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Johnny
Vai à Guerra, de Dalton Trumbo (tradução
de Elza Viany; Relume-Dumará; 228 páginas; 32 reais)
Trumbo foi antes de mais nada um roteirista de talento, responsável
pelos scripts de Spartacus e Exodus, entre outros
clássicos. Graças a esse romance (que já tivera
edição no Brasil nos anos 60), ele também inscreveu
seu nome na literatura americana do século XX. O protagonista
é um soldado que, na I Guerra Mundial, perde todos os membros
e todos os sentidos. O livro registra os pensamentos do jovem sobre
o horror da guerra, e seu desejo angustiado de conseguir expressá-los
na condição em que se encontra. Trumbo lançou
o livro originalmente em 1939, no começo da II Guerra Mundial,
e fez questão de reeditá-lo durante a Guerra do Vietnã.
Deixando marcado, assim, o propósito do livro de ser um veemente
(e magistral) libelo pacifista.
Leia
trechos do livro
Andava
a noite toda na panificação. Andava dezessete quilômetros
toda noite. Caminhava com as pernas no chão de cimento e
os braços balançando livres no ar. Raramente ficava
cansado. Quando a gente começava a pensar sobre isso não
era mal. Andando a noite inteira e trabalhando duro e recebendo
dezoito dólares no fim da semana pelo esforço da gente.
Nada mal.
As
noites de sexta-feira eram sempre mais duras no departamento de
expedição noturna porque na manhã de sábado
os motoristas levavam pão e tortas e bolos e broas para permanecer
com os fregueses até domingo. Isso dava um trabalho danado
e uma andança danada nas noites de sexta-feira. Mas não
era mal.
Mandavam
sempre buscar um homem extra na missão de caridade para trabalhar
com a turma nas noites de sexta-feira. Os sujeitos da missão
vinham fedendo a desinfetante e todos amarfanhados e embaraçados.
Sabiam que quem cheira a desinfetante vive da caridade alheia. Não
gostavam disso e quem podia culpá-los?
Eram
sempre humildes e os espertos trabalhavam duro. Porém muitos
não eram espertos. Alguns deles não conseguiam sequer
ler as ordens nas vagonetas. Um deles viera da região da
terebentina na Geórgia. Nunca freqüentara a escola.
A maioria dos preguiçosos vinha do Texas.
Certa
noite veio um porto-riquenho da missão. Chamava-se José.
As coisas estavam sempre na maior bagunça na sala de expedição
nas noites de sexta-feira com caixas e papel-de-enfeite e estantes
espalhadas pelos corredores e as cintas transportadoras rateando
e os fornos rotativos guinchando ao rodar sobre placas quentes sem
gordura. Era uma confusão danada e quase todos os sujeitos
da missão ficavam confusos quando vinham trabalhar pela primeira
vez. Mas José não. Examinou o local de trabalho e
ouviu atentamente as instruções e começou a
trabalhar. Era alto com olhos castanhos e bastante bem apanhado
para mexicano ou porto-riquenho ou lá o que fosse. Havia
algo a respeito dele que indicava ser um pouco diferente dos outros
sujeitos da missão ou que talvez tivesse tido um pouquinho
mais de sorte do que o resto.
Nas
noites de sexta-feira todos os rapazes comiam a merenda no banheiro
em vez de ir até o restaurante porque ali havia bancos e
armários e a gente podia sentar-se nos bancos e comer a merenda
e voltar correndo para o trabalho. José não havia
trazido merenda alguma e por isso os rapazes roubaram uma garrafa
de leite na geladeira da panificação e lhe deram uma
rosca. José ficou muito agradecido. Enquanto mastigava a
rosca e bebia o leite ia falando. Disse que a Califórnia
era um lugar maravilhoso.
Melhor
mesmo que Porto Rico. Disse que a primavera estava chegando e logo
poderia dormir no parque. Disse que a Califórnia era um ótimo
lugar para quem não tinha onde dormir porque não fazia
muito frio e a gente podia enrolar-se no sobretudo e passar a noite
dormindo no parque muito bem obrigado. Disse que gostaria de arranjar
um lugar efetivo na panificação porque então
poderia manter-se limpo. Não gostava de andar sujo e nem
do desinfetante que colocavam na água da missão. Havia
muitos pobres lá na missão que não se importavam
com o desinfetante mas ele se importava e muito.
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