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Contos Russos, Contos Norte-Americanos e Contos Ingleses – Os Clássicos (vários tradutores; Ediouro; 524, 512 e 464 páginas; 52,90 reais o volume e 120 reais a caixa com os três livros) – Essas antologias foram editadas originalmente nos anos 50 e estavam havia um bom tempo fora de catálogo. A organização dos três volumes coube a nomes do peso de Rubem Braga, Graciliano Ramos e Vinicius de Moraes. Entre os tradutores, também se encontram alguns nomes fortes da cultura brasileira: Sérgio Buarque de Hollanda, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e Monteiro Lobato. Mas o melhor, claro, são os mais de 100 contos de uma ampla seleção de autores das três literaturas contempladas, do russo Leon Tolstoi ao americano Henry James.

Leia contos

O noivado infeliz da Aurélia
Mark Twain
Tradução de Valdemar Cavalcanti

Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jo-vem da bela cidade de San José.

Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria - provavelmente um pseudônimo.

A pobre garota tem o coração transtor-nado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.

Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.

Ouçamos a sua triste história.

Aurélia tinha dezesseis anos - diz ela - quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinrid-ge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.

Com o consentimento de seus pais, fica-ram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgra-ça que sempre tocam à humanidade.

Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinho o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desapa-recera para sempre.

Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.

Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, dis-traído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.

Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela dei-xou que o tempo corresse.

Outra infelicidade aguardava o noivo cai-pora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três me-ses depois, teve o outro esmagado numa pren-sa agrícola.

O coração da pobre Aurélia foi horrivel-mente machucado por essas verdadeiras cala-midades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pe-daço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.

Em seu desespero, coitada, como um ne-gociante que teima num negócio e tem pre-juízo regularmente, todos os dias, Aurélia sen-tia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caru-thers. antes que ele sofresse tão alarmante de-preciação. Mas, encarando a situação com âni-mo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.

Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.

Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.

Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém res-pondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.

Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.

Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.

Aurélia sentiu uma emoção cruel, perce-bendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, so-bretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.

Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: du-rante o ano, os índios de Owen River arran-caram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.

Ainda assim, o pobre-diabo fez-se trans-portar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embo-ra tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.

A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo - é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.

Caruthers é pobre e não pode mais traba-lhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.

- Que devo fazer? - eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.

Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.

Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.

Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo muti-lado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresen-tável. Feito isto, seria conveniente que lhe des-se um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pesco-ço, poderá arriscar-se a casar com ele.

Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer ma-neira. Se Caruthers ainda uma vez cede à ten-tação estranha de quebrar alguma coisa sem-pre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranqüila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, fica-rão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.

É tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.

Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispon-do-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.

 

O inimigo
Anton Tchekov
Tradução de Oswaldo Alves

A noite desceu há muito sobre a paisa-gem de neve, uma noite escura e pro-funda, que envolve seres e coisas no silêncio e na paz. Àquela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debruçada so-bre o berço onde o menino não quer dormir. Varka tem apenas treze anos, é pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos são tris-tes e vagos. Agora impulsiona suavemente o berço e canta baixinho, com voz branda, uma canção de ninar. "Dorme, menino bonito, que o bicho vem pegar..." Uma lamparina verde, acesa junto ao ícone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; peças de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o com-partimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande círculo verde, as sombras das peças de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas so-bre a estufa, sobre Varka e sobre o berço.

Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, está rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas forças. Varka tem um sono terrível, seus olhos se cerram apesar de todos os esforços; e ela acha que o menino jamais se acalma-rá. Por mais esforço que faça, sente que as pálpebras se ligam, começa a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os lábios. Dentro dela cresce uma impressão estranha, parece-lhe que o rosto é de madeira e que a cabeça é pequena, como a de um alfinete. "Dorme, menino bonito..." Sua voz é apenas perceptível, um cicio trêmulo na noite profun-da. Ouve-se agora o canto monótono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o berço geme, tristíssimo.

Todos esses ruídos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce música, boa para fazer dormir. Mas Varka não pode deitar-se, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patrões a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela música aca-lentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terrível que a subjuga. Quando poderá estender-se no chão e dormir, dormir profun-damente, dormir e não acordar nunca mais?

A lamparina está a ponto de apagar-se, a chama tênue oscila incerta. O círculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua ca-beça meio adormecida nascem sonhos vagos e fantásticos. Através dos sonhos ela vê nu-vens negras correndo no céu, nuvens que choram aos gritos, como crianças de peito. O vento, porém, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos às costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bos-ques cobertos de neve. Subitamente os cami-nhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta então:

- Por que é que vocês fazem isso?

- Para dormir! - dizem todos. Quere-mos dormir!

E dormem tranqüilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respirações, o argar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.

De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do telégrafo, fazem tudo para despertá-los. "Dorme, menino bonito..." En-tre os sonhos a voz de Varka é mais débil ainda.

Pouco depois sonha que está em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamava-se Efim Stepanov, já morreu há muito tempo, mas ela o sente agora revolvendo-se no chão. Não pode vê-lo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doença que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorce-se e range os dentes.

A mãe de Varka saiu correndo, rumo à casa senhorial, para dizer que o marido está morrendo, e ainda não voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi há muito tempo, já devia ter chegado.

Varka está encostada na estufa, continua so-nhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um médico ainda moço para ver o agonizante. Entra em silêncio. Varka não consegue vê-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.

- Acenda a luz - diz ele, por fim.

Efim Stepanov range os dentes em res-posta e a mãe de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, à procura de velas. Depois de um longo silêncio o doutor tira uma do bolso e acende-a.

As faces do doente estão roxas, as pupi-las brilham intensamente e os olhares pare-cem fundir-se estranhamente agudo no dou-tor e nas paredes.

- Que é isso, homem? - pergunta o médico inclinando-se sobre ele. - Há muito tempo que está doente?

- Chegou na hora, doutor - respon-deu Efim Stepanov penosamente. - Não te-nho ilusões.
- Não diga tolices. Você vai ver como fica bom.

- Obrigado, doutor. Eu sei, porém, que não há remédio. Quando a morte diz "aqui estou", é inútil lutar contra ela.

O médico olha demoradamente o velho e declara:

- Já não posso fazer nada. É preciso levá-lo ao hospital para ser operado imedia-tamente. Ainda que seja tarde, não importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receberá você. Mas sem perda de tempo!

- Doutor, como havemos de levá-lo? - pergunta a mãe. - Não temos cavalos.

O médico olha-a um instante e depois diz:

- Não tem importância. Explicarei isso lá na casa senhorial e eles mandarão um.

O médico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribun-do.

Meia hora depois um coche pára à porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.

Passa enfim a noite e sai o sol, a manhã clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka está triste. Sua mãe foi ao hospital ver como passa o marido e ainda não voltou. Varka olha a paisagem através da janela meio carcomida, contempla a extensão de neve, o coração se confrange a solidão pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma canção suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que é a sua própria voz que canta.

Agora vê na distância o vulto negro de sua mãe na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignando-se.

- Acabaram de operá-lo, mas ele mor-reu! Deus o tenha no céu. O doutor disse que a operação foi feita demasiado tarde.

Varka sai de casa e se dirige para o bos-que, ao longe. Cresce dentro dela um pro-fundo sentimento de dor e de mágoa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo do-lorido, os pés terrivelmente frios a enterrarem-se na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a distância aumenta cada vez mais...

Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do berço. Acorda e vê com terror a cara tirânica do patrão, que grita:

- Peste! O menino chorando e tu dor-mindo!

O patrão ainda lhe puxa as orelhas com força brutal, deixa-a humilde e atônita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sa-code a cabeça com força, para afugentar o sono irresistível, e põe-se de novo a embalar o berço, cantando com voz afogada.

O círculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patrão sal ela volta a dormir, começa outra vez a sonhar - e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra úmida. Ela também quer deitar-se, mas sua mãe caminha ao lado e não deixa. Varka não pode dormir, ambas se diri-gem a uma grande cidade em busca de traba-lho. De repente a mãe olha a multidão, pára e estende a mão, pedindo:

- Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadecei-vos de nós, bons cristãos!

Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do so-nho, partindo a visão que lhe resta da mãe.

- Dá-me o menino! Outra vez dormin-do, peste!

Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma pé na realidade; não há caminho nem caminhantes, nem a mãe está junto dela. Só vê a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.

Enquanto o menino mama, ela espera de pé, pacientemente, meio tonta, esforçando-se para não dormir diante da patroa.

O espaço começa a azular-se atrás dos vitrais, o círculo verde do teto e as sombras vão empalidecendo, desmaiando nas pare-des, a manhã vem surgindo maravilhosa-mente branca.

A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Volta-se para Varka berrando:

- Toma o menino! Não sei o que está acontecendo. Sempre chorando, chorando!

Ela estende os braços, deita a criança no berço e embala-o. O círculo verde e as som-bras, menos perceptíveis a cada instante, já não exercem nenhuma influência sobre Varka, que já não os percebe. Apesar disso, en-tretanto, ela tem sono, um sono terrível, e sua necessidade de dormir é imperiosa, irresistí-vel. Apóia a cabeça na borda do berço e deixa o corpo embalar-se, acompanhando o movi-mento rítmico, que provoca um ruído seco e monótono, como um gemido. Os olhos estão quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:
- Varka! acende a estufa!
Já é dia, vai começar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o berço, corre à estufa. Anima-se um pouco, acha mais fácil resistir ao sono andando do que assenta-da. A névoa que envolvia sua cabeça vai-se dissipando.
- Varka! prepara o samovar! - grita a patroa.
As ordens não cessam, são muitas e confundem-na.
- Varka, limpa as botinas do patrão!
Enquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabeça num daqueles sapatões e dormir um tempo enorme. Subi-tamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espaço enorme, côncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da mão lentamente, põe-se a dormir.
Um minuto apenas, e acorda sobres-saltada, faz um grande esforço, sacode a ca-beça, abre os olhos o mais que pode.

- Varka! Vai lavar a escada! Está tão suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.

Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaivém interminável. São tantos os afa-zeres que ela não tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso é ficar de pé, imóvel, diante da mesa da cozinha, descas-cando batatas. A cabeça se inclina, sem que lhe seja possível evitá-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fan-tásticas, suas mãos já não podem sustentá-las. Mas não pode deixar-se vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali está a patroa, gorda e má, indiferente ao seu suplício. Há momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no chão e dormir, dormir, dormir.

Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infindáveis, os cílios prestes a ligarem-se pesados, o grande esforço para não dormir e os gritos da patroa.

Enfim chega a noite e Varka olha as tre-vas através da janela, sente aquela mesma impressão estranha de que seu rosto é de madeira. Sorri de modo estúpido, completa-mente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a espe-rança de poder dormir.

Há uma visita naquela noite, movimen-tos diferentes, vozes confusas.

- Varka, acende o samovar!

O samovar é pequeno, e para que todos possam tomar chá, é necessário acendê-lo muitas vezes. Servido o chá, Varka fica de pé a pequena distância, aguardando outras or-dens, os olhos fixos nos visitantes.

"Varka, serve a vodca! Varka, onde está isso? Varka, limpa um arenque!"

Finalmente a visita se vai, apagam-se as luzes, os patrões se recolhem. E ela ouve a última ordem:

- Varka, pega o menino!

Novamente o quarto, a atmosfera carre-gada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o círculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixando--lhe a cabeça enevoada. "Dorme, menino bo-nito..."

A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o fôlego.

Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua mãe; sente confusamente a figura do pai mo-ribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presença de tudo que a cerca. Só sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindo-a de viver. Faz um esforço supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que força, que potência é essa, tão estranha e tão grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e não a deixa dormir. Mas não com-preende nada, nenhuma idéia precisa lhe acode. Já sem forças, trêmula e abatida, olha o círculo verde e as sombras. Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no coração de Varka, enche-lhe a cabeça cansada, como uma súbita revelação. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. "Esse é o inimigo que não me deixa viver. O inimigo é o menino." Põe-se a rir, acha estranho não ter compreendido isso até agora, a idéia lhe parece clara e simples. "O inimigo é o menino." Completamente ab-sorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, dá alguns passos pelo quar-to. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertará do menino inimigo. É só matá-lo, e depois poderá dormir o tempo que quiser, tranqüilamente.

Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do berço, pisando de leve. Inclina-se sobre o menino, qualquer coisa de trágico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora sim-ples, objetivo - uma sensação de leveza em todos os seus movimentos. As mãos ágeis apalpam o pequeno corpo, sobem até a gar-ganta, e vão apertando, apertando, entrelaçadas, como elos de aço. O menino torna-se azul, contorce-se num rápido e último movi-mento de desespero, depois estremece ape-nas, o corpinho frágil e distendido se aquieta para sempre. Está morto.

Então Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensação de liberdade. E submerge-se num grande sono, profundo e sem sonhos.


 
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