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Hulton Archive/Getty Images
Gorki: política infame, bela obra  

Três Russos e Como Me Tornei Escritor, de Máximo Górki (tradução de Klara Gourianova; Martins Fontes; 198 páginas; 36,50 reais) – Górki (1868-1936) foi uma espécie de autor oficial do stalinismo, merecendo até a consagração de virar nome de cidade na União Soviética. A despeito desse currículo infame, o autor de A Mãe era um escritor de inegável talento, como o leitor pode constatar nesses quatro ensaios. Como Me Tornei Escritor fala de sua formação e dos autores que o influenciaram. Os outros textos são apreciações apaixonadas de três mestres russos: Tolstoi, Tchekov e Andreiev. Entusiasmado sobretudo pela obra de Tolstoi, Górki chega a conferir dimensões divinas ao autor de Guerra e Paz. Tolstoi, diz ele, seria um "deus russo, mais astuto, talvez, do que todos os outros deuses".

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Ele era de uma modéstia casta e não se permitia dizer às pessoas alto e bom tom: "Afinal, sejam mais...honestas!", esperando em vão que elas atinassem a necessidade premente de serem honestas. Odiando tudo o que era vulgar e sujo, ele descrevia as torpezas da vida com a nobre linguagem de poeta, com leve riso de humorista, e, por trás da bela aparência de seus contos, não é muito perceptível seu sentido latente, cheio de censuras amargas.

O mui respeitável público, lendo o conto "A filha de Albion", ri e dificilmente vê nesse conto o escárnio mais vil ao qual é submetida uma pessoa solitária, estranha a tudo e a todos por parte de um senhor bem de vida. Em todos os contos humorísticos de Anton Tchékhov, escuto o silencioso e profundo suspiro de um coração puro, verdadeiramente humano, um suspiro de desespero e de compaixão pelas pessoas, que não sabem respeitar sua própria dignidade humana e se submetem sem resistência a uma força ordinária, vivem como escravos, não acreditam em nada, além da necessidade de cada dia sorver uma sopa de repolho, quanto mais grossa melhor, e não sentem nada além do medo de que alguém forte e insolente bata neles.

Ninguém como Anton Tchékhov entendia tão fina e claramente o lado trágico das pequenas coisas da vida, ninguém antes dele soube, com tanta veracidade cruel, pintar às pessoas o quadro aviltante e triste de sua existência no embaciado caos da rotina pequeno-burguesa.

O inimigo dele foi a vulgaridade; durante a vida toda lutou contra ela, caçoou dela, retratou com sua pena afiada e impassível, sabendo encontrar o bolor da vulgaridade mesmo onde, à primeira vista, tudo parecia bem-feito, favorável e até brilhante. E a vulgaridade vingou-se dele com um golpe sujo, colocando o caixão – o caixão do falecido escritor – num vagão para transportar ‘ostras’.


 
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