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Amor,
Etc., de
Julian Barnes (tradução de Léa Viveiros de
Castro; Rocco; 204 páginas; 25 reais) Um dos expoentes
da geração de autores ingleses hoje na faixa dos 50
e tantos anos, ao lado de Martin Amis e Ian McEwan, Julian Barnes
hesitou durante algum tempo para escrever esse livro. Tratava-se
de uma seqüência de um de seus maiores sucessos, Em
Tom de Conversa, e o autor temia cair na mesmice. O resultado
foi bem o contrário disso. No romance anterior, os amigos
do peito Stuart e Oliver rompem relações quando o
segundo rouba a mulher do primeiro, Gillian. Amor, Etc. retoma
a vida do trio décadas depois. Enquanto Gillian e Oliver
amargam um casamento frio, Stuart ressurge no pedaço rico
e se propõe a dar uma força aos velhos conhecidos
ou será que, no fundo, ele só pretende vingar-se?
Leia
trechos do livro
Eu
me lembro de você
Stuart
olá!
Nós
já nos conhecemos. Stuart. Stuart Hughes.
Sim,
eu tenho certeza. Absoluta. Há cerca de dez anos.
Está
tudo bem - isso acontece. Você não precisa fingir.
Mas o fato é que eu me lembro de você. Eu me lembro
de você. Eu não poderia esquecer, não é
mesmo? Pensando bem, um pouco mais de dez anos.
Bem,
eu mudei. Claro. Para começar, isto aqui está branco.
Não dá mais para chamar de grisalho, não é?
Ali,
e por falar nisso, você também mudou. Você provavelmente
acha que está igual ao que era antes. Pode acreditar em mim,
não está não.
Oliver
O que é esse amável gorjeio que vem da gaiola ao lado,
esse bufar e bater de pés que vem da baia acolchoada? Será
que é o meu querido e velho - velho no sentido de antigo
- amigo Stuart?
"Eu
me lembro de você." Como isso é típico
de Stuart! Ele é tão antiquado, tão obsoleto
que gosta de canções sentimentais mais velhas do que
ele... Quer dizer, uma coisa é se amarrar em música
de segunda, da época em que seus órgãos libidinosos
começaram a ingurgitar, seja ela de Randy Newman ou de Luigi
Nono, mas se amarrar nas musiquinhas indolentes de uma geração
anterior - isso é tão tipicamente, comoventemente
Stuart, não acha?
Não
faz essa cara de espanto. Frank Ifield. "Eu me lembro de você."
Ou melhor, Eu me lembro de vocêê-ê./ Você
me deu motivos para sonhaaa-ar. Lembra? 1962.
Aquele
cantor australiano de música sertaneja do carro com estofamento
de pele de carneiro? Realmente. Realmente -ooo. E que paradoxo sociológico
ele deve ter representado! Sem nenhum desrespeito para com os nossos
primos bronzeados, é claro. Na obediência servil do
mundo a todo subgrupo cultural, não quero que digam que eu
tenho alguma coisa contra um cantor sertanejo australiano per se.
Você mesmo poderia ser um. Se eu der um beliscão em
você, você não grita em falsete como eles? Nesse
caso, eu o olharia firme nos olhos e apertaria a sua mão
sem nenhum preconceito. Eu o convidaria para participar da irmandade
dos homens. junto com o jogador de críquete suíço.
E se
- por um golpe de sorte - você for realmente um jogador de
críquete suíço, um arremessador do Bernese
Oberland, deixe-me dizer simplesmente: 1962 foi o ano da primeira
revolução dos Beatles em quarenta e cinco rotações
por minuto, e Stuart canta Frank Ifield. Eu encerro o meu caso.
Por
falar nisso, eu sou Oliver. Sim, eu sei que você sabe. Eu
percebi que você se lembrou de mim.
Gillian
Gillian. Você pode se lembrar de mim ou não. Tem algum
problema?
O que
você precisa entender é que Stuart quer que você
goste dele, precisa que você goste dele, enquanto Oliver tem
uma certa dificuldade em imaginar que você não vá
gostar. Você está me olhando com um ar cético.
Mas a verdade é que, ao longo dos anos, eu tenho visto gente
antipatizar com Oliver e ficar enfeitiçada por ele quase
ao mesmo tempo. É claro que existem exceções.
Mesmo assim, tome cuidado.
E eu?
Bem, eu preferiria que você gostasse de mim ao invés
do contrário, mas isso é normal, não é?
Dependendo de quem seja você, é claro.
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