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Duas
Novelas,
de Thomas Mann (tradução de Lya Luft; Mandarim; 176
páginas; 25 reais)
Até
o lançamento desse volume, as novelas A Lei e A
Enganada não estavam disponíveis em português.
A primeira narra a história de Moisés, o profeta que
libertou os hebreus da escravidão no Egito. A segunda conta
a história de uma viúva que se apaixona pelo jovem
preceptor do filho. Assim como na tetralogia José e Seus
Irmãos, em A Lei Mann se vale do estudo histórico
para adaptar a narrativa às questões candentes do
século XX e reafirmar sua crença na racionalidade
humana. Menos ambiciosa e de leitura mais ligeira, A Enganada
discute as vicissitudes da vida em família e a decadência
moral.
AFP
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Thomas
Mann: duas novelas que não estavam disponíveis
em português |
Trecho
do livro
Seu nascimento fora irregular, por isso amava apaixonadamente a
ordem, o inviolável, a regra e a proibição.
Muito cedo começara a matar com fervor, portanto sabia melhor
do que qualquer pessoa inexperiente que o ato de matar era verdadeiramente
delicioso, mas que ter matado era medonho aoextremo e, por isso,
não se deve matar.
Tinha uma sensualidade ardente, por isso, ansiava por coisas espirituais,
pelo que é puro e sagrado, pelo invisível, pois era
isso à o que lhe parecia espiritual, sagrado e puro. Entre
os madianitas, um ativo povo de pastores e mercadores espalhado
pelo deserto, para onde ele teve de fugir, deixando o Egito, sua
terra natal, pois havia matado (os esclarecimentos virão
já em seguida), travou conhecimento com um deus que não
se podia ver, mas que podia ver a todos, um habitante das montanhas
que ficava sentado, invisível, sobre uma arca portátil,
dentro de uma tenda, onde fazia oráculos jogando os dados.
Para os filhos da terra de Madiã, esse nume, chamado lahweh,
era um deus entre outros; não meditavam muito sobre Ele durante
o culto e só o faziam por segurança e para qualquer
outra eventualidade. Tinha-lhes ocorrido que, entre os deuses, talvez
também pudesse haver um que não se visse, que fosse
amorfo, e a Ele só ofereciam sacrifícios para nada
omitir, para não prejudicar ninguém e para não
atrair aborrecimentos. Moisés, ao contrário, devido
à avidez pelo que era puro e pelo que era divino, impressionou-se
profundamente com a invisibilidade de lahweh; achava que nenhum
deus visível poderia competir em santidade com um deus invisível
e espantava-se com os filhos de Madiã, que não davam
quase nenhuma importância a uma característica que
lhe parecia ser cheia de implicações incomensuráveis.
Em demoradas, difíceis e arrebatadas meditações,
enquanto pastoreava pelo deserto as ovelhas do irmão de sua
esposa madianita, abalado por inspirações e revelações
que, em determinadas circunstâncias, até provinham
de seu interior e lhe visitavam a alma, manifestas no rosto incendiado,
como anunciações literalmente gravadas e como missão
inevitável, adquiriu a convicção de que lahweh
não era outro senão Uelion, o único Altíssimo,
El rã, o Deus que me vê - como Ele que sempre se chamou
"El Chadai", o "Deus da Montanha', ffolam, o Deus
do Mundo e da Eternidade -, numa palavra, nenhum outro senão
o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o Deus dos antepassados
do pai, quer dizer, dos antepassados das tribos pobres, obscuras,
já totalmente confusas em seus cultos, desenraizadas e escravizadas,
que viviam no Egito e cujo sangue corria nas veias de
Moisés, por parte de pai.
Por isso e por encontrar-se totalmente arrebatado por essa descoberta,
tendo a alma pesadamente onerada, mas também fremente de
sofreguidão por cumprir a ordem, interrompeu a estadia de
muitos anos entre os filhos de Madiã, colocou num jumento
a esposa Séfora, mulher nobre legítima, pois era filha
de Ragüel, rei-sacerdote de Madiã, e irmã de
Jetro, dono de um rebanho, e levou também seus dois filhos,
Gersam e Eliezer, e em sete dias de viagem, atravessando muitos
desertos, seguindo em direção ao ocidente' regressou
ao Egito, isto é, às terras baixas e baldias, onde
o Nilo se divide e onde, em um distrito chamado Kos, que também
já se chamou respectivamente Gechen,Gesen ou Gessen,vivia
e trabalhava como escravo o povo dos antepassados de seu
pai. Lá, começou imediatamente a expor a essas pessoas
de seu sangue, onde quer que estivesse, fosse nas choupanas e rios
pastos, fosse nas oficinas, sua grande experiência e ao fazê-lo,
com os braços caídos ao lado do corpo, agitava os
punhos de um jeito singular, como se tremessem. Dizia-lhes que o
Deus dos antepassados de seu pai fora novamente encontrado, que
se revelara a ele, Moisés filho de Arriram, no monte Horeb,
no deserto de Sinai, dentro de uma sarça ardente que não
se consumia; dizia também que ele se chamava lahweh, o que
deveria
ser entendido como: "Eu sou aquele que é, de eternidade
a eternidade", mas também como aragem, como grande estrondo,
e que Ele tinha vontade e estava pronto para fazer, sob condições,
uma aliança com as pessoas do seu sangue, elegendo-as, entre
todos os povos, pressupondo-se que Lhe fosse jurada exclusividade
absoluta e fosse organizada uma congregação destinada
ao culto Dele, o Invisível. Nisso ele perseverava com obstinação,
agitando os punhos de pulsos extraordinariamente grossos. E, no
entanto, não era absolutamente sincero com elas, ocultava-lhes
multas coisas que pensava, ocultava o essencial, por medo de nelas
despertar a desconfiança. Das implicações contidas
na invisibilidade, isto é, na espiritual idade, na pureza
e no sagrado, nada lhes dizia, preferindo não se referir
ao fato de que, como servas juradas do Invisível, elas teriam
que se tornar um povo especial, um povo voltado para o espírito,
para a pureza e para as coisas sagradas. Calava-se por medo de assustá-las,
pois eram uma carne tão miserável, tão oprimida
e confusa em seus cultos, o sangue dos antepassados de seu pai,
e, embora as amasse, desconfiava delas. Sim, se lhes anunciasse
que lahweh, o Invisível, as desejava, estaria
interpretando Deus e também introjetando o que possivelmente
era de Deus, mas no mínimo também algo seu: ele mesmo
desejava o sangue dos antepassados de seu pai, assim como o entalhador
de pedra deseja o bloco informe, onde pensa entalhar com o trabalho
das mãos uma forma refinada e nobre; daí a fremente
avidez que o invadira, ao partir de Madiã, em simultaneidade
com o grande peso na alma, por causa do amor à ordem.
Mas além disso ocultava algo mais, que era a segunda parte
da ordem, pois esta fora dupla. Dizia que, não apenas devia
anunciar às tribos a redescoberta do Deus dos antepassados
de seu pai e Sua vontade de
firmar com elas uma aliança, mas que devia tirá-las
da servidão no
Egito e guiá-las, através de muitos desertos, à
Terra Prometida, terra dos antepassados de seu pai. Essa tarefa
estava ligada à revelação e dela não
podia ser separada. Deus e a liberdade de voltarem para casa, o
Invisível e o fim do jugo imposto pelos estrangeiros, para
ele era tudo um só e mesmo pensamento. Mas ainda não
dizia nada disso ao povo, poissabia que de uma coisa resultaria
outra, e também porque tinha esperança de conseguir
a segunda parte pessoalmente junto ao faraó, rei do Egito,
de quem não era tão estranho.
Mas, seja porque seu discurso causava desagrado, pois falava mal
e aos arrancos e freqüentemente não achava as palavras,
seja porque, vendo-lhe a agitação fremente dos punhos,
o povo das tribos adivinhava as implicações da invisibilidade,
assim como as implicações da proposta de aliança,
seja porque ele queria atrair essas tribos para coisas difíceis
e perigosas, o povo continuava desconfiado, obstinado e medroso
diante de sua insistência, encarando o homem egípcio
do cajado e dizendo entre os dentes:
"Mas que palavras está você tartamelando aí?
Que palavras são essas que você tartamela? Por acaso
foi Ele quem o colocou acima de nós, como nosso superior
e nosso juiz? Nem sabemos quem Ele é
Isso não era novidade para Moisés. Já o escutara
antes; antes de fugir para Madiã.
O pai não era seu pai e a mãe não era sua mãe,
tamanha a
-irregularidade de seu nascimento.A segunda filha do faraó
Ramsés
,divertia-se no jardim real junto ao Nilo com as servas suas
com-panheiras,sob aproteção dehomens armados.A certa
altura, percebeu um criado hebreu que apanhava água e sentiu
desejo por ele. Tinha olhos tristes, uma barbicha juvenil no queixo
e braços fortes, o que se via pelo jeito de apanhar a água.
Trabalhava com o suor do rosto e tinha lá seus defeitos,
mas para a filha do farã era a imagem da beleza e do desejo,
e ela ordenou que o levassem à sua presença em um
pavilhão, e passou-lhe as preciosas mãozinhas pelos
cabelos suados, beijou-lhe os músculos do braço e
excitou-lhe a virilidade, de modo que ele a possuiu, o escravo estrangeiro
da filha do rei. Depois de o ter, deixou-o ir, mas ele não
foi longe, trinta passos adiante foi abatido e rapidamente enterrado,
de modo que não sobrou nenhum vestígio do entretenimento
da filha do Sol.
"Pobrezinho!" disse ela quando lhe contaram. "Também
vocês são sempre tão apressados. Ele teria ficado
caladinho.Amava-me "
Ela, porém, engravidou e após nove meses deu, no mais
absoluto
segredo, à luz um menino, que as servas colocaram num cestinho
de
junco calafetado e esconderam no canavial à beira da água.
Aí, então, o encontraram e gritaram: "Milagre,
um rejeitado, um menino abandonado no canavial, uma criancinha enjeitada!
Como nas velhas lendas, exatamente como aconteceu com Sargon, que
Akki, o provedor de água, encontrou no canavial e criou com
a bondade de seu coração. Essas coisas sempre se repetem!
E para onde levaremos este achado? 0 mais sensato será entregá-lo
a uma mãe-de-leite de camada inferior, uma mulher que tenha
leite de sobra, para que cresça como filho legítimo
dela e do marido". E entregaram a criança a uma mulher
hebréia, que o levou à região de Gessen, para
Jocabed, esposa de Arriram, do grupo dos tolerados, um homem da
semente de Levi. Ela amamentava o filho Aarão e tinha leite
de sobra; por isso, e porque de vez em quando chegavam em segredo
à sua choupana coisas boas vindas lá das bandas de
cima, ela criou aquela criança indeterminada com a bondade
do seu coração. Assim, diante dos homens Arríram
e Jocabed tornaram-se seus pais, e Aarão, seu irmão.
Arriram tinha gado e lavoura, e Jocabed era
filha de um entalhador. Eles não sabiam que nome deveriam
dar àquele menininho dúbio, por isso lhe deram um
nome meio egípcio, isto é, a metade de um nome egípcio.
Afinal os filhos da terra chamavam-se com freqüência
Ptah-Moisés, Amen-Moisés, ou Rá-Moisés,
e eram chamados de filhos dos seus deuses. Mas Arriram e Jocabed
preferiram omitir o nome divino e chamar o menino simplesmente de
Moisés.Assim, ele era simplesmente 'filho'. Só restava
saber de quem.
Cresceu como um dos tolerados e expressava-se no dialeto deles.
Os antepassados dessa gente outrora tinham chegado àquela
terra ao tempo de uma seca, com permissão dos guardas da
fronteira, como'os beduírios de Edom famintos', como os chamavam
os escribas do faraó. Haviam lhes indicado o distrito de
Gessen nas terras baixas, para apascentar o gado, mas quem acha
que ali podiam deleitar-se de graça conhece mal os anfitriões,
os filhos do Egito. Não apenas tinham de pagar impostos sobre
o gado, por sinal pesados, mas tudo o que entre eles tinha forças
também tinha de prestar serviço escravo nas diversas
construções que sempre estavam em andamento num país
como o Egito. Construía-se de modo desmedido, especialmente
desde Ramsés,"o segundo de nome, o farã de Tebas,
pois esse era seu desejo e sua alegria de rei. Por todo o país
construiu templos nababescos e, lá embaixo na região
da desembocadura do Nilo, mandou renovar e melhorar muito não
apenas o há muito negligenciado canal que ligava o braço
oriental do
Nilo aos lagos Amargos* e, assim, o grande mar à ponta do
mar
Vermelho, mas construiu também duas cidades-armazém
perfeitas ao longo do canal, chamadas Pitom e Ramsés, para
onde eram recrutados esses Ibrim, os filhos dos tolerados, a fim
de produzir e carregar tijolos, matando-se de trabalhar sob o bastão
egípcio.
Esse bastão era mais o símbolo dos vigias do farã
do que outra coisa, essa gente não era desnecessariamente
açoitada. Também tinha boa comida durante o trabalho
escravo: muito peixe do braço do Nilo, pão, cerveja
e suficiente carne de vaca. Mas, deixando de lado esse fato, era
uma gente que se adequava mal ao trabalho escravo e não gostava
dele, tendo em vista que possuía sangue nomade e uma tradição
de vida livre e errante e que o trabalho regrado e árduo
era-lhe estranho e humilhante ao coração. Mas essas
tribos eram demasiadamente desarticuladas para poder discutir seu
infortúnio e chegar a uma opinião sobre ele; não
tinham muitas notícias umas das outras. Há várias
gerações vivendo em tendas, numa terra de transição,
entre a pátria dos antepassados e o verdadeiro Egito, tinham
a alma informe, sem ensinamentos seguros, e o espírito vacilante;
tinham esquecido muitas coisas, haviam assimilado razoavelmente
outras e, faltando-lhes um verdadeiro centro, não confiavam
em seu próprio ânimo, nem mesmo na raiva aí
introjetada por causa do trabalho escravo, e o peixe, a cerveja
e a carne de vaca contribuíam para torná-las alienadas.
E Moisés, supostamente filho de Arriram, tendo se tornado
um rapaz,
também deveria trabalhar em condições de igualdade,
fazendo tijolos
para o faraó. Porém isso não aconteceu, pois
o jovem foi tirado de
seus pais e levado a uma escola no Alto Egito, a um internato muito
fino onde eram educados os filhos dos reis das cidades sírias,
junto
com os rebentos da nobreza local. Puseram-no lá porque sua
verdadeira mãe, a filha do faraó, que o parira no
meio do canavial, na verdade uma criatura lasciva, mas não
insensível, lembrara-se dele por causa de seu pai, que fora
rapidamente enterrado, o provedor de água com barbicha e
olhos tristes, e, em secreto semi- reconhecimento do sangue de Moisés,
que em parte era divino, não queria que permaneces, se entre
os bárbaros, mas que fosse educado para ser egípcio
e para conseguir um cargo na corte. Assim, vestido de linho branco
e com uma peruca na cabeça, Moisés aprendeu astronomia,
geografia, escrita e leis, mas não era feliz entre os janotas
daquele ilustre internato, era, ao contrário, um solitário
entre eles, cheio de aversão a todo aquele refinamento egípcio,
de cuja luxúria tinha nascido. 0 sangue do jovem rapidamente
enterrado que tivera de servir àquela luxúria era
mais
forte nele do que sua parte egípcia, e, no íntimo
da alma, estava do
lado das pobres almas informes de Gessen, que não tinham
coragem de assumir sua ira, estava do lado delas, contra a lasciva
petulância do sangue materno.
"Como é mesmo seu nome?" perguntavam-lhe os colegas
de escola.
"Meu nome é Moisés", respondia ele.
'Ach-Moisés ou Ptah-Moisés?" perguntavam.
Não, só Moisés", retrucava ele.
"Mas isso é insuficiente e esquisito", diziam os
intrometidos, e ele
ficava irado, com vontade de lhes bater e de os enterrar. Pois sabia
que, com essas indagações, eles queriam apenas remexer
na sua
ilegitimidade, que em linhas gerais era conhecida de todos. Se ao
menos ele próprio não tivesse sabido que era apenas
um fruto discreto do divertimento egípcio e isso não
fosse também de conhecimento geral, embora impreciso, até
por parte do faraó, que de maneira alguma desconhecia as
brincadeiras da filha, assim como Moisés não desconhecia
que Ramsés, o Construtor, era seu avo por parte da luxúria,
devido a um divertimento indigno e assassino. Sim, Moisés
sabia disso e sabia também que o faraó sabia, e seus
pensamentos em relação ao trono do faraó tinham
algo de ameaçador.
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