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No Fundo de um Sonho, de James Gavin (tradução de Roberto Muggiati; Companhia das Letras; 485 páginas; 49 reais) – Embora seja admirador de Chet Baker, um expoente do cool jazz, Gavin não poupa o homem na biografia que faz do trompetista americano. Ele mostra que Baker roubou, traiu e cometeu violências contra amigos e principalmente mulheres, para sustentar o vício em heroína. Considerado um dos homens mais bonitos dos Estados Unidos nos anos 50, chegou arrasado ao final da vida, injetando a droga até mesmo sob as unhas e, em maio de 1988, desabou de seu quarto de hotel em Amsterdã, em circunstâncias até hoje nebulosas. Para Gavin, a versão mais plausível de sua morte é a do suicídio.

Leia trecho do livro

Capítulo 1

A temporada de Natal de 1929 chegou poucas semanas depois da quebra da Bolsa de Nova York. Mas naquele dezembro, Vera Baker, de dezenove anos, recebeu o presente dos seus sonhos. Em sua pequenina casa em Oklahoma, ela fitava o bebê em seus braços, um anjo com pele de alabastro e olhos cor de avelã. Quando ele lhe sorria, era mágica pura. A criança certamente a elevaria acima da dura realidade do casamento com um alcoólatra freqüentemente desempregado; mais do que isso, traria um sentido à sua vida, proporcionando toda a ternura e emoção que lhe faltavam. Chamou-se Chesney, o nome do pai. Mas, com suas bochechas rechonchudas e cabelos escuros, a criança parecia uma minúscula réplica dela mesma. A partir do momento em que nasceu, "Chettie", como o chamava, se tornou o centro do universo de Vera.

Sua obsessão por ele, e a reação do pai a essa obsessão, teve um efeito muito mais sombrio sobre Chet Baker do que este chegaria a admitir; ele mesmo provavelmente não entendia aquilo. Anos depois, contou a Lisa Galt Bond, sua colaboradora num livro de memórias inacabado: "Tive uma infância muito feliz; sem problemas". A tendência de manter as coisas escondidas foi incutida nele desde tenra idade. Em 1954, trouxe sua namorada francesa Liliane Cukier para a casa dos pais durante a primeira turnê nacional do Chet Baker Quartet. Ela observou os Baker durante três semanas. “Era uma família em que ninguém gritava, ninguém dizia o que sentia ou o que pensava", comentou. "Cada um tentava apenas ficar na sua.”

Cukier lembrava de Chesney e Vera como "matutos de Oklahoma, gente branca comum, afastada do centro das coisas". Em 1946, Chesney começou a dirigir uni táxi amarelo, o único emprego que manteve por alguns anos. Durante algum tempo, nos anos 20, vivera o seu sonho, excursionando como violonista e tocador de banjo. Trabalhava principalmente em bandas de country music, Mas, segundo seu filho, Chesney levava jeito para o jazz: era capaz de assobiar as frases do seu herói, Jack Teagarden, o mestre do trombone nascido no Texas, enquanto improvisava no violão.

Veio então a Depressão e o nascimento do filho e ele foi forçado a largar a música e a encarar uma série de empregos áridos para sobreviver. Raramente falava de sua frustração, mas ela se estampava em seu rosto: aos trinta anos parecia velho e abatido, com pés-de-galinha espalhando-se pelo rosto, apontando para uma boca que quase nunca sorria. Penteava os cabelos ruivos para trás, expondo uma testa profundamente vincada. Aquele ar precocemente devastado foi herdado pelo filho, cuja decadência facial nos últimos anos seria geralmente atribuída ao abuso de drogas. Chesney, porém, envelheceu de uma maneira bem menos notável. Bernie Fleischer se recordava dele como "um sujeito apagado", dos que não se destacam numa multidão: "Era uma daquelas figuras espectrais que estava sempre em outro lugar". Nos anos 40, Chesney aparecia de vez em quando para se gabar, junto aos músicos amigos de seu filho, de uma noite em que o grande Teagarden viera à sua casa dar uma canja e tocar com ele. Alguns desses músicos depois suspeitariam que o fabuloso encontro nunca chegara a acontecer.

A bebida ajudava Chesney a obliterar a verdade, que incluía memórias de uma infância melancólica. Sua família se mudara do Illinois, onde ele nasceu a 24 de janeiro de 1906, para Snyder, Oklahoma. A vida em Snyder parecia amaldiçoada - não só pelos furacões e incêndios que assolavam a cidadezinha, mas pelo conflito doméstico. Vera explicou depois que o pai de Chesney, George Baker, havia abandonado sua mãe, Alice, e seus cinco filhos, por outra mulher. Alice seguiu em frente e se casou com "Vovô Beardsley", como a família o chamava, um fazendeiro com uma perna defeituosa e um gênio de cão. Vovô Beardsley parecia odiar seu enteado só de vê-lo; Chesney contou a Vera que o velho o surrava com a bengala e o atormentava para que deixasse a casa e nunca mais voltasse. Alice tentou proteger o filho, mas Chesney fugiu antes de completar dezoito anos. Pelo resto da vida odiou o pai e o padrasto. Mesmo depois que este sofreu um derrame e precisava de duas bengalas para andar, Chesney não demonstrava nenhuma compaixão por ele; resmungava para Vera que não atravessaria a rua para ver o padrasto nem que o velho estivesse no leito de morte.

Foi na adolescência que Chesney encontrou consolo na arte emergente do jazz. Música improvisada nascida do gospel, dos spirituals negros, do blues e do ragtime, o jazz consistia em dar asas à imaginação, amoldando vôos alucinantes da fantasia a afirmações pessoais do coração. Chesney precisava de um escape, e o Jazz parecia o veículo perfeito.


 
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