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Escuridão ao Meio-Dia, de Geraldo Mayrink (Record; 272 páginas; 34,90 reais) – Com a conquista da independência feminina no trabalho, no lar e na sociedade, os homens sentem-se confusos sobre seu lugar no mundo. Partindo de tal premissa, Geraldo Mayrink examina a "condição masculina" nessa mescla de ensaio e reportagem. Temas como a impotência sexual e as paranóias em relação ao tamanho do pênis são tratados com humor. Mayrink foi a campo buscar depoimentos sinceros sobre esses temas. A conversa com os "brucutus", porém, foi difícil. O autor descobriu que os homens são muito fechados, não gostam de dividir suas inseguranças – e fez dessa constatação um dos assuntos principais do livro. Há ainda um capítulo curioso sobre a adoração pelo pé feminino.

Leia trecho

Não se sabia nem se existia o homem num tempo remoto e desconhecido — e que bom tempo teria sido aquele, se tivesse existido mesmo, na memória ancestral e autoconsoladora dos machos. Era quando as fêmeas obedeciam aos brutamontes que mandavam nelas, criaturas ainda informes, situadas entre os reinos mineral, vegetal e boçal — que também é um grande reino que se espalhou pelo mundo masculino. Na aurora da Terra não existiam macho e fêmea, pois eram todos descendentes de amebas, como se sabe, assexuadas. O primeiro exemplar da espécie original de macho, gerado por milagre Superior, não tinha com quem conversar, em quem mandar ou a quem tiranizar. Sua solidão era tanta que o Criador se apiedou e lhe deu uma companheira.

O fato de não lhe ter oferecido um companheiro, já que era só para fazer companhia, jamais foi explicado. Foi quando o mundo se dividiu em dois sexos. Um era dotado de peitos na parte de cima e de uma cavidade recoberta por pêlos embaixo do corpo. O outro tinha só mamilos pequenos e um penduricalho entre as coxas, capaz de passar do estado mole para o sólido. Eles eram antagônicos, mas o Criador determinou que se entendessem e se atrelassem um ao outro. Foi assim que se amaram e se odiaram pelo resto dos tempos, que ainda não chegaram ao fim.

O exemplar da espécie original foi chamado de homem e chegou primeiro a um mundo que ainda nem podia ser chamado assim. Isso o traumatizou (como se diria no futuro, pois o ser não tinha vocabulário nem imaginava o que a vida lhe reservava). A posteridade deu-lhe o nome de Adão. A designada pelo Todo-Poderoso para ficar ao seu lado, no papel que a mesma posteridade trataria zombeteiramente por "sua senhora", foi chamada mulher e atendeu pelo nome de Eva. Asssim está escrito em textos sagrados.

Grande figura humana deve ter sido Adão, apesar de se saber tão pouco da vida dele. Foi grande até na sua reclusão entre as cavernas e florestas de um mundo recém-nascido, mas quem quiser saber de sua biografia ficará insatisfeito. Nas enciclopédias não ocupa o primeiro lugar em ordem alfabética, sendo superado por personagens menores como Aarão (com um duplo A que o remeteu para o pódio) e acidentes geográficos e gramaticais como os que premiaram a cidade de Aachen, na Alemanha. Abacate, abacaxi, abelha, abdome e até abóbora e açaí são listados antes que se chegue ao nome que na verdade interessa: Adão. Não se sabe de quê, porque não teve pais, sendo obra isolada e particular do Altíssimo, sem parceria. Quem teria sido Adão? Que rosto tinha, que roupas vestia, quando não estava nu? Que lugares freqüentava naquela paisagem insondável?

Seu nome hebraico, Adham, significa "homem", o fundador da espécie. Nem por isto tem um verbete à sua altura nas enciclópedias. Está ligado, em todas elas, à sua primeira e única mulher, Eva. O nome dela, do hebreu Hawahv, refere-se à palavra "vida", um título e tanto, que seu companheiro não mereceu. Eles formaram o primeiro casal de solteirões do mundo, mesmo gerando enorme descendência.

Pouco se sabe de Adão, e ainda menos de Eva, a não ser do prodígio biológico que ele consumou ao emprestar uma costela e fazer com que dela nascesse uma fêmea. O primeiro Homem do Mundo foi pai e mãe de sua própria mulher, o que gerou uma confusão sexual, familiar, filosófica e lingüística que perdura até hoje. Pois também quase nada se sabe de Eva. Poderia ter sido tudo um sonho que continua sendo sonhado até hoje. O Homem Original não se lembrou de nada. Estava inconsciente quando o Senhor, inexplicavelmente, lhe tirou a costela e assim figura como inocente nesta história. Ele foi condenado a dormir com uma desconhecida. Num privilégio até hoje não compreendido, Eva foi escolhida para ser mãe de todos os homens seguintes, embora Adão também fosse capaz desta proeza, já que havia dado à luz sua própria mulher. Data daqueles remotos tempos a primeira ereção da humanidade. Dizem, embora sem provas, que um dia Adão observou seu pinto subindo, diante de Eva nua. Foi crescendo tanto que ele avisou à companheira:

— Chega mais para o lado porque não sei até onde esta coisa vai continuar aumentando.

Bons tempos aqueles.

Depois, num enredo confuso, Eva corneou o marido — com quem não era casada e mesmo sem a presença de outros homens assediando-a, para caracterizar um ato de traição. Foi quando ela comeu um fruto proibido. Teria sido uma maçã, mas não há provas, como não há de que Adão, convencido por ela, teria provado do mesmo fruto proibido. Aí Eva foi por Deus expulsa do Paraíso onde vivia com o companheiro, e o desfecho da intrigante trama ainda não aconteceu. Havia também, atravancando a compreensão do episódio, não só uma maçã como também uma serpente. A víbora serviu a fruta a Eva, que a ofereceu a Adão, que a comeu e assim pecou, embora ainda não houvesse pecado no mundo. Então a cobra se tornou maldita para todo o sempre. Tudo isso naturalmente é narrado numa estonteante linguagem simbólica, da qual só a Bíblia é capaz, e a maçã poderia ser uma outra fruta tanto como a serpente poderia ser um outro bicho (uma gata, uma pantera?). Jamais se descobrirá. E acaba não se sabendo quem comeu quem ou o quê, mas sobra a certeza de que se perdeu um Paraíso e as biografias de seus dois extraordinários habitantes. Como saber? De Adão não se ouvirá nada.

Os filhos de Adão e Eva, e principalmente suas filhas, todos descendentes das amebas assexuadas, não poderiam saber mesmo. As fêmeas nunca haviam ouvido falar de feminismo, nem nas revistas Playboy, VIP, Trip e tantas outras feitas para a glória do macho. Tampouco reivindicavam direitos, inexistentes, e muito menos espaço de ação social. Este espaço havia de sobra em cavernas, desertos, geleiras, estepes e outros lugares onde nenhum ser humano vivia. Elas ainda não eram mulheres como se entende hoje, mas fêmeas — o mero sexo oposto reprodutor. Pariam e serviam aos machos. Era tudo. Escravas, elas os temiam, ajoelhando-se às patas avassaladoras deles.

É possível, num exercício de livre imaginação e de prazer psicológico dos homens modernos, até sonhar com aquela idade de ouro deles. Os machos podiam tudo. E até hoje alimentam sonhos de potência, em todos os sentidos, numa inspiração autoconsoladora. Desta inspiração se fez porta-voz, por exemplo, Vinicius de Moraes. Ele intuiu o que se travava naquela "época primeva", como diria outro poeta menos dotado. A sedução de Vinicius é moderna e mental. Apresenta-se envolta no encanto de métricas, que as mulheres adoram sem entendê-las, porque nasceram burras. Mas também se exibe numa arrogância máscula que vem de muito longe, capaz de derrubar fêmeas sem o uso de tacape — só que isso as mulheres entendem, porque não são nem um pouco burras. Num comentário de certa forma galante, Otto Lara Resende refuta a indigência mental feminina num artigo chamado "A arara de luto", incluído no livro O príncipe e o sabiá. Ele escreveu: "Estou firmemente convencido de que a burrice é privilégio dos homens: só de uns, claro, como todo privilégio. Nunca vi mulher inteiramente burra, ainda que feia; a beleza é uma alta forma de inteligência."

Mas o "poetinha", como Vinicius era conhecido de maneira carinhosa e outras nem tanto, falou grosso em nome de sua espécie. Criou um poema-anúncio da capacidade masculina de subjugar moças, e lá rugiu, batendo no peito peludo:

Em campos de paina

Pretendo reptar-vos

E em seguida dar-vos muita faina

Guerra sem quartel

E trégua só se

Pedires mercê

Com os olhos no céu

Bons tempos aqueles, em que os homens eram capazes de uma façanha destas — mulheres pedindo mercê, em vez de pedirem mais e mais! Os senhores leitores lembram disto? Aconteceu muitíssimos séculos atrás. O macho-brucutu podia crucificar as mulheres em chão de areia, depois na cama de pedra polida, fazendo com que seus braços e pernas abertas indicassem um tal gozo que teriam que implorar perdão para ele parar com aquilo, dando-lhe a trégua depois mencionada em versos. "Imagina só pedir uma coisa assim!", diria um homem qualquer, diante deste cenário paradisíaco. O que Vinicius escreveu parecia coisa de poeta, mas é difícil saber se não somente coisa de homem. Pois as mulheres de outrora não percebiam que poderiam ter sido assim tão saciadas com os olhinhos pregados no céu, vendo estrelas orgásticas. Seus machos não queriam nem saber. Eram de outro tipo, e seus correspondentes contemporâneos não são Vinicius mas o goleador Edmundo ou o boxeador Mike Tyson, entre outros atletas. É só uma comparação, não um julgamento. Eles preferiam espancá-las, como carcarás da pré-história — caçavam, matavam e comiam, e ponto final, pois esta era a obrigação eterna delas.

Num espetacular corte no tempo, de milhões de anos, uma mulher falou sobre os herdeiros dos brucutus, com os quais convive e que se tornaram altamente letrados: "Os intelectuais acham com certeza que toda mulher bem-sucedida intelectualmente, como eles, antes passou pela cama de algum homem. É tranqüilo e tão normal quanto a chuva, o inverno e o nascer do sol." A professora Marilena Chaui, autora de Repressão sexual, esta nossa (des) conhecida, e outros livros, entre eles os três volumes sobre o holandês Baruch Spinoza, filósofo como ela, é uma morenaça que fala de cátedra, em todos os sentidos. Ela ensina: "Os intelectuais tendem a desclassificar a palavra feminina através de elogios aos seus atributos físicos. A melhor maneira de não se prestar atenção àquilo que está sendo ouvido é dizer que a voz de quem fala é bonita. Vivem me perguntando quantas vezes dormi com o Lula."

Naquele tempo mais que antigo, porém, as fêmeas não tinham voz. Eram peludas e fedorentas, mas seus parceiros, também peludos e fedorentos, eram o que tinham para comer. Com o passar dos séculos, elas rasparam quase tudo, nelas e, quando puderam, nos machos, perdendo assim parte do seu poder simbólico ou real sobre eles. Este poder infeliz foi exercido, por exemplo, sobre Sansão, o superatleta dos relatos bíblicos. Ele ficou fraco, cego e impotente quando Dalila castrou-lhe as melenas. Acabou-se nas trevas e careca e nem a beleza letal de Hedy Lamar, como foi mostrado num dos filmes mais ridículos de todos os tempos, Sansão e Dalila, conseguiu devolver a potência a Victor Mature. Antes, porém, da tragédia que vitimou Sansão, foi também muito ruim isso das mulheres se rasparem, segundo o sempre apurado olfato poético de Vinicius. "Uma axila sem cheiro pode levar o homem ao desespero", escreveu.

As macacas fundadoras da raça mais tarde humana não ficavam confabulando em toaletes e contando mentiras umas às outras, para sair em colunas sociais, que não existiam, e elas nem sabiam falar. Mas talvez se entregassem a devaneios sem palavras. Um deles teria sido psicografado e ditado por uma daquelas símias peludas, para se encarnar nos anseios da mulher sem pêlos de hoje. Esta — como se verá agora, com alguns traços de ficção — captou a mensagem e imaginou um cenário lúbrico de homens em bando trucidando animais e inimigos. Mulheres também, mas num sentido melhor. Ela acariciou suas coxas, num gesto automático e, sem saber por quê, fechou os olhinhos e talvez tenha pensado:

"Aquelas pernas batatudas e aquelas mãos peludas, enormes. Aqueles dentes que pareciam de dinossauro, e talvez até fossem mesmo, pontudos e verdes, de tanto comerem capim e folhas. Aqueles cérebros do tamanho de ervilhas. Tão pequenos que nunca se inquietavam nem aporrinhavam a gente. Um conforto só! As unhas pretas e longas, capazes de arranhar nossas costas e ferir algum atrevido que se aproximasse da gente. O peito maciço, grosso e duro como pedra, aquele hálito ruim intocado por uma pasta de dentes. Coroando tudo, a cabeleira que jamais era lavada. Aquela falta de pentes, melhor ainda! E aquela voracidade em cima de nós, um tesão!" Só que, assim como nunca houve uma mulher como Gilda, ao contrário do que se apregoa no filme com Rita Hayworth, nunca houve um brucutu como este. Nem nas histórias em quadrinhos.

Estas linhas de sonhos femininos, trazidas da idade da pedra para a idade do silicone, num exercício de ficção ordinária, talvez não baixassem em mulheres capazes de escrever, trepar (copular, transar, ter intercurso em inglês) e se expressar em muitas outras formas físicas, artísticas e espirituais. Estas são mais que alfabetizadas. De tão fictícios, porém, os escritos evocando os homens das cavernas provocariam arrepios de satisfação nos homens dos escritórios. "Mintam para mim que eu gosto", poderiam dizer. Eles ficariam ainda mais gratos se lessem outros textos com assinatura feminina, como os de Hilda Hilst, no seu livro Cartas a um sedutor:

"Irmanita, vê só: estava teso e escorregadio. Ele. Albert. Aceitou sim tomar uma cerveja comigo (detesto cerveja), só toma cerveja. É mais pro troncudo, a camiseta justa, um cavalo marinho tatuado no braço, os antebraços peludos. É lindo de sorrisos bagos e prendas. Pasme: tem ótimos dentes."

É o que os homens esperam que uma mulher possa conceber para fazer justiça a eles — que pelo menos apreciem seus antebraços rijos e seus bons dentes, sem falar no mau hálito e na cabeleira despenteada. Não é coisa para se jogar fora. São palavras femininas que contêm alguma poesia rude e, quem sabe, parecem até realistas. Lembram que as mulheres são seres desejantes, exigentes e, analfabetas ou letradas, muito ternas. Por isso os homens as amam, indo à ruína por elas.

Sempre foi assim. Talvez tivesse acontecido que aquelas fêmeas jurássicas, sem nada para lhes atormentar a cabeça, além dos tacapes que às vezes as agrediam ou decepavam, gostassem mesmo dos seus homens. É possível até que os amassem, mas não há mais como saber. Os sentimentos não se fossilizam como as ossadas e fezes de dinossauros, para serem autopsiados e explicados pelos cientistas milhões de anos depois. E assim, de certa forma, serem ressuscitados, com interpretações fantasiosas e generosas como algumas feitas acima.

Naquele tão antigamente, era tudo mais simples e brutal. Os machos capturavam as fêmeas e as fecundavam. Batiam nelas, e jamais se saberá se apanhavam caladas ou rugindo de ódio, como fazem agora no seu dia-a-dia (todo Homem Moderno sabe que não deve entrar num elevador com uma Mulher Desconhecida sem a presença de testemunhas e, melhor ainda, de advogados). Num tempo passado, elas devem ter grunhido e reagido em vão. Tanto como as de hoje, elas já eram umas feras. Por isso ainda se pergunta se os dois sexos foram mesmo feitos um para o outro. Nunca se encontrou a resposta, e os fósseis atestam que ela talvez nem tivesse sido procurada.

Por isso fala-se muito num "diálogo de surdos" entre macho e fêmea no Brasil. A televisão e a música popular que o digam. A Rede Globo passou e depois repassou, a pedidos, seu seriado Quem ama não mata, em 1985, justamente sobre este desentendimento. Quem é melhor: o homem ou a mulher? Todo domingo, com seu sorriso fantástico, Sílvio Santos tentou driblar a concorrência global, num dos quadros do seu programa. Três anos antes desta polêmica, foram lançados dois milhões de discos (quase 10% de todo o mercado nacional da época, estimado em 28 milhões de cópias), dando uma idéia do que se passava. Os álbuns chamavam-se Roberto Carlos e Talismã, com Maria Bethânia. Foi então localizada uma pista fornecida pela sempre criativa música popular brasileira. Ouvidos simultaneamente, voz de um campeão das lágrimas, e de outra, sempre o máximo em desafinação, o diálogo entre o rei e a rainha dançando de rosto colado era o melhor a que o showbiz nacional chegara até à época. Mostrava uma falsidade unissex, re-
velando algo do desencontro entre homem e mulher. Tentem entender as letras lembrando da música, ouvindo-as concomitantemente, se seus ouvidos suportarem:

Roberto — Lalaraiá, lalaraiá, lalaraiá!

Bethânia — Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?

Roberto — Eu mato em seu corpo a sede que eu tenho, eu bebo em sua boca o ar que eu respiro!

Bethânia — Minha boca saliva porque eu tenho fome e esta fome é uma gula voraz que me traz cativa atrás do genúnio grão da alegria!

Roberto — Enlouqueci no teu leito, escorreguei do teu corpo e adormeci nos teus braços!

Bethânia — No momento em que mergulhamos é preciso entender que não estamos somente matando!

Roberto — Eu só quero saber se você vive mesmo sem mim!

Bethânia — Eu já quis ser bailarina.

Roberto — Certas coisas já não são comuns em nossos dias, conceitos e padrões atuais.

Bethânia — Por Deus, eu nem desconfiei!

Roberto — Eu quero este momento alucinante!

Bethânia — Brilhante, ê!

Roberto — Eu bebo na fonte de tantas delícias! Eu desfruto do melhor!

Bethânia — Nesta hora devemos despir.

Roberto — Eu pensei que pudesse ficar sem você, mas não posso.

Bethânia — Querem saber afinal qual a solução.

Muitos anos antes deste entrevero melodioso, os dois sexos se entendiam da forma que dava, sem música nem letra, aos gritos e urros, e para felicidade mútua. Imagina-se que era tudo diferente antes que o macho passasse a dizer que "não posso ficar sem você" e a fêmea, atordoada, reclamava que "querem saber afinal qual a solução". Antigamente, o nível era outro. Qualquer orangotango podia escolher sua fêmea, depois de despachar com um porrete algum concorrente, arrastá-la pelos cabelos até sua caverna e lá fazer com ela o que nem o diabo imagina. Uma loucura!, como diriam as socialites emergentes do Brasil de hoje. Os jornais registraram um diálogo até banal entre duas dessas jovens senhoras, ricas e fantasiadas, dando plantão de camarote num recente carnaval carioca. Disse uma: "O melhor que tem aqui é aquele lá, olha só." Respondeu a outra, economizando palavras: "É." Os olhos delas estavam cravados num faxineiro de macacão amarelo, varrendo virilmente a passarela. As duas começaram a ficar animadas diante daquela visão. "É." Mas desistiram de ir em frente, pelo trabalho que teriam em atravessar a pista, sem nenhuma certeza de que seriam bem recebidas. A patroa do trabalhador poderia estar por perto, ou sabe-se lá que outra coisa ruim apareceria impedindo o intento delas. Chovia e um salto alto poderia escorregar ou até quebrar no asfalto. Tudo muito difícil, e elas ficaram pensando. "Pobre é foda", comentou uma, olhando a avenida molhada cada vez mais longe, e já sem esperança. "Pobre fode!", respondeu a outra sutilmente, e as duas não se mexeram nas suas cadeiras. Salivaram em mais um carnaval que passou.

Estas mulheres atiçadas pela folia não sabem do perigo que correm ao se renderem de maneira tão despudorada às exigências de seus hormônios. Cegas pelo desejo, como são descritas em folhetins vulgares, as damas identificam o melhor dos mundos no representante das classes populares, descendente direto dos trogloditas. Nas passarelas de outrora não deve ter sido nada bom para as ancestrais delas. Para os homens-macacos, do jeito deles, pode ter sido. Ali na pista carnavalesca, o faxineiro vestido de amarelo seduzia de longe e insinuava coisas de ferver a cabeça delas. As madames se derretem em suas lingeries diante de uma coisa assim, e não se pode reprimi-las por isto. É do sangue delas. São fáceis demais, mesmo fingindo-se de difíceis. Será isto mesmo?

Seja o que for, não foi difícil para os homens se sobreporem com Maiúsculas às mulheres com minúsculas. Não porque sejam mais robustos que elas. Nada disso. É que Eles Pensam. Têm Cérebros Grandes e elas cérebros pequeninos. As qualidades naturais delas, notáveis em todos os sentidos, são ainda assim risíveis e por isso devem ser grifadas em letras pequenas. Os Cérebros dos Homens, segundo os tratados científicos, escritos por eles mesmos, registram que poucas mulheres são daltônicas, por exemplo, além de menos propensas a se tornarem canhotas. Estes são dons muito apreciáveis que, no entanto, a propaganda mais ordinária do feminismo antigo ainda divulga, como se fossem motivo de orgulho. Foi então que as feministas passaram a fazer suas próprias contas. Descobriram que mulheres têm cérebros menores, sim, e seus corpos são também menores, sim! Os homens mostram-se em média dez por cento mais altos, sim!, vinte por cento mais pesados e trinta por cento mais fortes, sim! Então o homem é melhor que a mulher? Não! Não! e, para quem ainda não entendeu, não mesmo! Isto porque estas medidas podem ser conferidas em piscinas, praias, escritórios e bancos escolares, mas talvez não signifiquem coisa alguma. Não! Não para sempre! Mulher é outra coisa, fora destas comparações entre quilos e centímetros, e muito além da imaginação.

Por isto uma interpretação diferente, para explicar o sentido de tantos cálculos, está nos novos informes feministas, a partir de uma mudança de identidade. Estes informes estão querendo trocar o nome de seu movimento para "femeísta", porque o anterior já estaria viciado e ultrapassado. Nestes boletins neofemeístas, de última geração, é possível ficar sabendo que as mulheres, mesmo com seus cérebros pequenos e sendo menores em tamanho que os homens, resistem melhor à fadiga, sim! A escritora Dianne Hales mostrou, num estudo recente, os resultados dos testes feitos pelo exército americano em 1995, com 41 mulheres de peitos caídos, fora de forma. Eram estudantes e bancárias gorduchas, garçonetes pisadas, professoras craques em álgebra mas com peles sem viço, advogadas magrelas com olheiras e lactantes no estaleiro — enfim, os bagulhos, na sempre grosseira caracterização dos machos. Mas estas infelizes estavam assim por trabalharem demais, sim! No entanto, atingiram o mesmo nível de condicionamento físico dos recrutas saudáveis do exército em apenas seis meses de treinamento, sim! "Chegando ao ponto de correrem três quilômetros carregando mochilas de 34 quilos e executar agachamentos com pesos de 45 quilos nos ombros", conforme a admirada descrição da jornalista Barbara Ehrenreich na reportagem "A verdade sobre o corpo da mulher", publicada na revista Time no começo de 1999.

A jornalista concorda com estes números, aplaudindo a releitura das estatísticas entre machos e fêmeas. E prossegue, cada vez mais animada com outra descoberta: "As mulheres surpreendem também nos esportes competitivos. As novas estrelas podem correr, nadar ou patinar com maior rapidez do que os homens de algumas décadas atrás. Com o passar dos anos, a diferença entre os sexos pode vir a desaparecer. Desde 1964, por exemplo, os tempos das maratonas femininas diminuíram 32%, comparados a apenas 4,2% para as provas masculinas. Se continuar assim, no próximo século as maratonistas deixarão seus colegas comendo poeira." Acredita-se que isto já esteja acontecendo há muito tempo, e não só nas quadras de esportes. Quanto à diferença entre os sexos vir a desaparecer, como espera a senhorita Ehrenreich, doktor Sigmund Freud seria capaz de sair do sossego de sua tumba londrina para protestar: não! — nein, no, non, niet! Ou em qualquer outra língua em que pudessem ouvir seu brado do Além.

Ele, quando vivo, estudou a história dos homens e não ia sair de sua cova em vão, a não ser diante de certas barbaridades que andam falando por aí. Lembraria que os tarzãs de antigamente jamais comeriam a poeira esportiva levantada agora pela senhorita Ehrenreich porque eram um milagre da natureza. Viris numa escala que hoje não se concebe, eles se apresentavam e se exibiam como fortalezas, paus para toda obra: eram donos e fatalmente seriam os herdeiros da Terra. Antes dos brucutus, quem mandava seriam os diversos tipos de sauros, mais gigantescos ainda do que qualquer criatura vista antes no planeta e cujos fósseis continuam sendo descobertos, mostrando por exemplo um jacaré do tamanho de um ônibus. Mas todos eles desapareceram num momento em que meteoros desabaram como bombas atômicas sobre seus formidáveis corpos. Foi mesmo o fim do mundo. E, nesse ambiente que se supunha exterminado, seguiram-se séculos de nuvens negras, até que a humanidade, como a entendemos agora, começasse a existir. Só ficaram as carcaças dos sauros, até hoje localizadas em sítios arqueológicos, para provar que um dia passaram pela Terra. Por isso são de vez em quando descobertas, desenterradas e estudadas. Devem ter sobrado, como fantasmas, alguns traços de suas almas e genes primitivos. O instinto predatório, entre outros.

Estas considerações feitas ao acaso ajudam a nos conduzir ao coração das trevas. Pois o mundo mudou muito, como sabem qualquer brucutu, nossas tias velhas e Bill Gates melhor ainda. Vá algum desses descendentes dos machos das cavernas, um Homem Moderno, mas em cujo peito ainda palpita um coração jurássico, tentar algum tipo de conquista para ver o que lhe acontece. As fêmeas, hoje chamadas de mulheres e até de companheiras, também mudaram muito, em vários sentidos, até de preferência sexual. É o que todo dia mostra a imprensa nas fotos em que lindinhas como Jodie Foster e Winona Ryder — esta, quem diria! — passeiam de mãos dadas com suas amigas do peito, confirmando suspeitas muito antigas sobre veteranas como Greta Garbo ou Florinda Bolkan ("Quero sair do arroz com feijão", ela disse, misteriosamente), além de um frondoso cacho de atrizes e cantoras baianas e de outras origens. Algumas fêmeas (mulheres) chegaram até, num certo momento recente, a deixar que pêlos crescessem nas suas axilas, botando certos espectadores em grande polvorosa.

Só que os machos não mudaram nada, a não ser pelo fato de se tornarem cada vez mais carecas e de persistirem nos ataques sexuais para honrar seus genes belicosos. Fazem ainda, às vezes com grande falta de sinceridade, a mais notória manobra do chamado assédio (antigamente conhecida como "cantada", expressão que agora substitui o uso do tacape). Embora seja sempre acusado de se dedicar a esta caça, o brucutu do século XXI pode se dar ao luxo de dispensá-la, sem explicar os motivos. São prerrogativas do trono.

Se por educação quisesse se justificar, diria apenas que nem sempre sente vontade de ir à luta — e ponto final. Muitas mulheres ouvem esta explicação, quando lhes é dada, e reclamam disso, mas às vezes com grande hipocrisia. Não estão nem aí. Sabem que ele só quer comer, forçado pelos velhos apelos atávicos que de vez em quando o espicaçam e lhe garantiram a sobrevivência biológica. No entanto, hoje em dia o homem anda cansado porque tem mais no que pensar e resolver na vida. Ir à academia de ginástica, caminhar nos calçadões, alimentar-se de saladas naturais, dormir e acordar cedo, não beber, nem fumar, nem se drogar — todas estas coisas de certa forma desagradáveis, mas que deve fazer para recuperar a fonte original do instinto. Enfrenta também o problema das bolsas de valores e fica aflito junto com o mercado, que vive trêmulo de nervosismo de tanto especular sobre quem será o novo presidente da república ou do Banco Central. Desagrada-lhe ainda o caos da economia argentina, a mediocridade dos times de futebol, o aumento do condomínio e um rol de inúmeros aborrecimentos que lhe dão assunto e desgosto. Isso sem mencionar que as escolas dos filhos ficaram mais caras, e da conta do supermercado nem se fala. Estas mesquinharias o deixam estressado, como um pterodáctilo sem asas. Portanto, que a patroa vá dormir em paz, se puder, porque ele tem mais no que pensar na sua noite de insônia.

No seu pau, por exemplo. "Quanta saudade...", e assim dorme agarrado a um travesseiro. "Amanhã será outro dia..."

Mas o dia seguinte é o mesmo dia. Ainda assim ele sai para o trabalho animado. Se às vezes estiver cheio da vontade — isto até acontece! — ao entrar num elevador com uma colega de trabalho sentirá a velha chama queimando o seu tacape arquetípico (descobriu esta palavra num exemplar perdido da revista Ele & Ela e achou-a picante). Tomado por uma sincera compulsão de pular em cima dela, arrastando-a pelos cabelos — o que restou do tempo em que ela era peluda da cabeça às patas — ele tentará fazer coisas que o diabo aprova, como no tempo das cavernas. Talvez ali mesmo, entre um andar e outro, e sempre sem testemunhas para contar que nem sequer desarrumou um fio de cabelo da fêmea (hoje mulher). É um sonho-pesadelo de todo homem. Ele pode arriscar nesta roleta que não admite a presença de testemunhas. Se tocasse em algum ponto certo daquele corpinho, para agrado dela, seria comido ali mesmo. Ela então lhe enfiaria um cartão no bolso das calças, com o número de seu celular. Amassado, este cartão traria uma mensagem em letra tremida, feita na pressa daquele momento esfuziante, e contendo três palavras:

Eu te amo

Uma beleza! — pensaria ele com horror.

Melhor assim, porque se apertasse a fêmea (mulher) no lugar errado, provocando repulsa, poderia apanhar já no elevador. E mais tarde em casa, correndo ainda o risco de ir dar explicações a um tribunal desses tempos modernos, defendendo-se para não ser preso. Uma vergonha! Enfim, teria sido bom, se fosse verdade.

A vida ia caminhando assim, depois de chegar a este ponto deprimente, de amasso não consumado num elevador real mas com mulher volátil, quando uma mensagem nova caiu do céu, jogada por aviões-camicase. Na massa de textos gerada pelos ataques terroristas às torres em Nova York em setembro de 2001, surgiu uma notícia surpreendente, espremida numa página interna de The New York Times. Veio disfarçada pelo título "EUA podem melhorar vida das afegãs", e na notícia a repórter Maureen Dowd relatou novidades no front da guerra sexual: "Mulheres costumavam ter chilique quando um trabalhador da construção civil assobiava para elas. Agora, desfalecem quando o trabalhador não assobia. Em três décadas, o feminismo deu uma reviravolta." A senhorita Dowd fez corajosamente uma declaração deste porte, assim, na lata — três décadas aniquiladas de um momento para outro! —, e não usou nenhum ponto de exclamação no seu texto. Muitas possibilidades, por certo, foram abertas nas cinzas dos atentados. Mas em que os Estados Unidos ajudariam a melhorar a vida das afegãs?

Estava na cara, mas ninguém via: pela valorização dos soldados, machos de todas as armas. Com faro animal de jornalista e fêmea, a senhorita Dowd se aproveitou de uma dessas brechas abertas pelas bombas jogadas lá nos confins afegãos. O que uma coisa tinha a ver com a outra? Aí saiu pelas ruas americanas para saber, à cata de notícias. Ela as achou. E julgou enxergar o que ainda não havia sido percebido por ninguém, de saias ou calças. Se verdadeira e confirmada futuramente, a reportagem dela explodirá um dos centros nervosos da cruzada femeísta, reduzindo a trapos sua bandeira mais vistosa. Nas suas palavras: "Antes, homens uniformizados eram opressores. Hoje são companheiros cobiçados. Antes, policiais eram porcos. Hoje são gatos. Antes, bombeiros eram os sujeitos que prestavam assistência quando você não conseguia arranjar um médico depressa. Agora eles são os acessórios mais ‘quentes’. Portanto, as americanas agora contemplam amorosamente os machos que rejeitavam."

Macacos me mordam!, exclamariam, perplexos, homens e mulheres descendentes dos macacos, com formação e vocabulário mais antigo, diante de uma contra-revolução destas proporções. Talvez até evocassem mais uma vez o nome de doktor Freud, autor de uma pergunta que jamais foi respondida: "Mas, afinal, o que querem as mulheres?" Muitos anos atrás, Millôr Fernandes deu sua versão pioneira do fenômeno que, segundo a senhorita Dowd, estaria agora envolvendo as americanas. Era a história de uma jovem que empinava o nariz fingindo indignação quando um operário da construção assobiava e lhe dirigia gracejos na rua. Em casa, ela corria para a frente do espelho e procurava conferir se os elogios dirigidos a certas partes do seu corpo eram sinceros e que ela era tudo aquilo, sim senhor!

(Um parêntese retrospectivo. Um homão mais forte que Millôr, com a garra daqueles tempos cavernosos, milionário e campeão mundial de boxe, Mike Tyson, passou três anos na cadeia por pouco mais que um gracejo. Não fez piada, mas recebeu no seu apartamento de hotel uma ex-miss qualquer coisa, sugestivamente de nome Desirée, e depois ela o acusou de ter abusado sexualmente dela. A justiça americana acreditou e botou o troglodita atrás das grades, por três anos. Talvez porque ela não tenha gostado da noitada, mesmo sem ter sido arrastada pelos cabelos até a caverna cinco estrelas do grande atleta. Também havia muito dinheiro em jogo. Mas isto é outra história, sempre possível nos pesadelos tão legislados da vida americana.)

Pode? Numa resposta mais espiritual, é possível sempre lembrar Débora Bloch recitando melodiosamente as palavras de João Guimarães Rosa, no filme Noites do sertão:

Homem, homem... sei não
Basta um descuido


 
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