quartel e umas vinte mulheres mais ou menos, fora as esposas dos
milicianos, que faziam a comida. Ainda havia mulheres servindo nas milícias,
embora não muitas. Nas primeiras batalhas, lutaram lado a lado com os homens,
normalmente. Porém, as idéias já estavam mudando. Os milicianos
tinham de ser mantidos fora da escola de equitação, enquanto as
mulheres recebiam treinamento, porque riam delas e as desconcertavam. Poucos meses
antes, ninguém teria visto nada de cômico numa mulher empunhando
uma arma. O
quartel inteiro estava no estado de imundície e caos ao qual a milícia
reduzia cada prédio que ocupava, e que parecia ser um dos subprodutos da
revolução. Em cada canto encontrávamos pilhas de mobília
destroçada, selas quebradas, capacetes de latão da cavalaria, bainhas
de sabre vazias e comida apodrecendo. Havia um terrível desperdício
de comida, de pão sobretudo. Só de meu alojamento, uma cesta cheia
de pão era jogada fora a cada refeição — uma coisa vergonhosa,
quando faltava pão para a população civil. Comíamos
em compridas mesas armadas sobre cavaletes, usando vasilhas de lata permanentemente
engorduradas, e bebíamos usando uma coisa horrorosa chamada porrón.
Um porrón é uma espécie de garrafa de vidro com uma biqueira
pontuda, da qual espirra um jato de vinho toda vez que se vira o fundo para cima;
assim, pode-se beber a distância, sem tocá-la com os lábios
e pode passar de mão em mão. Entrei em greve e exigi uma caneca
assim que vi um porrón sendo usado. Aos meus olhos, aquelas coisas pareciam-se
demais com urinóis, sobretudo quando cheias de vinho branco. Aos
poucos, distribuíam-se os uniformes para os recrutas e, porque esta era
a Espanha, tudo era distribuído por etapas, de modo que nunca se sabia
ao certo quem recebera o que, e muitas das coisas de que mais precisávamos,
tais como cintos e cartucheiras, não eram entregues até o último
momento, quando o trem já estava esperando para nos levar para o front.
Falei do "uniforme" da milícia, o que provavelmente dá
uma impressão equivocada. Não era exatamente um uniforme. Talvez
um "multiforme" fosse o nome mais adequado para ele. As roupas de todos
seguiam o mesmo plano geral, mas nunca chegavam a ser iguais, caso fossem comparadas.
Praticamente todos, no exército, usavam culotes de veludo cotêlé,
mas terminava aí a uniformidade. Alguns usavam grevas, outros polainas
de veludo cotêlé, outros perneiras ou botas de cano alto. Todos usavam
uma jaqueta com zíper, mas algumas jaquetas eram de couro, outras de lã,
e de todas as cores imagináveis. Os tipos de quepe eram tão numerosos
quanto as cabeças que os portavam. Era comum enfeitar a frente do quepe
com um distintivo do partido; além disso, quase todos os homens usavam
um lenço vermelho ou vermelho e preto ao redor do pescoço. Uma coluna
da milícia naquele tempo parecia uma turba extraordinária. Mas as
roupas só podiam ser distribuídas à medida que uma ou outra
fábrica se apressasse em fornecê-las e, considerando-se as circunstâncias,
não eram ruins. As camisas e meias, no entanto, eram umas porcarias de
algodão, totalmente inúteis contra o frio. Detesto pensar no quanto
os milicianos devem ter sofrido nos primeiros meses, antes que qualquer coisa
tivesse sido organizada. Lembro-me de ter visto um jornal de apenas dois meses
antes em que um dos líderes do Partido Obrero de Unificación Marxista
(poum), depois de uma visita à frente de batalha, dizia que tentaria providenciar
para que "cada miliciano tivesse um cobertor". Uma declaração
para fazer a pessoa tremer, caso já tenha dormido numa trincheira. No
meu segundo dia no quartel, começou o que era comicamente chamado de "instrução".
No começo, houve cenas terríveis de caos. Os recrutas eram na maioria
garotos de dezesseis ou dezessete anos, da periferia de Barcelona, cheios de ardor
revolucionário, mas completamente ignorantes do significado da guerra.
Era impossível até mesmo fazê-los permanecer em fila. Não
existia disciplina; se um homem não gostasse de uma ordem, saía
das fileiras e discutia ferozmente com o oficial. O tenente que nos preparava
era um jovem robusto, de rosto claro e agradável. Tinha sido um oficial
do Exército Regular e ainda parecia um, com sua postura elegante e seu
uniforme impecável. O curioso é que era um socialista sincero e
ardoroso. Até mais do que os próprios soldados, ele insistia em
uma igualdade total entre todas as patentes. Lembro-me de sua expressão
de magoada surpresa, quando um recruta incauto se dirigiu a ele, tratando-o por
"Señor": —
O quê! Señor? Quem está me chamando de Señor? Então
não somos todos camaradas? Duvido
que isso lhe facilitasse o trabalho. Ao mesmo tempo, os recrutas inexperientes
não faziam nenhum treinamento que fosse ser de qualquer utilidade para
eles. Disseram-me que os estrangeiros não eram obrigados a participar da
"instrução" (os espanhóis, notara, tinham a crença
patética de que todos os estrangeiros sabiam mais sobre assuntos militares
do que eles), mas naturalmente apresentei-me com os outros. Estava ansioso para
aprender a usar uma metralhadora; arma que nunca tivera a chance de manusear.
Foi desanimador descobrir que não nos ensinavam nada sobre armas. A assim
chamada instrução era simplesmente ordem unida do tipo mais antiquado
e estúpido; direita-volver, esquerda-volver, meia-volta-volver, marcha
em continência em colunas de três e todo o resto daquela baboseira
inútil que eu aprendera aos quinze anos. Era um tipo de treinamento extraordinário
para se dar a um exército de guerrilha. É óbvio que se temos
apenas alguns dias para treinar um soldado, devemos ensinar-lhe as coisas de que
ele mais precisa: como se proteger, como avançar em terreno aberto, como
montar guarda e construir um parapeito — e, acima de tudo, como usar suas armas.
Entretanto, aquela malta de crianças ansiosas, que seria despejada na linha
de frente em poucos dias, não aprendera sequer a disparar um fuzil ou destravar
uma bomba. Na época, não percebi que isso acontecia porque não
havia armas disponíveis. Na milícia do poum, a falta de fuzis era
tão desesperadora que as tropas novas, ao chegarem à frente de batalha,
sempre tinham de pegar os fuzis das que vinham render. Em todo o quartel Lênin
não havia, creio, nenhum fuzil, a não ser os usados pelas sentinelas. Depois
de alguns dias, embora ainda não passássemos de uma turba, segundo
qualquer padrão aceitável, fomos considerados aptos para aparições
públicas e, de manhã, encaminhavam-nos marchando para os jardins
públicos, no morro depois da Praça de Espanha. Essa era a área
de treinamento de todas as milícias de partido, além dos carabineiros
e dos primeiros contingentes do recém-formado Exército Popular.
Lá nos jardins públicos, tinha-se uma visão estranha e encorajadora.
Em todos os passeios e aléias, por entre os canteiros convencionais, esquadrões
e companhias de homens marchavam empertigados de um lado para outro, estufando
o peito e tentando desesperadamente parecer soldados. Estavam todos desarmados,
e ninguém vestia o uniforme completo, embora na maioria o uniforme da milícia
despontasse em retalhos aqui e ali. O procedimento era quase sempre o mesmo. Durante
três horas, marchávamos de um lado para outro (o passo de marcha
espanhol é muito curto e rápido), então parávamos,
dispersávamos e debandávamos sedentos para uma mercearia que ficava
no meio da descida e estava fazendo um excelente negócio com vinho barato.
Todos eram muito simpáticos comigo. Como inglês, eu era objeto de
curiosidade, e os oficiais carabineiros me tinham em alta conta e me pagavam bebidas.
Enquanto isso, toda vez que podia pegar nosso tenente num canto, vociferava sobre
ser ensinado a usar uma metralhadora. Costumava puxar meu dicionário Hugo
do bolso e partir para cima dele, no meu espanhol infame: —
Yo sé manejar fusil. No sé manejar ametralladora. Quiero apprender
ametralladora. Quándo vamos aprender ametralladora? A
resposta era sempre um sorriso constrangido e uma promessa de que haveria treinamento
de metralhadora mañana. Nem é preciso dizer que mañana nunca
chegava. Vários dias se passaram e os recrutas aprenderam a marchar cadenciado
e a se colocar em posição de sentido quase com presteza, mas quando
muito sabiam de que lado a bala saía do fuzil. Um dia um carabineiro armado
caminhou em nossa direção enquanto descansávamos e nos deixou
examinar seu fuzil. No fim das contas, em toda a minha seção, ninguém,
a não ser eu, sabia como carregar um fuzil e muito menos como fazer pontaria. Durante
todo esse tempo, travava batalhas regulares com a língua espanhola. Além
de mim, só havia mais um inglês no quartel, e ninguém, nem
mesmo entre os oficiais, falava uma palavra de
francês. As coisas não melhoravam em nada para mim pelo fato de meus
companheiros, ao falarem entre si, normalmente falarem catalão. O único
jeito de me virar era carregar por toda parte meu pequeno dicionário, que
sacava do bolso em momentos de crise. Mas antes ser um estrangeiro na Espanha
do que na maioria dos outros países. Como é fácil fazer amigos
na Espanha! Em um ou dois dias já havia uma porção de milicianos
que me chamavam pelo primeiro nome, davam dicas e me cumulavam de hospitalidade.
Não estou escrevendo um livro de propaganda e não quero idealizar
a milícia do poum. Todo o sistema de milícias tinha falhas graves
e os próprios soldados eram um bando heterogêneo, pois, por essa
época, o recrutamento voluntário estava diminuindo e muitos dos
melhores soldados já estavam no front ou mortos. Havia sempre entre nós
uma certa porcentagem que era completamente inútil. Garotos de quinze anos
eram trazidos pelos pais para se alistar, sem esconder que o faziam por causa
do soldo do miliciano, dez pesetas por dia, e também por causa do pão
que a milícia recebia em quantidade e que podia ser contrabandeado para
a casa dos pais. Mas desafio qualquer um que fosse lançado, como fui, no
meio da classe trabalhadora espanhola — talvez devesse dizer classe trabalhadora
catalã, pois salvo alguns aragoneses e andaluzes, eu só andava com
catalães — a não ficar tocado pela sua decência intrínseca;
acima de tudo, pela sua franqueza e generosidade. A generosidade de um espanhol,
no sentido comum da palavra, é, às vezes, embaraçosa. Se
você lhe pede um cigarro, ele faz questão que fique com todo o maço.
Além disso, existe uma generosidade no sentido mais profundo, uma verdadeira
largueza de espírito, que encontrei várias vezes nas circunstâncias
menos promissoras. Alguns jornalistas e outros estrangeiros que viajaram pela
Espanha durante a guerra declararam que, em segredo, os espanhóis amargavam
ciúmes da ajuda estrangeira. Tudo que posso dizer é que nunca observei
nada parecido. Lembro-me de que, alguns dias antes de deixar o quartel, um grupo
de homens voltou de licença do front. Contavam animadamente suas experiências
e mostravam-se muito entusiasmados com algumas tropas francesas que estiveram
a seu lado em Huesca. Os franceses eram muito corajosos, diziam; completando com
entusiasmo: —
Más valientes que nosostros! Claro
que contestei, ao que replicaram dizendo que os franceses sabiam mais sobre a
arte da guerra — eram melhores conhecedores de bombas, metralhadoras e assim por
diante. Todavia o comentário era significativo. Um inglês preferiria
arrancar a própria mão a dizer algo assim. Todos
os estrangeiros que serviam nas milícias passavam as primeiras semanas
aprendendo a amar os espanhóis e exasperando-se com algumas de suas características.
Na linha de frente, minha exasperação às vezes atingia o
ápice da fúria. Os espanhóis são bons em muitas coisas,
mas não em fazer guerras. Todos os estrangeiros ficam igualmente estarrecidos
com a ineficiência deles, sobretudo com sua enlouquecedora falta de pontualidade.
A palavra espanhola que nenhum estrangeiro pode deixar de aprender é mañana,
amanhã. Em todas as vezes possíveis de se imaginar, adia-se o trabalho
de hoje até mañana. É tão notório que até
os espanhóis fazem piadas a respeito. Na Espanha nada, de uma refeição
a uma batalha, jamais ocorre na hora prevista. Via de regra as coisas acontecem
muito mais tarde, mas em algumas poucas ocasiões — só para que você
não seja capaz de se acostumar com o fato de acontecerem mais tarde — elas
acontecem muito mais cedo. Um trem que deve partir às oito, normalmente
partirá a qualquer momento entre nove e dez, mas talvez uma vez por semana,
graças a um capricho íntimo do maquinista, ele parta às sete
e meia. Essas coisas podem ser um pouco desgastantes. Em teoria, admiro muito
os espanhóis por não compartilharem da neurose temporal dos setentrionais;
mas, infelizmente, eu mesmo compartilho dela. Depois
de incontáveis boatos, mañanas e atrasos, de repente recebemos ordens
para ir para o front, com duas horas de antecedência, quando grande parte
de nosso equipamento ainda não tinha sido distribuída. Houve tumultos
terríveis na intendência; por fim, vários homens tiveram de
partir sem o equipamento completo. O quartel imediatamente se encheu de mulheres
que pareciam ter brotado do chão e ajudavam seus homens a enrolar os cobertores
e preparar as mochilas. Foi muito humilhante ter sido ensinado a colocar minhas
novas cartucheiras de couro por uma moça espanhola, a mulher de Williams,
o outro miliciano inglês. Era uma criatura delicada, de olhos escuros, intensamente
feminina, que parecia ter como único trabalho na vida balançar um
berço, mas que na verdade lutara bravamente nas batalhas de rua, em julho.
Naquele momento, estava carregando um bebê que nascera exatos dez meses
depois do início da guerra, e que talvez tenha sido gerado atrás
de uma barricada. O
trem deveria sair às oito, e eram oito e dez quando os oficiais, suados
e atordoados, conseguiram nos reunir na praça do quartel. Lembro-me muito
vividamente da cena, iluminada por tochas: o alvoroço e a excitação,
as bandeiras vermelhas adejando à luz das tochas, as fileiras compactas
de milicianos com suas mochilas nas costas e seus cobertores enrolados e atravessados
no ombro a tiracolo; e os gritos e o bater de botas e vasilhas de lata e, depois,
um tremendo e finalmente bem-sucedido assobio pedindo silêncio; e depois,
em pé, debaixo de um imenso e ondulante estandarte vermelho, algum comissário
político nos fazendo um discurso em catalão. Finalmente, marcharam
conosco para a estação, tomando o caminho mais longo, cinco ou seis
quilômetros, a fim de nos exibirem para toda a cidade. Na Ramblas, fizeram-nos
parar enquanto uma banda improvisada tocava uma ou outra música revolucionária.
Mais uma vez aquela história do herói conquistador — gritos e entusiasmo,
bandeiras vermelhas e bandeiras rubro-negras por toda a parte, multidões
amistosas entupindo as calçadas para ver-nos, mulheres acenando das janelas.
Como tudo parecia natural, então; agora, como é remoto e inacreditável!
O trem estava tão lotado de homens que mal havia lugar no chão,
que dirá nos assentos. No último instante, a mulher de Williams
veio correndo pela plataforma e nos deu uma garrafa de vinho e um palmo daquela
salsicha vermelho-vivo que tem gosto de sabão e dá diarréia.
O trem se arrastava saindo da Catalunha e entrando no planalto de Aragão
na velocidade normal de tempos de guerra, algo abaixo dos vinte quilômetros
por hora. |