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Monstro
de Deus, de
David Quammen (tradução de Maria Guimarães;
Companhia das Letras; 448 páginas; 57,50 reais) Embora
o ser humano tenha conseguido se colocar no topo da cadeia alimentar,
o terror primitivo de ser transformado na refeição
de outro animal ainda subsiste. Aparece tanto em mitos antigos quanto
em filmes de ficção científica como Alien.
Consagrado autor de história natural e colaborador da revista
National Geographic, o americano David Quammen investiga
a situação de ursos, leões e crocodilos. Também
examina o modo de vida dos povos que convivem com os predadores
como os udeges, que, no extremo oriente russo, dividem território
com os tigres siberianos. Esse livro fascinante desvenda uma triste
ironia: quase todos esses grandes predadores hoje estão ameaçados
de extinção.
Leia
trecho
A
cadeia alimentar de poder e glória
1
Grandes e terríveis feras comedoras de carne sempre dividiram
espaço com os humanos. Fizeram parte da matriz ecológica
na qual o Homo sapiens evoluiu e do mesmo contexto psicológico
em que surgiu nosso sentido de identidade de espécie. Estiveram
presentes nos sistemas espirituais que inventamos para segurar as
pontas. Os dentes de grandes predadores, suas garras, ferocidade
e fome eram realidades sinistras que podiam ser evitadas mas não
esquecidas. De vez em quando, um carnívoro ameaçador
emergia de uma floresta ou um rio como uma sentença para
matar alguém e alimentar-se do corpo. Era um tipo conhecido
de desastre - como acidentes de carro atualmente - que deve ter
parecido mórbido e assustador a cada vez, apesar da familiaridade.
E transmitia uma certa mensagem. Entre as formas mais primitivas
de autoconsciência humana estava a consciência de ser
carne.
Hoje
em dia o termo "devorador de homens" pode parecer retrógrado.
Os que se importam com grandes animais carnívoros gostariam
de livrar-se dele de uma vez. Pode-se argumentar que o termo é
sexista: devorador de homens. Pode-se dizer que é
enganador e sensacionalista, que tende a reforçar uma atitude
excessivamente medrosa em relação àquelas espécies
que às vezes matam e comem um humano. A primeira objeção
- sobre sexismo no uso de "homem" - é um argumento
semântico que deixarei para semanticistas. A segunda - sobre
sensacionalismo e medo - é que é relevante aqui.
Há
alguma legitimidade nesse desconforto com o termo. O valor de choque
da noção de devorador de homens foi mais do que explorado.
As estantes do meu escritório, abarrotadas com literatura
sobre predação, abrigam alguns livros descaradamente
lúgubres, com títulos como The Jaws of Death
[Mandíbulas da morte], Crocodile Attack [O ataque
dos crocodilos], Man Is the Prey [O homem é a presa]
ou simplesmente Attacked! [Atacados!]. A foto de capa deste
último mostra a bocarra de um urso-grizzly, dentes arreganhados
(ou talvez seja um bocejo, ou o que biólogos chamam de careta
de flehmen, que tem a ver com farejar) que exibem os grandes
caninos e a língua malhada de rosa e cinza. Esse é
um close-up tão íntimo que é quase possível
olhar dentro da garganta do urso e imaginar-se em seu estômago,
junto com as raízes yampah e as murtas e os pinhões
de whitebark. Três outros livros em minha coleção
díspar levam os títulos Maneaters [Devoradores
d’homens], Man Eaters [Devoradores de homens] e Man-Eater
[Devorador-de-homens], cada um com sua capa de dentes arreganhados
e um com o subtítulo True Tales of Animals Stalking,
Mauling, Killing, and Eating Human Prey [Lendas reais
de animais espreitando, estraçalhando, matando e comendo
presas humanas]. Aqui à mão tenho também The
Man-Eaters of Tsavo [Os devoradores de homens de Tsavo], um
clássico no gênero escrito pelo tenente coronel J.
H. Patterson, que como supervisor de construção da
estrada de ferro de Uganda em 1898 matou os dois leões encrenqueiros
de seu título. Decorando a capa de meu Patterson está
- dá para adivinhar? - o rosto de um leão com dentes
arreganhados. O propósito de todas essas imagens ameaçadoras,
acompanhadas da palavra "devorador de homens", é
vender melodrama zoológico. Com menos caridade, podemos até
chamar de pornografia de predador. Esse melodrama, esse pornô
denteado, dá uma impressão distorcida da relação
carregada e antiga entre grandes carnívoros e o primata que,
em momentos de desespero temerário, eles tomam como presa.
Apesar
dessas objeções, não estou disposto a ver o
termo "devorador de homens" apagado por completo de nossos
dicionários. Inflamatória ou não, sexista ou
não, a expressão tem um propósito na língua
inglesa. Simplesmente não há alternativa precisa e
neutra em gênero que diga a mesma coisa com o mesmo grau de
baque seco e atávico. Ela merece ser preservada porque rotula
e comemora uma experiência elementar - momentos raros em que
membros de nossa espécie são relegados à condição
de carne comestível. É um lembrete de onde estivemos,
por dezenas de milhares de anos, na cadeia alimentar de poder e
glória. Isto é, nem sempre e incontestavelmente no
topo.
Quem
são esses devoradores de homens? Definido de forma geral,
o grupo incluiria uma quantidade de espécies pequenas e gregárias
de predadores comedores de carne, assim como espécies grandes
e solitárias. Conteria hienas, chacais, lobos, cães
selvagens, piranhas e provavelmente algumas outras espécies
de mamíferos e peixes que viajam em matilhas ou cardumes
e às vezes se unem contra um humano. Mas esses não
são os devoradores de homens que nos interessam aqui. O que
peço ao leitor é que contemple as dimensões
psicológicas, míticas e espirituais (assim como as
implicações ecológicas) de um tipo específico
de relação: o confronto predador-presa entre um animal
perigoso, comedor de carne, e uma vítima humana. Essa relação,
acredito, tem desempenhado o papel crucial de definir como nós
humanos percebemos nosso lugar no mundo natural.
Não
há nome científico coletivo ou categoria formal para
os animais de que falo. Na falta de rótulo melhor, vou chamá-los
predadores-alfa. Eles pertencem a um grupo seleto mas diverso
que transcende fronteiras zoológicas para abranger alguns
mamíferos, alguns peixes e alguns répteis. Em termos
puramente científicos, o agrupamento é artificial;
ele não tem bases taxonômicas ou ecológicas.
Sua existência é psicológica, e foi incutida
na mente humana. Inclui o tigre (Panthera tigris), o urso-pardo
(Ursus arctos), o tubarão-branco (Carcharodon
carcharias), o crocodilo-do-nilo (Crocodylus niloticus),
o crocodilo-marinho (Crocodylus porosus), o leão (Panthera
leo), o leopardo (Panthera pardus), o tubarão-do-ganges
(Glyphis gangericus), o urso-polar (Ursus maritimus)
e o dragão-de-komodo (Varanus komodoensis), assim
como algumas outras espécies. A suçuarana (Puma
concolor) parece estar ressurgindo como candidata. A píton-africana
(Python sebae), a píton-reticulada (Python reticulata),
a sucuri (Eunectes murinus) e a onça (Panthera
onca) poderiam também qualificar-se, além de várias
outras espécies de crocodilianos e tubarões. Mas é
mais ou menos isso. Gatões, alguns peixes cartilaginosos,
alguns répteis, um par de ursos - é uma lista curta
e formidável. O que os diferencia de todas as outras criaturas
e o que os faz tornarem-se semelhantes entre si é que cada
uma dessas espécies tem membros grandes, ferozes, vorazes
e indiscriminados o suficiente para - ocasionalmente - matar e comer
um humano. O perigo que eles representam para as pessoas é
diferente de todos os outros perigos zoológicos.
Elefantes
provocam pisoteios fatais todos os anos, tanto na África
quanto na Ásia, mas não se alimentam das vítimas.
Bisões e rinocerontes podem ser tão letais quanto
caminhões desgovernados, mas não são carnívoros.
Hipopótamos, a despeito de seu vegetarianismo, são
perigosos para habitantes rurais que vivem e trabalham ao longo
de certos rios. Hienas atacam humanos, mas elas caçam em
grupo, não são predadores solitários. Da mesma
forma, há notícia de lobos que investem contra pessoas
na Índia e em outros lugares, mas costumam fazê-lo
em matilhas, não como indivíduos. Najas, mambas e
outras cobras peçonhentas causam muitas mortes todos os anos;
escorpiões e aranhas, algumas. E os mosquitos da malária
poderiam ser considerados a forma silvestre mais exterminadora do
planeta. Mas todos esses animais disseminadores da morte ficam fora
da categoria que delimito aqui. Eles não são devoradores
de homens. Não são predadores-alfa.
Os
predadores-alfa, assim como as reações que eles evocam,
transcenderam a dimensão física de pura luta mortal,
encontrando seu caminho também na mitologia, na arte, na
literatura épica e na religião. No Egito havia Sekhmet,
a deusa com forma de leão, conhecida por sua sede de sangue
em sua associação com a guerra, a praga e a morte.
As esfinges eram criaturas com corpo de leão e cabeça
humana, às vezes asas, cuja disposição era
mais ambígua do que a de Sekhmet. Não só no
Egito mas em todo o Oriente Médio antigo, o leão era
o predador preeminente e o primeiro modelo para ícones predatórios,
o que é representado também na escritura judaico-cristã.
Ele é mencionado na Bíblia pelo menos 130 vezes (pela
conta de um especialista paciente). Um leão no Livro de Jó
serve como lembrete, como tantas coisas naquela lenda ricamente
sombria, de desastres que aguardam o orgulhoso. "O rugido do
leão e a voz do leopardo, e os dentes dos filhotes são
quebrados", diz Jó 4:10. "Morre o leão por
falta de presa, e a cria da leoa se dispersa." Os leões
enfrentados por Daniel, quando este está fechado em seu covil,
servem como árbitros de probidade por abrir mão de
comê-lo; mais tarde, eles fazem o obséquio de devorar
os sátrapas conspiradores que puseram Daniel em má
posição. No primeiro livro de Samuel, um obscuro rapazola
chamado Davi, apresentando-se a Saulo como o homem que enfrentaria
Golias, gaba-se de em seus tempos de pastoreio ter com freqüência
matado leões que atacavam seu rebanho. Ele vai cuidar do
grandalhão filisteu, Davi promete, do mesmo jeito que cuidou
daqueles gatos. E do Salmo 7 vem isto:
Iahweh,
meu Deus, eu me abrigo em ti!
Salva-me
de meus perseguidores todos! Liberta-me!
Que
não me apanhem, como um leão, e
me dilacerem, e ninguém me liberte.
Eram
esses, e os outros mais ou menos 126 leões bíblicos,
feras puramente imaginárias? Eram eles quimeras forjadas
a partir de arquétipos de rumores distantes? Não,
eram leões reais lançados numa procissão de
parábola sagrada. Eram correlatos teológicos da fauna
local.
Na
Índia havia Narasimha, o deus-homem com cabeça de
leão, venerado como o quarto avatar de Vixnu. No norte da
Austrália, ao longo da costa leste de uma grande reserva
aborígine conhecida como Terra de Arnhem, o povo yolngu reconhecia
no passado - e ainda o faz - conexões totêmicas intrincadas
com animais nativos familiares, como o crocodilo-marinho, respeitosamente
chamado de Bäru. Os inuítes da Groenlândia e do
norte do Canadá têm suas lendas sobre o urso-polar,
inclusive acerca de uma ursa que comeu uma mulher grávida
mas criou com amor o menino que arrancou de seu ventre. Os massai
do leste da África fazem a tradicional caça cerimonial
ao leão, alamaiyo, durante a qual guerreiros provam
sua coragem e ganham glória, tendo o primeiro homem a atingir
o leão direito à juba e à cauda como troféus.
Na ilha de Komodo, no arquipélago indonésio, homens
primitivos enterravam seus mortos em covas rasas (cavar mais fundo
deveria ser impossível naquela paisagem pedregosa e vulcânica)
e então as tapavam com dólmens de grandes pedras,
obviamente para impedir os Varanus komodoensis de
comer os corpos. Dentre os ainos da ilha de Hokkaido, no Japão,
o urso-pardo, higuma, era venerado como deus da montanha;
mesmo assim, os ainos praticavam um rito em que um filhote de urso
era criado e depois morto, "mandado para casa", com dois
ou três anos de idade.
O
culto ao tubarão em algumas ilhas do Pacífico funcionava
de maneira parecida ao culto aos leões, pelo menos até
que missionários cristãos chegaram para desaprovar
a prática. Nativos das Ilhas Salomão erigiram altares
de pedra e, de acordo com um relato, faziam sacrifícios humanos
para um deus tubarão chamado takw manacca. Fidjianos
realizavam uma cerimônia beija-tubarão duas vezes por
ano, em parte para trazer segurança para os locais onde tomavam
banho.
Numa
região montanhosa do centro-oeste de Sumatra, o povo kerinci
sacralizou sua visão do Panthera tigris com uma distinção
entre duas formas de grande gato, o tigre físico (harimau
biasa) e o tigre espírito (harimau roh). Aquele
é temido; este, venerado como um guardião ancestral
e árbitro. Quando enfrentam dificuldades extremas, um kerinci
pode invocar harimau roh e tornar-se possuído e encorajado
por sua energia tigrina. No leste do Congo, havia uma noção
paralela sobre a troca de forma entre humanos e leopardos, gerando
abuso na forma de homens-leopardo, conhecidos como anioto, que às
vezes usavam armas que pareciam garras para pôr a culpa de
seus assassinatos em leopardos reais. E entre a nação
udege do sudeste da Rússia, cuja cultura tradicional orbita
em torno da caça e da captura, a fera soberana da floresta
é o Amba, nome que dão ao que chamamos de tigre-siberiano.
O Amba é às vezes considerado um bom sentinela e guardião,
outras vezes ressentido como competidor por caça, mas raramente
temido como ameaça direta. Deixe-o em paz, os udeges parecem
acreditar, e o Amba o deixará também.
Amba,
o tigre, e Bäru, o crocodilo, receberão mais atenção
neste livro, assim como o urso-pardo, um onívoro impetuoso
que inspira apreensão complexa não só em Hokkaido
mas pelos confins do norte de três continentes, e uma subespécie
pouco conhecida de leão, Panthera leo persica, que
hoje sobrevive somente num encrave de bosque no oeste da Índia.
Esses quatro casos definem o itinerário geográfico
que percorri no curso de minha pesquisa: da floresta de Gir (com
seus leões) no estado indiano de Gujarate, à reserva
da Terra de Arnhem (com seus crocodilos) no norte da Austrália,
aos Cárpatos da Romênia pós-comunista (com sua
surpreendente abundância de ursos-pardos), à cadeia
nevada de Sikhote-Alin (o último reduto dos tigres-siberianos)
no extremo oriente russo. Índia, Austrália, Romênia,
Rússia - é um circuito errante e longínquo,
mas grandes predadores só podem ser encontrados nesses lugares.
Embora cada um desses casos seja peculiar, e aparentemente marginal
às maiores preocupações do mundo (até
mesmo às que dizem respeito aos grandes predadores, onde
eles são mais conhecidos), cada um é também,
à sua maneira, emblemático e revelador. Paisagens
têm o poder de ensinar, se buscamos com cuidado. E paisagens
remotas ensinam as lições mais raras, mais serenas.
Meu
itinerário pelas fontes míticas e literárias
tem sido igualmente desigual e tortuoso. Voltei a Beowulf
para dar uma nova olhada no devorador de homens Grendel; considerei
memoráveis alguns monstros da antiga poesia babilônia
(Humbaba no Épico de Gilgamesh, Tiamat em Enuma
Elish); consultei a Saga dos Volsungs da Islândia
medieval por seu retrato de um dragão vermiforme; e me lancei
no futuro (pelo menos como Hollywood o imagina) para estabelecer
uma conexão entre essas feras brutais e o predador extraterrestre
enfrentado pela personagem de Sigourney Weaver nos filmes Alien.
Pode um filme como Alien: a ressurreição ser
considerado literatura? Não, mas ele certamente toma parte
no processo em que percepções e ansiedades míticas
são reforçadas. Beowulf também, em seu
tempo, era uma forma de diversão popular.
Escritura
é outro assunto. Monstros escriturais tendem a ter fins didáticos,
não só papéis narrativos sinistros. E certas
instâncias combinam didático com sinistro especialmente
bem. Passando pelos leões mencionados em Jó 4 e outros
lugares - que, apesar de bastante assustadores, são animais
ordinários e não oferecem ameaça extraterrena
- chego ao verdadeiro bicho-papão de todos os monstros retratados
na Bíblia, o arquétipo dos predadores-alfa: Leviatã.
2
Leviatã
aparece várias vezes no Velho Testamento e no apócrifo,
mas em nenhum lugar mais vívido do que no capítulo
41 de Jó. Diferentemente dos leões de Daniel e Davi
(ou do lobo e do leopardo mencionados de passagem em Isaías
11, que, mansos, confraternizam com ovelhas e crianças),
Leviatã é maior do que a vida e, sobretudo em Jó
41, terrível acima do normal: um monstro de dentes longos
com pele blindada, boca que lança fogo, narinas fumegantes,
coração firme como pedra e um olhar sombrio, como
em brasas - ou, mais poético, olhos "como as pálpebras
da manhã". De acordo com uma teoria, essa figura pode
ter derivado de um monstro fenício anterior chamado Lotan,
um dragão imenso de sete cabeças representando o caos
primordial, conquistado pela divindade Baal. Nas escrituras hebraicas
ele parece mais firmemente subordinado ao poder divino. Jeová
é todo-poderoso, Leviatã é poderoso, e depois
vêm os outros personagens. A passagem de Jó 41 é
um retrato do predador marionete de Deus, uma criatura que existe
para lembrar aos humanos - e ao pobre Jó em si, além
do resto de nós - de que estamos apenas no terceiro lugar
na cadeia alimentar de poder e glória.
Não
confunda esse Leviatã original com uma baleia. Em tempos
posteriores e em uso mais vago, a palavra adquiriu esse sentido,
mas o Leviatã bíblico era mais esquisito e mais assustador.
Era uma figura quimérica, parte crocodilo, parte dragão,
evocado para propósitos espirituais a partir da realidade
psicológica e zoológica. Isaías 27, por exemplo,
promete um dia do julgamento em que "Naquele dia, punirá
Iakweh, com a sua espada dura, grande e forte, a Leviatã,
serpente escorregadia, a Leviatã, serpente tortuosa, e matará
o monstro que habita o mar". Esta é uma tradução
moderna da Bíblia anotada New Oxford; a versão King
James, um pouco menos clara mas para mim preferível por sua
ressonância melancólica, chama Leviatã de "a
serpente torcida". No salmo 74 Deus é louvado e agradecido
por ter "esmagado as cabeças do Leviatã"
e dado sua carcaça com múltiplas cabeças como
comida ao povo do deserto, uma provisão de emergência
que deve ter parecido ainda menos apetitosa que maná. Quantas
cabeças tinha Leviatã? Provavelmente sete, como Lotan,
embora nos versos finais de Jó 41 a fera pareça reduzida
a apenas uma. Apesar dessa diminuição pouco importante,
é aqui que se faz justiça a Leviatã:
Quem
jamais abriu as portas de suas fauces, rodeadas de dentes terríveis?
Seu
dorso são fileiras de escudos, soldados com selo tenaz
De
suas fauces irrompem tochas acesas e saltam centelhas de fogo.
De
suas narinas jorra fumaça, como de caldeira acesa e fervente.
Seu
hálito queima como brasas, e suas fauces lançam chamas.
O
Senhor está doutrinando Jó a respeito da terrível
majestade desse animal. Seu propósito, pelo menos de início,
é aprofundar a humildade e reverência de Jó
ao lembrá-lo de que no mundo habitam certos seres perto dos
quais o homem é incapaz.
Poderás
pescar o Leviatã com anzol e atar-lhe a língua com
uma corda?
Serás
capaz de passar-lhe um junco pelas narinas, ou perfurar-lhe as mandíbulas
com um gancho?
A
resposta, como Jó bem sabe, é não. Mas o Senhor
força seu argumento, num tom de ironia implicante:
Virá
a ti com muitas súplicas, ou dirigir-te-á palavras
ternas?
Fará
um contato contigo, para que faças dele seu criado perpétuo?
Brincarás
com ele como se fora um pássaro?
Dificilmente.
Não, o senhor diz, Jó como um homem sensato terá
sempre em mente a selvageria, a força, a aparência
assustadora e a invencibilidade de Leviatã e manterá
a devida distância. Aí vem a mensagem final do Senhor:
"Não se torna cruel, quando é provocado? Quem
lhe resistirá de frente?".
Essa
parte está de acordo com o tema maior da história
- Jó afligido, mortificado, irremediavelmente pio. Mas o
Senhor se anima um pouco, divagando numa celebração
de Leviatã por si só. A pura robustez repugnante da
criatura parece ter por um momento desviado a atenção
do Senhor (ou pelo menos do autor escritural), como Satã
roubou a de Milton em Paraíso perdido. Um bom vilão,
como sabemos, é mais interessante do que um herói
impecável. O capítulo 41 termina:
A
flecha não o afugente; as pedras da funda são felpas
para ele.
A
maça é para ele como lasca, ri-se do sibilo dos dardos.
Seu
ventre coberto de cacos pontudos é uma grade de ferro que
se arrasta sobre o lodo.
Faz
ferver o abismo como uma caldeira, e fumegar o mar como um piveteiro.
Deixa
atrás de si uma esteira brilhante, como se o oceano tivesse
uma cabeleira branca.
Na
terra ninguém se iguala a ele, pois foi feito para não
ter medo.
Afronta
os mais altivos, é rei das feras soberbas.
Aqueles
filhos da soberba trazem Deus de volta ao tema. Leviatã,
apesar de impressionante e assustador, deve sua existência
ao próprio Senhor. Eu fiz essa fera monstruosa.
Ninguém é corajoso o suficiente ou temerário
o suficiente para meter-se com ele. Quem então
pode erguer-se diante de mim ? O papel de Leviatã, aqui
em Jó 41 e em outras partes da Bíblia, era manter
as pessoas humildes.
Enquanto
isso, animais reais com dentes grandes e garras compridas realizavam
a mesma coisa. Desde que o Homo sapiens é sábio
- muito mais tempo se contarmos a sabedoria evolutiva contida em
nossos genes - os predadores-alfa nos mantêm vivamente conscientes
de nossa condição de membros do mundo natural. Fazem
isso nos lembrando de que para eles não passamos de mais
um tipo de carne.
O
Leviatã é o exemplar santificado de predador-alfa
de uma cultura. Amba e Bäru também. Crenças e
tradições similares mencionam onças, crocodilos-do-nilo,
suçuaranas, pítons-reticuladas e todas as outras espécies
de grandes predadores que dividiram espaço em proximidade
desconfortável com seres humanos, às vezes tratando-os
como presa. Claramente, a dimensão mítica de predadores-alfa,
como refletida e amplificada naquelas crenças e tradições,
desempenhou papel importante ao ajudar a definir como nossa espécie
percebe seu próprio lugar na criação.
Foram
leões, tigres e ursos que tornaram a floresta escura assustadora?
Eles o fizeram de fato, e de certa forma foi uma boa coisa. Crocodilos
e tubarões cometeram atos repulsivos e horríveis de
homicídio e antropofagia? Sim, e ao fazer isso nos ofereceram
certa perspectiva. Mesmo que nós humanos possamos ser os
membros mais reflexivos do mundo natural, não somos (no meu
ponto de vista, pelo menos) seus proprietários por desígnio
divino. Nem somos o apogeu da evolução, exceto no
sentido de que nunca houve outra espécie tão estranhamente
engenhosa que pôde criar tanto pentâmero iâmbico
quanto plutônio. Ao longo do curso da história humana,
um lembrete de nossa condição terrena foi que, algumas
vezes, em certas paisagens, servimos como elo intermediário
na cadeia alimentar. Não falo agora sobre aquela cadeia escritural
de poder e glória, que o Senhor com tanta firmeza imprimiu
em Jó. Falo da cadeia alimentar literal - quem come quem.
Os
tempos e paisagens antigos estão desaparecendo. Predadores-alfa
enfrentam dificuldades especiais na luta pela sobrevivência
coletiva, porque vivem em baixas densidades populacionais (espaçados
por sua própria fome e ferocidade), necessitam alto aporte
de energia por indivíduo (sobretudo os mamíferos,
nem tanto os répteis e tubarões) e precisam de um
amplo habitat para sustentar uma população viável.
Muitos deles desapareceram nos últimos dois séculos
- o leão-da-barbária, o urso-atlas, o tigre-de-java,
o grizzly da Califórnia - e muitas outras populações,
subespécies e espécies inteiras estão em perigo.
Por causa de seu carisma - seu formoso lado assustador e sua capacidade
de impressionar - provavelmente permanecerão populares por
muito tempo como atrações de zoológico. Mas
não será a mesma coisa. Quando esses animais são
afastados da natureza, ficam perdidos no sentido mais profundo.
Mesmo que amostras de seu DNA ainda existam, contorcendo-se inócuas
em gaiolas ou tubos de ensaio, sua sobrevivência como membros
funcionais de ecossistemas intactos é outro assunto.
Seis
bilhões de humanos pesam sobre este planeta. De acordo com
a projeção mais fidedigna disponível até
agora (da Divisão de População das Nações
Unidas), mais cinco bilhões poderão ser acrescentados
a esse total em 150 anos. Cada nova criança adicional gera
uma pressão suplementar por produtividade do ambiente, transformando
florestas em campos cultivados e rios em esgotos. Sob esse tipo
de impacto, predadores-alfa enfrentam o risco de extinção.
Eles já são marginalizados, diminuídos em número,
privados de habitat, exauridos de vigor genético, restritos
a refúgios insuficientes, extirpados aqui e acolá.
Um aspecto dessa tendência é que eles se desconectam
do Homo sapiens e nós nos desconectamos deles. Ao
longo de nossa história como espécie - dezenas de
milênios, centenas de milênios, quase dois milhões
de anos - toleramos a perigosa e problemática presença
dos grandes predadores, encontrando papéis para eles em nosso
universo emocional. Mas agora nossa própria numerosidade,
nossa potência e nosso solipsismo nos trouxeram a um ponto
em que a tolerância é desnecessária e o perigo
que os predadores nos oferecem é inaceitável. O resultado
previsível é que no ano 2150, quando a população
humana atingir por volta de onze bilhões, os predadores-alfa
terão deixado de existir - exceto por trás de pesadas
grades, vidros temperados e barras de aço. Depois desse tempo,
enquanto a memória se esvai e as populações
dos zoológicos se tornam cada vez mais atenuadas geneticamente,
cada vez mais convenientemente dóceis, cada vez mais distantes
do real, as pessoas terão dificuldade em conceber que aqueles
animais alguma vez foram orgulhosos, perigosos, imprevisíveis,
disseminados e majestosos, vagando livres pelas mesmas florestas,
rios, estuários e oceanos utilizados pela humanidade. Os
adultos, exceto algumas almas recalcitrantes, vão achar sua
ausência normal. As crianças ficarão surpresas
e entusiasmadas ao aprender, se alguém lhes contar, que uma
vez houve leões à solta neste mundo.
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