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Hipólito e Fedra, de Eurípides, Sêneca e Racine (tradução de Joaquim Brasil Fontes; Iluminuras; 496 páginas; 53 reais) – Devotado ao culto de Ártemis, deusa da caça, o adolescente Hipólito – filho de Teseu, rei de Atenas – leva uma existência casta, no meio das florestas. Sua madrasta, Fedra, se apaixona pelo jovem. Incapaz de seduzi-lo, ela o acusa de estupro e depois se mata. Esse mito ganhou sua primeira grande representação literária na tragédia Hipólito, do grego Eurípides, dramaturgo do século V a.C. O romano Sêneca, no século I d.C., comporia sua versão da história em Fedra – que também é título da obra-prima de Jean Racine, dramaturgo do classicismo francês, no século XVII. As três grandes tragédias estão reunidas nesse livro, sempre em versão bilíngüe.

Leia trecho

Afrodite

Grande entre os seres mortais e não sem renome, de deusa Cípris eu sou chamada no céu.

Aqueles que do Ponto aos limites de Atlas habitam e contemplam 0 lume do sol, eu favoreço, se veneram meu poder, enquanto abato quem pensa em mim com soberba, pois e inerente também à raça dos deuses agradar-se com honras prestadas por homens.

Mostrarei logo a verdade destas palavras.

o filho de Teseu, nascido da Amazona, Hipólito, que o casto Piteu instruiu, é 0 único, entre os cidadãos desta Trezena, a dizer que, dos Numes, eu sou 0 pior; o leito ele recusa, evita 0 casamento.

A irmã de Febo, Ártemis, filha de Zeus, ele venera, e conta entre os maiores Numes.

Unido a Virgem, sempre, na verde floresta, com ágeis cães extermina os animais selvagens, em convivência alta demais para um mortal.

Disso não tenho ciúme – por que teria?

mas pela falta contra mim vou me vingar de Hipólito, ainda hoje. Muito avancei neste projeto; resta-me pouco a fazer.

Vindo e1e, uma vez, da casa de Piteu, ver mistérios sagrados e neles sagrar -se, 25 na terra de Pandíon, a bem-nascida esposa de seu pai, Fedra, 0 viu, e um violento amor tomou-lhe coração, segundo 0 meu desejo.

[E, antes ainda de vir aqui, a Trezena, junto ao pr6prio rochedo de Palas, visível desta terra, um templo dedicou a Cípris, ardendo pelo amor ausente; e por Hipólito, associarão 0 edifício ao nome da deusa.]

E eis que Teseu deixou a terra dos cecr6pios, fugindo a macula do sangue dos Palântidas, e navegou, com a esposa, para este solo, consentindo na ausência de um ano de exI1io: desde então, entre suspiros e transtornada pelo aguilhão do amor, a infeliz agoniza em silencio: em casa, não sabem do mal. Mas não deve acabar assim esta paixão: vou expor a Teseu 0 caso e esclarecê-lo.

E então, este rapaz que me declara guerra, a maldição paterna 0 matara: do rei dos mares, Poseidon, Teseu obteve a graça de três pedidos a que 0 deus atenderia. Haverá glória – e no entanto ela morre – para Fedra: não e pensando em seu mal que renuncio a aplicar ao inimigo uma justiça que me traria vantagens.

Mas eis que vejo aquele filho de Teseu avançando, na volta das lides de caça – Hipólito; daqui me afastarei, portanto.

Seguem seus passos muitos servos, festejando; à deusa Ártemis eles honram com hinos: e ele não sabe que abertas estão as portas do Hades, que vê a luz pela ultima vez.

Hipólito

Acompanhai-me, cantando hinos à urânia filha de Zeus, Ártemis que nos protege!

Hip. e Servidores

Soberana, soberana santíssima, criatura de Zeus, salve, salve, ó filha de Zeus e Leto, Ártemis, a mais bela dentre as virgens, que no amplo céu habita a morada de um nobre pai, o todo áureo palácio de Zeus!

Salve, ó tu, a mais bela, a mais bela, dentre as virgens, no Olimpo.

Para ti, ó Soberana, de um campo sem macula, eu trago esta grinalda que eu mesmo teci; ali, pastor não ousa levar seu rebanho, nem 0 ferro jamais passou; imaculado, na primavera somente a abelha 0 percorre. Pudor 0 nutre com 0 sereno de águas vivas para os que, sem estudo, mas por natureza, partilham a virtude que a tudo se estende: que colham flores; aos maus os deuses proíbem.

ó amada Senhora, de mãos piedosas, recebe esta grinalda nos áureos cabelos.

Apenas eu tenho esta honra entre os mortais: contigo conviver e conversar contigo; escuto tua voz, se não vejo teus olhos.

Termine, como começou, a minha vida.

Servo

Senhor - de amo só convém chamar aos deuses -, de mim, aceitarias tu um bom conselho?

H. Sim; ou pareceríamos ser nada sábios.

S. Conheces tu a lei firmada entre os mortais?

H. Não conheço – por que me indagas sobre isso?


 
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