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Entre a Mentira e a Ironia, de Umberto Eco (tradução de Eliana Aguiar; Record; 128 páginas; 27,90 reais) – Em seu último romance, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, o italiano Umberto Eco revisou, por meio de um personagem que perde a memória, as leituras que marcaram sua infância e sua juventude. Os quatro ensaios desse livro se encaixam no espírito do romance. São revisões de quatro figuras fundamentais para a imaginação do autor de O Nome da Rosa: o conde de Cagliostro – um famoso charlatão e místico do século XVIII –, Manzoni, o romancista sentimental de Os Noivos, o humorista Campanile e o quadrinista Hugo Pratt, criador do aventureiro Corto Maltese. É um livro que conjuga o costumeiro apuro crítico de Eco com uma leitura mais afetiva dos autores que marcaram sua formação.

Leia trecho

Migrações de Cagliostro

Migrações de Cagliostro foi um título que escolhi meses atrás, quando ainda não sabia do que falaria; contudo, dou-me conta agora de que deveria ser o título de todo esse congresso, onde a maior parte dos conteúdos parece fascinada não pelo Cagliostro histórico, mas antes por aquela imagem que migrou em numerosas narrações, naquela espécie de pseudo-romances que são as reconstruções dos mercadores do oculto, em que tanto a cagliostrofilia maçônica quanto o anticagliostrismo sanfedista manifestam, ambos, gosto pela imprecisão histórica, credulidade indiscriminada em relação a cada fonte, tendência a não usar um testemunho porque se demonstrou confiável mas a julgá-lo confiável porque foi usado.

Seguindo a história dessas migrações, deveríamos perguntar por que Cagliostro interessou tanto aos caçadores de mistérios, sendo um personagem desprovido de mistério. É tão previsível que poderia ter sido programado por um computador ao qual tivessem sido fornecidas as seguintes informações: dados sobre a psicologia de um personagem típico da cultura setecentista, o aventureiro (de Casanova a Da Ponte), com seu gosto pela aventura cosmopolita, sua curiosidade pelo insólito, sua paixão pela intriga; informações sobre o nascimento das seitas maçônicas e sobre o papel que desempenharam ao promover contatos entre uma burguesia ascendente e uma aristocracia insatisfeita com o ancien régime; anedotas sobre monarcas e landgraves que financiavam pesquisas alquímicas com um olho na pedra filosofal e outro na química para a indústria manufatureira (inclusive a história do conde Milly, que, na busca do elixir da longa vida, acaba errando na dose e se envenena); e aí temos o conde de Cagliostro. Cagliostro é um dos personagens mais óbvios de seu tempo. Talvez tenha chamado a atenção porque representou de modo mais pitoresco, em voz mais alta, o eterno arquétipo do homem sem qualidade, que se faz atravessar pelo próprio tempo.

No máximo, o verdadeiro mistério não é Cagliostro; o verdadeiro mistério que não cessa de inquietar-nos é o cardeal de Rohan. Que um aventureiro ou aventureira teçam intrigas, ora sendo desmascarados, ora obtendo vantagens, é normal. Mas que uma pessoa presumivelmente de inteligência mediana, com deveres políticos e religiosos, se deixe convencer por tais intrigas, fascinada, obnubilada, e consiga passar à história como monumento de imbecilidade, isso não cessa de preocupar-nos. Os Estados não caem quando os Cagliostros (ou os de la Motte Valois) tramam do exterior, mas quando os de Rohan enfraquecem do interior a credibilidade das classes dirigentes.

Eis a questão: como explicar que a revolução é um produto do ancien régime e não o resultado cinematográfico da tomada da Bastilha? É justamente em virtude de sua previsibilidade e obviedade que Cagliostro prestou-se melhor do que outros a uma leitura de caráter mitológico de certos processos históricos. O máximo da tensão mitográfica a respeito de Cagliostro (entre os pólos da santificação e da demonização) estabeleceu-se ao longo da linha do complô revolucionário e pôde assumir, no nível de maior irresponsabilidade fabulatória, a forma da vingança templária, que encontramos de Cadet de Gassincourt a Guaita (para Guaita, Le Temple de Satan, 1891, p. 313, o nome dos jacobinos não deriva do nome de um convento, mas de Jacques de Molay), ou, em níveis de polêmica ideológica mais bem construída, a forma do complô iluminista-maçônico (do marquês de Luchet, através de padre Barruel, e ao longo da tradição jesuítica oitocentista et ultra, mas também em amostras do feuilleton anticlerical). O fantástico é que a teoria do complô revolucionário torna-se plausível quando a metáfora do complô é traduzida em termos de história da cultura. Então percebe-se que o complô desenvolvera-se en plein air, assim como aquele outro que reuniu Copérnico, Galileu, Kepler e Newton para envolver, não o cardeal de Rohan, mas o cardeal Bellarmino. Mas como explicar às massas uma mudança de paradigma histórico? Traduzindo a noção abstrata de tendência histórico-cultural, ou de lei histórica, na noção de deus ex machina. Cagliostro, tão óbvio a ponto de ser reconhecível por qualquer um, parece feito sob medida para encenar aquilo que não pode ser visto. E ei-lo no Joseph Balsamo de Dumas (cujo início peço permissão para citar em uma impagável tradução oitocentista) a unir num único nó a mística de Swedenborg, a Encyclopédie, écrasez l’infâme,* Jean-Jacques Rousseau, a Neuf Soeurs, e a eterna aspiração popular a uma figura carismática que se faça vingadora de todo desequilíbrio social:

"Quem és tu?", perguntaram a um só tempo trezentas vozes no mesmo momento em que vinte espadas faiscaram entre as mãos dos fantasmas mais próximos e, com um movimento regular como o de uma falange adestrada às manobras, abaixaram-se e apontaram para o peito do desconhecido. Mas este, sorrindo tranqüilo, erguendo a cabeça e sacudindo a cabeleira desempoada e presa apenas pela fita que ele amarrara em torno à fronte:

"Ego sum qui sum", disse. "Eu sou aquele que é."

Depois girou o olhar pela humana muralha que estreitamente o cercava: diante de seu olhar dominador, as espadas se abaixaram à medida que eles, que o desconhecido fulminava com os olhos, cediam à sua influência ou tentavam combatê-la.

"Disseste uma imprudente palavra!", exclamou o presidente, "e decerto a pronunciaste justamente porque ignoras até onde pode chegar o dardo."

O desconhecido meneou a cabeça com um sorriso.

"Respondi", acrescentou, "aquilo que devo responder."

"Se assim é, de onde vens então?", perguntou o presidente.

"Venho do país de onde emana a luz."

"É de nosso conhecimento que vens da Suécia."

"Quem vem da Suécia pode vir do Oriente", respondeu o estrangeiro.

"Mais uma vez, não te conhecemos. Quem és tu?"

"Quem sou eu? [...] Pois bem, dir-vos-ei em breve, pois fingis não compreender minhas palavras, mas antes de tudo quero eu interrogar-vos: vós mesmos, quem sois?"

Os fantasmas saltaram, e suas espadas voltaram a ecoar, passando da mão esquerda à direita e erguendo-se à altura do peito do estrangeiro.

Primeiramente, ele recomeçou apontando com a mão para o presidente:

"A ti, que me falas, a ti, que te reputas um deus e não és mais que um precursor, a ti, representante dos círculos suecos, eu ensinarei teu nome, porque não me é de interesse dizer-te o dos outros. Swedenborg, os anjos que contigo conversam familiarmente não te revelaram que aquele que esperavas já se pusera a caminho?"

"Tendes um sinal seguro com o qual podeis reconhecê-lo?"

"Sim", respondeu o presidente, "e Deus dignou-se a revelá-lo a mim através dos anjos seus."

"Então apenas vós conhecestes esse sinal?"

"Conheço-o apenas eu."

"Tu não o revelaste a homem vivente?"

"A ninguém."

"Revela-o em voz alta."

O presidente ficou em dúvida.

"Revela", repetiu o estrangeiro em tom de comando, "revela-o, pois o momento da revelação é chegado."

"Terá no peito", disse o chefe supremo, "uma placa de diamante e nela cintilarão as três primeiras letras de uma empresa conhecida só por ele."

"Quais são essas letras?"

"L.P.D."

O estrangeiro com gesto rápido desfez o hábito e, descobrindo-se o peito, sob a camisa de fina batista, apareceu, fulgurante como estrela, a placa de diamante sobre a qual cintilavam as três letras em rubis.

"Ele!", exclamou o presidente.

"Aquele por quem o mundo espera?", disseram ansiosamente os chefes.

"O grande Copta?", murmuraram trezentas vozes.

"Pois então", disse o estrangeiro com um grito de triunfo, "acreditar-me-eis agora quando vos repetir pela segunda vez: ‘Eu sou aquele que é’?"

"Sim", disseram os fantasmas prostrando-se.

"Dizei, mestre", acrescentaram o presidente e os cinco chefes com a fronte inclinada para o chão. "Dizei: nós obedeceremos."

Mas Dumas não inventou nada, veja-se esta descrição da Vita di Giuseppe Balsamo, conte di Cagliostro, dedotta dalla procedura istruita contro di lui a Roma nel 1790,* e publicada pela Câmara Apostólica (ed. francesa 1791) (exceto que Dumas fala do complô de um santo e aqui se confessa o complô de um demônio):

Descemos por catorze ou quinze degraus em um subterrâneo e entramos em uma sala circular no centro da qual percebi uma mesa: abrimo-la e embaixo havia uma caixa de ferro que foi aberta por sua vez, e na qual pude ver uma quantidade de papel: aquelas duas pessoas pegaram de lá um livro manuscrito, feito como um missal, no início do qual havia escrito: nós grandes mestres dos templários etc. Estas palavras eram seguidas por uma fórmula de juramento concebida com expressões horripilantes, que não consigo recordar, mas que concerniam ao compromisso de derrubar todos os soberanos despóticos. Esta fórmula era escrita com sangue e trazia onze assinaturas além da minha, que era a primeira: tudo escrito também com sangue. Não posso recordar todos os nomes daquelas assinaturas com exceção dos nomeados. [...] Estas firmas eram aquelas dos doze Grandes Mestres dos Iluminados, mas, na verdade, a minha assinatura não fora feita por mim e não sei como se encontrava ali. Aquilo que me foi dito sobre o conteúdo daquele livro, que era escrito em francês, e o pouco que pude ler confirmaram-me ulteriormente que a seita decidira perpetrar seus primeiros golpes contra a França; e que depois da queda daquela monarquia ela deveria atacar a Itália, e Roma em particular.

Santo ou demônio, uma vez que o mito toma pé, ninguém mais consegue subtraí-lo. Ironicamente, e com intuitos desmistificadores, um certo cavaleiro Clemente Vannetti escreveu, em 1789, um Liber Memorialis de Caleostro cum esset Roboreti, contando no estilo dos evangelistas as supostas façanhas do taumaturgo:

No oitavo ano do reino do Imperador Giuseppe, Cagliostro veio a Rovereto. [...] E alguns diziam que era um mago, outros que era o Anticristo; e todos faziam muita discussão entre si. [...] E vinham também forasteiros que tentavam, ao falar-lhe, pegá-lo em erro e desmascará-lo. Mas acabavam por ficar admirados com ele pela sabedoria de sua palavra.

Mas, em 1914, Pericle Maruzzi (Il vangelo di Cagliostro [O Evangelho de Cagliostro], Todi, Atanòr) devolve à luz este texto e o transforma em pretexto para uma reavaliação de Cagliostro, porque "este é o único documento imparcial, por ser escrito com leve senso de ironia, sobre a operosidade do Taumaturgo e sobre os sistemas utilizados por ele para curar os enfermos que o procuravam".

Cagliostro também migra, reverberando a sua barulhenta obviedade, até outros personagens de seu século. Gostaria, nessa altura, de traçar um breve perfil dos dois irmãos inimigos (para usar a categoria proposta por Jean Tortel para explicar muitos mecanismos do folhetim), no qual, em certo sentido, a teatralidade do aventureiro siciliano leva vantagem sobre a discrição do aventureiro (talvez) piemontês. Falo da dupla Cagliostro-Saint-Germain.

Eles são contemporâneos e têm em comum a profissão e a tendência à fantasia anagráfica (para a crônica, Saint-Germain aparece a cada vez como conde de Saint-Germain, marquês de Agliè, senhor de Surmont, marquês de Welldone, marquês de Monferrato, de Aymar e Belmar, conde Soltikof, cavaleiro Schoening, conde Tzarogy). Quanto ao resto, nada de mais diverso.

1. Não se tem notícia de que Saint-Germain fosse ligado a seitas maçônicas e, de qualquer modo, não fundou nenhuma.

2. Sua relação com os poderes constituídos foi antes a de um instrumento, de um agente secreto, de um mediador diplomático e, de fato, não morreu na prisão, mas hóspede do landgrave de Hesse Cassel, para o qual realizava experiências sobre tinturas em tecidos e curtume de couro.

3. Arranha a alquimia, mas não se aventura até a taumaturgia, e roça a química e suas repercussões no artesanato (inclusive as tintas para pintura) e na indústria. Pelas Memórias de Madame de Genlis sabemos que exibe

muitas gemas e sobretudo diamantes coloridos, de uma grandeza e de uma perfeição surpreendentes. "Acreditaríamos estar diante", diz ele, "dos tesouros da lâmpada maravilhosa. Havia, entre outras coisas, uma opala de um tamanho monstruoso e uma safira branca com as dimensões de um ovo, que ofuscava com seu esplendor o de todas as pedras com as quais fosse possível confrontá-la. Ouso vangloriar-me como entendedor de jóias e posso garantir que o olho não poderia descobrir razão alguma para duvidar da autenticidade daquelas pedras, mais ainda por não estarem engastadas."

Mas seu biógrafo Chacornac (Le comte de St.-Germain, Paris, Editions Traditionelles, 1982) observa que extraía suas receitas do livro VII do De subtilitate de Cardano; verifiquei e trata-se de artifícios bastante razoáveis adulterandi gemmas, através dos quais uma safira pode adquirir a limpidez de um diamante.

4. Segundo o conde Beugnot, Cagliostro era gorducho e de cor olivácea, tinha o pescoço curto e os olhos esbugalhados. Seu penteado mostrava os cabelos divididos em várias pequenas tranças reunidas na nuca em uma forma achatada, dita "catogan". Apresenta-se à condessa de la Motte (e já o fato de que freqüentasse aquele ambiente é suspeito) vestido à francesa, de cinza-ferro com galões dourados, uma túnica escarlate bordada com fio de Espanha e calções vermelhos, a espada de lado sob a fralda da veste e o chapéu ornado com uma pluma branca. Para tornar mais espalhafatoso o conjunto, usava punhos de renda, diversos anéis e fivelas preciosas nos sapatos, "enfeitados com pedras brilhantes demais para que se pudesse acreditar que fossem diamantes finos". De têmpera bem diversa é Saint-Germain. É verdade que usa diamantes nos dedos, mas era a época, e ele havia lido Cardano; em compensação, como o descreve Madame de Hausset, em visita à Pompadour (não à de la Motte), "tinha um ar fino, espirituoso, vestido muito simplesmente, mas com gosto". Usava relógios e cigarreiras de feitura refinada, pintava a óleo e compunha belíssimas canções sobre textos de poetas escoceses e italianos. Mademoiselle du Crest nos diz que "era um excelente musicista; acompanhava ao cravo, sem partitura, tudo aquilo que cantava, e com rara perfeição".

5. Saint-Germain, nós sabemos, é imortal, e Cagliostro não — e em San Leo sabe-se disso melhor que alhures. Note-se que Saint-Germain não difunde a lenda da própria imortalidade, mas limita-se a não desmenti-la: "Divirto-me às vezes não em fazer crer, mas em deixar crer que vivi em tempos mais remotos." E dando-se ouvidos a Madame de Hausset:

Difundira-se o rumor de que ele, embora tivesse o aspecto de um homem na flor dos anos, fosse na realidade um velho carregado de séculos, e Madame de Pompadour, a quem chegou tal boato, fez uma observação ao conde: "Mas, finalmente, o senhor não diz a sua idade e deixa que acreditem que é velhíssimo. A condessa de Gergy, que creio ter sido embaixadora em Veneza, cinqüenta anos atrás, diz que o conheceu como é hoje." "É verdade, senhora, eu conheci a condessa há muito tempo." "Mas, segundo o que ela diz, o senhor teria mais de cem anos agora!" "Não é impossível", disse ele rindo, "mas concordo que é ainda mais possível que esta dama, a quem respeito, esteja a desatinar." "O senhor lhe deu, diz ela, um elixir de efeitos surpreendentes; ela sustenta que manteve por longo tempo o aspecto que tinha aos vinte e quatro anos. Por que não o oferece também ao rei?" "Ah, senhora!", disse ele, com uma espécie de espanto, "eu precisaria ser louco para arriscar-me a dar ao rei uma droga desconhecida."

No conjunto, o conde de Saint-Germain obtém sucesso graças à sua discrição, e não à ostentação. O resto será obra da voz pública. O Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy (ed. 1844) recitará:

Contando certo dia que conhecera Pilatos em Jerusalém, descrevia minuciosamente a casa do governador e citava os pratos servidos à ceia. O cardeal de Rohan, acreditando ouvir fantasias, dirigiu-se ao camareiro do conde de Saint-Germain, um velho de cabelos brancos e ar honesto. "Meu amigo", disse-lhe, "tenho dificuldades para crer no que diz o seu patrão. Que ele seja ventríloquo, passa; que faça ouro, de acordo; mas que tenha dois mil anos e tenha visto Pôncio Pilatos é demais. O senhor também estava lá?" "Oh, não, monsenhor", respondeu ingenuamente o camareiro, "estou a serviço do senhor conde há apenas quatrocentos anos."

 


 
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