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Primeiro
Amor, de Samuel Beckett (tradução de Célia
Euvaldo; Cosac & Naify; 32 páginas; 22 reais)
Escrita em 1945 mas publicada somente em 1970, essa foi a primeira
obra que o irlandês Beckett compôs em francês,
língua em que mais tarde criaria peças fundamentais
do teatro moderno, como Esperando Godot. Nessa edição
elegante, o texto ocupa apenas as páginas pares as
ímpares trazem expressivas manchas negras desenhadas pela
tradutora. É um texto muito curto, para ler de uma só
vez. Mas é também uma novela perturbadora, capaz de
devastar qualquer ilusão romântica sugerida pelo título.
O leitor termina o livro sem saber se o protagonista, um tipo desgarrado
que se envolve com uma prostituta, é uma vítima ou
um monstro.
Leia
trecho
Mas
para passar agora a um assunto mais alegre, o nome da mulher a quem
me uni, pouco tempo depois, o apelido, era Lulu. Pelo menos é
o que ela me dizia, e não vejo que interesse ela podia ter
em mentir a esse respeito. Evidentemente,
nunca se sabe. Ela também me contou seu sobrenome, mas esqueci.
Eu devia ter anotado, num pedaço de papel, não gosto
de esquecer os nomes próprios.
Conheci-a
num banco, à margem do canal, de um dos canais, pois nossa
cidade tem dois, mas eu nunca soube qual era qual. Era um banco
muito bem situado, encostado num monte de terra e de detritos endurecidos,
de modo que minha retaguarda ficava coberta. Meus flancos também,
parcialmente, graças a duas árvores veneráveis
e, mais do que isso, mortas, que protegiam o banco dos dois lados.
Eram sem dúvida essas árvores que, um dia em que tremulavam
com toda sua folhagem, tinham sugerido a alguém a idéia
de um banco.
Na
frente, a alguns metros, corria o canal, se é que os canais
correm, sei lá, de modo que também daquele lado eu
não corria o risco de ser surpreendido. Mesmo assim ela me
surpreendeu. Eu estava deitado, fazia um tempo bom, eu observava,
por entre os ramos nus entrelaçados acima da minha cabeça,
ali onde as duas árvores se juntavam para se apoiar, e através
das nuvens, que passavam dispersas, o ir e vir de um pedacinho de
céu estrelado. Me dê um lugar, disse ela. Meu primeiro
movimento foi ir embora, mas o cansaço, e o fato de não
ter para onde ir, me impediram.
Recolhi
então meus pés e ela se sentou. Nada se passou entre
nós, naquela noite, e logo ela se foi, sem me dirigir a palavra.
Ela só tinha cantado como para si mesma, e felizmente sem
as palavras, algumas velhas canções populares, de
um modo tão desconjuntado, pulando de uma a outra e voltando
à que tinha acabado de interromper antes de terminar a que
preferira. Tinha uma voz desafinada mas agradável. Pressenti
uma alma que se aborrece rápido e nunca termina nada, que
é de todas talvez a menos importuna. Mesmo o banco, logo
se fartou dele, e, quanto a mim, uma olhada bastou. Mas na realidade
ela era uma mulher extremamente tenaz. Voltou no dia seguinte e
no outro e as coisas se passaram mais ou menos como antes. Talvez
algumas palavras tenham sido trocadas. No dia seguinte chovia e
eu me julgava tranqüilo, puro engano. Perguntei se estava em
seus planos vir me incomodar todas as noites. Eu o incomodo?, disse.
Ela me olhava, sem dúvida. Não devia estar vendo grande
coisa. Duas pálpebras talvez, e um pouco de nariz e de testa,
obscuramente, por causa da escuridão. Achava que estávamos
bem, disse ela. Você me incomoda, disse eu, não posso
me deitar com você aí. Eu falava de dentro do colarinho
do meu sobretudo e mesmo assim ela me ouvia. Você faz tanta
questão assim de se deitar?, disse ela. O erro da gente é
dirigir a palavra às pessoas. Basta apoiar seus pés
no meu colo, disse ela. Não me fiz de rogado. Sentia sob
meus pobres tornozelos suas coxas roliças. Ela começou
a acariciar meus tornozelos. E se eu lhe mandasse um pontapé
na xota, pensei. Fala-se de deitar e as pessoas logo enxergam um
corpo estendido. O que me interessava, a mim, rei sem súditos,
aquilo de que a disposição da minha carcaça
era apenas o mais remoto e fútil dos reflexos, era a supinação
cerebral, o embotamento da idéia do eu e da idéia
desse pequeno resíduo de futilidades peçonhentas que
chamamos de não-eu, e mesmo de mundo, por preguiça.
Mas aos vinte e cinco anos ele ainda está sujeito à
ereção, o homem moderno, fisicamente também,
de vez em quando, é o quinhão de cada um, nem eu estava
imune, se é que aquilo pode ser chamado de ereção.
Ela percebeu, naturalmente, as mulheres farejam um falo no ar a
mais de dez quilômetros e se perguntam, Como é que
aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos,
nessas condições, e é penoso não ser
mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar
do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer
para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais
somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O
que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal
da terra natal de vez em quando, foi esse o meu sentimento naquela
noite. Quando ela terminou, e meu próprio eu, o domesticado,
foi reconstituído com o auxílio de uma breve inconsciência,
encontrei-me só. Às vezes me pergunto se tudo isso
não é invenção, se na realidade as coisas
não se passaram de modo completamente diverso, segundo um
esquema que precisei esquecer. No entanto a imagem dela permanece
ligada à do banco, para mim, não o banco da noite,
mas o banco do anoitecer, de modo que falar do banco, tal como eu
o via ao anoitecer, é falar dela, para mim. Isso não
prova nada, mas não quero provar nada. Quanto ao banco do
dia, não vale a pena falar, eu não ficava lá,
partia cedo e só voltava ao anoitecer. Sim, de dia eu procurava
comida, e repertoriava os abrigos. Se vocês me perguntassem,
e certamente têm vontade de perguntar, o que eu tinha feito
do dinheiro que meu pai havia me deixado, eu responderia que não
tinha feito nada, deixava-o guardado no meu bolso. Pois sabia que
não seria sempre jovem, e que o verão também
não dura eternamente, nem mesmo o outono, minha alma burguesa
o dizia. Finalmente, disse a ela que estava farto. Ela me incomodava
profundamente, mesmo ausente. Aliás, ela continua a me incomodar,
mas não mais que o resto. De resto, não me causa mais
nada, agora, ser incomodado, ou tão pouco, o que é
que isso quer dizer, ser incomodado, tenho mesmo de ser, mudei meu
sistema, dobro as apostas, esta é a nona ou a décima,
depois logo estarão terminados, os incômodos, as acomodações,
logo não se falará mais disso, nem dela nem dos outros,
nem de merda nem de céu.
Então
você não quer mais que eu venha?, disse ela. É
incrível como as pessoas repetem o que acabamos de lhes dizer,
como se corressem o risco de ir para a fogueira ao acreditar em
seus próprios ouvidos. Disse a ela para vir de vez em quando.
Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço
mal, aliás. Os homens também. Os animais também.
O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas
todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão
depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim,
há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto
sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio.
Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso
deve ser porque não sou apenas dor. Aí está
a astúcia. Então me afasto, até o espanto,
até a admiração, como de um outro planeta.
Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas
dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria
concorrência, e desleal.
Eu
lhes contarei assim mesmo, um dia, se me lembrar, e tomara que consiga,
minhas estranhas dores, em detalhes, e distinguindo-as bem, para
maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração
ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma), e
depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da
superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente
e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras,
joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras
esquisitices. E àqueles que forem gentis o bastante para
me escutar contarei na mesma ocasião, de acordo com um sistema
cujo autor não me recordo, os instantes em que, sem estar
drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente
nada. Então naturalmente ela quis saber o que eu entendia
por de vez em quando, eis ao que você se expõe, abrindo
a boca. A cada oito dias? A cada dez dias? A cada quinze dias? Disse-lhe
para vir com menos freqüência, muito menos freqüência,
para não vir mais se fosse possível, e se não
fosse possível para vir o mínimo possível.
Aliás, no dia seguinte abandonei o banco, menos por causa
dela, devo confessar, do que por causa do banco, cuja situação
não correspondia mais às minhas necessidades, ainda
que modestas, pois estava começando a esfriar, e depois por
outras razões de que seria inútil falar para imbecis
como vocês, e me refugiei num estábulo de vacas abandonado
que eu encontrara em minhas andanças. Estava situado no ângulo
de um campo que tinha em sua superfície mais urtigas do que
relva e mais lama do que urtigas, mas cujo subsolo talvez possuísse
propriedades notáveis. Foi naquele estábulo, cheio
de bostas secas e ocas, que sucumbiam com um suspiro ao serem beliscadas,
que pela primeira vez na minha vida, eu diria com prazer a última
se tivesse morfina à mão, tive que me defender de
um sentimento que se arrogava pouco a pouco, em meu espírito
glacial, o horrendo nome de amor. O que faz o fascínio de
nossa terra, exceto obviamente o fato de ser pouco povoada, apesar
da impossibilidade de se obter qualquer preservativo, é que
tudo está abandonado, salvo os velhos excrementos da história.
Estes são colhidos com furor, empalhados e carregados em
procissão. Onde quer que o tempo tenha produzido um belo
monte de esterco nauseabundo vocês encontrarão nossos
patriotas fungando, de quatro, com as faces inflamadas. É
o paraíso dos desabrigados. Eis enfim o que explica a minha
felicidade. Tudo convida à prosternação.
Não
vejo nenhuma ligação entre estas observações.
Mas que existe uma ligação, e até várias,
não há dúvida, para mim. Mas quais? Sim, eu
a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim,
ao que eu fazia, naquela época. Eu não tinha dados
sobre isso, nunca tendo amado antes, mas tinha ouvido falar da coisa,
naturalmente, em casa, na escola, no bordel, na igreja, e tinha
lido romances, em prosa e em verso, sob a direção
do meu tutor, em inglês, francês, italiano, alemão,
nos quais ele era tratado em detalhes. Portanto eu era capaz, apesar
de tudo, de dar um nome ao que eu fazia, quando me via de repente
escrevendo a palavra Lulu numa bosta velha de novilha, ou quando,
deitado na lama ao luar, eu tentava arrancar urtigas sem quebrar
o talo.
Eram
urtigas gigantes, havia algumas de um metro de altura, arrancá-las
me aliviava, no entanto não é da minha natureza arrancar
ervas daninhas, muito pelo contrário, eu as abafaria com
estrume se tivesse à mão.
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