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Um Espetáculo de Corrupção, de David Liss (tradução de Flávia Rössler; Record; 494 páginas; 52,90 reais) – O primeiro romance de Liss, A Conspiração de Papel, era um thriller histórico que tinha como pano de fundo um escândalo financeiro em Londres no século XVIII. O herói era Benjamin Weaver, um pugilista judeu aposentado que faz as vezes de detetive. Em Um Espetáculo de Corrupção, Weaver retorna, agora para investigar um crime que o leva aos sujos bastidores de uma eleição parlamentar na Inglaterra do rei George. Ao lado de uma trama policial envolvente, Liss compõe um painel fascinante da vida inglesa no século XVIII.

Leia trecho

Um

Desde a publicação do primeiro volume de minhas memórias descobri que eu era objeto de uma notoriedade que jamais conhecera nem poderia ter antecipado. Não posso registrar nenhuma queixa ou descontentamento, pois quem decide se expor ao público não tem motivo para reclamar da atenção recebida. Ao contrário, deve agradecer se o público decide voltar seu olhar inconstante na sua direção, uma verdade comprovada pelos incontáveis volumes que sofrem com a maldição da obscuridade do autor.

Devo ser franco e confessar que me senti gratificado com o calor com que os leitores responderam aos relatos de meus primeiros anos, embora tenha ficado surpreso também... surpreso com as pessoas que lêem algumas poucas linhas de minhas reminiscências e passam a se considerar amigos próximos, a ponto de tomar a liberdade de se abrir comigo. E embora não veja nada de errado em alguém que leu atentamente minhas palavras se julgar no direito de fazer observações sobre elas, confesso que tenho me sentido confuso com o número de leitores que acreditam que podem comentar impunemente todo e qualquer aspecto de minha vida, sem levar em consideração, por um momento que seja, se esta é uma atitude adequada.

Alguns meses após a publicação de meu pequeno livro de memórias, participei de um jantar em que mencionei um criminoso particularmente nocivo que eu pretendia levar à justiça. Um jovem impulsivo, em quem eu jamais botara os olhos, virou-se para mim e disse que o sujeito devia tomar cuidado para não ter o mesmo fim de Walter Yate. Dirigiu-me em seguida um sorriso maroto, como se ele e eu partilhássemos um segredo.

Meu espanto foi tamanho que não consegui pronunciar uma única palavra. Não pensava em Walter Yate já havia algum tempo e não imaginava que seu nome ainda fosse lembrado passados tantos anos. Mas acabei descobrindo que, embora eu não pensasse mais naquele pobre sujeito, outros pensavam. Menos de duas semanas mais tarde outro homem, também desconhecido, fez um comentário sobre determinada dificuldade que enfrentei, dizendo que eu devia dar ao assunto o mesmo tratamento que dera à minha questão com Walter Yate. Pronunciou o nome com um movimento zombeteiro de cabeça e uma piscadela, como se, por ter dito tal disparate, ele e eu passássemos a ser, a partir daquele instante, felizes cúmplices.

Não me ofende que esses homens tenham se referido a incidentes de meu passado. O que me deixa perplexo, no entanto, é que se sintam à vontade para falar sobre um fato que desconhecem. Não consigo expressar o quanto me espanta que tais pessoas, acreditando no que julgam saber sobre o incidente, comentem-no comigo, tanto mais que o fazem com uma não pequena dose de animação. Mas é bom não esquecer que quem brinca com fogo pode se queimar.

Decidi, então, que devia escrever mais um volume de memórias, ainda que pelo único motivo de livrar o mundo de idéias incorretas sobre este capítulo de minha história. Não desejo mais ouvir o nome de Walter Yate pronunciado em tom malicioso e secreto. Esse homem, pelo que sei, nada fez para merecer se tornar motivo de risos abafados. Portanto, devo dizer agora, de uma vez por todas, que não cometi nenhuma violência contra o Sr. Yate... muito menos violência extrema... coisa em que, descobri, o mundo inteiro acredita. Além disso, se me permitem esclarecer o público sobre outra interpretação errônea, afirmo que não foi apelando para a influência de amigos no governo que escapei da mais terrível das punições por esse assassinato. Nenhuma das duas histórias é verdadeira. Não tive conhecimento desses boatos porque ninguém me falou sobre eles antes. Mas agora, após publicar algumas palavras sobre minha vida, sou amigo de todo mundo. Permitam-me então cumprir a missão de amigo e revelar os fatos sobre o incidente, ainda que por nenhum outro motivo senão o de que ele não deve mais ser mencionado.

Walter Yate morreu, golpeado na cabeça com uma barra de ferro, apenas seis dias antes de a Suprema Corte se reunir e por isso, misericordiosamente, tive pouco tempo após ser preso para refletir sobre minha condição enquanto aguardava julgamento. Serei franco: eu poderia ter feito melhor uso daquele tempo, mas nem por um momento acreditei, acreditei de fato, que seria condenado por um crime que não cometera... o assassinato de um homem de quem muito pouco ouvira falar até sua morte. Devia ter acreditado, mas não acreditei.

Tão grande era minha confiança que muitas vezes me surpreendia ao perceber que mal escutava as palavras que eram ditas em meu próprio julgamento. Ao contrário, ficava atento ao público que apinhava a sala de tribunal instalada a céu aberto. Caía uma garoa fina naquele dia e uma friagem considerável dominava o ar de fevereiro, mas a multidão chegava, assim mesmo, e apinhava os bancos toscos e lascados, os corpos curvados contra a umidade, para assistir aos procedimentos que tinham recebido algum destaque nos jornais. Os espectadores acomodavam-se enquanto comiam laranjas, maçãs e tortinhas recheadas de carneiro, fumavam seus cachimbos e cheiravam rapé. Urinavam em pinicos colocados nos cantos e jogavam as conchas de suas ostras aos pés dos jurados. Murmuravam, aplaudiam e sacudiam a cabeça como se tudo não passasse de um enorme espetáculo de marionetes encenado para diverti-los.

Suponho que eu devesse estar satisfeito por ser motivo de tamanha curiosidade pública, porém não encontrava prazer na notoriedade. Não quando ela não estava lá, a mulher que eu mais desejava ver em meus momentos de tristeza. Se fosse para ser condenado, pensei (apenas num sentido romântico, pois não esperava receber uma condenação mais do que esperava ser eleito prefeito de uma grande cidade), só queria que ela se aproximasse e chorasse aos meus pés, que me falasse de sua angústia. Queria sentir seus beijos lacrimosos em meu rosto. Queria que suas mãos nuas, rudes e ásperas tomassem as minhas enquanto implorava meu perdão e insistia em ouvir minhas juras de amor repetidas uma centena de vezes. Esses pensamentos eram, eu sabia, meras fantasias de uma imaginação desenfreada. Ela não viria ao meu julgamento e não me visitaria antes de minha excêntrica execução. Não podia vir.

A viúva de meu primo, Miriam, com quem eu quisera me casar, contraíra matrimônio seis meses antes, com um sujeito de nome Griffin Melbury, que no momento de meu julgamento estava ocupado com os preparativos para se lançar como o candidato tóri nas eleições que em breve aconteceriam em Westminster. Agora convertida para a Igreja Anglicana e esposa de um homem que esperava crescer como proeminente político de oposição, Miriam Melbury não teria interesse em assistir ao julgamento de um judeu que ganha a vida como capanga, e com quem não mais estava ligada por laços de parentesco. Ajoelhar-se aos meus pés ou cobrir meu rosto com beijos banhados de lágrimas dificilmente seria o tipo de comportamento que ela demonstraria em quaisquer circunstâncias. Isso com certeza não aconteceria agora que se casara com outro homem.

Assim, na minha hora decisiva, pensei menos na possibilidade de uma condenação iminente do que em Miriam. Culpei-a, como se ela pudesse ser responsabilizada por esse julgamento absurdo... afinal de contas, tivesse ela casado comigo, eu poderia ter desistido de caçar ladrões e não teria me rendido às circunstâncias que acabaram levando a este desastre. Culpei-me por não tê-la perseguido com mais ardor, embora três propostas de casamento devam corresponder à definição que qualquer homem dá a ardor.

Então, enquanto o advogado da Coroa tentava convencer o júri a me condenar, eu pensava em Miriam. E, como mesmo me remoendo de saudade e melancolia eu ainda era um homem, também pensei na mulher de cabelos dourados.

Não deve causar surpresa o fato de minha mente vagar por outras mulheres. No período de meio ano decorrido desde o casamento de Miriam, eu me distraíra — não com a intenção de esquecer, espero que o leitor entenda, mas com o objetivo de tornar minha sensação de perda menos contundente — em grande parte fazendo concessões a vícios, e esses vícios consistiam, acima de tudo, em mulheres e bebida. Lamentei não ter disposição para o jogo, pois a maioria dos homens que eu conhecia considerava esse vício tão divertido quanto os meus dois preferidos, se não mais. Mas tendo no passado pagado o alto preço do dinheiro perdido em jogo, eu não conseguia agora me divertir vendo duas mãos gananciosas recolherem uma pilha de prata que uma vez fora minha.

Bebida e mulheres: estes eram os vícios dos quais eu podia depender. Nenhum dos dois precisava ser de qualidade excepcional; não era de meu temperamento ser escrupuloso nas escolhas. Contudo, ali estava uma mulher, sentada na ponta de um dos bancos, que absorvia minha atenção como poucas coisas naqueles tempos de escuridão. Tinha cabelos louro-claros e olhos da cor do sol. Não era bonita, mas atraente, e tinha um rosto vivo, com nariz afilado e queixo anguloso. Embora não fosse uma grande dama, vestia-se como uma mulher de classe média, elegante, porém sem brilho nem grande tendência à moda. Ao contrário, deixava a natureza fazer o que a modista não conseguia e expunha ao mundo, num corpete com decote profundo, a extensão de um fascinante busto. Nada havia, em resumo, que me impedisse de considerá-la um encanto se a encontrasse em alguma cervejaria ou taverna, mas não via razão especial para ela dominar minha atenção enquanto eu aguardava o julgamento que decidiria minha vida.

A não ser por ela não ter tirado os olhos de mim uma única vez. Nem por um momento.

Outros olhavam para mim, é óbvio... meu tio e minha tia com pena e talvez censura, meus amigos com medo, meus inimigos com júbilo, estranhos com impiedosa curiosidade..., mas a mulher me encarava com um olhar faminto, desesperado. Quando nossos olhos se cruzaram, ela não sorriu nem fez cara feia; apenas encontrou meu olhar como se tivéssemos compartilhado uma vida inteira e nenhuma palavra precisasse ser trocada. Quem nos observasse pensaria que éramos casados ou namorados, porém nunca, de acordo com minha lembrança — mesmo durante aqueles seis meses de bebedeira pesada — eu a vira. O enigma de seu olhar intenso monopolizou meus pensamentos com muito mais força que o enigma de como era possível eu ser julgado pela morte de um trabalhador das docas do qual jamais ouvira falar até dois dias antes de minha prisão.

A chuva começara a cair com mais intensidade e a congelar quando o promotor público, um advogado idoso, de nome Lionel Antsy, chamou Jonathan Wild para depor. Naquele ano de 1722, esse notório criminoso ainda era amplamente considerado o único esteio real contra os exércitos de ladrões e bandidos que saqueavam e afligiam as metrópoles. Ele e eu éramos rivais de longa data em nossos esforços para caçar ladrões, uma vez que nossos métodos não eram muito similares. Eu acreditava que, caso ajudasse pessoas honestas a recuperar seus bens perdidos, devia receber uma generosa recompensa por minha tarefa. Certo, meu trabalho nem sempre seguia muito à risca os bons princípios. Eu queria capturar devedores fugitivos, usar a habilidade de pugilista que conseguira no ringue para dar lições a patifes (desde que aos meus olhos merecessem tal tratamento), para intimidar, amedrontar e assustar homens que exigissem tal prática. Não prejudicaria, no entanto, aqueles que, na minha opinião, não merecessem tratamento rude, e eu ficara inclusive conhecido por deixar um ou outro devedor escapar de minha captura — sempre com uma mentira apologética para meu empregador — caso tivesse ouvido alguma história verossímil sobre esposa faminta ou filhos doentes.

Wild, no entanto, era um canalha empedernido. Era capaz de mandar seus ladrões roubarem objetos e depois revender os mesmos itens aos seus legítimos donos, fingindo o tempo todo ser a voz solitária das vítimas de Londres. Esses métodos, admito, eram muito mais rentáveis que os meus. Dificilmente um batedor de carteiras em Londres enchia seus bolsos sem que Wild recebesse uma parte. Nenhum assassino conseguia esconder da averiguação de Wild as mãos manchadas de sangue, ainda que o próprio caçador de ladrões tivesse encomendado o crime. Era proprietário de navios de contrabando que visitavam todos os portos no reino e tinha agentes em cada nação da Europa. Os corretores de ações de Exchange Alley quase nunca ousavam comprar e vender títulos sem sua aprovação. Era, em resumo, um homem extraordinariamente perigoso, e estava longe de nutrir algum afeto por mim.

Em nossas práticas incompatíveis, tínhamos entrado em choque mais de uma vez, embora nossos conflitos tendessem a serenar, e não a se agravar. Andávamos em círculo em torno um do outro, como cães mais ansiosos por latir do que atacar. Contudo, eu não podia duvidar que Wild aproveitaria a oportunidade para ver minha desgraça. Como construíra carreira prestando falso testemunho diante de qualquer júri disposto a ouvi-lo, eu agora apenas esperava para descobrir a gravidade de sua acusação e a verve com que a proferiria.

O promotor Antsy caminhou com passo claudicante até a testemunha, curvando-se para evitar que a chuva gelada lhe fustigasse o rosto. Parecia ter qualquer idade entre 50 e 100 anos, tinha o aspecto macilento da própria morte, a pele do rosto frouxa e caída como um saco vazio, e a cabeça oscilante acima do pesado sobretudo. Sua peruca, molhada pela chuva, pendia para um lado e estava em condição tão terrível que eu podia apenas supor que ele a tivesse comprado na feira de Holborn, onde o freguês pagava três pence para ter a chance de tirar às cegas de uma caixa uma peruca usada. Não tendo se preocupado em fazer a barba naquela manhã, e talvez também não na manhã do dia anterior, seu rosto estava pródigo de fios brancos que brotavam do terreno irregular de suas faces.

— Sr. Wild — começou, com voz trêmula e estridente —, o senhor foi chamado aqui para testemunhar sobre o caráter do Sr. Weaver porque é notoriamente uma espécie de perito em assuntos criminais... um estudioso da filosofia do crime, se preferir.

— Gosto de pensar assim de mim mesmo — respondeu com um sotaque interiorano tão acentuado que os jurados se inclinaram à frente, como se um pouco mais de proximidade os ajudasse a compreender melhor.

Wild, a quem a chuva praticamente não chegava a atingir, manteve-se ereto e sorriu quase com compaixão para o promotor Antsy. Como podia um velho advogado desacreditado como Antsy inspirar algo mais que desprezo a um homem que rotineiramente mandava seus próprios ladrões para a forca a fim de receber a recompensa de 40 libras oferecida pelo estado?

— O senhor é sabidamente considerado o mais eficaz agente da cidade no que se refere a caça a ladrões, não é verdade?

— É — concordou Wild, com evidente orgulho.

Aproximava-se da meia-idade na época, no entanto o terno e a peruca de excelente qualidade lhe conferiam uma aparência vistosa e vibrante. Tinha um ar enganosamente bondoso também, com olhos grandes, maçãs do rosto redondas e um sorriso caloroso e avuncular que agradava as pessoas e as levava a confiar nele de imediato.

— Sou conhecido como Rei dos Caça-Ladrões, título que ostento com orgulho e honra.

— E foi nessa condição que passou a conhecer os muitos aspectos do mundo do crime, certo?

— Certo, senhor promotor. A maioria das pessoas sabe que, se algum dia perder um artigo de valor ou desejar capturar o praticante de um crime, por mais abominável que tenha sido, sou eu o homem que deve procurar.

Nenhuma oportunidade é má quando alguém quer reforçar a própria reputação, pensei. Wild pretendia ao mesmo tempo me ver enforcado e receber alguns elogios nos jornais.

— Quer dizer que o senhor se considera bem-informado sobre os atos delituosos que acontecem em nossa cidade? — perguntou Antsy.

— Dedico-me a esta profissão há muitos anos. São poucos os casos relacionados a crimes que escapam à minha atenção.

Deixou de mencionar que prestava atenção a casos relacionados a crimes porque, em geral, ele ou seus agentes os orquestravam.

— Fale-nos, se assim desejar — sugeriu Antsy —, sobre a relação entre o Sr. Weaver e a morte de Walter Yate.

Wild hesitou por um momento. Encarei-o. Fiz o que pude para transmitir com palavras silenciosas que ele devia saber que eu jamais seria condenado e que, se me acusasse injustamente, as coisas não ficariam como estavam. Prossiga, disse-lhe com os olhos, e estará rumando para a sua própria destruição. O olhar de Wild encontrou o meu por um instante e ele fez um tênue movimento com a cabeça, transmitindo um significado que não consegui captar. Dirigiu-se então para Antsy.

— Quase não tenho o que falar a esse respeito.

Antsy abriu a boca, mas pareceu levar algum tempo para compreender que a resposta recebida não era a que esperava. Pressionou o cavalete do nariz com o dedão e o indicador, como se tentasse extrair da própria carne a resposta de Wild, do mesmo modo como um fabricante de sidra tira o suco de uma maçã.

— O que está querendo dizer, senhor? — perguntou com voz trêmula, ainda mais estridente que a usual.

Wild deu um leve sorriso.

— Apenas que não tenho conhecimento das questões relacionadas à morte de Yate nem do suposto envolvimento de Weaver, a não ser pelo que li nos jornais. É meu propósito descobrir a verdade que existe por trás de todos os crimes horrendos, porém não posso saber tudo. Embora tente, isto eu lhe garanto.

Todos os espectadores da Suprema Corte perceberam, pelo desalento no rosto de Antsy, que o advogado esperava de Wild algo bem diferente. Uma dissertação sobre o perigo que eu representava para Londres, talvez. Um relato minucioso de meus crimes passados. Uma lista de atrocidades nas quais havia muito ele suspeitava de meu envolvimento. No entanto, Wild tinha em mente um estratagema diverso, que me deixava inteiramente desconcertado.

Antsy olhou para o alto e fez uma careta. Respirou tão fundo que seu peito inflou até quase atingir o tamanho do de um homem normal, e rangeu os dentes com um sorriso ferino.

— Não considera Weaver um malfeitor, capaz de matar uma pessoa, mesmo que totalmente estranha, sem motivo? E, em conseqüência, capaz de matar Walter Yate? Não é correto afirmar que o senhor tem conhecimento de que ele de fato matou Walter Yate?

— Ao contrário — respondeu Wild com ar satisfeito, como um professor de anatomia solicitado a discutir os mistérios da respiração. — Considero Weaver um homem honrado. Ele e eu não somos amigos; na verdade, com freqüência nos encontramos em campos opostos. Se me permite, atrevo-me a dizer que acho Weaver um tipo deplorável de caça-ladrões, que presta um desserviço ao estado e a quem lhe paga. No entanto, ser deplorável no trabalho a que se dedica não o torna necessariamente mais censurável do que seria um sapateiro que fizesse sapatos apertados. Não tenho mais motivo para julgar Weaver culpado por este crime do que teria com relação a qualquer outro homem. No meu entender, o senhor pode ser tão culpado quanto ele.

Antsy virou-se para o juiz, Piers Rowley, que fitava Wild com espanto igual ao do advogado.

— Milorde — queixou-se Antsy —, não era este o depoimento que eu esperava. O Sr. Wild devia ter falado sobre os crimes e as atrocidades de Weaver.

O juiz voltou-se para a testemunha. Assim como Antsy, tinha idade avançada; no entanto, com seu rosto amplo e sua pele corada, suportava o peso dos anos de modo muito mais confortável do que o advogado. Antsy parecia carente de todo tipo de alimentação, porém o juiz demonstrava receber mais do que a necessária. Sua enorme papada era resultado de excesso de cerveja e rosbife e balançava como a de um bebê rechonchudo.

— Sr. Wild — dirigiu-se Rowley à testemunha —, o senhor prestará ao Sr. Antsy o testemunho que ele deseja.

Não era exatamente esta a resposta que eu esperava. De modo algum eu o conhecia bem, mas observara Rowley no passado, quando convocado a testemunhar contra homens que eu ajudara a levar ao banco dos réus, e sempre encontrara nele tanta justiça e honestidade quanto se pode esperar de um homem na sua profissão. Aceitava subornos moderados, e isso apenas para confirmar uma decisão que já resolvera tomar sem incentivo financeiro. Eu sempre reparara que ele levava o papel de protetor do réu a sério, e sentira um certo alívio ao ser informado que ele presidiria meu julgamento. Agora parecia que meu otimismo havia sido infundado.

— Me perdoe, milorde — replicou Wild —, mas não posso atender suas expectativas. Jurei falar a verdade e é o que devo fazer.

Era até engraçado. Wild não era mais leal a juramentos que um francês à troca de sua roupa de cama. Em silêncio, preferiu permanecer sentado e incorrer na ira do promotor e do juiz a falar mal de mim. Wild, que passara muito mais tempo diante dos tribunais do que eu, com certeza conhecia o temperamento de Rowley. Devia saber que o juiz era um homem que se considerava possuidor de um poder maior do que o que de fato tinha e que não permitiria que um insulto à sua autoridade passasse impune. Ao defender-me como fez, o próprio Wild e seu trabalho corriam riscos, pois ele precisaria se expor à hostilidade de Rowley em julgamentos futuros. Como o perjúrio era uma de suas mais importantes fontes de renda, um juiz hostil poderia tornar sua vida extremamente desconfortável.

Ansty não compreendia a situação melhor do que eu. Espanou com a mão a chuva do rosto.

— Dada a sua relutância em dizer a verdade, nada mais tenho a ouvir da testemunha — declarou o velho advogado. — Está dispensado, Sr. Wild.

Coloquei-me de pé.

— Queira me perdoar, milorde, porém ainda não tive a oportunidade de fazer as minhas perguntas.

— Nenhuma outra pergunta a esta testemunha.

Rowley bateu seu martelo.

Wild desceu do estrado e piscou para mim. Limitei-me a lançar-lhe um olhar vazio.

Minha bela admiradora de cabelos dourados chorava com o rosto escondido na manga do casaco e não estava sozinha em sua aflição. Os espectadores rapidamente responderam com vaias e assovios, e talos de maçã voaram em nossa direção. Eu não era uma figura popular perante o povo a ponto de fazê-lo rechaçar insultos contra mim, mas todos reconheciam uma injustiça quando a viam e nem a ralé da cidade permaneceria indiferente enquanto um camarada era maltratado pela lei. Não naqueles dias, quando era tão escasso o trabalho e tão bem-vindo o pão. Rowley, no entanto, tinha anos de experiência com esse tipo de manifestação, por isso apenas voltou a bater o martelo, dessa vez com tanta autoridade que fez descer sobre o local um véu de silêncio.

Não me acalmei com a mesma facilidade. Em nosso sistema legal um réu não precisa de advogado, porque se presume que o juiz atuará em sua defesa. Com muita freqüência, contudo, um acusado se depara com um juiz duro e fica, em conseqüência, desprotegido. Eu nunca antes tivera motivo para lamentar as iniqüidades desse sistema, pois me acostumara a estar na posição de querer ver pessoas condenadas a fim de receber uma recompensa... e ver a justiça ser feita, claro. Agora, porém, descobria que não teria permissão para convocar minhas próprias testemunhas, fazer as perguntas que gostaria, nem me defender de maneira adequada. O juiz Piers Rowley, pessoa que eu conhecia apenas de longe, parecia decidido a me destruir.


 
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