A
Pista de Gelo,
de Roberto Bolaño (tradução de Eduardo Brandão; Companhia
das Letras; 200 páginas; 37 reais) Morto em 2003, com apenas 50
anos, o chileno Roberto Bolaño construiu uma das obras mais originais da
literatura contemporânea. No Brasil, já foram lançadas duas
obras suas: Noturno do Chile, uma revisão cáustica da ditadura
de Pinochet, e Os Detetives Selvagens, sobre um estranho grupo de poetas
de vanguarda. A Pista de Gelo, primeiro romance do autor, se passa no balneário
de Z, na Espanha. Dois de seus personagens centrais são, como o próprio
Bolaño foi, exilados que vivem de biscates e empregos medíocres.
Eles se vêem envolvidos com uma misteriosa patinadora e com um assassinato.
Sim, é um romance policial. Mas nada em Bolaño é convencional:
no início, não se sabe nem mesmo quem é a vítima do
crime.
Leia
trechos Remo
Morán: Eu
o vi pela primeira vez na rua Bucareli Eu
o vi pela primeira vez na rua Bucareli, na Cidade do México, isto é,
na adolescência, na zona indistinta e vacilante que pertencia aos poetas
de ferro, numa noite carregada de neblina que obrigava os carros a trafegar com
lentidão e que predispunha os pedestres a comentar, com regozijada estranheza,
o fenômeno brumoso, tão incomum naquelas noites mexicanas, pelo menos
até onde me lembro. Antes de ser apresentado a ele, na porta do café
La Habana, ouvi sua voz, profunda, como de veludo, a única coisa que não
mudou com o passar dos anos. Falou: é uma noite sob medida para o Jack.
Referia-se a Jack, o Estripador, mas sua voz soou evocativa de terras sem lei,
onde qualquer coisa seria possível. Éramos todos adolescentes, adolescentes
cheios de energia, isso sim, e poetas, e ríamos. O desconhecido se chamava
Gaspar Heredia, Gasparín para os amigos e inimigos gratuitos, mas lembro-me
da neblina por baixo da porta giratória e dos destinos que iam e vinham.
Mal se vislumbravam os rostos e as luzes, e a gente envolta naquela echarpe parecia
enérgica e ignorante, fragmentada e inocente, como realmente éramos.
Agora estamos a milhares de quilômetros do café La Habana, e a neblina,
feita sob medida para Jack, o Estripador, é mais densa do que então.
Da rua Bucareli, na Cidade do México, ao assassinato!, pensarão...
O propósito deste relato é tentar persuadi-los do contrário...
Gaspar
Heredia: Cheguei
a Z no meio da primavera Cheguei
a Z no meio da primavera, numa noite de maio, vindo de Barcelona. Não me
sobrava quase nada de dinheiro, mas isso não me preocupava, pois em Z me
esperava um trabalho. Remo Morán, que eu não via fazia muitos anos
mas de quem constantemente tivera notícias, salvo naquela época
em que dele nada se soube, me ofereceu, por intermédio de uma amiga comum,
um trabalho para a temporada, de maio a setembro. Devo esclarecer que não
pedi o trabalho, que nem então nem antes tentei entrar em contato com ele
e que nunca tive a intenção de viver em Z. É verdade que
tínhamos sido amigos, mas isso fazia muito tempo, e não sou dos
que vão atrás de caridade. Até então morava num apartamento
que dividia com outras três pessoas, no bairro chinês, e as coisas
não iam tão mal para mim como se poderia imaginar. Minha situação
legal na Espanha, salvo nos primeiros meses, era, para dizer de uma forma suave,
desesperadora: não tenho visto de residência, não tenho visto
de trabalho, vivo numa espécie de purgatório indefinido à
espera de conseguir dinheiro suficiente para bater as asas ou pagar um advogado
que legalize minha situação. Claro, esse dia é um dia utópico,
pelo menos para os estrangeiros que, feito eu, pouco ou nada possuem. De todo
modo, as coisas não iam mal para mim. Por muito tempo andei fazendo uns
bicos, vendendo numa lojinha da Rambla ou costurando numa Singer caindo aos pedaços
bolsas de couro para uma fábrica clandestina, e assim comia, ia ao cinema
e pagava a moradia. Um dia conheci Mónica, uma chilena que tinha uma banquinha
na Rambla e, conversando, descobrimos que ambos, em diferentes épocas da
nossa vida, eu anos antes, ela na Europa e de forma mais regular, tínhamos
sido amigos de Remo Morán. Por ela soube que ele agora vivia em Z (eu sabia
que ele vivia na Espanha, mas não sabia onde) e que era imperdoável
que na minha atual situação não fosse visitá-lo ou
não lhe telefonasse. Para lhe pedir ajuda! Claro que não fiz nada;
a distância entre mim e Remo me parecia intransponível, e eu também
não estava a fim de incomodá-lo. De modo que continuei vivendo,
ou vivendo mal, depende, até que um dia Mónica me contou ter visto
Remo Morán num bar de Barcelona e que, depois de lhe explicar a minha situação,
ele dissera que era para eu partir imediatamente para Z, porque lá poderia
morar e trabalhar pelo menos durante a temporada de verão. Morán
se lembrava de mim! A verdade, devo reconhecer, é que eu não tinha
nada melhor e que as perspectivas até aquele momento eram negras como um
barril de petróleo. Além do mais, a proposta me emocionou. Nada
me prendia a Barcelona, eu acabara de sair da pior gripe da minha vida (cheguei
a Z ainda com febre), a simples idéia de viver cinco meses seguidos à
beira-mar me fazia sorrir como um boboca, era só pegar o trem da costa
e ir embora. Dito e feito: enfiei na mochila os livros e a roupa e me mandei.
Tudo que não coube, dei de presente. Ao deixar para trás a estação
de Francia, pensei que nunca mais tornaria a viver em Barcelona. Para trás
e para fora de mim! Sem dor nem amargura! Na altura de Mataró comecei a
esquecer todos os rostos... Mas, claro, isso é uma maneira de dizer, nada
se esquece... Enric
Rosquelles: Até
há alguns anos meu caráter era proverbialmente agradável Até
há alguns anos meu caráter era proverbialmente agradável;
disso dão fé meus familiares, meus colegas, meus subordinados, todas
as pessoas que tiveram a oportunidade de se relacionar comigo. Todos dirão
que o indivíduo menos indicado para se ver envolvido num crime sou eu.
Meus hábitos são regrados e até severos. Fumo pouco, bebo
pouco, quase não saio de noite. Minha capacidade de trabalho é conhecida:
se necessário posso prolongar minha jornada de trabalho até dezesseis
horas por dia, e meu rendimento não cai. Aos vinte e dois anos obtive o
diploma de psicólogo e sem falsa modéstia devo salientar que fui
um dos melhores alunos da minha turma. Atualmente estudo direito, curso que faz
tempo deveria ter terminado, eu sei, mas preferi ir com calma. Não tenho
pressa. A verdade é que muitas vezes achei que cometi um erro ao me matricular
em direito, para que fazer isso, não é mesmo? Um curso que à
medida que se passaram os anos foi se tornando cada vez mais pesado. O que não
significa que vou desistir. Nunca desisto. Às vezes sou lento, às
vezes sou rápido, metade tartaruga, metade Aquiles, mas nunca desisto.
Aliás, notemos, não é fácil trabalhar e estudar ao
mesmo tempo, e, como já disse, meu trabalho costuma ser intenso e absorvente.
A culpa normalmente é minha. Era eu que determinava o ritmo. Entre parênteses,
permitam-me uma pergunta: que pretendia eu com isso tudo? Não sei. Em alguns
momentos os fatos me suplantam. Às vezes acho que fiz o pior dos papéis.
Outras vezes acho que durante quase todo aquele tempo andei com uma venda nos
olhos. As noites que ultimamente passei em branco não me fizeram encontrar
as respostas. Também não foram propícias as vexações
e os insultos que, segundo dizem, tive recentemente de suportar. A única
coisa certa é que comecei a assumir responsabilidades cedo demais. Durante
um breve e feliz período da minha vida trabalhei como psicólogo
num centro de crianças desajustadas. Devia ter ficado lá, mas há
coisas que a gente não entende antes de muitos anos se passarem. Por outro
lado, creio que é normal que um jovem tenha ambições, desejo
de superação, metas. Eu, pelo menos, tinha. Desse modo, cheguei
a Z pouco depois da primeira vitória socialista nas eleições
municipais. Pilar precisava de alguém para dirigir a Área de Serviços
Pessoais, e eu fui o escolhido. Meu currículo não era extraordinário,
mas reunia as condições necessárias para levar adiante aquele
trabalho delicado, quase experimental em tantas prefeituras socialistas. Claro,
também tenho a carteirinha do partido (da qual serei privado pública
e exemplarmente dentro em breve, se é que já não o fizeram),
mas isso não teve nada a ver com a decisão finalmente tomada: consegui
meu cargo depois de ser observado à lupa, e os primeiros seis meses, além
de instáveis, foram exaustivos. Portanto, permitam-me erguer aqui minha
voz contra aqueles que agora querem envolver Pilar nessa sujeira. Ela não
me empregou por amizade; se bem que, depois de dois mandatos (em Z adoram a sua
prefeita, então não têm por que reclamar), nasceu entre nós
algo que me honra chamar desta forma: amizade de companheiros de canseiras e de
ilusões, e que no meu caso é extensiva ao seu digníssimo
esposo, meu xará Enric Gibert i Vilamajó. Os chacais disfarçados
de jornalistas podem dizer o que quiserem. Se por acaso Pilar cometeu algum pecado,
foi o de depositar cada vez mais sua confiança em mim. Se observarmos o
estado dos diversos departamentos antes da minha chegada e, digamos, dois anos
depois, a conclusão é imediata: eu era o motor da prefeitura de
Z, seus músculos e cérebro. Não importa quão cansado
estivesse, sempre levava meu trabalho adiante e, em não poucas ocasiões,
o dos outros. Também suscitei rancores e invejas, inclusive entre gente
do meu próprio círculo. Sei que muitos dos meus subordinados me
odiavam secretamente. Meu caráter, com o passar do tempo, foi ficando seco
e vazio de esperanças. Confesso que nunca pensei em ficar em Z toda minha
vida, um profissional sempre deve almejar mais; no meu caso, teria adorado ser
convidado para assumir um cargo similar em Barcelona ou pelo menos em Gerona.
Muitas vezes sonhei, não me envergonha dizê-lo, que o prefeito de
uma grande cidade me punha à frente de um arriscado projeto de prevenção
ou de luta contra as drogas. Em Z eu já tinha feito de tudo! Um dia Pilar
deixaria de ser prefeita e o que ia ser de mim, ante que classe de políticos
teria de me arrastar! Pavores noturnos que eu aplacava ao dirigir cada noite de
volta para casa. Cada noite, sozinho e esgotado. Meu Deus, quantas coisas precisei
fazer, quanto tive de engolir e digerir a sós com a minha alma. Até
que conheci Nuria e caiu nas minhas mãos o projeto do Palácio Benvingut... |