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Gran Cabaret Demenzial, de Veronica Stigger (Cosac Naify; 144 páginas; 29,50 reais) – Os contos desse livro às vezes começam em um tranqüilo registro realista: Domitila e seu namorado passeiam de carro numa tarde de domingo, a turista suíça visita Roma, um casal tem dificuldades para encontrar um apartamento. Mas logo essa enganosa placidez dá lugar ao mais violento humor negro: Domitila sofre repetidas mutilações, a turista é engolida pela escada rolante, o casal vai habitar dentro do intestino de um amigo. Tal como já fizera em seu primeiro livro, O Trágico e Outras Comédias, Veronica Stigger constrói situações do mais escabelado nonsense, mas com uma discreta piscadela para a realidade (e até para o mundo da política, como se vê no divertido Marta e o Minhocão).

Leia trecho

Domitila

In Brazil, whatever your crime of choice, Sunday is the day to do it.
Caleb Neelon (Sonik)

Domingo, 25 de janeiro, 15 horas: Domitila está passeando de automóvel com o namorado. Ela abre o vidro da janela pela metade e estica a cabeça para fora. 2 minutos e meio depois, eles param num semáforo e ela acena para as crianças do automóvel ao lado. Estas retribuem o gesto com risadas mudas (as janelas daquele veículo estão cerradas). Após 1 minuto, o sinal abre e o namorado de Domitila acelera bruscamente, o que faz com que o contato dos pneus em movimento com o asfalto produza um desagradável som agudo. Passam-se 43 segundos e uma das rodas do automóvel afunda num buraco. Com o solavanco, Domitila, que ainda se entretinha com as crianças, enfia o olho direito no vidro semi-aberto. 11 segundos e o olho já está vermelho, muito vermelho. Domitila pisca muito, produz involuntariamente lágrimas e secreção, enquanto continua a acenar para as crianças que se afastam por uma rua transversal. O namorado segue pela mesma avenida por mais 98 metros. O olho de Domitila permanece vermelho e em incessante produção de fluidos. O namorado dobra à esquerda numa rua mais estreita, a qual desce a 120 quilômetros por hora. Domitila abre totalmente o vidro. Apóia o cotovelo direito na janela e ergue o antebraço. Fica brincando de tentar apanhar o vento com a mão durante 8 minutos, 1 avenida larga e 2 ruas pequenas.

Já são 15 horas e 19 minutos. O namorado continua a correr. Apesar da velocidade alta, eles seguem pela pista da direita. Com o olho bom, Domitila divisa um poste. Ela estende o braço para tentar tocá-lo. Seus dedos - com exceção do polegar - o atingem com tamanha intensidade que dois deles se desprendem e caem e os outros dois viram para trás, formando um ângulo de 90 graus com o resto da mão. Domitila se vira e ainda consegue ver o fura-bolos e o pai-de-todos jogados na sarjeta. Ela se volta para a frente, segura com força os dois dedos que restaram - além do polegar - e, com um puxão, os coloca no lugar. O sangue escorre dos dois buracos de sua mão. Seu vestido começa a manchar. O tapete do automóvel também. O namorado dirige. Com uma curva fechada, ele entra na avenida grande e segue pela pista central. Domitila põe novamente para fora o braço de três dedos. Um motoqueiro, que vem pela direita, buzina. Também ele anda acima do limite de velocidade. Domitila não recolhe o braço. O motoqueiro tenta desviar, mas não consegue, porque há um outro automóvel ainda mais à direita. O motoqueiro bate no braço de Domitila, perde o controle da direção e colide com o automóvel à direita. O antebraço de Domitila entorta e quebra. Os ossos do cotovelo ficam expostos. Com o choque, o motoqueiro é lançado à calçada. O namorado pára o automóvel e desce. O motorista do outro automóvel também pára e desce. Domitila, não. Domitila acompanha tudo pela janela aberta. O namorado vai até a calçada e olha para o motoqueiro. O motorista do outro automóvel, que nada sofreu com o incidente, faz o mesmo. O motoqueiro não se mexe. O namorado chuta o que já é corpo e constata: "Morto". Ele volta para o seu automóvel. O motorista permanece ao lado do cadáver. O namorado arranca de súbito. A partida é tão violenta que a cabeça de Domitila, como uma bola, quica no espaldar do banco e torna para frente: sua testa bate com força no painel. 11 segundos e sua testa está roxa. Um galo se anuncia.

Já são 16 horas e 37 minutos. O namorado pega outra avenida. Segue por ela por mais 450 metros a 97 quilômetros por hora. Depois, envereda por uma série de ruas menores e ligeiramente arborizadas. Ele está levando Domitila para tomar sorvete na zona oeste. Domitila prossegue de vidro aberto, com a cabeça para fora. Ela continua a piscar. Os dois buracos da sua mão agora sangram menos. Os ossos do cotovelo, é claro, ainda estão expostos. O namorado corre na medida do que permite a estreiteza das ruas e as curvas fechadas. Passam-se 7 minutos. Domitila estica novamente o braço de três dedos para fora. Embora a rua seja pequena, ela não alcança as árvores com a mão. Mais 2 minutos e Domitila se põe de joelhos no banco do passageiro. Com o braço intacto, se apóia no painel. Projeta o tronco para fora da janela e espicha o braço ruim o mais que pode. Conforme se aproxima de uma árvore, vai se preparando para dar o tapa. Ela bate com força e o braço se vai. Menos de 11 segundos e espirra sangue do toquinho restante. Suja a janela, o pára-brisa, o revestimento interno do automóvel, a alavanca de câmbio, o freio de mão, o vestido de Domitila e o lado direito dos cabelos do namorado.

Já são 17 horas e 13 minutos. O namorado estaciona a dois prédios de distância da sorveteria. Eles descem do automóvel. O sangue ainda jorra do toquinho. Eles passam por um edif ício com cerca elétrica. Ela salta e toca na cerca com o braço intacto. O contato com a corrente intermitente lança o braço de Domitila para trás, deslocando o ombro esquerdo. Domitila bate várias vezes com o ombro contra um muro até que consegue recolocá-lo no lugar. Eles entram na sorveteria seguidos pelo sangue do toquinho de Domitila. Ela diz que vai ao banheiro. Lá, rasga a barra do vestido com os dentes e, usando a boca e o braço que sobrou, se contorce para fazer um torniquete no toquinho. O sangue vai parando aos poucos. Nisso se vão 23 minutos. O namorado espera do lado de fora, com os dois sorvetes derretendo nas mãos. Com um esforço considerável, Domitila baixa a calcinha, senta-se no vaso e urina por 47 segundos. Ergue-se, puxa a calcinha e ajeita o vestido. Lava a mão remanescente e sai. Depois, toma o sorvete, ou o que restou dele, sentada numa das mesas da calçada. Quando vê um ônibus se aproximar, sai correndo e pára no meio da rua. O ônibus freia, derrapa e bate com a lateral em Domitila, que é arremessada na outra pista. Um automóvel passa por cima das pernas dela. O namorado tenta levantá-la, mas ela só consegue se arrastar.

Já são 18 horas e 9 minutos. Domitila deve voltar para casa. Às 18 horas e 53 minutos, o namorado deposita Domitila à porta do prédio e vai embora. Domitila se arrasta pelas escadas que levam ao 3º e último andar. 49 minutos depois, Domitila bate na porta do apartamento dos seus pais, onde mora. Sua mãe atende, se abaixa para beijá-la na testa roxa e diz: "Vai tomar seu banho que o jantar já está quase pronto". Domitila se arrasta até o banheiro. Despe-se com uma certa dificuldade. Pega sua gilete com a única mão e, com a inaptidão comum aos destros forçados a usarem a mão esquerda, concentra-se para fazer cortes profundos em torno dos mamilos de ambos os seios, bem em cima dos talhos que ela vem produzindo diariamente ao longo das últimas 3 semanas e 4 dias. Desta vez, a parte de cima do mamilo esquerdo entorna. Domitila sorri e pensa: "Mais uns dias, e eles caem".


 
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