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A Selva do Amor (tradução de Roberto Muggiati e outros; Record; 376 páginas; 45 reais) – "Já fazia uma hora que ele esperava. Seu coração saltava no peito e às vezes era como se tivesse esquecido de respirar". As 22 histórias reunidas nessa antologia estão cheias de passagens como essa – do conto Uma Despedida, do austríaco Arthur Schnitzler. O tema do livro é o amor, mas não há uma gota de pieguice. De um episódio extraído do Decamerão, obra escrita no século XIV pelo italiano Boccaccio, a um conto da inglesa Virginia Woolf datado dos anos 40, só se encontram pérolas literárias. O anglo-polonês Joseph Conrad comparece com A Laguna, texto que tem um certo acento sinistro. E o americano Edgar Allan Poe, um mestre do terror, se arrisca numa área que não era bem a sua no surpreendente Os Óculos.

Leia trechos do livro

Os óculos - Edgar Allan Poe

Há muitos anos era moda ridicularizar a idéia de "amor à primeira vis­ta"; mas aqueles que pensam, não menos do que aqueles que sentem profundamente, sempre defenderam a sua existência. Descobertas mo­dernas, na verdade, no que pode ser chamado de magnetismo ético ou magnetoestética, mostram ser provável que as mais naturais das afei­ções humanas e, em conseqüência, as mais verdadeiras e mais intensas, são aquelas que surgem no coração como que por simpatia elétrica -em uma palavra, que os mais brilhantes e duradouros grilhões psíqui­cos são aqueles fixados por um olhar. A confissão que vou fazer acres­centará outro aos já quase inúmeros exemplos da verdade deste ponto de vista.

Minha história exige que eu seja um tanto detalhado. Sou um ho­mem muito jovem - ainda não completei vinte e dois anos. Meu nome atual é muito comum e até bastante plebeu - Simpson. Digo "atual" porque só recentemente passei a ser chamado assim, tendo adotado legalmente este sobrenome no último ano para receber uma grande herança que me foi deixada por um parente distante, o Sr. Adolphus Simpson. A legação estava condicionada a que eu assumisse o nome do testador - seu nome de família, não o primeiro nome; meu nome de batismo é Napoleon Bonaparte, ou, para ser mais exato, estes são meu primeiro nome e o nome do meio.

Assumi o sobrenome, Simpson, com alguma relutância, pois sentia por meu verdadeiro patronímico um orgulho muito perdoável, acredi­tando que podia traçar uma descendência do imortal autor das Crô­nicas. E por falar em nomes, devo mencionar uma singular coincidên­cia sonora existente nos nomes de meus predecessores imediatos. Meu pai era um Monsieur Froissart de Paris. Sua esposa - minha mãe, que se casou com ele aos quinze anos - era uma Mademoiselle Croissart, filha mais velha do banqueiro Croissart, cuja esposa, novamente, com apenas dezesseis anos ao se casar, era a filha mais velha de Victor Vois­sart. Monsieur Voissart, muito singularmente, casara-se com uma dama de nome semelhante, uma Mademoiselle Moissart. Ela, também, era bem criança quando casou; e sua mãe, também, Madame Moissart, ti­nha apenas quatorze anos quando subiu ao altar. Estes casamentos pre­coces eram costumeiros na França. Assim, portanto, havia Moissart, Voissart, Croissart e Froissart, todos na linha direta de descendência. Meu próprio nome, embora, como disse, me tornei Simpson por ato da Legislatura, e com tamanha repugnância da minha parte que, a certa al­tura, cheguei a hesitar em aceitar o legado com aquela desagradável cláusula anexa.

Quanto a dotes pessoais, não sou de modo algum desprovido. Ao contrário, acredito que tenho um bom físico e possuo nove décimos do que o mundo chamaria um rosto bonito. Tenho um metro e oiten­ta de altura. Meus cabelos são pretos e cacheados. Meu nariz é suficien­temente bom. Meus olhos são grandes e cinzentos; embora, na verdade, sejam fracos num grau até inconveniente, mas ninguém aparentemen­te suspeitaria disto. Esta fraqueza, no entanto, sempre me incomodou muito e recorri a todo tipo de remédio - menos usar óculos. Sendo jo­vem e de boa aparência, eu naturalmente não gosto deles e me recusei resolutamente a usá-los. Não conheço nada, de fato, que desfigure mais a fisionomia de um jovem, ou imprimam a cada feição um ar de gravi­dade, quando não de santimônia e de idade. Um monóculo, por outro lado, tem um sabor de explícito de janotismo e afetação. Consegui até aqui me sair tão bem quanto possível sem ambos. Mas chega destes de­talhes meramente pessoais que, afinal, são de pouca importância. Eu me contentarei de dizer, em acréscimo, que meu temperamento é san­güíneo, precipitado, ardente, entusiasta - e que toda a minha vida fui um admirador devotado das mulheres.


 
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