Construção
de Estados, de
Francis Fukuyama (tradução de Nivaldo Montingelli Jr.; Rocco; 172
páginas; 26 reais) Cientista político e professor da Universidade
Johns Hopkins, o americano Francis Fukuyama ganhou notoriedade com a tese de que
a história havia chegado ao fim com a queda do comunismo. Nesse livro,
ele aborda um outro tema controverso: como lidar com Estados fracassados? Fukuyama
demonstra que sistemas políticos débeis são fonte de graves
problemas mundiais, como o terrorismo, a fome e as epidemias de aids. Ele defende
a necessidade de intervenção nesses países mas também
examina os dilemas que os Estados Unidos enfrentam no Iraque ocupado.
Leia
trecho Capítulo
01: as dimensões perdidas da estatidade O
Estado é uma antiga instituição humana, com cerca de 10 mil
anos, época em que nasceram as primeiras sociedades rurais na Mesopotâmia.
Na China, um Estado dotado de uma burocracia altamente treinada existiu por milhares
de anos. Na Europa, o Estado moderno, com grandes exércitos, poder de taxação
e uma burocracia centralizada que podia exercer autoridade soberana sobre um grande
território, é muito mais recente, nascido há quatrocentos
ou quinhentos anos com a consolidação das monarquias francesa, espanhola
e sueca. A ascensão desses Estados, com sua capacidade de prover ordem,
segurança, leis e direitos de propriedade, tornou possível a ascensão
do mundo econômico moderno. Os
Estados têm uma ampla variedade de funções, para o bem e para
o mal. O mesmo poder coercivo que lhes permite proteger os direitos de propriedade
e prover segurança pública também lhes permite confiscar
propriedades privadas e abusar dos direitos dos cidadãos. O monopólio
de poder legítimo exercido pelos Estados permite que os indivíduos
escapem daquilo que Hobbes chamou de 'guerra de todos os homens contra todos os
homens' internamente, mas serve como base para conflitos e guerras no nível
internacional. A tarefa da política moderna tem sido domar o poder do Estado,
dirigir suas atividades para fins considerados legítimos pelo povo a quem
ele serve e regularizar o exercício do poder de acordo com a lei. Neste
sentido, os Estados modernos estão longe de ser universais. Eles não
existem em grandes partes do mundo, como a África subsaariana, antes do
colonialismo europeu. Depois da Segunda Guerra Mundial, a descolonização
levou a uma onda de construção de Estados em todo o mundo em desenvolvimento,
que teve sucesso em países como Índia e China, mas ocorreu apenas
nominalmente em muitas outras partes da África, Ásia e Oriente Médio.
O último império europeu a cair - o da antiga União Soviética
- iniciou em grande parte o mesmo processo, com resultados variados e igualmente
problemáticos. Portanto,
o problema dos Estados fracos e a necessidade da sua construção
existiu por muitos anos, mas os ataques de 11 de setembro o tornaram mais óbvio.
A pobreza não é a causa imediata do terrorismo: os organizadores
dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono naquela data vieram de
ambientes de classe média e, na verdade, não se tornaram radicais
em seus países natais, mas sim na Europa Ocidental. Porém, os ataques
despertaram a atenção para um problema fundamental para o Ocidente:
o mundo moderno oferece um pacote muito atraente, que combina a prosperidade material
das economias de mercado e a liberdade política e cultural da democracia
liberal. É um pacote desejado por muitas pessoas do mundo, como fica evidenciado
pelo fluxo - em grande parte de mão única - de imigrantes e refugiados
de países menos desenvolvidos para aqueles mais desenvolvidos. Mas
a modernidade do Ocidente liberal é difícil de ser alcançada
para muitas sociedades em todo o mundo. Enquanto alguns países do Leste
da Ásia fizeram esta transição com sucesso nas duas últimas
gerações, outros países em desenvolvimento empacaram ou mesmo
regrediram no mesmo período. O que está em questão é
se as instituições e os valores do Ocidente liberal são de
fato universais, ou se eles representam, como diria Samuel Huntington (1996),
apenas uma consequência dos hábitos culturais de certa parte do mundo
norte-europeu. O fato de governos e agências multilaterais de desenvolvimento
não terem sido capazes de proporcionar muitos conselhos úteis ou
ajuda aos países em desenvolvimento prejudica os fins mais elevados que
eles procuram promover. |