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Casa Rossa, de Francesca Marciano (tradução de Luciana Villas-Boas; Record; 364 páginas; 43,90 reais) – Uma mulher esvazia a velha casa no sul da Itália que pertenceu a sua família por gerações e que acaba de ser vendida. Ao examinar móveis, retratos e outros objetos do lugar, a personagem desvela as memórias e os segredos de seu clã. Com esse ponto de partida simples, a escritora (e também diretora de cinema) italiana Francesca Marciano compôs um painel da história e da sociedade de seu país no século XX. A efervescência cultural dos anos 20, o trauma da II Guerra Mundial, a liberação sexual e os ideais revolucionários da década de 60, o terrorismo das Brigadas Vermelhas nos anos 70 – todos esses temas se cruzam numa envolvente saga familiar que percorre três gerações.

Leia trecho

CAPÍTULO UM

Cuidado agora. Veja o que faz.

Você fica olhando a sala, não acredita ser capaz de realizar esta tarefa.

Parece um sacrilégio alterar sua ordem, como revistar um templo.

Há quanto tempo esta poltrona vermelho escuro está em frente ao sofá puído, logo ao lado do abajur pintado? Há quantos anos o tapete desbotado cobre estas lajotas de pedra? Ou que o retrato de Renée está pendurado na parede? Ou que o vaso de opalina está sobre a lareira? Meu avô comprou esta casa no final dos anos 20. Era então uma casa de fazenda caindo aos pedaços, ninguém a queria. Minha mãe cresceu aqui. Minha irmã e eu também.

Casa Rossa pertence a minha família há mais de 70 anos.Conheço seu cheiro como conheço o cheiro da grama cortada. Sua planta está impressa em mim, posso andar por ela de olhos fechados.

Por que achei que estes objetos ficariam assim para sempre, e eu poderia sempre voltar, encontrar a cadeira e o sofá e o tapete e o quadro em seus lugares? Desse jeito, presumia que poderia sempre reviver todos os diferentes momentos que moldaram nossa história. Como o dia quando Renée estava posando para meu avô na cadeira de balanço e, enquanto ele pintava mais um de seus retratos, ela contou-lhe sobre Muriel. O dia de verão quando Oliviero veio almoçar e sentou-se do lado de fora, no pátio sob a treliça, e apaixonou-se por minha mãe. As noites que minha irmã passou acordada, embrulhada em seu ódio, temendo cada ruído. Ou aquela outra noite em que eu trouxe Daniel Moore aqui pela primeira vez. Abri a porta e mostrei-lhe a sala. Este tapete, este sofá desbotado, aquele abajur amarelado. A sala cheirava a lenha.

— É isso aí — disse eu.

Tinha esperança de que ficasse assim para sempre, de forma que, ao voltar e encontrar tudo ainda arrumado exatamente como deixei, eu acre13

ditasse que havia prendido minha história em um lugar seguro. Dentro de um relicário, onde nada se perderia. Como orações não se perdem numa igreja. Pode-se sempre voltar e acender outra vela.

Enquanto percorro o andar térreo de Casa Rossa, enquanto ando da ampla cozinha para a sala e depois, passando a grande porta de madeira, para o ateliê do meu avô, olho em volta, conto meus passos, marco meu território como se fosse a última vez que fizesse isso. E, imagine você, é a última vez.

Falo alto comigo mesma — como sempre faço quando estou com medo.

Cuidado agora, veja o que faz. Tudo, de agora em diante, será definitivo e surpreendentemente rápido.

O pessoal da mudança vai chegar e esperar que eu lhes faça um sinal.

Então eles vão levantar a mesa, depois o sofá, enrolar o tapete e arriar o quadro. Vão embrulhar toda a mobília em cobertores e amarrá-la com uma corda. Vão vendar e sufocar as formas familiares e empilhá-las uma sobre a outra no caminhão. Um braço de poltrona vai aparecer sob o cobertor.

A mancha em seu tecido desbotado parecerá patética. Os arranhões nas pernas da mesa, o pálido círculo que uma xícara deixou em sua superfície: todas estas marcas terão agora um ar espectral, como cicatrizes. Antes, ninguém as notaria tanto. Mas agora será impossível vê-las sem uma ponta de vergonha. Você terá de admitir que estes objetos transformaramse no que sempre foram, mas que você se recusava a ver: uma pilha de lixo velho e triste.

Uma vez que cada peça da mobília e cada caixa sejam despejadas no caminhão, esta casa, despida em uma única manhã, retornará à mudez.

Uma tela branca, onde outra pessoa escreverá sua história.

É com essa rapidez que nossas memórias se desintegram.

Fico adiando chamar o pessoal da mudança, é claro. Quem não adiaria? É como telefonar para cobrar sua sentença de morte e espicaçar o carrasco.

Em vez disso, fico vagando pelos quartos em assombro, tocando superfícies, avaliando as coisas. Toda vez que abro uma gaveta ou olho atrás de um armário, alguma nova descoberta me atordoa. Giro nos dedos o que acabei de encontrar, como esperando que fale comigo. Uma velha fita empoeirada (um chapéu? um embrulho de presente?), um recorte de jornal dos anos 50, um pé de sapato de cetim azul-claro, um vestido feito sob medida em Paris (de Renée?), uma minúscula fotografia em preto- e-branco de um grupo de jovens abraçados numa praia, com roupas de banho dos anos 30 (qual deles é meu avô?), uma única folha de carta (sem data, sem assinatura, escrita em francês).

É como tentar reconstituir a história de uma múmia egípcia a partir de seu anel, umas poucas contas de vidro, pedaços de cerâmica quebrada, uma inscrição desbotada. Sim, ela foi a mulher de um mercador — não, a irmã de um faraó, ou talvez uma alta sacerdotisa. A história demanda um enredo com princípio, meio e fim.

Esta não é uma história sobre o que sabemos, nem sobre o que temos.

Esta história é sobre o que se perde no caminho.

Minha mãe, Alba, me liga duas vezes por dia de sua casa em Roma.

Quer saber como estou andando com a mudança.

— Ah — falo com cautela —, ainda não acabei. Ainda tenho de verificar todas as gavetas dos quartos no andar de cima. Aquele monte de jornais, fotografias, você não tem idéia de quanto...

— Jogue tudo nas caixas — ela interrompe. — Você não sairá viva daí se começar a olhar tudo. Aquele pessoal disse que queria se mudar na semana que vem.

— Tudo bem. Eles agora têm a casa para o resto da vida. Podem esperar mais um dia ou dois. Aliás, achei seu vestido de casamento.

— Ah, meu Deus.

— Nem parece um vestido de casamento. Só reconheci pelas fotos.

— Você encontrou-as também? — pergunta.

— Estava tudo meio amontoado numa caixa em cima do armário em seu quarto. Tinha chapéus, convites de casamento, um envelope cheio de fotografias. Papai com a pinta de um garoto esperto, de óculos. Como um geniozinho da matemática, ou algo assim. Por que você não usou um vestido comprido, branco?

— Ah, não sei. Era um casamento no campo... quis tudo simples — suspira, já impaciente comigo. — Lembro que era um vestido bonito.

— Na altura do joelho, saia ampla. Pequeninas papoulas em crochê aqui e ali. Bem anos 50, você sabe. Estou vestida com ele.

— Está?

— Mal dá em mim, mas ajuda a fazer esse processo todo um pouco mais divertido. Sabe, vestir algo tão bonito.

— Alina — suspira —, você está bem fazendo isso sozinha? Quer que eu vá para aí? Poderia pegar um trem amanhã, se você precisasse de mim.

Ela me faz esta pergunta duas vezes por dia, sua voz cheia de pavor de que eu diga sim.

— Não, estou legal. Você só atrapalharia.

— Tem certeza? Eu vou se...

— Não, de verdade. Estou até gostando disso. É de alguma forma...

terapêutico.

Não ouço nada do outro lado, então acrescento:

— É como não perceber que alguém que se ama está realmente morto até vermos o caixão baixar. Faz parte do processo.

— Jesus, você está mórbida — diz, mas posso perceber seu alívio: ela pode permanecer em Roma.

Sempre soube que ela não teria nada a ver com a arrumação de velhas caixas esquecidas. Lembrar nunca foi o forte de Alba.

Puglia é o salto da Itália, a mais fina faixa de terra entre dois mares. Lorenzo, meu avô, dizia que era exatamente isso — a refração do sol batendo na água dos dois lados — que fazia a luz da Puglia tão rica e quente. Ele escolheu comprar uma casa ali por causa disso. Precisava pintar naquela luz, dizia.

Muito antes de ser chamada Casa Rossa, era uma sede de fazenda caindo aos pedaços, uma masseria, construída no século XVIII, cercada por um muro, no meio de um bosque de oliveiras, entre os vastos campos ao sul de Lecce.

Podia ser vista a quilômetros: alta, quadrada, simples e, no entanto, majestosa.

Uma grande construção que se fechava em um pátio com a forma de U. Tinha cocheira, estábulo, celeiro e uma capela destroçada. Pertencera a ricos fazendeiros cuja última geração havia emigrado para a América. Lorenzo comprou-a por uns poucos milhares de liras, com o dinheiro que fizera em Paris vendendo seus quadros para um banqueiro. Tinha orgulho disso, era a primeira coisa que possuía que não devia a sua família.

Eles tinham muito dinheiro: sua família negociava com mármore havia séculos. Eram proprietários de pedreiras em Carrara, nas montanhas que separam a Toscana da Ligúria. Esse mármore era considerado o mais puro do mundo, um material que, como diamantes ou ouro, parecia transpirar sua própria magia. Quando cortado, algumas vezes, sua superfície partiase com uma leve sinuosidade que lembrava ondas e mostrava sua natureza original. Um oceano calcificado, capturado dentro das montanhas.

Todos o cobiçavam, como se uma qualidade divina estivesse aprisionada em sua pureza, algo único, que outros granitos não tinham. O mármore branco era embarcado para o mundo inteiro, para qualquer lugar onde alguém precisasse construir algo que o consignasse à posteridade.

De cinco irmãos, Lorenzo era o mais jovem, e quando nasceu, em 1900, seus pais estavam prontos para legar-lhe algo que não fosse apenas o negócio da família. Chamaram-lhe Lorenzo por causa do escultor Bernini, na esperança de que contribuísse para a imortalidade de seu sobrenome. Na época, já vendiam mármore para propósitos mais prosaicos: gente rica queria revestimento para a parede do banheiro, e seu fino pó era usado para fazer pasta de dente. Estava perdendo sua nobreza. Lorenzo foi enviado para a escola de arte de Milão e, depois, a Paris, para ser um artista. Era o objeto de luxo da família. Sua única extravagância.

Paris nos anos 20 era uma cidade apaixonada por pintores. Lorenzo enturmou-se, achou seu nicho. Bancou muitos drinques e contas de restaurante que seus amigos não podiam pagar. Trabalhou muito, vendeu bastante, fez algumas exposições, teve uns tantos marchands e montes de mulheres. Suspeito que Paris tenha sido a época mais feliz de sua vida — tenho uma história em quadrinhos: ele vivendo seus vinte anos numa espécie de deslumbramento inebriado.

Paris tinha uma vitalidade insana mas fria naqueles anos. Duvido que houvesse tempo para gente com pouco talento, e desconfio que Lorenzo era considerado medíocre por seus amigos pintores. Tinha uma boa técnica, mas seu trabalho era derivativo.

Pergunto-me se sabia disso e quanto isso o incomodava.

Na verdade, o nome de meu avô não ficou para a história. Mal conseguiu ganhar um verbete numa enciclopédia, e ele mereceu uma exposição correta somente em seu centenário. Mas mesmo isso, a retrospectiva na

Galleria d’Arte Moderna, em Roma, ocorreu em um momento particular, quando os curadores de museu tinham simplesmente esgotado suas idéias.

Já haviam montado “I Futuristi”, “I Macchiaioli”,* “I Surrealisti”, e de repente a data de nascimento do meu avô era a desculpa perfeita para ressuscitar mais um artista italiano menor.

Renée, minha avó, era de uma incrível beleza.

Sei que todo mundo tende a idealizar os atributos físicos e as excentricidades de seus avós: fornece interessante pano de fundo, e dificilmente há alguma testemunha para contradizer e estragar sua história. Mas não estou exagerando.

Em todo caso, você pode constatar pelas fotos.

Há uma em que ela se apóia com as costas numa balaustrada sobre o mar — deve ser em algum lugar no Sul da França. Está vestindo largas calças brancas de marinheiro e um top justo de listras, que desnuda seus braços, com um decote profundo e gracioso. Sua pele está muito bronzeada, seus lábios, perfeitamente pintados de vermelho escuro. Sua mão, pousada sobre a balaustrada, segura um cigarro entre dois dedos. Em outra foto — minha favorita —, está em um carro sem capota, o vento despenteando seu curto cabelo cacheado, e ela ri, jogando a cabeça um pouco para trás.

Usa uns óculos escuros redondos, pequenos, que lhe dão um ar de mistério e romance. Lorenzo devia estar atrás da câmara. Somente um homem apaixonado teria a obstinação de registrar todas as possíveis poses e mudanças de humor de seu tema.

A Côte d’Azur nos anos 20 tinha uma elegância única. Um reflexo particularmente brilhante — aquele fulgor do Mediterrâneo — ricocheteava nos prédios brancos alinhados na Promenade des Anglais. Ninguém tinha má aparência naquela luz de verão.

Lorenzo viu as duas meninas sentadas no bar do Grand Hotel Negresco uma noite.

Observou-as de sua mesa — estava esperando um amigo que, invariavelmente, se atrasava — e notou o modo como as meninas cochichavam, * Escola de pintura italiana, que se iniciou na Toscana e foi contemporânea do impressionismo francês, baseada no uso da mancha (macchia). (N. da T.) fumavam e riam, uma muito próxima da outra, suas cabeças quase se tocando.

Estas duas meninas não estão aguardando ninguém, pensou, estão apenas esperando para ver o que acontece.

A de cabelo curto tinha um longo pescoço de gazela e uma voz rouca que lhe agradava. Ele notou como seu vestido caía graciosamente em seu corpo magro, sobre as pernas morenas. Era um pesado crêpe de chine em uma sutil estamparia xadrez.

Ele fez o que homens arrogantes fazem nessas circunstâncias: enviou um garçom com uma garrafa de champanhe gelada e respondeu à surpresa delas com aquele gesto descuidado, aquele imperceptível sinal de reconhecimento, levantando um pouco o queixo e mal acenando com o dedo.

Como se dissesse: “Sim, fui eu quem acabou de comprar a atenção de vocês pelo preço de uma garrafa.” Mas era bonito e suficientemente bem vestido para agradar com isso.

Quando elas finalmente se aproximaram, sentiu-se feliz consigo mesmo.

Realmente, eram diferentes e formidáveis.

— Lulu — disse a menor, apertando os lábios vermelhos.

— Renée — disse a gazela. Sua mão ossuda parecia fresca e forte.

Eram jovens demais, de riso frouxo e nervoso demais, para serem o que pretendiam ser: sereias de férias em um hotel de luxo. Mas isso era parte do jogo que todo mundo jogava, assumindo papéis que não combinavam bem.

— Você mora aqui no hotel? — Renée perguntou, fingindo indiferença.

— Não, estou hospedado com amigos numa villa fora da cidade, numa colina. Vou ficar até meados de setembro.

— Nós também — disse Lulu. — Vamos ficar toda a estação.

— Bom, eu deveria apresentá-las aos meus amigos. Eles têm um barco.

Vocês gostam de velejar? Elas deram de ombros e se olharam, sem saber o que dizer.

Havia algo nelas que ele não sabia identificar. Algo selvagem sob a maquiagem, as unhas bem feitas, os cachos arrumados. Então ouviu-as trocarem um rápido comentário. Era mais como um som sussurrado, um código secreto.

— O que é isso? — Árabe — disse Renée, sorrindo. — Somos de Sidi Bou-Sahid, uma aldeia perto de Túnis. Crescemos juntas, Lulu e eu.

É claro, ele pensou. Não estão apenas queimadas de sol.

Ele contou-lhes que era pintor, que morava em Paris, onde tinha um grande ateliê em Montmartre. Era o que tinha de ser dito, em um bar daqueles, a meninas como aquelas.

Renée sentou-se em sua cadeira e esticou o longo pescoço, orgulhosamente.

— Eu poso para pintores. Sou modelo.

Lulu olhou para ela, surpresa.

— É mesmo? — perguntou Lorenzo.

— É. Quando você voltar a Paris, poderia visitá-lo para posar, se você quisesse. — Tragou seu fino cigarro e virou a cabeça para o lado, soprando a fumaça. — Faço isso há muito tempo.

Ela inventou aquilo naquele minuto, Lorenzo pensou e ergueu sua flûte.

— Vamos brindar, então — disse. — A esta perfeita coincidência.

Nem sei o nome de família de Renée. Não tenho um único registro de sua infância na Tunísia. Nenhuma fotografia de bisavós sob véus na aldeia de Sidi Bou-Sahid, calçando chinelos, palmeiras no pátio. Tudo que me resta é um pé de sapato de cetim azul, umas tantas fotos e uma página arrancada de uma carta — nenhuma data, nenhuma assinatura — escrita em francês. Tenho certeza de que foi ela quem escreveu por causa dos erros de ortografia. E restam-me quadros, é claro. Havia tantos deles que encheram uma sala inteira na Galleria d’Arte Moderna por ocasião da retrospectiva de meu avô. O que sobrou — o museu agora é proprietário de um bom número, e há alguns colecionadores particulares, é claro — foi dividido em três partes iguais destinadas a Alba, Isabella e a mim. Fui eu que decidi qual tela ia para quem, e preparei três grandes engradados, cada um com um nome diferente.

Renée nunca está vestida em suas pinturas. Seus seios pequenos são como de uma menininha. Quadris estreitos, torso longo e pernas finas, como uma corredora etíope. Não parece se preocupar com sua nudez — deita no sofá, senta na cadeira de balanço, cruza as pernas no chão, deita atravessada na cama desfeita, abraça os joelhos em um tamborete. Os planos de fundo são ricos alaranjados, vermelhos e densos verde-pistache.

Neles, você pode sentir o cheiro de Matisse, luz mediterrânea, Picasso, Kandinsky.

Mas sobretudo você sente o cheiro de sua obsessão por Renée. Como se não fosse suficiente, para ele, tê-la ao vivo.

Ela não era modelo, meu avô disse uma vez. Vamos deixar isso claro.

Era uma prostituta. Pintei uma prostituta e casei-me com uma prostituta.

Prostituta. Eu era pequena demais para saber o que aquela palavra significava precisamente, mas podia pressentir que não era bom. No entanto, soava misteriosamente interessante para mim.

E mesmo então eu sabia que ele estava falando daquele jeito porque ela devia tê-lo magoado. Crianças são boas em reconhecer esse tipo de raiva.

São quase seis horas, está ficando frio dentro de casa. Estas paredes são grossas, e ao fim do verão o sol não consegue mantê-las quentes. Estou tiritando, então visto um cardigã por cima do vestido de casamento, que cheira a mofo e poeira, enquanto subo a escada estreita que leva ao telhado.

Lá fora, sinto imediatamente o calor da alvenaria sob meus pés nus.

Estas casas de fazenda do sul têm tetos abobadados em cada quarto, de modo que os telhados parecem uma série de gigantescas formas meio ovaladas cobertas de betume negro. Sento no topo do ovo mais alto, pernas cruzadas, e à medida que a pedra começa a soltar o calor que absorveu durante o dia, miro o panorama que não mudou em centenas de anos; é ainda apenas um mar de oliveiras, suas pequenas folhas de prata estalando e brilhando como centelhas de luz ricocheteando na água. Adoro ver como a terra fica vermelha contra o céu azul, nesta hora do dia. Sinto o ar fresco em minhas pernas. Vejo o sol se pôr, enquanto as folhas de oliveira mudam de prata para azul, e então entro e acendo a lareira.

Tenho uma pequena missão a cumprir esta noite antes de dormir. Preciso debruçar-me sobre aquela página manuscrita, é apenas uma folha, sem data, sem assinatura. Encontrei-a dobrada, caprichosamente, dentro de uma pasta de couro, comida pelas traças e socada de papéis, no ateliê do meu avô. Olhava rapidamente as velhas contas, recibos e alguns telegramas da década de 40. Então vi este pedaço de papel ressecado, afinado pelo tempo, com uma caligrafia inclinada — grande e vigorosa — numa tinta azul desbotada. Devia ser parte de uma carta mais longa que Renée escreveu, talvez a Lorenzo, alguns anos depois de deixá-lo. Meu francês é capenga, e preciso verificar umas tantas palavras no dicionário, mas tenho

o pressentimento de que esta única página — rasgada, escondida e depois esquecida por tantos anos — pode abrir uma porta para um quarto que ficou um tempo excessivamente longo no escuro.

Há algo que tem sido passado de mulher para mulher em minha família.

Não sei como chamar isso. Um segredo, um legado não-dito — que precisa permanecer escondido, algo de que se envergonhar. Seu peso moldou cada uma de nós, torceu-nos no que somos hoje, como os vinhedos são lentamente forçados pelo arame.

Renée foi a primeira a legar essa herança. Mas, até hoje, ainda não sei precisamente o que é essa coisa que ela deixou para trás para Alba levar.

Tudo que conheço é o resultado: a forma como essa coisa sem nome aleijou Alba e, depois, por sua vez, aleijou Isabella e a mim.

É por isso que, antes de fechar para sempre esta porta atrás de mim, devo olhar cada pedaço de papel, cada sentido oculto. Tudo conta, especialmente se aquelas palavras vieram dela.

Renée foi viver com Lorenzo logo depois que eles voltaram da Côte d’Azur para Paris.

Gostaria de acreditar que a vida deles, pelo menos no começo, foi fácil e despreocupada. Mas, se olhamos com atenção, Renée parece cada vez mais melancólica nas fotografias que se sucedem naquele primeiro verão.

Algo nela encolheu. Está menor, não sorri para a câmara, não fica mais ereta, com os braços estendidos, peito aberto, cigarro entre os dedos, orgulhosa e audaciosa. Recolheu-se.

Em uma foto de 1933, está na varanda de Casa Rossa, a casa ainda uma ruína, antes de Lorenzo restaurá-la. Sentada em um degrau lascado de pedra, olhando da máquina fotográfica para o bosque de oliveiras, seus braços segurando os joelhos apertadamente. Não tem nem consciência de que alguém esteja tirando sua fotografia. Não está ali. Já tinha ido então, embora talvez não o soubesse.

Lorenzo e Renée ainda moravam em Paris naquela época, mas vinham à Itália todos os verões para passar férias. Lorenzo apaixonara-se pela Puglia e decidiu que tinha de ter um lugar ali aonde pudesse voltar pelo resto de sua vida. “Um lugar que nossos filhos possam chamar de lar”, disse a Renée, e isto soou mais como uma ameaça do que como o projeto de um homem apaixonado.

Ele comprara Casa Rossa em torno do ano em que a foto foi tirada. Naquele tempo, comprar uma ruína como aquela, em um lugar tão remoto, era inaudito. Gente do norte da Itália como meu avô jamais pensaria em viver tão ao sul. Era atrasado demais, pobre demais — estrangeiro.

Um jovem da aldeia — parrudo e forte como um touro, com meigos olhos azul-escuros — foi quem mostrou a meu avô a ruína enterrada em meio a arbustos espinhentos. Seu sobrenome era Stellario. Seu nome de batismo era Immacolato Concetto, o que fazia dele um Imaculado Conceito Estelar, e Lorenzo achou que uma pessoa com um nome desses não poderia botá-lo em mau caminho.

Quando eles abriram a rangente porta de madeira, um par de pombas levantou vôo de uma rachadura no telhado. Lorenzo pisou numa macia camada de feno. Então, enquanto entrava no que tinha sido a cozinha, percebeu uma jovem oliveira brotando no meio do cômodo, suas raízes partindo a lajota de terracota.

— Você pode se apaixonar por um lugar exatamente como se apaixona por uma pessoa e sofrer das mesmas obsessões — explicou-me uma vez.

— Você acredita ser o único capaz de entender sua beleza. Acha que é o destino. Éramos feitos um para o outro. Foi exatamente o que aconteceu no minuto em que entrei neste lugar.

Possessivo como era, não me surpreende que não pudesse suportar a idéia de outra pessoa ser dona daquele lugar, viver ali, amá-lo. Então fez a compra imediatamente.

Stellario conhecia madeira, pedra, areia, vigas, tijolos. Ele e meu avô reconstruíram a casa com suas próprias mãos ao longo de dois anos. Cada pedaço de material de construção tinha de vir de Lecce. Naquele tempo, tinha de ser carregado em lombo de burro, porque não havia estrada até a casa. Depois que a casa ficou pronta, Lorenzo contratou Stellario para cuidar do olival do terreno. Ele plantou amendoeiras em volta da casa, limões e laranjas no pomar, uvas doces nas treliças, a zagara que trepava pela parede e espalhava seu aroma à noite. Trabalhou como fattore de meu avô pelo resto de sua vida. A casa passou a ser tão dele quanto nossa. Mas isso é outra história.

Depois que a casa foi inteiramente reconstruída, Lorenzo e Renée vinham à Puglia todo ano e passavam os meses de verão ali. Ele trancava-se no celeiro, que converteu em seu ateliê, e pintava o dia inteiro, mal parando para comer.

Para os aldeões, este jovem casal que chegara de Paris parecia tão estranho que, no que lhes dizia respeito, poderia ter vindo da lua. Nunca tinham visto uma mulher de cabelo curtinho vestindo calças, nem um homem que passasse o dia todo trancado pintando e deixando o mato crescer no jardim. Mas depois que Alba nasceu, em 1935, Lorenzo e Renée ganharam um ar mais de família, e o povo do lugar acostumou-se com eles.

As mulheres traziam figos secos e doces para Renée, mandavam pão re- cém-assado e ricota por suas filhas mais jovens. Insistiam em que ela era magra demais para amamentar direito seu bebê.

Sei o que Lorenzo diria se me visse agora, apagando metodicamente todas as nossas memórias, abrindo espaço para estranhos que podem cortar suas árvores, trazer a própria mobília e desfigurar a ordem de seus quartos para sempre.

Um lugar que se ama tanto deveria cessar de existir sem você, ou, melhor ainda, virar entulho.

Mas o fato é que estou tentando ter uma perspectiva da vida diferente da dele.

Duvido muito que Renée tenha em algum momento valorizado Casa Rossa.

Se ainda estivesse apaixonada por Lorenzo, talvez tivesse tentado vê-la através dos olhos dele. Veria então as mesmas coisas que ele amava e teria sido tocada por elas.

Durante os longos invernos em Paris, também teria sentido saudade do cheiro de figos verdes no ar do começo das manhãs, da frescura do chão de lajotas sob seus pés, das lagartas gordas cruzando os caminhos, do sumo das amoras correndo como sangue entre seus dedos. Estivesse ainda apaixonada, tudo isso teria um sentido. Mas, provavelmente, passara por tanta fome, analfabetismo e pobreza na Tunísia que era impossível para ela apaixonar-se por um lugar como aquele. Sua idéia de uma boa vida estava muito mais para roupas bonitas, coquetéis e amigos glamourosos. Tenho certeza de que não achava graça em puxar água do poço e acender lampiões de querosene à noite. Era precisamente do que fugira quando deixou sua aldeia para trás.

Posso vê-la, nitidamente, sentada no degrau de pedra da varanda, olhando à distância, como um prisioneiro contando os dias. Sua filhinha, Alba, está sendo ninada por Celeste, a jovem mulher de Stellario, em algum lugar dentro de casa. Renée não consegue reunir energia ou desejo dentro dela para ser uma boa mãe.

Dizem que as mulheres podem sofrer de depressão pós-parto, que é perfeitamente normal ficar abalada sem nenhuma razão aparente. Mas parece que essa tristeza está entrando nela, lenta e calmamente, há muito tempo, muito antes de o bebê nascer.

Lorenzo está pintando no celeiro, envolvido por seu desalento. Não há alegria, não há mais delicadeza nele. Não há mais traço do dândi galante que ela encontrara no bar do Hotel Negresco poucos anos antes.

Ele precisa possuí-la. Não a deixa fora de seu raio de visão. Mas não há amor, não há calor nessa necessidade. Há apenas cobiça e medo.

O casamento deles virou um lugar silencioso e frio. O sapato azul-claro que encontrei é bicudo e tem um cadarço acetinado para envolver o tornozelo. Estava dentro de uma caixa de feltro, no fundo de um armário.

Não é um sapato comum. É sapato de cetim que se usa para um baile. Foi feito sob medida em Paris, e desconfio que haja em algum lugar um vestido azul-claro da mesma seda para combinar com ele.

Acho que foi calçado por minha avó em uma grande recepção oferecida por uma herdeira americana, mecenas das artes, que foi viver em Paris e queria causar um impacto. Gosto de imaginar Renée entrando no salão com seu vestido azul-claro e estes sapatos sob medida, piteira entre os dedos, braceletes de prata em seu pulso fino, seus olhos dardejando para a direita e a esquerda. Depois dos meses que passou na Puglia durante o verão, provavelmente estava ansiando por isso: a emoção de flertar de novo, o tilintar dos cristais, o farfalhar dos tecidos brilhantes. Lorenzo, porém, está de mau humor, detesta a idéia de ir a esta festa, sente-se desconfortável em sua casaca. Acha a atmosfera toda pretensiosa e ridícula.

— Quero sair cedo — ele diz enquanto depositam os casacos —, de forma que não comece a beber.

— Você não precisa me alertar — Renée retruca sem nem olhar para ele. — Não tenho esperanças de que você deixe que eu me divirta nem mais uma única vez na vida.

Lorenzo sequer responde. A essa altura, estão acostumados a ser curtos e grossos um com o outro. A amargura de que são capazes já não os surpreende. Renée move-se suavemente pelo salão cheio, tentando perder contato com ele ainda que por alguns minutos. Apenas para saborear como seria estar sozinha de novo, como era quando ela e Lulu chegaram à França pela primeira vez. Mover-se entre as pessoas, colecionando olhares, respondendo a sorrisos. À medida que percebe crescer o calor animal em volta dela no salão, vê que já faz tempo demais desde que sentiu pela última vez a atração de um homem. A última vez foi em um jantar na embaixada francesa em Roma, onde haviam parado no caminho para a Puglia. O que era ele, um antiquário? Talvez um arqueólogo. Estava sentado à sua frente e deixou o pé em cima do dela, sob a mesa, durante todo o jantar. Um inglês atraente, apaixonado por ruínas romanas. Lorenzo fez um escândalo depois. Deus sabe como, mas sempre pressentia quando havia alguém a farejá-la.

Pega uma taça de champanhe de uma bandeja equilibrada sobre a mão enluvada de um garçom.

Seus olhos encontram-se com os de uma estranha na multidão. Vêemse muito próximas uma da outra. A mulher é alta, loura, tem pele de porcelana. Levanta sua taça, como propondo um brinde, e Renée levanta a sua em resposta. Quando suas flûtes se tocam e o cristal tilinta, elas explodem numa risada.

— A quê? — pergunta Renée.

— A nós, aqui, esta noite — diz a loura prontamente, com um sotaque estrangeiro.

— Tudo bem, a nós, aqui, esta noite — Renée repete, devagar, acentuando cada sílaba.

— Deus meu! — a mulher ri e fecha os olhos, como se Renée fosse demais para se olhar. — Você se importa se eu lhe disser uma coisa? Você é linda demais.

Deve estar bêbada, pensa Renée. Mas fica lisonjeada.

Mais tarde naquela noite, Lorenzo atravessa o salão, depois outro salão, e outro ainda. Olha em volta, de um jeito que não é rápido demais nem ansioso demais. Não quer dar a impressão de que está zangado ou perturbado. Cada vez mais freqüentemente, sempre que estão com outras pessoas, ela sai de seu controle. Faz de propósito, por despeito. Seu lembrete de que não pode encarcerá-la, que há — e sempre haverá — uma maneira de escapar dele.

Não consegue encontrá-la.

A orquestra está tocando um tango, a pista de dança está cheia. Ele continua andando, esquadrinhando lentamente o salão.

Renée está nos braços de uma loura alta vestida de branco. Olham-se nos olhos enquanto dançam, sorrindo. Sabem os passos, como se estivessem dançando há algum tempo, e quando Renée se arqueia toda para trás, os lábios da mulher chegam muito perto dos dela. Não fica claro se ela está beijando ou apenas cochichando algo para Renée. Mas quando se ergue de volta, orgulhosa e alta como uma dançarina de tango, Renée dá uma risada rouca e embriagada.

Seu nome é Muriel, é alemã. Tem vinte e oito anos, herdeira de uma fortuna feita com aço. Seu pai é um industrial, seu irmão mais velho é um alto oficial do Reich. É extravagante, mimada, confiante demais em seu poder. Renée recebe seis telefonemas e uma carta dela na semana seguinte ao baile. O efeito é um deslumbramento, intensificado por inebriada excitação, levemente melodramático.

“Preciso vê-la de novo antes de deixar Paris, no fim do mês. Não parei de pensar em você desde que a conheci. Rogo-lhe que me dê a chance de vê-la uma vez mais de forma que você possa ao menos me conhecer um pouco.”

Renée ainda não se decidiu sobre isso. Não sabe muito bem o que pensar — nunca foi seduzida por uma mulher —, mas finalmente concorda em encontrá-la para um chá em Montparnasse no meio da tarde.

Quando entra no café, vê Muriel sentada a uma pequena mesa redonda no fundo do salão. Está com um boné vermelho sobre seu cabelo louro, que lhe dá um ar mais de menina do que da mulher alta e imponente de quem ela se lembra do baile. Muriel acena como uma criança. Renée sen- ta-se sem sorrir, desamarra a echarpe do pescoço e desabotoa o casaco.

— Pensei que você poderia não vir — diz Muriel, corando.

— Por quê? Você não vai me comer, vai?

Olham-se por alguns segundos sem saber como proceder. Muriel parece quase assustada, como se toda sua autoconfiança houvesse se desintegrado. De repente, o que parecia tão natural de dizer no papel é impossível de pronunciar. Renée silenciou-a. Sua presença física, seu aroma, a forma como ela se coloca, seus dedos longos, suas luvas alaranjadas sobre a mesa, a cor de seu esmalte, tudo deixa Muriel atônita.

— É um pouquinho mais difícil ficar perto de você sem estar bêbada — admite em seu francês cheio de sotaque.

— Mas é mais real — diz Renée. Então sorri, como se a situação começasse a diverti-la. — Isto é quem eu sou de verdade: tenho um marido, uma filhinha de dois anos, e você é...

Muriel põe um dedo sobre os lábios para evitar que ela fale mais. — Eu só queria que fosse possível me aproximar de você, mas falo de chegar realmente perto, pulando isso tudo — gesticula no ar como procurando a palavra adequada —, toda essa história que precisa ser contada de antemão.

— Não sei como se pode ignorar isso, essa história — diz Renée e, com indiferença, volta-se para a garçonete, que está em pé a seu lado com um lápis na mão. — Sim, um chá com leite, por favor. Muriel, o que você quer? — Chá está bom — diz Muriel, olhando para o cinzeiro, desanimada. Não está acostumada com isso, outra pessoa lidando trefegamente com a garçonete. Em geral, é ela quem comanda.

Então levanta os olhos novamente.

— Sinto-me patética. Devia saber que esse caso não tem esperança.

— Talvez você se sinta assim porque está acostumada a ter tudo o que quer num estalar de dedos.

— É isso que você acha?

Renée dá de ombros e remexe na bolsa, em busca de seus cigarros.

— É possível.

Acende um cigarro e traga profundamente, fechando os olhos.

— Sei disso porque fui comprada por uma pessoa que está acostumada a ter tudo de que gosta exatamente assim — e estala seus longos dedos enquanto sopra a fumaça. — E agora estou com raiva. Fico com muita raiva de gente que faz isso.

Muriel olha para ela, surpresa.

— Você soa tão amarga. Não queria provocar isso em você. — Você não provocou nada. Não é sua culpa. E nem a conheço, então não dê atenção ao que digo. A garçonete volta com o chá e ambas mexem por alguns segundos com o bule, o leite, o açúcar. Há apenas o tilintar de colheres batendo na louça. Muriel prova seu chá vagarosamente. Esse negócio não está indo na direção que esperava. Ela perdeu o controle da situação e não está sendo capaz de retornar as coisas a seus lugares. É melhor retroceder agora, antes que seja tarde demais, antes do prejuízo. Sabe como fazer isso graciosamente, já o fez antes.

— Desculpe por ter insistido em fazê-la vir. Não sei o que estava pensando. Logo voltarei a Berlim e provavelmente não vou vê-la de novo.

Renée não diz nada, apenas olha, séria.

— Você é tão charmante... quer dizer, não é só sua aparência física — Muriel hesita. — Por dentro também. Percebi isso de cara quando a vi no meio daquelas pessoas todas no baile. Acho que queria vê-la porque precisava lhe dizer quanto a achei bela... só isso. Renée não diz nada. Toma seu chá e mantém os olhos escuros fixos nos de Muriel.

— E talvez eu deva parar por aqui, em vez de ficar fazendo papel de boba.

Pega o casaco nas costas da cadeira e começa a se levantar.

— Espere. Renée aperta gentilmente seu braço até que ela tenha que se sentar de novo. Olham-se, segurando a respiração. Renée chega para a frente, esten- de-se com leveza sobre o tampo da mesa de mármore e toca o pálido cabelo de Muriel com a ponta dos dedos, então ajeita uma mecha atrás da orelha, como uma mãe faria com a filha.

— Não vá. Só estou com medo.

— Com medo de quê?

— Do que pode acontecer entre nós.

— Eu também.

Sorriem uma para a outra e começam a sentir aquele calor, que sobe dos pulmões para o peito, até as bochechas. As respirações ficam mais pe

sadas. Muriel sente a tensão relaxar e começa a rir. Elas estão se sacudindo de tanto rir, de mãos dadas sobre a mesa.

Mais tarde, anos mais tarde, irão se lembrar deste momento particular e revisá-lo em detalhes, esperando descobrir algo que tenha ficado esquecido.

— Quando aconteceu, para você?

— Quando você tocou meu cabelo.

— Para mim também. Eu precisava tocá-la. Não podia resistir.

No catálogo da exposição em homenagem ao centenário de meu avô, havia uma foto em preto-e-branco do pátio interno de Casa Rossa, datada de 1940. Mostra um enorme retrato de Renée reclinada de lado, nua. Cobre a parede caiada. Suas pernas estendem-se sob as janelas, seus braços se curvam sob a parreira. Como uma giganta, seu corpo no afresco avulta no átrio, seus seios nus, suas coxas, a escuridão entre suas pernas nítida contra a brancura do muro.

O retrato de Renée no pátio surgiu praticamente da noite para o dia em um verão.

Na tarde do dia seguinte, a aldeia inteira falava disso. As mulheres não tinham permissão de olhar aquele gigantesco corpo nu. Pararam de ir àquela casa. Seus maridos, seus pais e seus irmãos proibiam. De forma que não apareceu ninguém para fazer uma comida, acender o fogo, limpar o assoalho. Ninguém veio trazer figos ou ricota. Ninguém trocou os lençóis ou abriu as persianas. A aldeia encenou um motim silencioso contra os forestieri, cujo comportamento não podiam compreender.

Renée tinha ido embora alguns dias antes. Os camponeses viram-na entrar em um carro alugado com muita bagagem. O motorista disse que ela chorou durante todo o caminho até a estação de trem na cidade. E então, de repente, Lorenzo pintou aquela indecência no muro da casa. Havia boatos, todo tipo de conjectura, mas ninguém tinha coragem de chegar perto. Eles podiam sentir o cheiro da loucura até a distância. Alguém contou que ele simplesmente não se levantava da cama. Outros disseram tê-lo ouvido atirando coisas, quebrando vidros, blasfemando. Virou o tema ideal de fofoca de uma cidade pequena.

Mas à medida que os dias foram passando, eles começaram a sentir pena da menininha. Alguém tinha que ir lá e assegurar que Alba estivesse bem. Tinha apenas cinco anos, será que estava se alimentando? Então mandaram Stellario dar uma olhada. Stellario voltou e fez um relatório consciencioso no café da piazza. Chamaram um médico, deram telefonemas, um outro médico da cidade era consultado diariamente. Foram enviados telegramas para o resto da família dele. Sua irmã veio de Carrara com o médico da família. Pegaram Lorenzo e a menina, fizeram suas malas e enfiaram-nos no trem.

Lorenzo não voltou no verão seguinte. Ninguém na vila sabia exatamente para onde tinha sido levado. O boato no café da piazza era de que tivera um colapso e fora enviado à Suíça para tratamentos de choque. Alba teve de ficar com a tia e tios em Carrara. Renée nunca era mencionada, como se nunca tivesse existido ou nunca fosse reaparecer em suas vidas. Enquanto meu avô ficou longe, a casa permaneceu fechada, a mobília coberta com lençóis brancos, teias de aranha balançando na escuridão. Alguém tirou aquela fotografia — quero crer que foi Stellario, com a máquina de meu avô — antes de cobrir seu corpo com uma mortalha: ele enterrou o afresco de Renée sob uma camada de tinta branca. E no entanto um traço indistinto dela emergia através da cal.

Quando Lorenzo finalmente voltou à Puglia no verão seguinte, parecia mais magro. Mas sorria quando desceu do trem em Lecce; segurava a mão de Alba e havia uma outra mulher com eles. Essa era bem diferente de Renée. Gordinha, tinha cabelo pintado de louro, pulsos grossos e lábios finos.

— Esta é a Signora Jeanne — disse Lorenzo, quando Stellario e sua mulher, Celeste, vieram cumprimentá-lo. Então apontou para as grandes arcas que estavam no chão. — Decidi me mudar para cá e ficar. Para sempre. Nunca mais vou voltar a Paris.

— Fico feliz de ouvir isso, Don Lorenzo — disse Stellario. — Este é seu verdadeiro lar. O senhor não precisa viver na França e falar uma língua diferente. Se ficar, então poderemos realmente fazer alguma coisa com a propriedade. Podemos produzir azeite e vender. Ter um negócio. Para Stellario, o conceito de vida fora da aldeia era vago. Não conseguia nem imaginar. Qualquer coisa fora de seu domínio, suas árvores e suas cabras, parecia um vasto espaço inútil, onde as pessoas desperdiçavam o tempo fazendo coisas que não tinham importância.

— Sim, esta é minha terra — Lorenzo suspirou. — Para o bem ou para o mal.

Ao longo do verão, Lorenzo estabeleceu-se na casa. Fingia não notar que o afresco ainda estava ali, esparramado pelo pátio, minando através da tinta branca. Simplesmente ignorava-o.

Todos os dias, ele e Stellario preparavam uma lista de coisas que precisavam ser feitas para melhorar a casa, agora que ele ia passar os invernos ali: a goteira do telhado tinha de ser consertada, era preciso construir outra lareira no segundo andar e cavar um segundo poço sob a amendoeira. As janelas tinham de ser repintadas, as portas consertadas. Mas ele nunca mencionou uma segunda camada de tinta branca para cobrir o fantasma de Renée.

Um dia, pouco depois da chegada deles, Jeanne apareceu na drogheria, o mercadinho em frente à igreja, com um grande chapéu de palha branco que lhe dava um ar de cogumelo.

A loja era escura e tinha um cheiro forte de alho e tomate podre. No chão, sacos de cânhamo cheios de lentilha seca e feijão; barras de sabão, velas, frascos de alcaparra no sal descansavam nas prateleiras de madeira escura. Jeanne vagou por ali, suspirando, pegando isso e aquilo, botando as coisas de volta no lugar, com uma expressão de nojo. Balançava a cabeça, como se nada lhe parecesse bastante fresco ou limpo para ela comprar. Domenico e sua mulher, Addolorata, permaneciam quietos atrás do balcão de mármore, observando sua lenta procissão pelas gôndolas. Ouviam seus suspiros e fungadelas.

— Como um cão num monte de lixo — resmungavam um para o outro, sem se oferecerem para ajudá-la, apenas espantando as moscas. — Deve ser a babá — disse Domenico à mulher depois que ela foi embora —, veio para tomar conta de Alba.

— Por que ela veio para cá? — perguntou Addolorata, irritada. — Celeste poderia tomar conta da criança, ele não precisava trazer esta mulher e viver com ela na casa.

Jeanne ia à drogheria uma ou duas vezes por semana. Nunca sorriu ou disse algo simpático a Domenico e Addolorata. Nem um comentário sobre o tempo. Tratava-os como se fossem invisíveis. Guardava seu dinheiro numa pequena carteira, anotava cada lira que gastava em um caderno, em sua caligrafia bonitinha, com o zelo de um contador.

Uma vez, Domenico, enquanto contava o troco, não conseguiu conter a curiosidade. Dirigindo-se a ela em seu italiano mais formal, perguntou:

— De onde vem, Signora Jeanne? Perdoe-me por perguntar, mas a senhora tem uma rara maneira de falar. Às vezes não a compreendo muito bem.

— Venho da Suíça.

— Foi lá que a senhora conheceu Don Lorenzo? — Addolorata perguntou. Jeanne deu imperceptivelmente para trás, como para se proteger da intrusão. Não estava acostumada com estranhos fazendo perguntas tão pessoais.

— Sim, eu era enfermeira no hospital — informou.

— O hospital para os nervos dele?

Jeanne hesitou, mas fez que sim com a cabeça rapidamente. Eles haviam definitivamente atravessado a fronteira, aqueles dois. Esticou o braço para receber o troco. Cheiravam a suor e cebolas. Ninguém cheirava daquele jeito em Genebra.

Domenico e Addolorata viram-na sair na feroz luz do verão, seguir tropeçando pela praça sob seu chapéu de abas largas, carregando as compras. Não acharam que ia durar muito por ali. Não parecia adaptada àquele tipo de calor — nenhuma constituição para moscas, comida apimentada, cactos espinhentos.

Mas ela teria que se adaptar. Lorenzo casou-se com Jeanne um ano depois, na Igreja de San Matteo, em Lecce. Era um dia quente. A luz resplandecia sobre os degraus brancos da igreja. A maquiagem de Jeanne escorria com o suor, e o vestido de casamento estava justo demais nos quadris. — Toda minha vida quis uma musa, mas acabou que do que realmente eu precisava era de uma enfermeira — ele disse a Alba anos mais tarde, falando de seu casamento com Jeanne. — Imagine, que perda de tempo e energia.

Na verdade, Domenico não estava tão equivocado quando a confundiu com uma babá: Jeanne nascera para tomar conta, sem nunca esperar um obrigado pelo zelo que dedicava. E ninguém agradecia mesmo. Todo mundo em minha família — Lorenzo, Alba, até minha irmã e eu — esperava

que Jeanne nos apoiasse em raivas, desesperos, febres, depressões, ódios, ciúmes, catástrofes financeiras, sem um piscar de olhos. Ela fazia as contas, garantia que zerassem. Sempre botava de volta a mesma quantia que lhe fora dada.

Acreditava ter sido escolhida para salvar a vida de um gênio, ou pelo menos era essa a forma como havia decidido perceber seu destino quando Lorenzo materializou-se no hospital em Genebra.

A partir do momento em que concordou segui-lo de volta à Itália, depois que Lorenzo teve alta, e que disse que estava feliz de ir viver com ele e sua filhinha, não podia mais pensar em si mesma separada dele. O que poderia fazer — já tinha quarenta anos de idade —, quem poderia ser, em um lugar estranho onde não conhecia mais ninguém, um lugar que não era de sua escolha? Tinha a fé dos sobreviventes. E a disciplina. Gorda, baixa, tingida. Pulsos grossos e lábios finos. Não há uma única tela de Jeanne, ele não estava interessado em usá-la como modelo, é claro. Mas lá está ela, em quase todas as fotografias da família desde 1940. Sempre na beirada da foto, nunca no centro, nunca confortável em uma cadeira, sempre com as roupas erradas. Você também diria que era uma governanta, ou a secretária dele. Você diria que ela não fazia parte. Você diria que nosso sangue não se misturou com o dela.

Um dia Jeanne foi à drogheria e, em vez de fazer suas compras, pediu a Domenico que encomendasse pigmentos vermelhos de uma loja de material de construção na cidade, para ela misturar com cal. — Para quê, Signora Jeanne? — Gostaria de repintar o exterior da casa. Domenico caiu na risada. — Mas não pode pintar de vermelho, Signora. Aquela casa sempre foi branca, há centenas de anos. — Não me importa. — Tem de ser uma cor clara, amarelo talvez, ou creme. Mas vermelho... — ele balançou a cabeça. — Impossível. — O senhor encomende, por favor, Domenico — disse, com aquele tom neutro de sempre, nem gentil, nem grosseiro. Domenico parou de rir e fez uma anotação. O povo da vila viu os sacos de pigmento serem entregues na casa no lombo de um burro. Eles esperaram para ver o que iria acontecer, se Lorenzo deixaria que ela fosse adiante com aquilo. Observaram a casa ser pintada de um rico vermelho profundo por uns homens que ela contratou na cidade próxima.

Casa Rossa.

As pessoas começaram a chamá-la assim, porque todas as outras casas da aldeia eram brancas ou amarelo-cremoso. Podia ser vista a milhas de distância, afundada entre as oliveiras, a cor extravagante de uma villa de Pompéia.

É um bom nome para uma casa, disse Jeanne.

Lorenzo ainda não dizia nada. Fingia não ouvi-la. Ela não ligava, não era assunto que precisasse de aprovação. Estava marcando seu território. — Aquilo foi Jeanne afogando Renée em um banho de sangue — disse meu avô muitos anos depois.

E ele ria.

Acordo antes das sete ao som de chuva e trovão. Pulo da cama e corro para fora. O céu está carregado, um vento ruim está balançando os galhos das oliveiras.

Estou sempre pronta para uma tempestade. Quando éramos pequenas, Isabella e eu amávamos esperar pelo primeiro temporal em Casa Rossa no fim do verão. Significava o fim do calor abafado, do canto incessante da cigarra, e significava que podíamos pedalar nossas bicicletas vestindo nossas suéteres azuis, das mais ordinárias, de que gostávamos tanto.

Algumas vezes Alba, entediada com a chuva, nos chamava. Estaria de pé junto à porta aberta de seu Fiat 500 vermelho, vestindo uma gola rulê preta e calças de algodão, o cabelo preso em um coque.

— Vamos dar uma voltinha? Hoje é dia de feira em Martano. Estava pensando que podíamos comprar algumas cestas.

Sabia que ela também estava inquieta. Ao fim de setembro, estávamos todas prontas para deixar Lorenzo e Jeanne para trás e voltar a Roma, à vida urbana e à escola.

Então, esta manhã, esta chuva repentina me enche de inesperada euforia. Nem sei por que estou feliz. Afinal de contas, este é o fim de todos os verões aqui para mim.

Mas hoje é quarta, dia de feira em Maglie. Como quando eu era pequena, a feira ainda muda todo dia de aldeia para aldeia na Puglia. Só que

agora, junto com a cerâmica artesanal, os queijos de cabra frescos, os resistentes lençóis bordados a mão, você encontrará infinitas fileiras de bolsas Fendi falsificadas, roupa de baixo Dolce & Gabbana e impermeáveis fosforescentes.

Pergunto-me se Andrea, o velho, ainda está vivo e ainda faz a rotina das feiras.

— Vocês nunca vão encontrar nada como isto, lembrem-se — Alba nos avisava, segurando no ar uma das cestas firmemente tecidas, girando-a, checando cada detalhe, cheirando-a. — Isso é junco selvagem, do tipo que cresce à beira-mar. Vêem como é fino? Ninguém mais trabalha com isso, garanto a vocês.

Do que mais me lembro do velho é sua voz assustadora e áspera. Estava sempre vestido com o mesmo terno puído e a boina preta. Sempre encontrávamos sua barraca no mercado aberto apinhado: era impossível não ver, com aquela pilha colorida de cestas e esteiras de palha. Ficava sempre sentado tranqüilamente enquanto observava Alba inspecionar suas cestas, suas mãos grosseiras descansando no colo. Então pegava uma da pilha, batia nela, dava uns tapinhas, mostraria como era flexível, como era finamente tecida. Nas mãos dele, a cesta ganhava vida. Os dois conversavam fiado, enquanto Isabella e eu sentávamos sobre uma pilha de esteiras cheirosas, lamentando não termos ficado em casa para pedalar nossas bicicletas nas trilhas poeirentas em torno do pátio.

No carro, de volta para casa, ela continuava a empurrar as cestas sob nossos narizes.

— Cheirem isso. Lembra tanto minha infância. — Ela apertava até que o mato duro arranhasse minhas narinas. — Deus meu, como amo esse cheiro! Mato selvagem. Você logo diz que vem do mar.

Cheiraria a cesta de novo com os olhos fechados. Ficávamos nervosas, ela fechava os olhos enquanto dirigia.

— Aquele homem é um mestre, ninguém no mundo faz cestas como ele. Quando aquele homem morrer, vocês nunca mais vão conseguir comprar nada parecido, garanto. Estas cestas vão valer uma fortuna.

Elas eram realmente bonitas, tão finas, tão macias. E cheiravam bem mesmo, especialmente na chuva. Se fecho os olhos, ainda posso recordar aquele aroma: como o mar no fim do verão. Salgado e fresco. No dia 10 de junho de 1940, um jovem empurrou sua bicicleta estrada acima até Casa Rossa, levantando uma nuvem de poeira branca. Bateu levemente na porta da cozinha e entrou segurando uma boina em suas mãos. Lorenzo e Jeanne estavam fazendo em silêncio a refeição do meio-dia.

— O que é isso? — perguntou Lorenzo.

— Stellario me mandou — disse o menino, corando. — Ele disse que o senhor tem de vir para ouvir o discurso às três horas.

— Que discurso?

— Il Duce vai fazer um discurso. Todo mundo vai para a praça às três em ponto para escutar. Eles penduraram um alto-falante num poste, para todo mundo ouvir.

Lorenzo tirou o guardanapo, virou-se para Jeanne.

— É a guerra — disse.

Todo mundo sabia que ela estava chegando, que era apenas uma questão de meses até que a Itália mergulhasse na guerra junto com Hitler, mas até o último momento todo mundo esperou que um milagre acontecesse. Às três, a aldeia inteira reuniu-se em silêncio sob o sol escaldante em frente à loja de Domenico, onde um alto-falante foi preso em um poste de eletricidade. Eles enxugavam a testa com seus lenços e olhavam em direção ao alto-falante, esperando que seus destinos fossem anunciados. A primeira coisa que ouviram saindo daquela boca escura foi um som rouco, como um rugido de leão: era o clamor da multidão saudando Mussolini enquanto ele galgava até o balcão de Piazza Venezia, em Roma. Mas ninguém estava festejando na pequena piazza da aldeia. Agora estavam todos de cabeça baixa, enquanto Mussolini pronunciava sua triunfante declaração. Lá em Salento, no sul da Puglia, a vida continuou como sempre nos anos que se seguiram, salvo pelos boletins de rádio noturnos. Comida tinha ali, tudo que você só precisava sair e pegar: figos, azeite, trigo, chicória — a folha amarga com a qual os camponeses cozinhavam suas massas caseiras —, tomates secos e feijões. Toda casa de família assava seu cheiroso pão de milho e friselle — broas secas tostadas que podiam durar meses — e fazia ricota fresca com leite de ovelha. O mercado negro prosperava, e os fazendeiros subiam ao norte para vender sua produção nas cidades onde a comida estava racionada e o povo passava fome. Azeite tornou-se mais precioso do que ouro.

Stellario e Lorenzo viram-se com um bom negócio nas mãos. Nos anos seguintes, a Puglia foi praticamente poupada do conflito. Não havia soldados, tanques, bombas. Especialmente no interior, as pessoas mal sabiam que uma guerra estava acontecendo.

Na escola primária da aldeia, havia apenas cinco crianças na turma, e freqüentemente a escola era fechada porque ninguém podia se dar ao luxo de mandar os filhos estudar em tempo integral. As famílias, especialmente naquele tempo, sempre tinham serviço para um braço extra nos campos. Quando Alba completou dez anos, ela se tornara um híbrido estranho. Mal tinha noções de geografia e história e falava aquele dialeto gutural apertado, que os aldeões lhe ensinaram. No entanto, em casa, ainda conversava com Jeanne em francês, e Lorenzo lia Homero para ela. Era diferente de todas as outras crianças que conhecia. Cresceu esquisita e temperamental. Sempre que a encontrava largada, sem ter o que fazer, Stellario levava-a em sua carroça à fazendola onde tinha suas oliveiras e seu pomar. No meio do dia, sentava-se debaixo de uma árvore, depois de ter cuidado das árvores e das plantas desde cedo de manhã, e dividia com Alba sua refeição favorita.

— Uma fatia de pão fresco, enchovas e ricota. Este é o almoço do camponês. Nada na mesa do rico é tão saboroso.

Ele ria enquanto lentamente desdobrava o lenço, pegava o pão redondo e fatiava-o com cuidado com sua grande faca de cabo de madeira. Ela olhava sua mão rude pôr uma grossa enchova em cada fatia, depois espalhar um pouco de queijo macio com cuidado. Servia a Alba sua fatia em uma folha de figo, eles mastigavam com prazer, balançando a cabeça um para o outro em sinal de aprovação a cada dentada. Era quase religioso o modo como Stellario preparava aquela fatia de pão. Ela adorava comer daquela maneira: sentada à sombra de uma oliveira, sobre sua raiz torcida, com Stellario. Tudo tinha um gosto forte e delicioso. Se ele voltava para trabalhar nos campos, algumas vezes ela o ajudava a borrifar as plantas, ou corria por ali descalça, pegando lagartos ou apanhando amoras silvestres.

— Tome cuidado com as tarântulas — Stellario advertia. — Se elas a morderem, ficará doente, como se algo cortasse você em duas. Como se tivesse engolido uma pedra.

— Mata? — Alba perguntava, olhos arregalados.

— Não, mas você vai ter de dançar por um mês inteiro para se livrar do veneno.

— Por quê?

— Porque só a música cura a mordida. Bota o veneno para fora do seu sangue. E então, no dia 29 de junho, terá de ir a Galatina, à Igreja de São Paulo, e ele vai lhe conceder uma graça e você ficará livre da tarântula para sempre. De outro modo, todo verão ele voltará para agitar seu sangue, e você vai ter de dançar de novo.

— Por quanto tempo?

— Todos os verões, por um mês. Até São Paulo em Galatina curar você para sempre, já lhe disse.

Escutara muitas histórias sobre as tarântulas. Todo verão era possível ouvir música vindo de uma casa lá longe, e sempre que se ouvia o ritmo frenético, ela veria mulheres fazendo o sinal-da-cruz diversas vezes e rezando. Adultos cochichavam; algo ruim tinha acontecido. Era a tarântula, que picara mais uma mulher trabalhando nos campos de tabaco. Quando Alba voltava para casa e perguntava sobre isso, Jeanne balançava a cabeça de novo.

— Esses camponeses, eles acreditam em qualquer coisa. É porque não tiveram instrução. Você não devia lhes dar ouvido.

Era sempre assim: fosse o que fosse que aprendera com Stellario, ela deveria descartar imediatamente uma vez de volta a casa. Há sempre duas maneiras de olhar para as coisas.

Nas tardes de verão, quando o calor ficava insuportável, Stellario deita- va-se para um cochilo rápido no furneddhu, a cabana oval de pedra que os camponeses construíam por todo o interior havia séculos. Eram pequenos montes de pedra onde podiam descansar, guardar seus instrumentos, passar a noite se o pomar ou o olival ficassem distantes demais de suas casas. As cabanas eram feitas de pedras toscas empilhadas, uma sobre a outra, nada para segurá-las além do peso. Cheirava bem lá dentro: pedra, feno e calor. No inverno, quando o tempo ficava úmido e ventoso, as pedras pareciam capazes de absorver até o mais fraco raio de luz. Algumas vezes Alba se espremeria lá dentro e deitaria no colchão de folhas de oliveira que Stellario preparara para eles. Fecharia os olhos, adormecendo em poucos

minutos, ninada por seu ronco. As folhas de oliveira estalavam sob suas costas; eram macias e secas.

Era disso que minha mãe mais se lembrava, sempre que pensava em sua infância. O contraste entre a luz berrante e o escuro, aquela súbita mudança que a cegava toda vez que entrava no furneddhu. O estalo das pequenas folhas de oliveira sob suas costas. A fatia de pão com enchova e ricota. O cheiro do junco selvagem.

A praça de nossa vila é pequena, mas como em todas as outras vilas aqui da Puglia, ainda assim tem os três elementos essenciais que fazem de uma piazza uma piazza. A igreja, o palazzo da família mais importante (normalmente, de um barão) e o café principal. Nossa igreja barroca é pequena e austera, construída em alvenaria com uma porta entalhada; o palazzo do século XVIII, despretensioso e simples (os Sanguedolce eram barões muito secundários); mas o Caffè Sport foi reformado recentemente e ficou bem chamativo. Todo aço e imitação de madeira e luzes brilhantes. Um velho de boina e macacão sentado no canto levanta a cabeça do jornal quando entro. Uma rádio de rock local berra nos alto-falantes. — Oi, Enzo. Cappuccino, por favor.

Enzo sorri e começa a ferver o leite atrás da máquina de espresso. Seus quadris estreitos balançam levemente no ritmo da música. Ele deve amar sua própria aparência, posso ver isso pela confiança que mostra movendo seu corpo atrás do balcão, como se estivesse numa pista de dança. Parece com todos os outros homens de 25 anos da face da Terra, obcecados com marcas da moda: cabelo escuro penteado para trás, bíceps explodindo sob a camiseta preta Versace, jeans apertados, um samurai de joelhos tatuado no antebraço. Põe o cappuccino espumante na minha frente. Com a espuma, desenha sempre uma pequena forma de coração bem no meio da xícara.

— Obrigada.

— Aonde você vai com esse tempo? — Ele aponta com o queixo para a chuva lá fora. Então sorri. — Que figurino.

— Um vestido velho. De minha mãe.

— Você é tão louca — diz, gozando. — São só oito da manhã, e ela parece pronta para o rock and roll.

— Estou pronta mesmo. Mas onde é a festa? Chego lá num minuto. Ele gira os olhos para o teto.

— Nem fale nisso. Cheguei em casa quatro horas atrás. Dancei a noite toda no Guendalina’s.

— Como você consegue?

— Você devia vir comigo um dia desses — diz, então debruça-se sobre o balcão e cochicha: — Vou lhe mostrar como se faz para se divertir de verdade.

— Não acho que eu tenha resistência para dançar até de madrugada. Pisca para mim travessamente e se aproxima. Posso sentir o cheiro de sua colônia cara.

— Há maneiras de se ficar acordado, se você estiver a fim. — Aposto que há. O velho lendo jornal atrás de mim tosse, e instintivamente nós nos aprumamos, como se advertidos por um policial. — Você vai à inauguração do supermercado Gulliver amanhã? — pergunta. — Onde? — Você sabe, aquele grande na auto-estrada. Tem uma festa de inauguração amanhã à noite. Todo mundo vai. — Acho que não. Sabe, odeio pensar que estejam abrindo aquela monstruosidade. Prefiro fazer minhas compras só no Domenico’s. Domenico, é claro, já morreu, mas todo mundo ainda chama a loja pelo nome dele. Seu filho assumiu o negócio com a mulher. A loja ainda é escura e malcheirosa, mas os sacos de cânhamo desapareceram, assim como as prateleiras de madeira escura, substituídas por refrigeradores e armações de alumínio brilhante. — Domenico tem só algumas coisas. — Enzo dá de ombros. — Este supermercado vai ter de tudo. Tudo que é anunciado na TV. Como na América. Sua falta de lealdade me irrita. Como pode não ver que esta feiúra está tomando conta de todos os lugares que amamos e valorizamos, não pára de engolir a paisagem lentamente, com seus estacionamentos e letreiros brilhantes? — Estou indo à feira em Maglie — digo, enquanto passo a língua para tirar de meus lábios a espuma do cappuccino. — Quero comprar uma cesta daquele velho... Andrea, acho que é o nome dele.

Ele levanta uma sobrancelha, intrigado. O velho sentado no canto lendo La Gazzetta percebe o vácuo em nosso diálogo e, prontamente, o preenche. — Andrea Sartano, o homem de Parabita — diz, com seu forte sotaque sulino. Balança a cabeça. — Está velho demais para fazer a feira. Algumas vezes, manda seu filho, mas quase não tece mais. Você pode tentar. Enzo pergunta alguma coisa a ele usando o dialeto que ainda falam na região, e que mal entendo. De repente, sua voz ganha um tom mais duro, mais masculino. Até sua linguagem corporal se modifica quando fala com o velho. Fica mais robusta. — Sei de quem você está falando — diz, voltando-se para mim. — É o velho que era dono do cinema Cleópatra. Está fechado agora, mas é lá que ele guarda suas cestas velhas, se você quiser dar uma olhada. Vá a Parabita e pergunte pelo antigo cinema. O velho intervém de novo e me dá instruções detalhadas: vá pela autoestrada, saia em Parabita, vire à direita no segundo sinal, então à esquerda de novo passando o cemitério, e depois, atrás da igreja atravessando a estrada de ferro, pegue à esquerda e você vai estar bem em frente ao cinema. Aceno e finjo que estou seguindo exatamente o que ele diz. Sempre faço isso. Por alguma razão, prefiro me perder a perguntar uma coisa duas vezes. Durante e depois da guerra, quando Alba estava crescendo aqui, poucas pessoas em volta dela sabiam ler e escrever, ou mesmo falar italiano direito — apenas o dialeto local. Mulheres vestidas estritamente de negro, elas mantinham o olhar baixo e trabalhavam os campos curvadas, em duplas, colhendo folhas de tabaco até anoitecer. Meninas de boas famílias, que não precisavam trabalhar, ficavam reclusas em casa e, se saíssem para um passeio à noite, estariam sempre acompanhadas por parentes. A única forma de divertimento eram os casos que os velhos da família contavam. As histórias eram sempre as mesmas, mas parecia que ninguém se importava de ouvi-las várias vezes de novo. Todo mundo acreditava nos mesmos mitos, em mágica, no poder das coisas invisíveis. A tradição tinha mais importância do que a educação e defendia seu terreno com todas as forças. Stellario tinha muitos filhos. Uma de suas filhas mais velhas, Rosa, era mais ou menos da idade de Alba. Tinha olhos verdes e cabelo preto cacheado, o corpo esquelético de um macaco, seus antebraços e pernas cobertos por uma leve penugem. O que Alba invejava nela particularmente eram as pequenas argolas douradas penduradas nas orelhas. Às vezes Stellario trazia Rosa a Casa Rossa em sua carroça para que ela e Alba pudessem brincar juntas no jardim. Mas Rosa era tímida demais para ser uma boa companheira de jogos. Ela fitava as roupas e sapatos limpos de Alba, olhos arregalados, pasma. Como um animalzinho que tiraram finalmente da gaiola e que não consegue dar um passo para fora. À medida que foram crescendo, passaram a se ver cada vez menos. Celeste não gostava da idéia da filha pegando os hábitos dos signori, passando tempo numa casa com tanto luxo, tão cheia de comida e sofás forrados com tecidos floridos. Em vez disso, mandava Rosa apanhar folhas de tabaco com outras meninas de sua idade. Um dia, quando Alba tinha uns dez anos, Stellario chegou de manhã cedo à Casa Rossa para falar com Jeanne. Alba observou-o à distância, seu chapéu amarrotado nas mãos, a cabeça levemente abaixada. — Chamamos os músicos — ouviu-o dizer. — Eles vão tocar até que ela bote o veneno para fora do corpo. — Bobagem — disse Jeanne. — Não posso crer que você e Celeste acreditem num negócio desses. — É a tarântula, Signora. Não pode ser outra coisa. Os médicos não sabem o que há de errado com ela. Nós até a levamos a Lecce, ao hospital grande. Ela não come e tem dores aqui — diz, tocando o estômago. — Vira para um lado e para o outro na cama o dia todo, coberta de suor. Foi picada apanhando as folhas, ela me contou. Jeanne deu de ombros, impaciente, com seu jeito costumeiramente brusco. — Se você acha isso... Então o que você quer? — Os músicos estão vindo hoje. Tenho que ir para casa e cuidar de tudo. — Tudo bem. Faça o que precisa fazer. Fique em casa hoje e amanhã, mas esteja de volta na segunda-feira. Alba agarrou o braço de Stellario antes que ele subisse na carroça para ir embora. — É Rosa? — cochichou.

Stellario fez que sim. — Leve-me a sua casa. Quero vê-la. Stellario e sua família viviam numa casa pequena, quadrada, de pedra, à beira da estrada. Ela já a vira muitas vezes mas nunca tinha entrado. Um cachorrinho amarelo maltratado sempre latia ferozmente e a assustava. Mas hoje havia muita gente do lado de fora da casa: todas as mulheres vestiam preto, muitas rezavam. E o cachorro estava sossegado. Dentro estava tudo fechado, escuro e abafado. Um aroma pungente, como de fruta fermentada. O zumbido insistente das moscas. Alho e pimentão vermelho pendurados do teto. Suor. Rosa estava deitada na cama, bem quieta mas respirando pesadamente, no maior cômodo da casa, vestindo uma roupa imaculadamente branca, como uma noiva. Parecia muito mais velha do que sua idade. Alba quase se assustou ao constatar como seus seios estavam crescidos e a forma como sua expressão tinha mudado desde a última vez em que a vira. Parecia uma mulher magra, triste. Celeste e suas duas outras filhas, todas vestidas de branco, entraram no quarto e estenderam um lençol branco no chão embaixo da cama, no centro do cômodo. Uma corda amarrada em um aro caía do teto. As pessoas começaram a entrar em silêncio, até que o cômodo ficou cheio. Todo mundo tomava cuidado para não pisar no lençol. Alba ficou com medo, mas era tarde demais. Gente demais empurra- va-a de todos os lados, estava presa numa armadilha de calor e escuridão. Então os músicos começaram. Um violino, um pandeiro e um bandolim. Rosa começou a balançar a cabeça, depois esticou pernas e braços e começou a movê-los lentamente, como se seu corpo fosse conduzido por ondas. Depois, deslizou da cama e agarrou a corda. Segurou-se nela e começou a balançar devagar, com a cabeça para baixo. Em seu vestido branco, em sua palidez, parecia que tinha sido enforcada. Subitamente, despertou desse movimento, desse transe, levantou a cabeça, agarrou a corda com força e começou a escalá-la, mantendo-a entre seus pés. Seu corpo delgado enroscava-se agilmente enquanto subia. — Está vendo, virou uma aranha — cochichou uma mulher perto de Alba. — Você sabe, quando eu tinha sua idade, vi uma mulher que tinha sido picada, ela escalava as paredes, até lá em cima no teto, e caía sem nem se machucar. Transformam-se em aranhas. Podem rastejar até onde quiserem. O ritmo se acelerou quando um dos velhos começou a cantar. O som era estridente, desagradável. Mas Alba conhecia esta música: ela a ouvira muitas vezes, sempre no verão, a estação das tarântulas. Rosa pulou da corda, aterrissou com um baque e agora estava dançando sobre o lençol. Estava se contorcendo e batendo, depois girando de gatinhas. Parecia mesmo uma aranha, arrastando-se no chão, movendo-se cada vez mais rápido. A música ficou mais alta, acelerando seu tempo. Uma velha vestida de branco veio para a frente, segurando diferentes fitas coloridas em sua mão. Agitou-as em frente a Rosa, como um toureiro incita o touro com seu pano vermelho. —A nzaccareddhe — cochichou alguém. A menina começou a se bater, contorcendo-se numa intensidade febril. Suor escorria copiosamente de sua testa, seu cabelo empapado, sua respiração, mais pesada. — Por que ela está fazendo isso? — Alba cutucou o braço da mulher ao lado dela. Agora estava com muito medo. — Ela tem que pegar da nzaccareddhe a cor da tarântula que a picou — disse a mulher. — Tarântulas vêm em cores diferentes. Você tem que saber se é uma vermelha, uma preta, uma amarela. Tem que rasgar a fita da mesma cor se quiser matar a tarântula dentro de você. Rosa jogou-se sobre a mulher e agarrou as fitas. Começou a rasgar uma com os dentes. Seus olhos ficaram brancos. Sua boca espumava. Parecia o próprio demônio. Tudo ficou preto enquanto Alba deslizava suavemente para o chão. Quando abriu os olhos de novo, estava do lado de fora, na luz brilhante. A primeira coisa que viu foi a parede caiada da casa contra o céu azul profundo. Ainda podia ouvir a música que vinha de dentro da casa. Mas estava respirando de novo e podia até sentir o cheiro doce da trepadeira de figos no calor. Vozes em torno dela cochichavam. — Vai ficar bem. Dêem água para ela. — Levem a Signorina de volta a Casa Rossa. Don Lorenzo nem sabe que ela está aqui.

— Santa Virgem! Ntoni, leve Signorina Alba para casa em sua carroça. Sentiu uma mão escorregando por trás de sua cabeça, segurando-a gentilmente, e o frescor de água de poço profundo em seus lábios. No que diz respeito a Lorenzo, a educação da filha nunca pareceu requerer uma estratégia particular. Mas Jeanne, quando Alba fez treze anos, ficou preocupada e fez seu pronunciamento: — Ela não pode crescer como uma camponesa. Precisa ver gente da mesma origem social que a sua. Para começar, Jeanne não suportava ouvir Alba falar com aquele sotaque carregado. Portanto, Alba foi mandada para uma escola particular em Lecce de forma que pudesse vir a conhecer os filhos da aristocracia sulina. Mas ela era diferente demais, uma esquisitice para a qual o estrito código de uma cidade provinciana não podia abrir espaço. Não era exatamente um sucesso com seus colegas de turma. Não surpreende que Beniamino Sanguedolce tenha sido o único amigo que conseguiu fazer. Dois cachorros perdidos que não se encaixavam em lugar algum, eles faziam um casal perfeito. Beniamino era o filho mais novo da baronesa Alearda Sanguedolce, que já tinha dado quatro filhas a seu marido e continuava rezando a Santa Catarina, padroeira da aldeia, pela graça de um filho. Quando sua quinta filha nasceu, o barão sugeriu que ela parasse de pedir, que eles se conformassem com a vontade de Deus, mas Alearda não admitia ouvir falar disso. Rezou uma última vez e prometeu doar uma coroa de ouro para ser posta na estátua da santa sempre que ela saísse da igreja para a procissão anual. Deu certo. Afinal, Alearda foi presenteada com um filho, o adorável Beniamino. Naquele ano, a estátua de Catarina saiu da igreja coroada com 22 quilates de ouro, um deslumbrante sorriso em seu rosto. Alba ia para a escola com as irmãs Sanguedolce, e Jeanne sempre a mandava para o palazzo delas para fazerem juntas o dever de casa. Alba não gostava do palazzo, achava-o gelado e mal-assombrado. Mas depois descobriu Beniamino, o irmão de quem ninguém gostava de falar. Tinham a mesma idade, cerca de doze anos. Mas ele era muito diferente daqueles meninos agitados que Alba conhecera até então. Parecia uma menina rechonchuda que simplesmente vestia o estilo errado de roupa. Era meigo, sensível, engraçado. Trancavam-se em seu quarto enquanto ele brincava com o cabelo dela, ou a vestia com as roupas da mãe, como uma boneca. Algumas vezes provava também os vestidos de baile de Alearda. Adorava Alba porque ela não ligava a mínima quando ele fazia isso. Diferente de suas irmãs chatas, ela não via nada de errado em se fantasiar. — Você devia ter nascido menina — disse-lhe uma vez enquanto ele desfilava diante dela de salto alto e quimono de seda, o rosto maquiado como um palhaço. Ele ficou aliviado ao ouvi-la verbalizar seu problema: há tempos sen- tia-se aprisionado em um corpo errado e não sabia como se libertar. Tudo por causa daquela coroa dourada. E da ganância de Santa Catarina. — Talvez eu venha a ser mulher quando ficar mais velho. Sempre posso usar uma peruca, ninguém vai notar a diferença — disse, olhando seu rosto maquiado no espelho. Parecia uma boa solução, por enquanto. Beniamino tinha duas almas: uma era da menina frívola que chutava para todos os lados para enfim se libertar, que sonhava em deixar crescer longas melenas e usar maquiagem. Mas havia nele outro lado, que Alba admirava particularmente. Podia ser sério e peremptório. Era um leitor apaixonado. Freqüentemente, ela o encontraria deitado na cama, mergulhado em um livro que descobrira na biblioteca da casa. Parecia tão absorto, esse garoto gozado com óculos de aros pretos, seus shorts justos demais em volta do bumbum redondo e das coxas gordas. Ela preferia quando ele estava assim quieto. Um dia, estavam em seu quarto, e ele lia alto uma passagem horripilante de um livro de que gostava particularmente, sobre a Revolução Francesa. Adorava personificar Charlotte Corday quando ela esfaqueia Marat na banheira. Fechou o livro e permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Tenho que lhe perguntar uma coisa. Espero que você não se importe. É sobre sua mãe — disse. — O que é? — Alba tensionou. — Minha mãe disse que eu não devia falar disso, mas não acho que você vai ligar se eu perguntar.

O coração de Alba começou a bater mais rápido, como todas as vezes que alguém mencionava o nome de Renée. — Não ligo — disse e deu de ombros, pegando o livro das mãos dele e fingindo olhar as ilustrações. — Você pode dizer sim ou não. — Ok. — É verdade que sua mãe foi espiã para os alemães? Alba ficou em silêncio. Levantou os olhos do livro e olhou para Beniamino. Não havia maldade em sua pergunta, só curiosidade. — Não sei — admitiu. A conversa foi tão inesperada, ela quase se engasgou. — Minha mãe diz que ela estava trabalhando para os nazistas durante a guerra, e que por isso teve de ir viver na Alemanha e não pôde mais voltar. — Por que não pôde? — Porque os alemães viraram nossos inimigos, scema. Porque agora, se sua mãe voltar para a Itália, eles vão matá-la. Ou raspar sua cabeça. — Por quê? Por que vão raspar a cabeça dela? — sussurrou. — É o que fazem com as traidoras. Raspam suas cabeças para que, quando andem na rua, todo mundo saiba que ajudaram os nazistas e todos possam cuspir nelas. Beniamino olhou para Alba, estudando o efeito desta informação. Viu seus olhos encherem-se de lágrimas. Isso o deixou preocupado. — Talvez não seja verdade — disse rapidamente. — Minha mãe fala um monte de coisas. — Não é verdade — disse Alba, virando a cabeça de lado para esconder dele seus olhos marejados. — Minha mãe foi para a Alemanha porque... tinha uma grande amiga lá. — Uma rica? — Beniamino perguntou. — Eu sei, minha mãe disse... — Não — Alba interrompeu com súbita energia. — Não ela. Uma outra pessoa que você não conhece. Houve uma pausa. Ela continuou a olhar o livro, como se seu interesse na conversa tivesse cessado. Beniamino ficou mal; não pretendia aborrecê-la. Sabia o que era se sentir diferente. — Odeio meus pais — disse, afinal, esperando que isso pudesse ale- grá-la. — Invejo você. Pelo menos só tem um. Jeanne não conta. — Não, ela não conta — Alba concordou. Riram um para o outro. — Eu os odeio tanto — ele enfatizou, querendo que esquecesse o assunto Renée. — Não agüento esperar para ir embora e nunca mais voltar. — Você não pode. — Alba parecia assustada com sua energia. — Tem que terminar a escola. — Não ligo para a escola. — Seu pai vai matar você. Beniamino deu de ombros.

— Nunca mais vou voltar. Você sabe, eu poderia ir para Roma, mudar meu nome, e ninguém nunca mais vai me encontrar.

— Não, você não pode ir embora — Alba disse outra vez, debilmente. Mas sabia que ele iria.

O silêncio tornara-se uma das melhores técnicas de Alba. Ela sabia como não perguntar a seu pai sobre Renée. Por um lado, odiava suas mentiras e invenções desprezíveis, por outro, temia ouvir a verdade, que poderia ser ainda pior. Simplesmente evitava toda conversa, esperando que um dia esse tema desvanecesse para sempre. Talvez parasse de se questionar sobre sua mãe e as razões de seu desaparecimento.

Mas naquele dia, depois da conversa com Beniamino, sentiu-se extraordinariamente corajosa e resoluta. Jeanne estava na cozinha, preparando o jantar, quando ela chegou.

— Venha ver, Alba — ela disse e abriu a tampa de uma grande panela onde um cozido estava fervendo. — Vamos dizer que isso é coelho, d’accord ? Seu pai odeia carneiro, mas ele vai comer se não dissermos o que é. Sempre faço isso, porque j’adore l’agneau — disse com uma risada satisfeita.

Isso era um legítimo Jeanne. Sempre preferia ter cúmplices para partilhar seus pequenos segredos. Até Jeanne, a impassível governanta, no que tocava a Lorenzo, tinha seus truques e vinganças infantis.

— É, não vamos contar a ele — disse Alba, querendo agradar. Depois, em vez de subir para seu quarto, sentou-se numa cadeira, os olhos fixos em Jeanne, que se esquecera dela completamente.

— Jeanne.

— Sim, chérie.

— É verdade que, se minha mãe voltar para a Itália, vão matá-la ou raspar sua cabeça?

Jeanne congelou, a concha da panela suspensa no ar, mas nada disse.

— Minha mãe trabalhou para os alemães? É por isso que não pode voltar?

— Quem lhe contou essa história?

— Uma pessoa na escola.

Jeanne puxou uma cadeira e sentou-se diante dela, do outro lado da mesa, olhando de soslaio.

— Bem, não sei se realmente trabalhou para... — parou e olhou em volta, para ter certeza de que ninguém estava ouvindo, e depois baixou a voz. — Você sabe, sua mãe, ela... ela era... como posso dizer...

— O quê?

— Um bocado misteriosa.

— O que você quer dizer? — Alba alarmou-se de novo.

— Bem, você sabe, ninguém conhece realmente a história de sua mãe, de onde veio, qual seu nome verdadeiro — Jeanne fez uma pausa, depois continuou. — Ela sempre alegou ter perdido os documentos.

Olhou para uma mancha em seu avental e distraidamente tentou re- movê-la.

— Nunca ficou claro com que dinheiro ela vivia antes de encontrar seu pai. Era tudo muito, muito... evasivo.

Alba concordou com a cabeça, fingindo compreender.

— E então, quando ela deixou seu pai de repente e foi para a Alemanha com aquela mulher... — Jeanne suspirou e balançou a cabeça. — Você pode imaginar o disse-que-disse, não é?

Alba concordou com a cabeça novamente. — Bem, isso afetou seu pai terrivelmente. E arruinou sua reputação, como você pode imaginar. Ele ficou arrasado. Acabou no hospital. — Mmmm... — Alba baixou os olhos.

— Não tinha muitos escrúpulos, sua mãe.

Jeanne voltou para o fogão e conferiu o cozido na panela. Resmungou alguma coisa para si mesma concernente ao estado do carneiro e apagou o fogo com um suspiro de satisfação. Alba gostaria de ter feito novas perguntas, talvez mais específicas desta vez. Gostaria de ter um sim ou não, algo definitivo que pudesse relatar de volta a Beniamino. Mas Jeanne vi- rou-se para Alba, com um dedo em riste.

— Mas você não deveria nunca mencionar nada disso para seu pai. É um assunto ainda muito, muito sensível para ele. Jamais lhe diga que você ouviu falar disso na escola, d’accord ?

— D’accord.

— Senão vai tirá-la da escola e você terá de estudar em casa. Vai ficar furioso se souber que ainda tem gente fofocando sobre isso.

Jeanne estremeceu e amarrou nos ombros, bem apertado, seu cardigã cor-de-rosa, tricotado a mão. Olhou seu pequeno relógio de pulso e foi até a porta.

— Vou subir para tirar uma soneca. Prometa que vai ficar quieta aqui embaixo. Seu pai provavelmente está dormindo no sofá da sala. Foi embora. A cozinha ficou subitamente muito silenciosa, exceto pelo gotejar intermitente da torneira na pia e as batidas do relógio na parede. Alba ficou enjoada. Não ia mencionar isso de novo. Deixava-a muito mal do estômago, não valia a pena. Ia esquecer essa conversa, fingir que nunca aconteceu. Jeanne não contava, como colocou Beniamino. Alba não confiava em nada que ela dissesse.

Afinal de contas, foi ela quem afogou Renée em tinta vermelha.

E transforma carneiro em coelho.

É claro que não era só minha família que cobria o passado com tinta: era a Itália inteira.

Os italianos afastaram-se da Alemanha de um dia para o outro e, à época em que nasceu minha geração, aquele suave movimento — aquela repentina pirueta — estava convenientemente esquecido, como se nunca tivesse acontecido. Como se tivéssemos estado sempre do lado certo. Foi assim que herdamos uma história diferente.

De acordo com todas as nossas famílias, éramos todos fervorosos antifascistas. Todos odiavam os alemães. Todos souberam todo o tempo que Hitler era um psicopata perigoso e Mussolini, um fanático violento. Todos esperaram ansiosamente ser “liberados” pelos Aliados. Cada uma de nossas famílias assegurou-se de esquecer qualquer coisa que pudesse emba- raçá-la no futuro. Todas desvencilharam-se de todo lixo do passado e o esconderam no sótão, como se nunca houvesse sido parte de suas vidas. O busto de bronze do tio que fora prefetto, as cartas do Ministério do Interior endereçadas ao pai como Camerata, as fotos dos filhos na escola vestindo a camicia nera, braços estendidos na saudação romana.

Aquela saudação rígida. Ninguém queria se lembrar disso, ou ser lembrado. Ninguém gostava disso.

Da noite para o dia, aquilo se transformara no simples V da vitória.

 


 
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