|
Vida
e Época de Michael K, de
J.M. Coetzee (tradução de José Rubens Siqueira;
Companhia das Letras; 216 páginas; 31 reais) O sul-africano
Coetzee recebeu por duas vezes o Booker Prize, maior distinção
para um autor em língua inglesa. Uma delas foi por Desonra,
seu romance mais conhecido no Brasil. Agora, chega às
livrarias a obra que rendeu sua primeira premiação,
em 1983. Vida e Época de Michael K mostra como o totalitarismo
pode atingir em cheio a existência de um homem ainda
que este, de tão impermeável à realidade, nem
se dê conta. Está-se falando de Michael K, jardineiro
que se supõe seja negro e que um dia resolve cruzar a África
do Sul com um carrinho de mão, no qual carrega sua mãe
à beira da morte, para levá-la à fazenda onde
nasceu. Um livro de força impressionante, com ecos da literatura
do checo Franz Kafka.
Leia
trechos do livro
UM
A primeira
coisa que a parteira notou ao ajudar Michael K a sair de dentro
da mãe para dentro do mundo foi que tinha lábio leporino.
O lábio enrolado como pé de caramujo, a narina esquerda
fendida. Escondeu a criança da mãe por um momento,
enfiou o dedo no botãozinho de boca e ficou agradecida de
ver que o palato estava inteiro.
Para
a mãe, disse assim: "Devia ficar contente, eles dão
sorte para a casa". Mas desde o começo Anna K não
gostou da boca que não fechava e da carne viva e rosada exposta
para ela. Estremeceu ao pensar no que havia crescido dentro dela
aqueles meses todos. O bebê não conseguia mamar no
peito e chorava de fome. Tentou a mamadeira. Quando viu que ele
não conseguia mamar, deu leite com uma colher de chá,
se impacientando quando ele tossiu, engasgou e chorou.
"Vai
fechar quando crescer", prometeu a parteira. Porém,
o lábio não fechou, pelo menos não o bastante,
e o nariz também não corrigiu.
Levava
o bebê com ela para o trabalho e continuou levando quando
não era mais bebê. Como ficava magoada com os sorrisos
e cochichos, manteve o menino afastado de outras crianças.
Ano após ano, Michael K ficou sentado em cima de um cobertor
vendo a mãe limpar o chão dos outros, aprendendo a
ficar quieto.
Por
causa da deformação, e porque não era rápido
de cabeça, Michael foi tirado da escola depois de uma breve
tentativa, e entregue à proteção do Huis Norenius,
em Faure, onde, às custas do estado, passou o resto da infância
na companhia de outras crianças infelizes com afecções
diversas, aprendendo os primeiros passos de ler, escrever, contar,
varrer, esfregar, arrumar camas, lavar pratos, fazer cestos, mexer
com madeira e cavar. Aos quinze anos, saiu do Huis Norenius e passou
a fazer parte da Divisão de Parques e Jardins do serviço
municipal da Cidade do Cabo, como Jardineiro, grau 3 (b). Três
anos depois, deixou a Parques e Jardins e, após um breve
período de desemprego que passou deitado na cama olhando
as próprias mãos, arrumou um trabalho de atendente
noturno nos lavatórios públicos de Greenmarket Square.
A caminho de casa depois de trabalhar até tarde da noite
uma sexta-feira, foi encurralado por dois homens que bateram nele,
levaram seu relógio, seu dinheiro e seus sapatos, e o deixaram
caído, tonto, com um corte no braço, um polegar destroncado
e duas costelas fraturadas. Depois desse incidente, deixou de trabalhar
de noite e voltou para a Parques e Jardins, onde progrediu aos poucos,
até ser Jardineiro, grau 1.
Por
causa da sua cara, K não tinha amigas mulheres. Ficava melhor
quando estava sozinho. Ambos os empregos haviam lhe dado uma certa
medida de solidão, embora nos lavatórios se sentisse
oprimido pela luz brilhante de neon que refletia nos ladrilhos brancos
e criava um espaço sem sombras. Seus parques preferidos eram
os que tinham pinheiros altos e caminhos de agapantos sombreados.
Às vezes, aos sábados, não escutava a explosão
do canhão do meio-dia e continuava trabalhando sozinho a
tarde inteira. Nas manhãs de domingo, dormia até tarde;
nas tardes de domingo, visitava a mãe.
No
final de uma manhã de junho, no trigésimo primeiro
ano de sua vida, chegou um recado para Michael K enquanto estava
rastelando folhas no De Waal Park. O recado, de terceira mão,
era de sua mãe: ela havia recebido alta do hospital e queria
que fosse buscá-la. K guardou as ferramentas e foi de ônibus
até o Hospital Somerset, onde encontrou a mãe sentada
em um banco num retalho de sol do lado de fora da porta de entrada.
Estava inteiramente vestida, mas sem sapato. Quando viu o filho,
ela começou a chorar, cobrindo os olhos com a mão
para os outros pacientes e visitantes não verem.
Durante
meses, Anna K sofreu de um forte inchaço nas pernas e braços;
depois sua barriga começou a inchar também. Havia
dado entrada no hospital sem conseguir andar e mal podendo respirar.
Passara cinco dias deitada num corredor, no meio de uma porção
de vítimas de esfaqueamento, surras e tiros, que a mantinham
acordada com seus gritos, negligenciada pelas enfermeiras que não
tinham tempo de dar atenção a uma velha quando havia
rapazes morrendo mortes espetaculares à volta toda. Reanimada
com oxigênio ao chegar, foi tratada com injeções
e comprimidos que diminuíram o inchaço. Quando queria
uma comadre, porém, raramente havia alguém para trazer.
Ela não tinha roupão. Uma vez, tateando as paredes
a caminho do banheiro, foi abordada por um velho de pijama cinzento
que lhe falou umas sujeiras e se exibiu para ela. As necessidades
do corpo passaram a ser uma fonte de tormento. Quando a enfermeira
perguntava se havia tomado os comprimidos, ela dizia que sim, mas
quase sempre estava mentindo. Então, embora a falta de ar
tivesse melhorado, as pernas começaram a coçar tanto
que precisava deitar em cima das mãos para controlar a vontade
de se arranhar. No terceiro dia, estava implorando para ir para
casa, só que, claro, não implorou para a pessoa certa.
As lágrimas que chorou no sexto dia foram, portanto, em grande
parte, lágrimas de alívio, por estar saindo do purgatório.
No
balcão, Michael K pediu uma cadeira de rodas, que recusaram.
Carregando a bolsa e os sapatos dela, apoiou a mãe ao longo
dos cinqüenta passos que levavam até o ponto de ônibus.
Havia uma longa fila. A tabela de horário pregada no poste
prometia um ônibus a cada quinze minutos. Esperaram uma hora,
enquanto as sombras iam ficando mais compridas e o vento mais frio.
Incapaz de ficar em pé, Anna K sentou-se no chão encostada
a uma parede, com as pernas esticadas para a frente, como uma mendiga,
enquanto Michael guardava o lugar deles na fila. Quando o ônibus
chegou, não havia lugar para sentar. Michael segurou no cano
e abraçou a mãe para impedir que ela sacudisse. Passava
das cinco horas quando chegaram ao quarto dela em Sea Point.
Durante
oito anos, Anna K fora empregada doméstica de um fabricante
de meias aposentado e sua mulher, que moravam em um apartamento
de cinco cômodos em Sea Point, com vista para o Oceano Atlântico.
Pelos termos do contrato, ela entrava às nove da manhã
e ficava até as oito da noite, com um intervalo de três
horas à tarde. Trabalhava alternadamente cinco e seis dias
na semana. Tinha uma folga paga a cada quinze dias e um quarto próprio
no prédio. O salário era justo, os patrões
gente razoável, andava difícil arrumar emprego, e
Anna K não estava descontente. Um ano atrás, porém,
tinha começado a sentir tontura e um aperto no peito quando
se abaixava. Então manifestou-se a hidropisia. Os Buhrmann
a mantiveram no emprego para fazer a comida, cortaram um terço
do seu salário, e contrataram uma mulher mais moça
para fazer o serviço da casa. Permitiram que continuasse
no quarto, cujo usufruto estava assegurado aos Buhrmann. A hidropisia
piorou. Durante semanas, antes de ir para o hospital, ficou de cama,
sem poder trabalhar. Vivia com medo de que os Buhrmann cessassem
com a caridade.
Seu
quarto debaixo da escada do Côte d'Azur era destinado ao equipamento
de ar-condicionado, que nunca instalaram. Na porta havia uma placa:
uma caveira e dois ossos cruzados, pintados em vermelho, e embaixo
a legenda PERIGO - DANGER - GEVAAR - INGOZI. Não havia luz
elétrica, nem ventilação; o ar era sempre mofado.
Michael abriu a porta para a mãe, acendeu uma vela e saiu
enquanto ela se preparava para deitar. Passou ao lado dela essa
noite, a primeira do seu retorno, e todas as noites da semana seguinte;
esquentava sopa para ela no fogão a querosene, cuidava de
seu conforto na medida do possível, fazia o que era preciso,
e a consolava acariciando-lhe os braços quando tinha os seus
ataques de choro. Uma noite, os ônibus de Sea Point não
saíram às ruas e teve de passar a noite no quarto
dela, dormindo em cima do capacho, com o casaco do corpo. No meio
da noite, acordou gelado até os ossos. Sem poder dormir,
sem poder sair, por causa do toque de recolher, ficou sentado na
cadeira, tremendo, até de manhã, enquanto a mãe
grunhia e roncava.
Michael
K não gostava da intimidade física a que os dois eram
forçados naquele quartinho minúsculo. Achava perturbador
ver as pernas inchadas da mãe e desviava os olhos quando
a ajudava a sair da cama. Suas coxas e braços estavam cobertos
de marcas de arranhões (durante algum tempo ela chegou a
usar luvas durante a noite). Mas não deixava de cumprir nada
do que considerava seu dever. O problema que tanto o preocupava
anos antes, no galpão das bicicletas do Huis Norenius, o
porquê de ter sido trazido ao mundo, recebera sua resposta:
tinha vindo ao mundo para cuidar da mãe.
Nada
do que o filho dizia conseguia acalmar o medo que Anna K sentia
do que podia acontecer se perdesse o quarto. As noites passadas
entre os moribundos do corredor do Hospital Somerset lhe revelaram
o quanto o mundo podia ser indiferente a uma velha que tinha uma
doença feia em tempo de guerra. Incapaz de trabalhar, viu-se
poupada da sarjeta apenas pela nada garantida boa vontade dos Buhrmann,
pela atenção de um filho tacanho e, em último
caso, pelas economias que guardava em uma bolsa dentro de uma mala
debaixo da cama, o dinheiro novo em uma bolsa, o dinheiro velho,
agora sem valor, que ela tinha sido desconfiada demais para trocar,
em uma outra.
Quando
Michael chegou uma noite falando de dispensa temporária na
Parques e Jardins, ela começou a revirar na cabeça
uma coisa que até então só havia sonhado: o
projeto de sair de uma cidade que lhe prometia tão pouco
e voltar para a tranqüilidade do campo de sua meninice.
|