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Sangue na Lua, de James Ellroy (tradução de Alves Calado; Record; 270 páginas; 38 reais) – Mesmo antes da consagração definitiva com Dália Negra e Los Angeles, Cidade Proibida, o americano Ellroy criou um personagem antológico do gênero policial: o detetive Lloyd Hopkins. Ele foi protagonista de uma série de três romances, dos quais esse, lançado originalmente em 1984, é o primeiro. Suas principais características são o QI altíssimo e a obsessão em resolver seus casos – que o levam a descuidar-se de sua vida íntima e aproximar-se com freqüência da ilegalidade. Sua tarefa nesse livro tenso é prender um psicopata responsável por vinte assassinatos – e só Hopkins consegue enxergar a ligação que existe entre os crimes, cometidos ao longo de muitos anos.

Leia trechos do livro

Capítulo 1

Sexta-feira, 10 de junho de 1964, foi o início de um bom e velho fim de semana em Los Angeles. Os dois conspiradores que exainavam o território onde o "seqüestro" aconteceria puseram o rádio portátil no volume mais alto para abafar o som de serras elétricas, martelos e pés-de-cabras – o barulho da reforma na sala de aula do terceiro andar e a música dos Fleetwoods lutando pela supremacia auditiva. Larry "Birdman" Craigíe, com o rádio perto da cabeça, estava maravilhado com a ironia daquele trabalho de reforma acontecen-do apenas uma semana antes que a escola fechasse para o verão. Nesse momento, Gary U.S. Bonds surgiu pelas ondas do ar, cantando: "As aulas finalmente acabaram, e estou feliz porque passei", e Larry caiu no chão coberto de serragem, numa convulsão de gar-galhadas. As aulas talvez fossem acabar, mas ele não passaria, e estava cagando e andando. Rolou no chão, sem se importar com a camisa Sir Guy roxa, recém-lavada.

Delbert "Whitey" Haines começou a ficar enojado e furioso. O Birdman era um pirado ou estava fingindo ser, o que significava que seu esparro de longo prazo era mais esperto do que ele, o que significava que estava rindo dele. Whitey esperou até o riso de Larry terminar e se colocou em posição para fazer flexões. Sabia o que viria em seguida: uma série de observações libidinosas sobre fazer flexões em cima de Ruthie Rosenberg, como Larry iria obrigá-la a dar-lhe uma chupada enquanto ele ficava pendurado nas argo-las do ginásio feminino.

O riso de Larry foi terminando, e ele abriu a boca para falar. Whitey não deixou que chegasse tão longe; gostava de Ruthie e odiava ouvir blasfêmias sobre garotas legais. Cutucou com a ponta da bota as omoplatas de Larry, bem onde ele sabia que as espinhas eram piores. Larry guinchou e ficou de pé, aninhando o rádio no peito.

- Você não precisava fazer isso.

- Não - disse Whitey , - mas fiz. Eu posso ler sua mente, seu pirado. Seu pirado de mentira. Então, não diga coisas ruins sobre garotas legais. A gente tem o otário para sacanear, não as garotas legais. Larry assentiu. 0 fato de ser incluído em planos tão importan-tes afastou a irritação pelo ataque. Foi até a janela mais próxima, olhou para fora e pensou no otário com os sapatos de duas cores, o suéter de losangos, a cara de garoto bonito e o Jornalzinho de poesia que ele imprimia na loja de material fotográfico na rua Alvarado, onde morava, varrendo a loja em troca de quarto e comida.

Marshall High Poetry Review - poemas de otário, de maricas; poemas melosos de amor que todo mundo sabia que eram dedicados àquela garota metida a besta, transferida da escola paroquial irlandesa e às vacas metidas a besta do grupo de poesia dela, e ataques sacanas contra ele e Whitey e todos os caras direitos da Marshall. Quando Larry ficou doido de cola e soltou cabeças-de--negro no Clube de Música Folk, o Review comemorou a ocasião com desenhos mostrando-o vestido de soldado, com uma prosa estropiada: "Agora temos um nazista chamado Birdman - iletrado, sem muitas palavras. Suas armas são a ação ilegal - e a fraca saúde mental; ele mais parece um Bostaman."


 
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