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Gone, Baby, Gone, de Dennis Lehane (tradução de Luciano Vieira Machado; Companhia das Letras; 472 páginas; 44,50 reais) – Esse é o quarto livro da série protagonizada pelos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro lançado no Brasil. A dupla atua em Boston, terra natal do americano Lehane, uma das melhores revelações da ficção policial recente (e autor do livro que deu origem ao filme Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood). Gone, Baby, Gone começa com o desaparecimento de Amanda McCready, uma menina de 4 anos. A princípio, Kenzie e Angela não acreditam que possam contribuir para o caso. Mas, quando os esforços da polícia e da imprensa em encontrar a garota fracassam, eles decidem entrar em ação. E descobrem que estão diante de uma história muito mais complicada do que poderiam supor.

Leia trecho

Todos os dias, registra-se o desaparecimento de três mil e trezentas crianças neste país.

Dessas, boa parte é seqüestrada por um dos pais separado do cônjuge, e em mais da metade dos casos não é difícil descobrir o paradeiro da criança. A maioria delas está de volta dentro de uma semana.

Outra parcela dessas três mil e trezentas crianças é composta de fugitivos. Também nesse caso, a maioria não fica desaparecida por muito tempo: ou se sabe de seu paradeiro imediatamente, ou se descobre com facilidade - o destino mais comum é a casa de um amigo.

Outra categoria de crianças desaparecidas são os excluídos, que fogem de casa e os pais não se preocupam em localizá-los. São essas crianças que em geral se encontram nos abrigos e nos terminais de ônibus, nas esquinas dos bairros mal-afamados e, finalmente, nas prisões.

Dos mais de oitocentos mil casos anuais de desaparecimento de crianças em todo o país, apenas três mil e quinhentos a quatro mil são classificados pelo Departamento de Justiça como seqüestros não familiares - aqueles casos em que a polícia logo descarta a hipótese de rapto por alguém da família, de fuga, de expulsão pelos pais, ou ainda a possibilidade de a criança estar perdida ou ferida.

O resultado final é que, a cada ano, trezentas dessas crianças desaparecidas não voltam nunca mais.

Ninguém - nem seus pais, nem seus amigos, agentes da lei, organizações de proteção à infância ou centros de busca de desaparecidos - sabe para onde essas crianças vão. Para o fundo de uma cova, provavelmente; ou mofam em porões, em poder de pedófilos; a menos que sejam tragadas pelo vazio, que desapareçam de corpo e alma num desses buracos negros que permeiam o tecido do universo - e nunca mais se ouve falar delas.

Seja lá para onde essas trezentas crianças vão, elas nunca reaparecem. Durante certo tempo, sua lembrança preocupa as pessoas estranhas que ouviram falar de seus casos; e aflige suas famílias por muitíssimo mais tempo.

Sem um corpo deixado para trás, sem provas de seu falecimento, elas não morrem. Apenas avivam nossa consciência do vazio.

E de sua eterna ausência.

"Minha irmã", disse Lionel McCready, enquanto andava pelo nosso escritório na torre da igreja, "teve uma vida muito dura." Lionel era um homem alto cujo rosto de traços frouxos tinha alguma coisa de canino e cujos ombros largos descaídos pareciam ceder ao peso de um fardo invisível para nós. Seu sorriso era meio tímido, mas a mão calosa dava um vigoroso aperto de mão. Estava com o uniforme marrom do serviço de entregas ups, e amassava a pala do boné de beisebol, também marrom, em suas mãos fortes. "Nossa mãe era... bem, uma alcoólatra. E meu pai foi embora de casa quando ainda éramos crianças. Quando a gente cresce num ambiente desse, a gente... eu acho que... talvez a gente vá acumulando um bocado de raiva. Leva algum tempo para você erguer a cabeça e encontrar seu caminho. Não estou falando só de Helene. Quer dizer, eu tive problemas muito sérios, cheguei a entrar em cana lá pelos vinte. Eu não era nenhum santo."

"Lionel...", interveio sua mulher.

Ele levantou a mão em sua direção, como a dizer que, se tivesse de falar tudo, seria agora ou nunca. "Eu tive sorte. Conheci Beatrice, e ela endireitou a minha vida. O que quero dizer, senhor Kenzie, senhorita Gennaro, é que se lhe dão um tempinho a mais, uma pausa para respirar um pouco, você amadurece. Você se livra de toda essa porcaria. Minha irmã ainda está amadurecendo, é o que digo. Talvez. Porque a vida dela foi dura e..."

"Lionel", disse sua mulher. "Pare de inventar desculpas para Helene." Beatrice McCready passou a mão pelos cabelos curtos arruivados e continuou: "Querido, sente-se. Por favor".

"Estou só tentando explicar que Helene não teve uma vida fácil", retrucou Lionel.

"Você também não", tornou a mulher. "E você é um bom pai."

"Quantos filhos vocês têm?", perguntou Angie.

Beatrice sorriu. "Um. Matt. Tem cinco anos. Nós o deixamos na casa de meu irmão e de sua mulher até encontrarmos Amanda."

À menção de seu filho, Lionel pareceu animar-se um pouco. "É um grande garoto", disse ele, dando a impressão de envergonhar-se um tantinho daquela manifestação de orgulho.

"E Amanda?", perguntei.

"Ela também é ótima", disse Beatrice. "E pequena demais para sair por aí sozinha."

Amanda McCready desaparecera de seu bairro três dias antes. Desde então, toda a cidade de Boston, ao que parecia, estava obcecada com as buscas que se faziam para localizá-la. A polícia colocara mais agentes nessa busca que os que foram destacados para a caçada a John Salvi, depois dos atentados contra clínicas de aborto, uns quatro anos antes. O prefeito deu uma entrevista coletiva afirmando que nenhum outro problema municipal teria prioridade sobre o desaparecimento da menina, até ela ser encontrada. A cobertura da imprensa atingira o ponto de saturação: primeira página dos dois jornais da cidade todas as manhãs, matéria de destaque nos três maiores noticiários noturnos da televisão, flashes inseridos nos intervalos das novelas e dos talk shows.

E em três dias... nada. Nem sinal dela.

Amanda McCready estava neste mundo havia quatro anos e sete meses quando desapareceu. Sua mãe a pusera na cama no sábado à noite, e voltara para vê-la por volta das oito e meia. Quando entrou no quarto na manhã seguinte, pouco depois das nove, viu apenas os lençóis com a marca do corpo da filha.

As roupas que Helene McCready tirara da filha - uma camiseta cor-de-rosa, shorts jeans, meias cor-de-rosa e tênis brancos - tinham sumido, e também a boneca favorita de Amanda, batizada por ela de Pea, réplica em miniatura de uma criança loira de três anos, que tinha uma semelhança espantosa com sua dona. Não havia nenhum sinal de luta no quarto.

Helene e Amanda moravam no primeiro andar de um edifício de dois andares. Embora fosse possível, era pouco provável que ela tivesse sido seqüestrada por alguém que tivesse encostado uma escada na janela de seu quarto, abrindo em seguida a tela para então entrar. Não havia o menor indício no parapeito nem na tela da janela, tampouco marcas de escada na terra junto ao edifício.

O mais provável, se se parte da idéia de que uma criança de quatro anos não resolve sair de casa sozinha no meio da noite, é que o seqüestrador tenha entrado pela porta da frente do apartamento, sem necessidade de forçá-la nem soltá-la do batente, porque nada disso era necessário, já que não estava fechada à chave.

Quando essa informação veio a público, a imprensa não poupou críticas a Helene McCready. Vinte e quatro horas depois do desaparecimento de sua filha, o News, versão bostoniana em tablóide do New York Post, dava a seguinte manchete de primeira página:

PODE ENTRAR:
A MÃE DA PEQUENA AMANDA DEIXOU A PORTA ABERTA


 
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