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O
Livro das Provas,
de John Banville (tradução de Maria Alice Máximo;
Record; 253 páginas; 32 reais) Depois de viver dissolutamente
na Califórnia e numa ilha do Mediterrâneo, o personagem
Freddie Montgomery retorna à Irlanda natal. Torna-se obcecado
por um antigo quadro que sua mãe vendeu aos vizinhos e decide
reaver a pintura. Durante o roubo, assassina uma mulher. O Livro
das Provas é o relato que ele escreve na cadeia, aconselhado
por seu advogado. Mas, longe de ser um apelo àqueles que
o julgarão, seu texto é uma peça fria e perturbadora,
que nada explica e nada justifica. O irlandês John Banville
é um dos mais premiados escritores de língua inglesa
da atualidade. Nesse belo romance, aproxima-se do existencialismo
do franco-argelino Albert Camus e dos estudos da crueldade e da
amoralidade do russo Vladimir Nabokov.
Leia
trecho do livro
Quando
o senhor mandar que eu conte tudo diante do júri, com minhas
próprias palavras, é isso o que vou dizer. Vivo enjaulado
aqui como se fosse um animal exótico, último sobrevivente
de uma espécie que já julgavam extinta. Deveriam permitir
que as pessoas viessem me ver - o devorador de meninas, esbelto
e perigoso, a caminhar de um lado para o outro da jaula, lançando
meu terrível olhar esverdeado por entre as grades. Isso lhes
daria algo com que sonhar à noite, aconchegados em seus leitos.
Logo que me capturaram eles disputavam a patadas um lugar de onde
pudessem me ver. Teriam até pago por esse privilégio,
aposto. Gritavam todo tipo de ofensas, brandiam seus punhos cerrados
para mim, mostrando-me os dentes. Parecia que aquilo não
estava acontecendo de fato. Não sei dizer como, mas era ao
mesmo tempo aterrorizante e engraçado vê-los ali a
se movimentar pela rua como figurantes de um filme, rapazes em suas
capas de chuva baratas e mulheres carregando sacolas de compras,
além de uns dois personagens que permaneciam, imóveis,
a me olhar fixamente, ansiosos, pálidos de inveja. Então
um policial jogou uma coberta sobre minha cabeça e me levou,
embrulhado, para o camburão. Não pude conter o riso.
Aquilo tudo era irresistivelmente engraçado. A realidade,
banal como sempre, estava concretizando minhas piores fantasias.
E
por falar na coberta, eles a teriam levado especialmente para mim,
ou será que sempre têm uma à mão? Perguntas
desse tipo não param de perturbar minha cabeça. Não
dá para parar de pensar. Que figura interessante eu devo
ter ficado para quem foi me espiar. Lá estava eu, sentado
no banco de trás como uma espécie de múmia,
quando o carro da polícia partiu em alta velocidade pelas
ruas molhadas e iluminadas pelo sol que surgia. A sirene soava alto
e imponente.
Depois
foi este lugar aqui. A princípio o que mais me impressionou
foi o barulho. Uma algazarra terrível - gritos e assovios,
gargalhadas, bate-bocas, gemidos. Mas há momentos também
em que se faz um silêncio insuportável, como se um
medo enorme, ou uma tristeza infinda, desabasse sobre nós
deixando-nos sem fala. Nessas ocasiões o ar fica parado nos
corredores, e é como se estivéssemos imersos em água
estagnada. Sente-se então um leve odor de ácido fênico,
como que num cemitério. No começo pensei que fosse
eu, isto é, pensei que aquele cheiro fosse meu, uma contribuição
minha. Ainda tenho minhas dúvidas. A luz do dia também
é estranha aqui, mesmo no lado de fora, no pátio,
como se alguma coisa tivesse acontecido com ela, como se tivessem
feito algo com ela antes de deixarem que ela penetrasse aqui. Tem
uma tonalidade ácida, de limão, e chega até
nós em duas intensidades: ou não é o suficiente
para que se possa enxergar ou é tão intensa que parece
cauterizar tudo. Das várias modalidades de escuridão
eu não vou falar.
Minha
cela. Minha cela está aí e não tenho mais nada
a dizer sobre ela.
Os
veteranos ficam nas melhores celas. É justo. Afinal de contas,
podem chegar à conclusão de que sou inocente. Ai,
eu não posso nem rir porque dói demais. Sinto uma
fisgada horrível, como se alguma coisa apertasse meu coração.
Talvez seja o peso da minha culpa. Acho que é. Tenho uma
mesa e uma cadeira de braço que eles chamam de poltrona.
Aqui tem até um aparelho de televisão que raramente
ligo, agora que meu caso está subjudice e não se fala
mais de mim nos noticiários. As instalações
sanitárias deixam a desejar. Balde de despejos: que nome
sugestivo. Preciso arranjar uma bichinha para mim. Pode ser neófito
mesmo. Algum sujeito jovem, jeitoso e que esteja a fim. Mas que
não seja impertinente. Isso não deve ser difícil.
Preciso também ver se arranjo um dicionário.
O
que mais me incomoda aqui é o cheiro de esperma por toda
a parte. Este lugar fede a esperma.
Confesso
que tinha umas expectativas meio românticas sobre o que encontraria
aqui. De certa forma eu me via como uma espécie de celebridade,
mantida à parte dos demais prisioneiros em alguma ala especial,
onde receberia grupos de pessoas solenes e importantes com as quais
discutiria as grandes questões do momento, deixando os homens
impressionados e as mulheres encantadas comigo. Que sensibilidade!,
diriam em espanto. Que visão do mundo! Disseram-nos que o
senhor era uma fera, insensível e cruel, porém agora
que o vimos e ouvimos, ora -! E lá estaria eu, em uma pose
elegante, com meu perfil ascético erguido contra a luz da
janela de grades, os dedos a brincar tranqüilamente com um
lenço perfumado, e um sorriso levemente afetado: Jean-Jacques,
o assassino intelectual.
Nada
disso. Absolutamente nada disso. Mas também não é
nada do que todo mundo espera que seja. Onde estão as badernas
de refeitório? As tentativas de fuga em massa? Essas coisas
todas que a gente vê na telinha prateada? Onde está
aquela cena no pátio de exercício na qual o delator
é apagado com um estilete enquanto uma dupla de pesos-pesados
mal-encarados inventa uma briga qualquer para distrair as atenções?
Quando é que as disputas entre as gangues vão começar?
A verdade é que tudo aqui dentro é como lá
fora, só que mais exacerbado ainda. Nós vivemos obcecados
com o conforto físico. Aqui há sempre aquecimento
demais; é como se estivéssemos numa chocadeira. Mesmo
assim há gente se queixando de correntes de ar frio, de resfriamentos
súbitos e de pés congelados durante a noite. A comida
é importante também. Catamos os pedacinhos de coisas
que vêm no nosso angu, cheirando e suspirando, como se fôssemos
uma convenção de gourmets. Quando alguém recebe
algum pacote, os cochichos se espalham como fogo em palha seca.
Psss! Ela mandou uma lingüiça para ele! Feita em casa!
É como se fosse um colégio interno, sem tirar nem
pôr. A mesma mistura de mesquinharias e miséria, de
tagarelice, de desejos amortecidos, de ruídos e, por toda
parte, sempre, aquele bafio fedorento, cinza e morno de macho.
Dizem
que era diferente quando os presos políticos estavam aqui.
Eles marchavam, imponentes, pelos corredores, gritavam uns com os
outros e eram uma boa fonte de gargalhadas para os criminosos comuns.
Mas um belo dia decidiram todos fazer greve de fome ou algo assim
e logo foram levados para uma cadeia só deles e assim a vida
voltou ao normal.
Por
que é que somos tão cordatos? Será que é
porque colocam alguma coisa em nosso chá para aplacar a libido?
Dizem que sim. Ou será por causa das drogas? Excelência,
eu sei que ninguém, nem mesmo o promotor, gosta de ouvir
um delator, mas julgo sei meu dever dar ciência a esta corte
do ousado tráfico de substâncias proibidas que se processa
nesta instituição. E há carcereiros envolvidos
nisso. Posso informar seus números se me for assegurada a
necessária proteção. Consegue-se qualquer coisa
- pra ficar doidão, pra ficar tranqüilo, pra apagar,
baseado, branquinha, crack, o que for. Vossa Excelência não
deve estar familiarizado com essas expressões que a ralé
usa. Eu mesmo aprendi várias delas ao chegar aqui. Como se
pode supor, são principalmente os jovens que vão fundo
nessas coisas. É fácil identificá-los ao caminharem
sem firmeza pelas passarelas como se fossem sonâmbulos, com
aquele sorrisinho estúpido nos lábios, típico
de quem está pirado. Há alguns, porém, que
não sorriem e que, pelo jeito, parece que nunca mais na vida
vão sorrir. Esses já se perderam para sempre. Já
não estão nem mais aí. Ficam imóveis,
com o olhar perdido, sem qualquer expressão, ou melhor, com
a expressão ausente de um animal ferido que nos ignora como
se não existíssemos. Seu sofrimento se passa em um
mundo que não é o nosso.
Mas
não são só as drogas. Quem dera. Alguma coisa
essencial é arrancada da gente. Alguma coisa de dentro de
nós. já não somos mais homens na acepção
plena da palavra. Fico olhando aqueles velhos internos, gente que
foi capaz de fazer as coisas mais terríveis. Andam rebolando
como velhas matronas, pálidas e flácidas, as ancas
largas. Vivem em briguinhas ridículas por qualquer coisa.
Por livros da biblioteca! Alguns até fazem tricô. Os
jovens também vão se apegando a seus trabalhos manuais.
Aproximam-se de mim na sala de recreação, com seus
olhos lacrimejantes de bezerro, e exibem, tímidos, seu artesanato.
Se eu tiver que apreciar mais um naviozinho dentro de uma garrafa,
acho que perco a cabeça. Mas eles são tão tristes,
tão vulneráveis, aqueles assassinos, aqueles estupradores
e espancadores de criancinhas. Quando penso neles sempre me vem
à mente uma imagem. Não sei por quê, mas sempre
me lembro de um pedacinho de grama rala com uma árvore que
posso entrever da minha janela quando forço a cara contra a grade
e espio em diagonal por cima da fiação e do muro.
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