Bertrand Guay/AFP
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| Ben
Jelloun: entre o Ocidente e o mundo islâmico |
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O
Último Amigo,
de Tahar Ben Jelloun (tradução de Maria Ângela
Villela; Bertrand Brasil; 128 páginas; 22 reais) – Marroquino
radicado em Paris, Ben Jelloun é um escritor empenhado em
promover um entendimento maior entre o Ocidente e o mundo islâmico.
E é também um dos maiores representantes literários
do mundo árabe atual. O romance O Último Amigo
toma a situação política do Marrocos como
pano de fundo para falar de Mamed e Ali, adolescentes que se conhecem
na escola, em Tânger, no fim dos anos 50. A história
é relatada primeiro da perspectiva de Ali, e depois de Mamed,
em uma jogada narrativa muito habilidosa: o que no início
parece uma história de amizade acaba se revelando uma trama
de interesse e egoísmo.
Leia
trecho
1
Ele
costumava dizer: "As palavras jamais mentem; os homens é
que mentem; eu, por exemplo, eu sou como as palavras!" Mamed
ria de seu achado, tirava do bolso um cigarro e entrava no banheiro
do colégio para fumar escondido. Era o seu primeiro do dia;
ele dizia que tinha um sabor especial. Ficávamos do lado
de fora esperando-o e vigiando, com medo de que o Sr. Briançon,
o intratável supervisor-geral, aparecesse. Aquele homem era
temido por ser severo e porque deixava horas de castigo não
só os seus dois filhos como qualquer outro aluno que cochichasse
ou se fizesse de espertinho. Seu humor não podia mesmo melhorar,
sobretudo depois de seu filho mais velho ter sido convocado para
o serviço militar na Argélia. Estávamos em
1960: a Argélia, sacrificada por uma guerra feroz. De vez
em quando, o Sr. Briançon encontrava-se com o nosso professor
de árabe, o Sr. Hakim, que tinha, também, um filho
em combate, alistado no exército da FLN. Os dois deviam ficar
evocando os horrores e o absurdo daquela guerra, mas também
o desejo selvagem dos argelinos de recuperar a sua independência.
Mamed
era pequeno, de cabelos curtos, olhar inteligente e um humor excelente.
Era complexado por causa de seu físico seco e franzino. Achava
que, se não falasse, nenhuma menina prestaria atenção
nele. Tinha necessidade das palavras para seduzir, fazer rir e também
dar alfinetadas que feriam. Sabia-se da sua disposição
para a briga; raros eram os garotos que o provocavam. Tornamo-nos
amigos porque ele me defendeu no dia em que fui atacado por Arzou
e Apache, dois garotos vadios que tinham sido expulsos do colégio
por roubo e agressão. Eles me aguardavam na saída
e quiseram me ofender, gritando: "Al Fassi, o sarnento";
"Al Fassi, o judeu"... Na época, as pessoas nascidas
em Fez e emigradas para Tânger não eram bem-vindas.
Chamavam-nas "gente do interior". Tânger, tinha
status de cidade internacional, e seus habitantes se consideravam
privilegiados. Mamed se interpôs entre nós, mostrando
sua determinação em brigar para proteger seu amigo.
Arzou e Apache deram meia-volta, dizendo: "Era brincadeira,
só isso; não temos nada contra os Peles-Brancas de
Fez; é como com os judeus, não temos nada contra eles,
mas eles se dão bem em todo lugar; deixa isso pra lá,
estávamos só brincando..."
Mamed
me disse que eu tinha a pele muito branca e que deveria ir à
praia para me bronzear. Acrescentou que ele também achava
que os Fassis possuíam as mesmas características dos
judeus, mas que ele os admirava, mesmo tendo um pouco de ciúme
de seu status de minoria na cidade. Dizia mais: que os Fassis e
os judeus eram calculistas e avarentos, inteligentes e muitas vezes
brilhantes, mas que gostaria de ser tão econômico quanto
eles. Um dia, mostrou-me uma página de uma revista de história,
onde estava escrito que mais da metade dos Fassis era de origem
judia. "A prova", dizia ele, "é que todos
os nomes começados por Ben são judeus, dos judeus
vindos da Andaluzia, e que se converteram ao islamismo. Olha a sorte
que você tem! Você é judeu sem ter de usar o
kippa, tem a mentalidade deles, a inteligência e, na verdade,
é muçulmano como eu. Você ganha dos dois lados,
e até mais, não tem as chateações dos
judeus! É normal que se tenha ciúme de vocês,
mas você é meu amigo, basta que mude a sua maneira
de se vestir e, o mais importante, que seja menos pão-duro."
Vista
de Tânger, Fez me parecia uma cidade fora do tempo, ou, mais
precisamente, ancorada e fixada no século X. Nada, absolutamente
nada, havia mudado desde o dia de sua Fundação. Sua
beleza era o tempo. Eu bem que me dava conta de que havia deixado
para trás uma época muito longínqua e que,
de um dia para o outro, encontrava-me em uma cidade do século
XX, com luzes em profusão, ruas asfaltadas, carros e, sobretudo,
uma sociedade cosmopolita que falava várias línguas
e usava várias moedas. Mamed me gozava dizendo aos outros
colegas que eu era "um sobrevivente da pré-história".
Eu não conseguia fazê-lo calar-se acerca das velhas
tradições daquela cidade que sempre havia recusado
a modernização, e ele deixava entender que Tânger
não tinha nada a ver com aquela "velharia" pela
qual os turistas se apaixonavam. Seu pai, um cidadão importante
de Tânger, sensato e culto, amigo da delegação
britânica, retificava: "Fez não é uma coisa
velha sem interesse, Mamed; ao contrário, foi o berço
de nossa civilização, ao menos da que concerne às
cidades, pois foi lá que nossos ancestrais judeus e muçulmanos,
expulsos da Espanha por Isabel, a Católica, encontraram refúgio.
Foi lá que se construiu a primeira universidade muçulmana
de alto nível, a Qarawiyyin — e foi uma mulher que a construiu,
uma mulher rica de Kairuan! Fez é um museu vivo e deveria
fazer parte do patrimônio cultural da humanidade; sei que
as obras-primas são mal conservadas, mas Fez é uma
cidade única no mundo, e, pelo menos por isso, deve ser respeitada."
Eu
gostava muito daquele homem fino e elegante; ele me emprestava livros
com freqüência, pedindo que os devolvesse para seu filho,
que não gostava muito de ler.
A casa
de Mamed ficava a alguns passos do colégio. A minha, do outro
lado da cidade, no bairro do Marshane, que dava para o mar. Mais
de vinte minutos a pé. Ele me convidava para lanchar na casa
de seus pais. Eu achava o lanche delicioso. O pão vinha de
uma padaria espanhola, enquanto o lá de casa era feito pela
minha mãe; não dava para comparar ao que eu comia
na casa dele. Ao contrário, Mamed preferia o pão da
minha mãe ao pão da padaria de Pépé,
e me dizia: "Você vê, isso é que é
pão; você não se dá conta de que tudo
que é feito em casa é maravilhoso!"
2
Nossa
amizade levaria algum tempo para se firmar. Quando se tem quinze
anos, os sentimentos ainda são instáveis. Na época,
nós, adolescentes, preferíamos muito mais o amor do
que a amizade. Cada um tinha uma garota em mente. Mamed, não.
Ele achava ridículo cortejar uma garota, e jamais ia às
festas-surpresa que os franceses organizavam. Receava que alguma
delas se recusasse a dançar com ele por ser baixo, ou não
o achasse bonito, ou simplesmente por ele ser árabe. Mamed
tinha lá suas razões: durante uma festa de aniversário
de um de seus primos cuja mãe era francesa, uma garota linda
dispensou-o sem a menor consideração. "Você
não, é muito baixo e feio!" Foi um trauma de
proporções dramáticas.
Todas
as discussões durante os recreios giravam em torno da guerra
da Argélia, do colonialismo e do racismo. E ele preferia
essas discussões às brincadeiras. Muito naturalmente,
eu ficava ao seu lado e aprovava tudo que ele dizia. Nosso professor
de filosofia lia para nós páginas do último
livro de Frantz Fanon, Les Damnés de la terre [Os malditos
da terra], e passávamos horas discutindo-o. Era também
a época em que discutíamos muito mais Sartre do que
Camus; tudo por causa de sua frase: "Entre minha mãe
e a justiça, eu escolho minha mãe."
Já
muito engajado na política, Mamed pretendia ler Marx e Lênin.
Quanto a mim, eu tomava uma certa distância deles, mesmo sendo
implacavelmente anticolonialista. Lia os poetas, clássicos
e modernos.
Mamed
havia se tornado um militante. Eu me apaixonara, o que o enervava.
Ela se chamava Zina, era morena e bastante sensual. Pela primeira
vez a idéia de que ele poderia estar com ciúmes me
passou pela cabeça. Eu lhe fazia confidências, ele
me gozava amigavelmente. Nunca levei isso muito a sério.
Mas, no fundo, Mamed não admitia a intromissão de
Zina em nossa amizade. Para ele, aquele namoro significava perda
de tempo e energia.
Mamed
confessava, com muita naturalidade, que se contentava em ter prazer
uma vez por dia, "batendo uma palha" (tradução
literal do espanhol paja, que significa punheta). E fazia humor
com essa história de palha. As garotas, constrangidas, escondiam
o rosto para rir. Ele também levava a brincadeira mais longe,
comparando-as a "palhas de exceção".
Nossos
piqueniques se tornavam momentos de acerto de contas. Ele sempre
propunha brincar do "jogo dos defeitos", que consistia
em enumerar, cada um por sua vez, seus próprios defeitos,
mesmo e sobretudo os mais ocultos e íntimos. Começava
por ele dando o exemplo e então expunha os seus: "sou
baixo, feio, antipático, pão-duro, preguiçoso;
gosto de peidar à mesa, quando estou aborrecido; não
sou sociável; minto mais do que digo a verdade; não
gosto de pessoas; e sou mau propositalmente... sua vez agora!"
Ele
me olhava como que para me desafiar. Eu começava minha autocrítica
exagerando certos traços de minha personalidade, o que lhe
agradava. Minha namorada não gostava daquele jogo; ameaçava
não sair mais conosco. Ele a fazia calar-se, ameaçando
revelar segredos que sabia a respeito dela. Aquilo que me inquietava.
Em seguida, ele me confessava que era uma tática bastante
eficaz a partir do fato de que todo ser humano tem segredos que
não gostaria de ver revelados.
No
fundo, as garotas gostavam bastante dele. Khadija confessou-lhe
publicamente que ele a agradava mesmo quando ficava calado. Sentimo-nos
aliviados. Se Mamed aceitasse se relacionar com uma garota, isso
o tornaria mais amável e menos mau. Ele não se apaixonou,
mas passou a ficar assiduamente com ela.
Certo
dia, quando tudo ia bem e nosso piquenique havia sido um sucesso,
Mamed decidiu retomar o "jogo dos defeitos", só
que, dessa vez, o intuito era denunciar os da pessoa que conhecíamos
melhor.
A pobre
Khadija empalideceu. Ele começou falando do número
doze. Eram doze os defeitos que fariam qualquer homem fugir, e outros
ainda que o tornariam misógino. Impossível fazê-lo
calar-se. Deu partida no seu repertório, apesar dos protestos
de todos. Ele alegava que estávamos com medo e éramos
covardes.
Zina
ligou seu rádio e colocou-o no volume mais alto para encobrir
as palavras atrozes de Mamed. Dalida cantava Bambino. Furioso, ele
se jogou sobre o aparelho e lançou-o ao mar:
"Vocês
têm de me escutar; nós estamos aqui pela verdade, não
para cultivar essa hipocrisia social que bloqueia este país
em tudo que ele empreende. Sim, Khadija tem doze defeitos; ela tem
tantos quantos cada um de nós tem também. Então,
do que vocês estão com medo? Escutem: aos dezoito anos
ela ainda é virgem; prefere ser sodomizada a abrir as pernas;
faz boquete, mas recusa-se a engolir; usa desodorante em vez de
tomar banho; quando goza, grita o nome de todos os profetas; toma
bebida alcoolizada escondido; quando está carente, enfia
velas no cu..."
Khadija,
seguida por duas garotas, saiu correndo. Juntamo-nos a elas, deixando
Mamed enumerando os defeitos de sua namorada. Estávamos aterrados
e decidimos não organizar mais saídas até a
Velha Montanha enquanto aquele monstro estivesse naquelas paragens.
À
noite, Mamed bateu na minha casa. Estava banhado em lágrimas,
tinha fumado kif e bebido uma cerveja espanhola bastante forte.
Não sabia como se perdoar pelo escândalo.
Descobri
um rapaz triste, profundamente mal consigo mesmo, que não
gostava de si próprio e nem de ninguém. Ele precisava
do acompanhamento de um psiquiatra. Disse-me que gostaria de tentar,
mas que tinha medo de ser considerado maluco. Não voltou
a ver Khadija.
A partir
daquele dia, Mamed se isolou. Eu era a única pessoa que ele
procurava. Confiava em mim e esforçava-se para não
se deixar levar pelos impulsos de um humor duvidoso. No entanto,
havia guardado um pouco de sua ironia, que praticava com inteligência.
Enquanto
minha relação amorosa se deparava com dificuldades
materiais — não tínhamos um lugar onde nos encontrarmos
—, Mamed me contava suas trepadas clandestinas com a jovem que trabalhava
para seus pais. Ele recorria cada vez menos à "palha"
e receava que sua mãe mandasse a moça embora. Disse-me
ele: "É uma moça do povo; virgem, evidentemente,
embora não tenhamos tocado neste assunto; encontro-a à
noite; ela me espera nua, deitada de bruços, sua bunda bem
em evidência; então, deito-me sobre ela, separo suas
nádegas e a penetro, tampando sua boca para que não
grite; nunca ejaculo dentro dela; esvazio meus colhões, ela
sente prazer, e ambos ficamos contentes; de manhã, quando
me vê, ela baixa os olhos, e eu também.
3
Durante
o ano do vestibular, ele estava mais ajuizado e sempre ia nos encontrar
no Café Hafa para estudarmos juntos. Era forte em matemática,
o que nos ajudava bastante. Acontecia de fazer algumas brincadeiras,
mas respeitava os limites. Consegui reconciliá-lo com Khadija,
por quem estava apaixonado sem ousar confessá-lo. Foi ele
que encontrou para mim uma garçonnière onde finalmente
eu poderia fazer amor com a minha namorada.
Ele
me disse: "Acabaram os flertes no cemitério; a partir
de amanhã você vai dispor do apartamento de François,
nosso professor de ginástica que foi passar as férias
em sua casa na Bretanha; ele deixou as chaves comigo para que eu
regue as plantas e dê de comer aos gatos."
Eu
estava feliz da vida. Combinamos um plano de ocupação:
um dia ele, outro eu. Quando o apartamento estava ocupado, colocávamos
uma tachinha vermelha na porta. Ao sair, a vermelha era substituída
por uma verde.
Nosso
verão foi maravilhoso. Encontrávamo-nos à tarde
para trocar confidências. Aquele lugar era o nosso segredo.
Ninguém do grupo sabia de nada. A discrição
era absoluta. Tinha a ver com a vida das garotas que deveriam guardar
a virgindade até o casamento. Costumávamos ir lá
à tarde, nunca à noite.
Com
a minha namorada eu praticava o que se chamava na época "pincelada":
esfregava meu membro na vagina dela, sem a penetrar. Era uma técnica
astuciosa que me obrigava a ficar muito atento. Mamed me confessou
que preferia a sodomia.
Aquele
verão de 1962 marcou nossa ligação de maneira
inesquecível. A amizade começa com o compartilhar
de segredos e sobretudo com o nascimento da confiança. A
irmã de Mamed ficou amiga de Khadija e de Zina, o que nos
facilitava as saídas. Os pais não tinham por que se
inquietar. Mamed e eu havíamos estabelecido um código
para dizer certas coisas sem despertar suspeitas. Ele falava: "Amanhã
vou regar as plantas do Sr. François. Depois de amanhã,
será a sua vez de dar comida aos gatos; não se esqueça
de passar pelo mercado de peixes para pegar algumas sardinhas; esses
gatos são mimados!"
Mesmo
sendo inexperientes, divertíamo-nos muito. Um dia, Mamed
me disse que estava farto do traseiro de Khadija, que gostaria de
penetrar uma vagina, mas uma de verdade, sem medo, sem vergonha;
o negócio era ir a Ceuta — lá, as putas espanholas
eram limpas e muito bem treinadas.
"Nosso
colega Ramon vai nos acompanhar; ele conhece bem os lugares, só
precisamos arranjar dinheiro; vou dizer a meus pais que vamos comprar
uns discos em Ceuta, porque aqui o mercado é bem fraco; meu
pai é melômano, basta que eu compre a última
interpretação de Don Giovanni, de Mozart, para que
ele me dê dinheiro; e você, trate de ver com seus pais,
invente alguma coisa..."
Ramon
não estava no colégio conosco; ele trabalhava com
o pai, que tinha uma empresa de chumbo. Com ele praticávamos
nosso espanhol e sobretudo fazíamos farra. Ele tinha um cartaz
formidável com as garotas. Era um amigo que nos fazia rir
porque gaguejava quando ficava emocionado. Gaguejava mais ainda
quando via uma bela garota.
Eis-nos
no ônibus em direção a Tetuan e depois Ceuta.
Chegamos no fim do dia. Ramon tinha o endereço de uma pensão
para dormir e de uma outra para transar.
Bebi
vinho pela primeira vez. Achei aquilo horroroso. Na pensão
Fuentes, as garotas ficavam em exposição na parte
de baixo. Era preciso pagar adiantado. Cinqüenta pesetas o
passe.
Mamed
escolheu uma loura com seios grandes. Na realidade, era uma marroquina
que havia pintado os cabelos de louro.
Ramon
era um conhecido da casa. Tinha a sua "regular", uma ruiva
de cabelos curtos e olhos vivos.
E eu
subi com uma morena magra que aparentava um ar triste. Pensei que
ela fosse uma expert, mas estava cansada e entediada. Ejaculei rápido.
Ela soltou um suspiro de alívio. Lavou-se na minha frente
e, no momento de lavar a boca, tirou dentadura. Desci enojado e
esperei pelos outros na entrada.
Aparentemente,
Mamed havia caído com uma boa garota. Uma meia hora de trepada
contra os meus miseráveis cinco minutos. Sua parceira se
chamava Katy. A minha, Mercedes, e eu estava sendo o seu décimo
quarto cliente daquele dia. Ela me disse que nunca passava de quinze
clientes por dia — uma questão de princípio, mas que
eu não passava de um meio-cliente; era muito jovem para aquilo!
Meio-cliente!
Eu estava vexado e não ousava falar sobre isso com Mamed,
que parecia muito satisfeito. Ele me disse: "Eu bem que esvaziei
os meus colhões; estou me sentindo bem; Katy prometeu ir
me visitar em Tânger; vou transar na casa dela; se você
quiser que ela vá com a sua... iremos todos para a casa do
amigo de Ramon", que concordou com a cabeça.
Claro
que não, eu não queria mais ouvir falar de Ceuta e
suas putas. Nunca me esqueci da velha e de sua dentadura. Imagens
burlescas se acotovelavam na minha cabeça. Como não
fazer a ligação com a tal história da vagina
que tinha dentes para morder?
Mamed
percebia que eu não estava feliz. Ele achava que fosse por
uma questão de moral, de culpa, de falta de sexo ou de pecado.
Mas não, eu estava magoado porque tinha visto o que nunca
deveria ter visto: uma mulher desdentada que enxugava suas coxas
com uma velha luva molhada enquanto eu recolocava minhas calças,
pensando que tinha acabado de vivenciar um momento de infinita tristeza.
Ele
tentou me consolar. Acompanhou-me até em casa e ficamos toda
a tarde ouvindo rádio. Tinha vontade de chorar. No dia seguinte,
bem cedo, partimos para o hammam da rua Ouad Ahardane.
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