O
Homem Sentado no Corredor e A Doença da Morte (tradução
de Vadim Nikitin; Cosac Naify; 112 páginas; 39,90 reais) Os dois
contos reunidos nesse livro são histórias de amor. Mas essa emoção,
na obra da francesa Marguerite Duras autora de O Amante, romance
de fundo autobiográfico que conta a iniciação sexual de uma
adolescente francesa com um adulto chinês , é difícil
e às vezes brutal. O Homem Sentado no Corredor narra um encontro
sadomasoquista, com ambigüidades perturbadoras. A Doença da Morte
trata do envolvimento de uma prostituta e seu cliente. As histórias
são marcadas pela indeterminação: pouco ou nada se sabe sobre
o passado de seus personagens. Nada mais parece importar, além do sexo
e do amor.
Leia
trechos O
Homem Sentado no Corredor Ela
teria avançado lentamente, teria aberto os lábios e, de um só
golpe, teria tomado por inteiro a sua extremidade doce e lisa. Ela teria fechado
os lábios em torno do debrum que lhe marca a nascença. Sua boca
teria ficado cheia. A doçura daquilo é tal que lhe vêm lágrimas
aos olhos. Vejo que nada iguala em potência a essa doçura, salvo
a interdição formal de atentar contra ela. Interdita. Ela só
pode ir além acariciando-a com precaução, a língua
entre os dentes. Vejo isso: que o que geralmente se tem no espírito ela
tem na boca, sob a forma dessa coisa grosseira e brutal. Ela a devora em espírito,
alimenta-se dela, sacia-se em espírito. Enquanto o crime está na
sua boca, ela só pode se permitir conduzi-la, guiá-la ao gozo, os
dentes prontos. Com as mãos ela a ajuda a vir, a voltar. Mas ela parece
já não saber voltar. O homem grita. Com as mãos agarradas
ao cabelo da mulher ele tenta arrancá-la dali mas já não
tem forças, e ela, ela não quer deixar.
A Doença
da Morte Você
vê primeiro os leves frêmitos se inscreverem na pele, justamente como
os do sofrimento. E logo depois as pálpebras tremelicarem como se os olhos
quisessem ver. E logo depois a boca se abrir como se a boca quisesse dizer. E
logo depois você percebe que debaixo das tuas carícias os lábios
do sexo incham e que do seu veludo sai uma água visguenta e quente como
seria o sangue. Então você faz mais rápidas as tuas carícias.
Você percebe que as coxas se afastam para deixar a tua mão mais à
vontade, para que você faça tudo melhor ainda. |