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Middlesex,
de
Jeffrey Eugenides (tradução de Paulo Reis; Rocco;
567 páginas; 54 reais) "Eu nasci duas vezes: primeiro
como uma menininha, num dia excepcionalmente despoluído de
Detroit, em janeiro de 1960; e depois outra vez como um rapaz adolescente,
num ambulatório de emergência perto de Petoskey, Michigan,
em agosto de 1974." Assim a personagem Calliope começa a
narrar sua vida nesse romance que garantiu o Prêmio Pulitzer
ao americano Jeffrey Eugenides (de As Virgens Suicidas).
Calliope que, assim como o autor, descende de imigrantes
gregos foi criada como mulher. Sua vida transforma-se, no
entanto, ao ser informada de que, geneticamente, é um hermafrodita.
Passa então a se chamar Cal e tenta reconstruir sua vida
como homem. Essa descoberta e suas conseqüências dão
mote à trama, mas Middlesex oferece muito mais. É
uma saga familiar que percorre a história dos Estados Unidos
no século XX. É também uma abordagem curiosa
e nada amarga do amor e da reprodução
sob a ótica evolucionista. O tema central de Middlesex,
no fundo, é universal: o drama do ser humano que se debate
entre o destino e sua própria vontade.
Leia trecho do livro
A
colher de prata
Eu
nasci duas vezes: primeiro como uma menininha, num dia excepcionalmente
despoluído de Detroit, em janeiro de 1960; e depois outra
vez como um rapaz adolescente, num ambulatório de emergência
perto de Petoskey, Michigan, em agosto e 1974. Os leitores especializados
talvez tenham esbarrado comigo no estudo do dr. Peter Luce, "Identidade
sexual em pseudo-hermafroditas com 5-alfa-redutase", publicado
no Journal of Pediatric Endocrinology em 1975. Ou talvez tenham
visto a minha fotografia no capítulo 16 do hoje tristemente
ultrapassado Genetics and Heredity. Sou eu lá na página
578, sem roupa, diante de um gráfico que indica minha altura,
com uma tarja preta sobre os olhos.
Minha
certidão de nascimento dá meu nome como sendo Calliope
Helen Stephanides. Minha última carteira de motorista (da
República Federal da Alemanha) registra meu primeiro nome
simplesmente como Cal. Já fui goleira de hóquei,
pertenço há muito tempo à Fundação
para a Salvação do Peixe-Boi, freqüento com pouca
assiduidade a igreja ortodoxa grega e passei a maior parte da minha
vida adulta trabalhando no Departamento de Estado americano.
Como Tirésias, fui primeiro uma coisa e, depois, outra. Colegas
de escola me ridicularizaram, médicos me trataram como cobaia,
especialistas me apalparam e a instituição March of
Dimes me pesquisou. Uma ruiva de Grosse Pointe se apaixonou por
mim, sem saber o que eu era. (0 irmão dela também
gostava de mim.) Um tanque do Exército me levou a uma batalha
urbana; uma piscina me transformou em mito; já saí
do meu corpo a fim de ocupar outros - e tudo isso aconteceu antes
dos meus dezesseis anos.
Mas
hoje, aos quarenta e um anos de idade, sinto outro nascimento
se aproximando. Depois de décadas de indiferença,
eu me pego pensando em tios e tias-avós já falecidos,
avôs há muito perdidos, primos em quinto grau desconhecidos
ou, no caso de uma família endogâmica como a minha,
em todas essas coisas numa só. E, antes que seja tarde demais,
quero registrar direito essa solitária viagem de montanha-russa
de um gene através dos tempos. Canta agora, ó Musa,
a mutação recessiva do meu quinto cromossomo! Canta
o seu florescimento há dois séculos e meio nas encostas
do monte Olimpo, enquanto as cabras baliam e as azeitonas caíam.
Canta a sua passagem por nove gerações, acumulando-se
invisivelmente na poluída herança genética
da família Stephanídes. E canta o envio do gene pela
Providência - sob o pretexto de um massacre - como uma semente
sobre o mar até a América, até cair, em meio
às nossas chuvas industriais, no solo fértil do útero
caipira da minha mãe.
Perdoem-me
se às vezes fico um tanto homérico. Isso também
é genético.
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