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Rita Ritinha Ritona, de Dalton Trevisan (Record; 128 páginas; 24,90 reais) – Um dos mais aclamados contistas brasileiros, Dalton Trevisan completará 80 anos em junho. Não se esperem comemorações ruidosas: Trevisan é a figura mais arredia da literatura brasileira. Foge de jornalistas, de fotógrafos e de toda forma de exposição pública. Seus leitores, porém, têm a comemorar o lançamento dessa nova coletânea, com dezessete contos. Com a prosa enxuta e a narrativa rápida que são sua marca registrada, Trevisan mostra sua maestria nas sórdidas histórias do velho pai que deseja seduzir a nora (no conto Filho Ingrato) ou da menina de 8 anos que sofre um estupro (Sim, Senhor). E também há momentos de erotismo explicitamente cafajeste, como O Mestre e a Aluna e Duas Normalistas.

Leia trecho

Maria, Sua Criada

Maria das Graças, sua criada. Sou lá dos mocambos do Recife. Minha mãe se finou de desgosto quando eu tinha 9 meses. De tanto que meu pai bebia. Assim que fiz 5 anos, ele morreu do coração.

Aí fui morar com uma mulher que me xingava de negra. Ela tinha umas filhas bonitas de cabelo li-so comprido. O meu era pixaco, logo me chamaram de cabelo duro. E nariz de tomada. E beiço de gamela. Sofria muito na mão da madame. Ainda devia o tempo todo carregar o filhinho dela na cacunda.

Era casada com um oficial da Marinha e, quando eu tinha 13 anos, ele foi transferido para o Rio. Ao seu encontro, viajamos cinco dias de navio. Lá no convés era todo tipo de festa: você via peixe-voador, golfinho, gaivota. As pessoas faziam carnaval. Só que a minha patroa se encantou por um marinheiro e nunca estava com a gente, perdida sempre pelo navio.

Menos de um mês que a gente estava no Rio, a mulher fugiu com o marinheiro. O oficial embarcou os filhos para a casa da avó e mandou eu embora. Embora pra onde? Se não conhecia nadinha do Rio.

Fiquei trabalhando na casa de um amigo dele. A mulher era boa pra mim, eu limpava a casa, cuidava dos filhos dela. E tinha sempre o meu dinheirinho. Fiquei com ela até os 18 anos, quando aconteceu a pior coisa da minha vida.

Naquele tempo eu me vestia muito bem. Tinha vestido novo, sandália e chapéu. Um dia uma amiga lá do Recife me ligou chorando e contando a sua situação. Peguei o meu dinheiro, corri as lojas, comprei pra ela uma saia, duas blusas, uma anágua, duas calcinhas e um sutiã. Coloquei três notas num envelope. Fiz um embrulho com tudo isso e fui aonde o irmão dela trabalhava.

Ele era estivador no porto. Nesse dia eu saí num vestido de seda rosa com bolinhas brancas, a calcinha e o sutiã da mesma cor. Quando cheguei, Ribamar não estava, me mandaram sentar e fiquei esperando.

Ele voltou só de noitinha. Entreguei o embrulho. Me convidou para um café. Respondi que não, tinha de ir à casa de uma amiga. Ele falou então só um refrigerante, eu aceitei. Era boba e aceitava tudo. Se alguém mostrasse a mão fechada: aqui tem ouro, aqui tem prata, eu dizia sim, senhor.

Fomos a um bar ali perto. Eu me sentei e o irmão entrou na cozinha falar com o garçom, que trouxe um guaraná aberto pra mim e uma cerveja pra ele. Tomei tudinho e comecei a ficar zonza. Me sentia tão mal, quase não consegui ficar de pé. Ele me levou para um hotel e disse na portaria:

— Essa é minha mulher que chegou do Ceará. Ela está passando mal.

Eu escutava, mas não dizia nada. Não podia mexer o braço nem a perna nem a língua.

Fui acordar no dia seguinte. Quando estiquei o braço, quem estava ao meu lado roncando só de cueca? Dei um pulo e senti uma bruta dor lá embaixo.

O cara piscou o olho vermelho. Eu entendi o que tinha acontecido. No peito contei os sete pregos de uma ferradura pesada. Corri me atirar pela janela aberta.

Sempre fui muito católica. O meu sonho? Entrar de branco na igreja. Quando tentei me jogar, o tipo me segurou e começou a dizer que ficasse calma, ele gostava de mim, a gente podia casar, se gritasse vinha a polícia, aí seria pior, eu ia pra cadeia.

Se não bastasse também fiquei grávida. De vergonha, não voltei pra casa da minha patroa. Fui morar num quartinho com uma amiga que trabalhava na Pensão Guarani. Com aquela barriga eu subia e descia as escadas carregando vassoura, esfregão e balde d’água. Fatal: perdi o nenê de sete meses.

Aí no bar da pensão um mecânico me olhava muito. Todo mundo queria juntar a gente. Ele era bom para mim. Me trazia flor, bombom, corte de fazenda. E fui morar com o João. Tinha vontade de saber como era um homem e como era sexo. Tudo aconteceu quando estava dormida e não vi nada.

Só que não gostei. Não gostei nadinha de sexo. Tomei pavor de sexo. Mas fiquei grávida. Aí um amigo safado começou a fazer a cabeça do João. Dizia que era muito moço para ter mulher e filho.

Já estava de quatro meses quando eles trouxeram um enfermeiro. Me dar umas injeções de vitamina. O tal vinha todo dia. No terceiro eu comecei a perder sangue. Era uma sangueira só. Desesperada, corri até a Cruz Vermelha a duas esquinas de casa. O doutor me cuidou, medicou e salvou o bebê.

Dois dias depois voltei para casa numa hora que o João lidava na oficina. Juntei o que era meu e fui embora, sem me despedir.

Fiquei na casa de uma portuguesa que o médico indicou. Tinha um apartamento bem grande e alugava os quartos. Para mim sobrou o cimento da sacada. Ali me deitei até os nove meses.

Um dia fui para o hospital. Não sentia nada. Uma negra enorme era a parteira. Acendeu duas velas diante da imagem de Nossa Senhora do Bom Parto. Disse que só um milagre salvava mãe e filho:

— Você não tem dor. Já vazou todinha a bolsa. Precisa operar.

Me desmanchei no choro.

— Mas não se assuste. Não é cesariana. Só um corte na vagina.

Tudo pronto, e disse:

— Você tem fé?

— Tenho.

— Então vamo furá.

Me deram três injeções no braço, nas costas e na perna. Nasceu uma menina com quatro quilos e novecentos.

Fiquei cinco dias sem me mexer. Só me traziam o nenê para dar o peito. Eu não bulia nem falava. No sexto dia a servente veio me lavar os pontos: trouxe a água fervendo na bacia e esqueceu de misturar com a fria. Derramou na minha xoxota e queimou todinha.

Mais cinco dias no hospital. A portuguesa bem me queria, mas não o bebê. Então fui morar com uma velhinha que lavava roupa pra fora. Era um barraco sujo e cheio de buracos. De noite você escutava os ratos passeando pelos cantos. Uma barata roeu a cabecinha da minha filha.

Depois disso deixei a menina numa creche. E começou a pegar todo tipo de doença. Um dia cheguei mais cedo e descobri que lavavam todas as crianças na mesma água. Então a portuguesa aceitou a menina comigo no trabalho.

Aí foi bom. Arrumei uma caixa de papelão na cozinha: lidando e limpando, entre as duas era uma conversinha sem fim. Na hora dela mamar eu estava ali. À noite íamos dormir na casa da velhinha.

Um dia fui ao mercado comprar verdura. Encontrei uma mulher que tinha estado no mesmo hospital. Ela se lembrava de mim porque fiquei entre a vida e a morte. Me perguntou como estava e contei essas coisas. Ela disse:

— Ô Maria, por que não vem morar comigo? Minha mãe não me deixa nem fazer a mamadeira. Meu sonho é eu mesma criar a minha filha.

O casal se mudou para Santa Teresa e eu fui junto. Lá o quarto da empregada era fora. No fim do trabalho, podia ir pra minha casa. Tinha um colchão, o berço de Júlia e um fogareirinho a álcool para esquentar a mamadeira. Ela enjoou do peito. Todo dia eu descia e subia a ladeira buscando a carne fresca da sopa das meninas. A da patroa e a minha. O patrão era chefe dos garçons de uma churrascaria. A gente tinha carne todo dia.

Logo a Juju engordou e ficou bonita. Já viu um pão-de-ló bem fofinho? Era ela. Um domingo levamos as duas para o batismo. Na volta as comadres estavam preocupadas: se duas crianças vivem na mesma casa e são batizadas no mesmo dia e na mesma igreja, uma tem que dormir debaixo da cama para não tirar a sorte da outra. Lá foi a minha Juju para baixo da cama.

Uma tarde eu passava roupa esperando a patroa voltar. Aí o chefe dos garçons pediu que levasse um café. Só alcançar ali na térmica, ele não estava fazendo nada e eu passando roupa. Devia ter dito pra ele mesmo se servir. Era a criada e para agradar o patrão eu levei. Ele estava na rede. Fui entregar a xícara, não é que pegou o café e segurou o meu braço? Dei um pulo.

— O senhor me respeite. Mais que a criada, sou a comadre!

E saí correndo bem assustada.

Nesse tempo tratava da coluna com um médico que me convidou para trabalhar na casa dele. Aceitei por causa da história com o patrão. Esse doutor não queria a menina na casa. Então a deixei com umas comadres que eram costureiras. Ganhava três contos e dava dois para as comadres. Dormia na casa do médico e domingo a gente ia passear na pracinha.

Com o tempo notei as comadres diferentes. De repente não carecia mais pagar? Aí descobri. O que elas queriam? Tirar a Juju de mim. Claro, duas solteironas sozinhas e tristes: a pequena era um pintassilgo cantando pela casa. Trabalhadeira, ainda ajudava as duas.

Chegando lá, a menina sentava no meu colo. Dizia uma:

— Sai daí, você. Tenha modos.

E a outra:

— Não vê que sua mãe está cansada?

Bem que respondi:

— Mãe nunca tem cansaço pra filha.

Deixavam de molho a roupa da garota, assim não podia sair comigo. Daí eu trazia sempre um vestidinho na sacola. No banco da praça, lambendo o sorvete de morango, o anjo me perguntou:

— Por que eu tenho mãe e vivo na casa dos outros?

Contei isso para a mulher do médico. Aí ela disse:

— Sabe o que, Maria? Traz essa menina para cá. Você tem um quarto grande. Assim ela se cria com a mãe.

Cheguei bem cedo na casa das comadres. Quando abriram a janela, eu estava lá. Ia levar a menina pra ficar no feriado comigo. Disseram que não podia. Freqüentavam um terreiro de macumba e a Juju devia acender o cachimbo do Nego Véio.

— Pro cachimbo achem outra pessoa. Ela vai comigo.

— Não vai porque não vai! O Nego Vé...

— Vai, sim.

— Ah, é? Pois que leve e não traga nunca mais!

Achavam que não tinha onde deixar a Juju. Disse para a menina arrumar suas coisas. Então a praguejaram de falsa, traidora, ingrata. Em despedida, rasgaram todos os livros e as roupas do anjo.

Assim a minha filha, aos 12 anos, passou a morar comigo. Em todo esse tempo tinha estudado nos melhores colégios. Tudo o que ganhava eu gastava com ela. Aí a patroa me disse para mudar o registro de filha de mãe solteira. Ia prejudicar os estudos e a carreira dela.

Botei na cabeça de procurar o pai da Júlia. Fui lá na mecânica e falei com o João. Não queria nada de dinheiro, só a minha filha com o nome do pai. Pediu para ver a menina. Achava que podia não ser dele.

Quando olhou a Júlia, foi um susto. Era igualzinha na cara e na altura. Os dois têm um metro e setenta e três. Depois a gente começou a conversar. Havia casado, com dois filhos. Numa boa aceitou a Juju — e a mulher dele também. Agora a menina tinha uma nova família.

Um dia o João falou que se arrependia de não ter casado comigo. Era dona de grande personalidade. Não sabia o que era personalidade e fiquei ofendida. Daí perguntei pra minha patroa, ela explicou que era elogio.

Então consegui uma bolsa de estudo para Júlia. Com a economia aluguei um barraco velho. Primeira vez na vida tinha uma casa e era independente. Comecei a trabalhar de diarista e comprei tudo pro barraco. A menina ganhou um armário de cinco portas com espelho. E uma cama com guarda dourada. Era um barraco por fora e um castelo por dentro.

Com a Júlia saía para as compras. Me fornecia de tudo no mercado: só podia ser mantimento seco, não tinha geladeira. A gente trazia arroz, feijão, farinha, leite em pó, açúcar, bolacha, macarrão, azeite. A carne eu preparava no mesmo dia e bem fritinha para durar mais.

Às vezes eu ia com umas amigas num bailão. Lá conheci um rapaz que se apaixonou por mim. Eu tinha mais de 30 e o Bené menos de 20. Então nem ligava pra ele. Mas de tanto insistir, acabou vindo morar comigo. Só que deixei bem claro:

— Tenho uma filha. Se tocar nela, já sabe. Está morto!

O rapaz era lá do Maranhão. A mãe viúva tinha quatro filhos. Um dia se juntou com um cara. Ele disse que só queria ela. Os filhos, não. Daí ela deu um filho para cada família. E a do Bené veio para o Rio. Ao chegarem, o barraco era muito pequeno para todos — e largaram o piá na rua.

Mas ele foi à luta e viveu. Não tinha documento e o levei para tirar carteira — ser uma pessoa no mundo. Com a identidade na mão, Benedito da Silva se ajoelhou para me agradecer.

Um dia fiquei grávida. Ele, todo feliz. Trabalhava de pedreiro e, quando recebia, gastava tudo no bar. E eu:

— Você tá bebendo o leite da tua filha!

Como diarista ganhava mais que ele. A Júlia bem faceira quando soube que ia ter uma irmãzinha.

O Bené ficou até que a Dulce fez cinco anos, aí a gente se separou numa boa. Quando ela fez dez, o pobre morreu de tanto beber.

A Júlia casou com um dentista que também bebe. A bebida parece que persegue a gente. Antes dela casar, eu falei:

— Não case, minha filha. Escute a tua mãe. Que vê mais longe.

Casou mesmo assim. O amor, essa coisa, sabe como é. Gosto do meu genro. Bom dentista, mas bêbado.

Daí comecei a trabalhar na casa dum empresário. Um dia ele avisou que se mudava para Curitiba, eu não queria ir junto? Um bom emprego estava dizendo adeus. Então eu vim.

Primeiro foi aquele sofrimento de saudade das filhas. A Dulce já estava noiva. Um dia ela disse para o moço:

— Não vou casar, não. Eu quero ficar com a minha mãe.

E veio morar comigo, não é bonito? Cinco anos que estamos aqui. Só não me acostumo com esse frio desgracido. A Dulce é doutora e faz mestrado. Ficou noiva de um peruano, já pensou?

O patrão e eu brigamos todo dia. Mas um respeita o outro. Agora não deixo ninguém me enganar nem maltratar. Ele diz que sou pessoa da família. Mas eu respondo:

— Sou, não. Aqui sou criada. Família é outra coisa.

Bem eu gosto me considere da sua gente. Já não sou uma pobre coisa.


 
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