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Uma
Estranha Família, de Ray Bradbury (tradução
de Adriana Lisboa; Ediouro; 202 páginas; 23,90 reais)
O americano Ray Bradbury é um prolífico autor de histórias
de fantasia, celebrizado por obras como As Crônicas Marcianas
e Fahrenheit 451. Em seus mais de trinta livros, o escritor,
de 82 anos, foi do horror à ficção científica.
Lançado em 2001, Uma Estranha Família é
uma fábula protagonizada por bruxas, mortos-vivos e outras
criaturas sórdidas. Feita na medida para o público
infanto-juvenil, a história tem mais de engraçada
que de assustadora. É uma espécie de versão
em livro do seriado Família Addams. A narrativa gira
em torno de um clã cujos tipos incluem uma múmia egípcia
e um sujeito com asas de morcego. Reunidos numa mansão, eles
lavam a roupa suja da família.
Leia
trechos do livro
Capítulo
1
A Cidade e o Lugar
Primeiro,
disse a Mil Vezes Ilustre Grandmère, havia apenas um lugar
na extensa planície coberta de grama e uma colina onde não
se via mais nada a não ser mais grama e uma árvore
que era retorcida como uma forquilha de relâmpago negro e
onde nada crescia até que a cidade veio e a Casa chegou.
Todos
nós sabemos como uma cidade pode ir juntando as coisas de
que precisa, uma após a outra, até que subitamente
seu coração começa a bater e faz circularem
as pessoas até seus destinos. Mas como, você me pergunta,
uma casa chega?
O fato
é que a árvore estava lá, e um lenhador a caminho
do oeste distante encostou-se nela e adivinhou que estava ali antes
que Jesus serrasse madeira e aplainasse tábuas no quintal
de seu pai ou que Pôncio Pilatos lavasse as mãos. A
árvore, diziam alguns, chamava a Casa dos tumultos o
clima e das excursões do Tempo. Uma vez a Casa estando ali,
com as raízes de seu porão enterradas fundo nos cemitérios
chineses, ela era de uma magnificência ecoando fachadas vistas
pela última vez em Londres, que carroças, prontas
para atravessar o rio, hesitavam, com suas famílias olhando
lá para cima e chegando à conclusão de que,
se aquele lugar era digno de ser um palácio papal, um monumento
real ou a residência de uma rainha, não parecia haver
muitos motivos para deixá-lo. Assim sendo, as carroças
paravam, os cavalos recebiam água para beber, e, quando as
famílias olhavam, descobriam que seus sapatos, bem como suas
almas, tinham criado raízes. Tão aturdidos ficavam
pela Casa lá em cima, junto à árvore com formato
de relâmpago, que temiam que, se fossem embora, a Casa os
perseguisse em seus sonhos e estragasse todos os lugares que os
aguardavam adiante.
Assim,
a Casa chegou primeiro, e sua chegada foi assunto de outras lendas,
mitos ou tolices de gente bêbada. Parece que um vento soprou
sobre a planície trazendo consigo uma chuva suave que
se transformou numa tempestade que se afunilou num furacão
de força imensa. Entre a meia-noite e a aurora, essa tempestade
levantou todos os objetos móveis entre as cidades ao redor
dos fortes de Indiana e Ohio, despiu as florestas no norte de Illinois
e chegou ao até-então-inexistentes local, se acalmou,
e, com a mão equilibrada de um deus invisível, depositou,
ripa após ripa e telha após telha, um madeiramento
que se avolumou e se formou bem antes de o sol nascer, enquanto
algo sonhado por Ramsés, mas concluído por Napoleão,
fugia do sonhador Egito.
Havia
lá dentro vigas suficientes para construir o telhado da catedral
de São Pedro, e janelas suficientes para deixar cego de tanta
luz um bando inteiro de pássaros migrando. Havia uma varanda
em volta da casa inteira, com bastante espaço para abarcar
uma comemoração de parentes e hóspedes. Por
trás das janelas assomava um emaranhado, um enxame, um labirinto
de quartos, suficientes para abrigar um grupo grande, um esquadrão,
um batalhão de legiões ainda não nascidas,
mas assombrados pela promessa de sua vinda.
A Casa,
então, estava pronta e capeada antes que as estrelas se dissolvessem
na luz, e ficou sozinha em seu promontório por muitos anos,
de algum modo sem conseguir convocar sua prole futura. Devia haver
um rato em cada toca, um grilo em cada lareira, fumaça nas
numerosas chaminés, e criaturas quase humanas ocupando cada
cama. Além disso, cachorros loucos nos jardins, gárgulas
vivas no telhado. Todos esperavam que algum trovão imenso
da tempestade, finda havia muito, gritasse: Comecem!
E,
finalmente, muitos longos anos depois, isso aconteceu.
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