Leonardo
da Vinci,
de Martin Kemp (tradução de Maria Inês Duque Estrada; Jorge
Zahar; 240 páginas; 39 reais) Crítico e professor de história
da arte da Universidade de Oxford, o britânico Martin Kemp apresenta nesse
estudo um apanhado breve mas esclarecedor sobre a vida e a obra de um dos maiores
gênios da Renascença. Com grande número de ilustrações
coloridas, o livro analisa os quadros mais famosos do artista e desfaz uma série
de lendas que se acumularam em torno de seu nome. Kemp, aliás, dá
a devida proporção a O Código Da Vinci, o best-seller
internacional do americano Dan Brown: suas teses esotéricas sobre quadros
como A Última Ceia e Mona Lisa funcionam como ficção
mas, se lidas a sério (como muitos fazem), não passam de
disparates históricos.
Leia
trecho INTRODUÇÃO
LEONARDO
DA VINCI E OS COMPENDIADORES Os
compendiadores de trabalhos prejudicam o conhecimento e o amor, porque o amor
a qualquer coisa é produto do conhecimento, sendo o amor mais ardente quanto
mais seguro é o conhecimento, e essa segurança brota de um perfeito
conhecimento de todas as partes que, juntas, compõem o todo... de fato
é a impaciência, mãe da loucura, que louva a brevidade. (Leonardo
da Vinci, c.1510) Esta
crítica mordaz não é encorajadora para um autor desejoso
de, em rápido compasso, captar a totalidade de Leonardo da Vinci e fazer
justiça à enorme abrangência de suas atividades. Quem estuda
os escritos de Leonardo da Vinci se confronta com um volume desanimador de material,
em termos de quantidade, variedade e dificuldade intrínseca. Isto sem falar
dos problemas representados por sua escrita, difícil de ler mesmo que não
fosse grafada, como é, da direita para a esquerda, como se refletida num
espelho (aliás, movimento natural para um canhoto que empregava os materiais
que ele usava e trabalhando velozmente). Um cálculo aproximado das páginas
sobreviventes chega a mais de seis mil. Tomando como comparação
um livro moderno de 300 páginas, o total de Leonardo da Vinci preencheria
pelo menos 20 volumes. Se considerarmos também que cerca de uma quarta
parte a quatro quintos da sua produção escrita se perdeu, estaremos
diante de alguém que escreveu e desenhou o bastante para preencher 80 a
100 volumes. (Essa estimativa se baseia nos trechos transcritos por um editor
do século XVI para o Tratado de pintura, cujo texto, na maior parte, provém
de manuscritos de destino ignorado.) A
situação para o moderno compendiador da vida e dos trabalhos
de Leonardo da Vinci parece desencorajadora em todas as frentes. Contudo, se olharmos
mais de perto o que ele diz, talvez as coisas não pareçam tão
ruins, afinal. Seu ataque se dirige àqueles que fazem resumos ou epítomes
de longos trechos, e especificamente aos que descrevem as múltiplas maravilhas
do corpo humano de maneira sucinta. O verdadeiro estudioso das glórias
da natureza deve sempre respeitar os impressionantes meios pelos quais as diversas
formas foram desenhadas para servir a determinadas funções, seja
o vasto mecanismo cronométrico dos céus ou uma pequena válvula
no coração humano. Mas o próprio Leonardo acabou compreendendo
que nem mesmo ele poderia investigar cada aspecto da natureza (e nem sequer do
corpo humano) no plano que ele próprio exigia. Tentemos
explicar sua abordagem com os próprios termos que ele empregou, ainda que
de maneira terrivelmente condensada nesta etapa. Isso envolve um conjunto de termos
sutis. Leonardo se empenhou em submeter efeitos observáveis
a rigoroso escrutínio, de modo a averiguar suas causas básicas,
razões ou princípios. Esse entendimento
deveria ser realizado por meio do estudo de casos que proporcionariam
experiência ou evidência. Uma vez que os casos fossem
demonstrados adequadamente em termos do ajuste perfeito entre causas e efeitos,
o investigador poderia afirmar que havia obtido a prova. Cada prova
esclarece o funcionamento da natureza como um todo. Tendo o domínio das
causas, o investigador estará potencialmente na posição de
reconstruir efeitos existentes ou de construir novos efeitos, de baixo para cima.
Os próprios trabalhos de arte de Leonardo da Vinci constituem de fato esse
tipo de construção reproduzindo novos efeitos visuais a partir
de causas básicas, não só as de natureza óptica. Cada
pintura é, num certo sentido, uma prova do modo de compreensão de
Leonardo. Com
esse sumário bastante condensado em mente, minha estratégia é
investigar como podemos usar exemplos específicos para descobrir o núcleo
central de suas convicções de uma forma que respeite as complexidades
dos trabalhos da natureza e das coisas humanas. Procurarei as estruturas
unificadoras que se escondem por trás da diversidade da superfície.
O truque é mostrar como ele considerava que um número limitado de
causas centrais, estáticas e dinâmicas, pode resultar numa espantosa
variedade de efeitos naturais. Se essa estratégia de examinar casos para
revelar a estrutura maior e mais profunda der certo, o leitor terá acesso
a um instrumental que pode dar sentido aos muitos aspectos de sua obra que tiveram
de ser necessariamente excluídos da presente discussão. A
premissa global com que Leonardo da Vinci trabalhava é que toda a aparente
diversidade da natureza é sintoma de uma unidade interna, dependente de
algo como uma teoria de campo unificado que consiga explicar o funcionamento
de tudo que existe no mundo observável. Para Leonardo, essa teoria unificada
se sustentava na ação proporcional (geométrica) de cada poder
no mundo e justificava o propósito de tudo. Isso explica por que ele escreveu
em um dos seus desenhos anatômicos: que ninguém que não
seja um matemático leia meus princípios (de fato, parafraseando
Platão). A
teoria da proporcionalidade explica por que as coisas parecem menores quando estão
mais distantes; por que os gravetos de uma árvores são mais finos
que os galhos (e em que proporção); por que a sombra se torna mais
esmaecida nas partes mais afastadas do objeto que a projeta; como uma mola perde
sua força quando é enrolada para baixo; a que distância um
projétil viajará quando lançado por uma das máquinas
de guerra que ele inventou; por que um arco construído com pedras separadas
pode ficar de pé; e por que uma pedra cai com aceleração
para o solo. Essa lista poderia abranger quase todos os fenômenos analisáveis
pelas ciências que hoje chamamos de estática e dinâmica. O
comportamento análogo de diferentes fenômenos fornece um de seus
métodos-chave de argumentação. A luz se comporta como o som,
como as ondulações na água, como o calor de uma chama, como
uma bola ao quicar, como um machado cortando uma superfície... A analogia
era uma técnica antiga para explicar o funcionamento das coisas. Leonardo
da Vinci a tornou visualmente convincente pela força de persuasão
de seus desenhos, colocando-a sobre novos fundamentos. Cada ato de olhar e desenhar
era, para Leonardo, um ato de análise, e é com base nessas análises
que o criador humano pode refazer o mundo. Assim, a máquina voadora e a
Mona Lisa refazem, comparativamente, o mundo natural segundo os próprios
termos desse mundo, em perfeita obediência às causas e aos efeitos
naturais. Uma é um pássaro artificial; a outra uma reprodução
da experiência visual da presença física da pessoa. Em certo
sentido, este livro é sobre por que a Mona Lisa e a máquina voadora
constituíam, para Leonardo, o mesmo tipo de coisa. |