Questão
de Sangue,
de Ian Rankin (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras;
480 páginas; 48,50 reais) Ex-músico punk, o escocês
Ian Rankin tornou-se um best-seller no Reino Unido com a série estrelada
por John Rebus, investigador da polícia de Edimburgo que faz a linha "tira
durão". É um sujeito solitário, que não gosta de regras,
fuma e bebe muito e não se dá bem com os colegas mas tem
uma qualidade: resolve os casos que vão parar em suas mãos. Em Questão
de Sangue, Rebus investiga o assassinato de dois adolescentes em um colégio
particular. O caso tem um suspeito óbvio, um ex-militar enlouquecido que
teria disparado sua arma a esmo na escola e depois se suicidado. Rebus desconfia
que o perfil do acusado não se encaixa no crime.
Leia
trecho INTRODUÇÃO O
problema de escrever a respeito de uma cidade real em tempo real é ter
de levar em conta as mudanças. Foi impossível para mim não
escrever sobre o novo Parlamento escocês, por exemplo, por isso Set in
darkness passou a existir. Do mesmo modo, eu estava na metade da versão
inicial de Questão de sangue quando recebi uma mensagem de texto
de um detetive meu amigo. Dizia apenas: "St. Leonard’s não tem mais
um Departamento de Investigações Criminais. Rá rá
rá". Ele sabia que eu teria de mudar Rebus de St. Leonard’s por causa
de algumas dúzias de leitores de Edimburgo, pois do contrário eles
saberiam que eu estava abandonando o realismo. Isso explica a dedicatória
a St. Leonard’s, in memoriam: seria o último livro passado lá. O
estímulo que originou Questão de sangue foi uma questão
levantada por uma fã numa sessão de perguntas e respostas. Ela me
perguntou por que eu nunca falava do sistema de escolas particulares de Edimburgo.
Por volta de um quarto dos estudantes do ensino médio da cidade freqüenta
instituições pagas - uma porcentagem muito mais alta do que a de
qualquer outra cidade da Escócia (e talvez do Reino Unido inteiro). Minha
resposta naquela noite foi superficial: creio ter dito que não sabia nada
a respeito de tais escolas, por isso considerava difícil escrever sobre
elas. Mas ela me fez pensar. Os livros de Rebus sempre se detiveram na dupla identidade
de Edimburgo, sua natureza Jekyll e Hyde. Escolas particulares fazem parte da
estrutura da cidade, sendo uma questão polêmica em alguns círculos.
Eu já decidira que o livro seguinte abordaria o problema dos que ficam
de fora. Rebus é um eterno excluído, incapaz de trabalhar em equipe.
Em minhas incursões regulares à Cockburn Street para comprar discos
eu também topava com grupos de adolescentes góticos. Eles me lembravam
que um dia eu também quisera ser visto pela sociedade como marginal: eles
se vestiam como góticos; eu era punk. Como
dei a Rebus um passado nas forças armadas, fico de olho em notícias
sobre militares (inclusive uma nota a respeito da queda de um helicóptero
ao largo da costa escocesa), além de ter montado um arquivo sobre os efeitos
dos combates nos soldados da ativa. Quando a tropa deixa o exército, muitos
encontram dificuldade para voltar à vida civil. Alguns se tornam agressivos
em casa, passam a beber e acabam morando na rua. Continuam sendo marginais, por
assim dizer. Pensei que seria interessante criar um enredo no qual essas várias
questões se entrelaçassem, e um tiroteio numa escola particular
parecia ser a resposta. Mudei a ação de Edimburgo para South Queensferry,
em parte por não querer que nas escolas existentes pensassem que eu calcara
nelas a Port Edgar Academy, e em parte por querer investigar os efeitos de um
crime assim numa comunidade pequena e fechada. Rebus, pelo que sabemos, foi enviado
a Lockerbie logo depois da queda do vôo Pan-Am 101, e ele comenta a "dignidade
quieta" da cidade. Dunblane estava na minha cabeça também,
é claro, mas eu não ia escrever um livro "sobre Dunblane":
examinaria as razões para a ocorrência de atrocidades numa sociedade
aparentemente civilizada. Comecei
a planejar o livro durante a filmagem de um documentário em três
partes sobre o "mal", para o Channel 4, e minhas idéias para
a série afetaram as idéias de Questão de sangue. Entrevistei
neurologistas, psiquiatras, estudiosos e advogados, criminalistas e assassinos...
e até um exorcista simpático. A série tentava responder três
perguntas fundamentais: O que queremos dizer com a palavra "mal"? De
onde vem o mal? E o que podemos fazer a respeito? As diversas respostas que recebi
durante minhas viagens formariam a espinha dorsal moral do livro. Meu caderno
de anotações da época registra, entre passagens teológicas
de santo Agostinho e Auschwitz, possíveis rumos que Questão de
sangue tomaria. Desde o início eu me detive no duplo sentido do título:
sangue não somente como líquido vital, mas também no sentido
de laços familiares. Se
isso tudo soa um tanto maçante e edificante, não deveria: Questão
de sangue foi muito divertido de escrever, e creio que é igualmente
divertido de ler. Nos livros recentes leiloei "direitos de personagem"
para várias instituições de caridade, e Questão
de sangue contém alguns de meus favoritos. Por exemplo, há um
gato chamado Boécio no livro só porque seu dono pagou para que ele
fosse mencionado (além de mandar fotos e uma biografia extensa para garantir
que eu ia fazer tudo certo). Nesse meio-tempo, um policial que atuava em Edimburgo
também ganhou o direito de aparecer no livro - fácil e tranqüilo,
pensei, até ficar sabendo que ele era australiano e tinha doutorado em
astronomia (ou disciplina similar). Seu nome é Brendan Innes e ele é
policial no livro, mas não menciono sua nacionalidade, nem sua formação
acadêmica: como lhe expliquei, ao contrário da vida real, a ficção
precisa ser realista! Há
no livro um personagem chamado Peacock Johnson. Ele também conquistou o
direito de aparecer no livro. Alguém me falou para dar uma espiada no website
dele, que mostrava um sujeito suspeito de camisa estilo havaiano e óculos
tipo Elvis. O blog dele deixava claro que ele operava no limite da ilegalidade.
Mandei-lhe um e-mail e disse que ele daria um ótimo pistoleiro profissional
no meu livro. Ele disse que tudo bem, e que gostaria que eu mencionasse seu colega,
Wee Evil Bob. Concordei. Acabei me divertindo ao criar o alter ego ficcional
do sr. Johnson, e quando o livro ficou pronto mandei uma cópia por e-mail,
para que ele soubesse. O
e-mail voltou. Fui
ao website dele. Não
estava mais lá. Isso
me forçou a bancar o detetive, e acabei descobrindo que o conjunto Belle
e Sebastian comparecera ao leilão dos personagens. Curiosamente, o endereço
de e-mail de Peacock era semelhante ao de um membro da banda, o baixista Stuart
David, conhecido por suas brincadeiras. Ele acabou confessando. Eu pensava que
Peacock fosse real, mas tudo não passara de ficção desde
o começo. Além disso, Stuart também havia escrito um romance...
e adivinhe quem era o herói? Peacock
Johnson. Até
personagens de ficção, pelo jeito, podem ter uma personalidade complexa... Ian
Rankin PRIMEIRO
DIA Terça-feira 1 "Nenhum
mistério", disse a sargento-detetive Siobhan Clarke. "Herdman
perdeu o juízo, só isso." Ela
estava sentada ao lado de um leito hospitalar da recém-inaugurada Royal
Infirmary de Edimburgo. O complexo situava-se na parte sul da cidade, numa área
chamada Little France. Fora construído graças à destruição
de boa parte de uma área verde, e mesmo assim já havia queixas de
falta de espaço interno e de vagas para estacionamento do lado de fora.
Siobhan acabou arranjando uma vaga, mas descobriu depois que o privilégio
seria cobrado. Ela
havia contado tudo isso ao inspetor detetive John Rebus ao chegar a seu leito.
As mãos de Rebus estavam enfaixadas até os pulsos. Quando ela serviu
um pouco de água, ele levou o copo plástico à boca, bebendo
cautelosamente enquanto ela o observava. "Viu?",
ele zombou, depois. "Não derramei nem uma gota." Mas
ele estragou tudo quando deixou o copo cair ao manobrar para devolvê-lo
à mesinha-de-cabeceira. Quando a base tocou o chão, Siobhan o apanhou
antes que ele emborcasse. "Muito
bem", Rebus admitiu. "Sem
problemas. Estava vazio, de todo modo." Desde
então ela falava coisas sem importância, os dois sabiam que evitava
perguntas que estava desesperada para fazer. Em vez disso, passava detalhes a
respeito da chacina em South Queensferry. Três
mortos e um ferido. Uma cidade costeira tranqüila, ao norte da capital. Escola
particular para rapazes e moças de cinco a dezoito anos. Seiscentos alunos,
menos dois agora. O
terceiro corpo pertencia ao atirador, que voltou a arma contra si. Nenhum mistério,
como Siobhan disse. Exceto
pelo motivo. "Ele
era como você", ela disse. "Ex-militar, sabe. Acham que fez isso
por ressentimento contra a sociedade." Rebus
notou que ela mantinha as mãos firmes dentro do bolso do casaco. Calculou
que cerrara os punhos e procurava evitar que ele percebesse. "Os
jornais dizem que ele tinha uma empresa", ele comentou. "Uma
lancha potente, para prática de esqui aquático." "E
guardava ressentimento?" Ela
deu de ombros. Rebus sabia que ela torcia para conseguir um lugar no caso, qualquer
coisa capaz de afastar sua mente do outro inquérito - um inquérito
interno, no qual ela ocupava uma posição central. Ela
olhava para a parede acima da cabeça dele, como se ali houvesse algo que
a interessasse, além da pintura e da saída de oxigênio. "Você
ainda não me perguntou se estou me sentindo bem", ele disse. Ela
o encarou. "Está se sentindo bem?" "Estou
ficando louco de desespero, obrigado por perguntar." "Você
só passou uma noite aqui." "Parece
mais." "O
que os médicos disseram?" "Ninguém
veio falar comigo ainda. Hoje, não. Digam o que disserem, saio daqui esta
tarde." "E
depois?" "Como
assim?" "Você
não pode retornar ao trabalho." Finalmente, ela fixou a vista nas
mãos dele. "Como pretende dirigir, ou digitar um relatório?
E os telefonemas?" "Darei
um jeito." Ele olhou em torno, sua vez de evitar contato visual. Rodeado
de homens da sua idade, que exibiam a mesma palidez acinzentada. A dieta escocesa
cobrara sem dúvida um preço alto daquele grupo. Um sujeito tossia,
desesperado para fumar. Outro dava a impressão de ter problemas respiratórios.
A massa obesa de fígado inchado que formava a população masculina
local. Rebus ergueu uma das mãos para esfregar o antebraço na face
direita, sentindo a barba por fazer. Os pêlos, sabia, tinham o mesmo tom
prateado das paredes da enfermaria. "Darei
um jeito", ele repetiu no silêncio que se seguiu, baixando o braço,
arrependido de tê-lo erguido. Os dedos formigaram de dor quando latejaram
por causa da circulação do sangue. "Conversaram com você?",
ele perguntou. "Sobre
o quê?" "Tenha
dó, Siobhan..." Ela
o encarou sem piscar. As mãos saíram do esconderijo, quando se debruçou
para a frente na cadeira. "Outra
sessão esta manhã." "Com
quem?" "A
chefe." Ela se referia à superintendente-chefe Gill Templer. Rebus
acenou a cabeça, satisfeito por saber que por enquanto o caso ainda não
subira ao alto escalão. "O
que você pretende dizer a ela?", Rebus perguntou. "Não
há nada a dizer. Não tive nada a ver com a morte de Fairstone."
Ela fez uma pausa, outra pergunta pendente entre eles: E você? Ela
parecia esperar que Rebus dissesse algo, mas ele permaneceu em silêncio.
"Ela vai perguntar sobre você", Siobhan acrescentou. "Como
veio parar aqui." "Eu
me queimei", Rebus disse. "Foi uma coisa estúpida, mas aconteceu." "Sei
o que você alega ter ocorrido..." "Escute,
Siobhan, foi exatamente isso que aconteceu. Pergunte aos médicos, se não
acredita em mim." Ele olhou em torno novamente. "Se conseguir achar
algum..." "Provavelmente
ainda estão rodando atrás de uma vaga." O
comentário não foi muito engraçado, mas Rebus riu assim mesmo.
Ela demonstrava que não pretendia pressioná-lo mais. O sorriso foi
um sinal de gratidão. "Quem
está no comando de South Queensferry?", ele perguntou, mudando de
assunto. "Acho
que quem está na chefia é o inspetor Hogan." "Bobby
é um cara legal. Se for possível dar um jeito, ele dará." "Um
circo para a mídia, de todo modo. Grant Hood foi chamado para ser o oficial
de ligação." "Isso
nos deixa com falta de pessoal em St. Leonard’s, certo?" Rebus ficou pensativo.
"Mais uma razão para eu voltar para lá." "Principalmente
se eu for suspensa..." "Você
não será suspensa. Você mesma disse, Siobhan - não
teve nada a ver com Fairstone. Pelo que entendo, foi um acidente. Agora que temos
um caso mais importante, este vai morrer de morte natural, por assim dizer." "Um
acidente", ela repetiu suas palavras. Ele
balançou a cabeça devagar. "Não se preocupe com isso.
A não ser, claro, que você tenha apagado o cretino." "John..."
Havia um toque de alerta em sua voz. Rebus sorriu novamente e piscou um olho. "Brincadeira",
disse. "Sei muito bem quem Gill vai querer enquadrar, no caso de Fairstone." "Ele
morreu num incêndio, John." "E
isso quer dizer que eu o matei?" Rebus ergueu as duas mãos, virando-as
para um lado e para outro. "Escaldadas, Siobhan. Só isso. Escaldadas." Ela
se levantou da cadeira. "Se você está dizendo, John..."
Depois ela parou na frente dele, que baixava as mãos, sufocando a súbita
agonia. Uma enfermeira se aproximava, dizendo algo a respeito da troca de ataduras. "Estou
de saída", Siobhan a informou. Depois, para Rebus: "Seria de
doer se você tivesse feito uma besteira, imaginando me defender". Ele
começou a acenar a cabeça lentamente, ela deu meia-volta e se afastou.
"Tenha confiança, Siobhan", ele gritou. "Sua
filha?", a enfermeira perguntou, puxando conversa. "Só
uma amiga. Colega de serviço." "Você
tem algo a ver com a Igreja?" Rebus
fez uma careta quando ela tirou a primeira atadura. "Por que você está
perguntando isso?" "Você
falou algo a respeito de ter fé." "No
meu ramo de atividade, precisamos mais do que a maioria." Ele fez uma pausa.
"Bem, talvez isso valha para o seu caso também." "Meu?"
Ela sorriu, sem tirar os olhos do curativo. Era baixa, comum, eficiente. "Não
posso esperar que a fé faça alguma coisa aqui. Como você arranjou
isso?" Ela se referia às mãos em carne viva. "Enfiei
na água fervendo", ele explicou, sentindo uma gota de suor iniciar
a lenta jornada têmpora abaixo. Posso suportar a dor, pensou. O problema
estava no resto. "Não podemos passar para algo mais leve que as ataduras?" "Está
ansioso para tomar seu rumo?" "Ansioso
para segurar uma xícara sem deixar cair." Ou um telefone, pensou.
"Além disso, deve haver alguém lá fora precisando mais
do que eu deste leito." "Você
é muito responsável socialmente, pelo que vejo. Depende do que o
médico disser." "E
quem seria esse médico?" "Tenha
um pouquinho de paciência, está bem?" Paciência:
ele não tinha tempo para isso. "Além
disso, você receberá visitas", a enfermeira acrescentou. Ele
duvidava. Ninguém sabia que estava internado ali, exceto Siobhan. Pedira
que telefonassem para ela, assim poderia avisar Templer que ele não iria
trabalhar por motivo de doença, voltaria em dois dias no máximo.
Mas a ligação fizera com que Siobhan corresse para o hospital. Ele
devia saber que seria assim; talvez por isso mesmo tivesse telefonado para ela,
e não para a delegacia. Ele
fora internado na véspera, durante a tarde. Pela manhã desistira
de se medicar e consultara seu médico. O clínico o examinara superficialmente
e lhe dissera para ir ao hospital. Rebus pegara um táxi até a A&E.
Passara constrangimento quando o motorista precisou revirar o bolso da sua calça
para pegar o dinheiro da corrida. "Ouviu
a notícia?", o taxista indagara. "Tiroteio numa escola." "Provavelmente
alguma brincadeira." Mas
o motorista, balançando a cabeça: "Nada disso. Deu no rádio
que...". Rebus
esperou a vez no A&E. Depois de um tempo fizeram curativos em suas mãos,
os ferimentos não eram graves o suficiente para justificar uma transferência
para a Unidade de Queimados em Livingston. Mas ele apresentou um quadro de febre
e decidiram transferi-lo de A&E para Little France. Ele calculou que queriam
ficar de olho nele, caso entrasse em choque ou algo assim. Talvez tivessem pensado
que fosse um desses sujeitos que se machucam de propósito. Ninguém
veio tratar do assunto. Talvez por isso estivesse internado: esperando uma brecha
na agenda de algum psiquiatra. Ele
pensou por um momento em Jean Burchill, a única pessoa que poderia notar
seu súbito desaparecimento de casa. Mas a relação esfriara
um pouco. Eles passavam uma noite juntos a cada dez dias, aproximadamente. Falavam
pelo telefone com mais freqüência, tomavam café juntos à
tarde, de vez em quando. Já estava virando rotina. Ele se lembrou da época
em que saíra com uma enfermeira, por pouco tempo. Não sabia se ela
ainda trabalhava ali. Poderia perguntar, mas o nome lhe escapava no momento. Era
um problema: dificuldade para lembrar nomes. Esquecia encontros marcados. Nada
sério, claro, só parte integrante do processo de envelhecimento.
Mas ele sabia que precisava cada vez mais consultar suas anotações,
quando testemunhava num julgamento. Dez anos antes não precisava de notas
ou registros. Mostrava mais confiança, e isso impressionava os jurados,
segundo os advogados. "Prontinho."
A enfermeira endireitou o corpo. Passara pomada e trocara a gaze das mãos.
Depois as enrolara com as ataduras antigas. "Está mais confortável?" Ele
fez que sim. Um pouco de frescor na pele, mas ele sabia que não ia durar. "Você
está tomando algum analgésico?" A pergunta era retórica.
Ela havia consultado a ficha ao pé da cama. Antes, após a visita
ao toalete, ele mesmo a lera. Constavam a temperatura e os medicamentos usados,
mais nada. Nenhuma informação em código que só poderia
ser entendida pelos profissionais. Nenhum registro da história que contara
ao ser examinado. Preparei
um banho bem quente... escorreguei e caí lá dentro. O
médico emitiu um ruído no fundo da garganta, algo para dar a entender
que aceitaria aquilo sem necessariamente acreditar. Excesso de trabalho, falta
de sono - seu serviço não era investigar. Médico, não
detetive. "Você
quer tomar um paracetamol?", a enfermeira perguntou. "Se
tiver uma cerveja para acompanhar." Ela
abriu de novo o sorriso profissional. Em seus muitos anos de trabalho em hospitais
públicos ela provavelmente não ouvira muitas tiradas originais. "Verei
o que posso fazer." "Você
é um anjo", Rebus disse, surpreso. Supunha que um paciente diria algo
no gênero dos clichês esperados. De saída, ela talvez nem o
tivesse escutado. Devia haver algo na natureza dos hospitais. Mesmo que o sujeito
não se sentisse doente, o local provocava seus efeitos, tornando a pessoa
mais lenta, mais dócil. Institucionalização. Algo a ver com
a combinação de cores, com os ruídos de fundo. O aquecimento
também poderia ajudar na submissão. Em St. Leonard’s eles mantinham
uma cela especial para os "malucos". Era rosa forte, supostamente os
acalmava. Por que uma abordagem psicológica similar não era usada
ali? A última coisa que desejavam era um paciente descontrolado, gritando
ao saltar da cama a cada cinco minutos. Daí o número sufocante de
cobertores, bem presos para evitar movimentos. Fique quieto, deitado... recostado
nos travesseiros... tomando banho de luz e calor... sem criar caso. Mais um pouco
daquele tratamento, pensou, e esqueceria o próprio nome. O mundo lá
fora deixaria de fazer diferença. Nada de emprego a sua espera. Nada de
Fairstone. Nem do maníaco a disparar tiros na sala de aula... Rebus
virou de lado, usando as pernas para soltar as cobertas. Era uma luta árdua,
como a de Harry Houdini contra a camisa-de-força. O homem no leito vizinho
abrira os olhos e o observava. Rebus piscou para ele ao erguer os pés no
ar. "Não
pare de cavar", disse ao homem. "Vou dar uma volta, tirar a terra da
perna da calça." Pelo
jeito, a alusão não fez sentido para seu companheiro de cela... |