Reconhecimento
de Padrões,
de William Gibson (tradução de Fábio Fernandes; Aleph; 416
páginas; 46 reais) William Gibson é o inventor do cyberpunk,
gênero que, ao combinar informática e tramas violentas, se tornou
a vertente mais pop da ficção científica. O escritor americano
consagrou-se como um criador de histórias futuristas com o romance Neuromancer
(1984). Embora seja seu primeiro livro ambientado no presente, Reconhecimento
de Padrões ainda guarda forte teor futurista, com sua trama povoada
por criminosos tecnológicos que se deslocam entre Londres, Tóquio
e Moscou. Cayce Pollard, a heroína, é uma espécie de profetisa
do espaço virtual: ganha a vida antecipando tendências de consumo
na internet.
Leia
trecho Capítulo
01 O
Website Daquela Noite De Horror Cinco
horas de jet lag em relação a Nova York e Cayce Pollard acorda em
Camden Town como se seu ritmo circadiano interrompido fosse uma matilha de lobos
maus trotando ao seu redor. É
aquela não-hora vazia e espectral, encharcada em ondas límbicas,
o tronco cerebral reagindo de acordo, piscando exigências reptilianas inadequadas
de sexo, comida, sedação, todas as alternativas anteriores, e, falando
sério, nenhuma delas uma opção agora. Nem
sequer comida, porque a cozinha nova de Damien está tão despida
de conteúdo comestível quanto as vitrines da Camden High Street
estão vazias dos displays de seus designers. Muito bonitos, os gabinetes
superiores apresentam uma parte dianteira de laminado amarelo-canário,
os inferiores de compensado de alta densidade Appleply laqueado e sem manchas.
Muito limpa e quase inteiramente vazia, a não ser por uma caixa contendo
dois saquinhos ressecados de cereais Weetabix e umas bolsinhas soltas de chá
de ervas. Absolutamente nada na geladeira alemã, tão nova que seu
interior tem cheiro somente de frio e de monômeros de cadeia longa. Agora
ela sabe, com certeza absoluta, ao ouvir o ruído branco que é Londres,
que a teoria de jet lag de Damien está correta: que sua alma mortal ficou
a léguas de distância e está sendo rebobinada por algum cordão
umbilical fantasma seguindo a trilha já desaparecida do avião que
a levou até ali, a centenas de milhares de pés de altura sobre o
Atlântico. Almas não conseguem se mover assim tão rápido,
são deixadas para trás, e precisam ser aguardadas, no desembarque,
como bagagens que se perderam. Ela
se pergunta: isso vai ficando pior com a idade, essa hora sem nome fica mais profunda,
mais nula, e seu efeito é ao mesmo tempo mais estranho e menos interessante?
Anestesiada
ali na semi-escuridão, no quarto de Damien, debaixo de um negócio
prateado da cor daquelas luvinhas de fogão, que seus criadores provavelmente
nunca imaginaram que alguém pudesse usar para dormir. Ela estava cansada
demais para procurar um cobertor. Os lençóis entre sua pele e o
peso daquela colcha industrial são sedosos, feitos com um tipo luxuoso
de fibra, e exalam um cheiro suave de, ela deduz, Damien. Mas não é
ruim. Na verdade, não é desagradável; qualquer ligação
física com um companheiro mamífero parece um bônus a essa
altura do campeonato. Damien
é um amigo. As
pecinhas menino-menina do Lego deles não se encaixam, diria ele. Damien
tem trinta anos. Cayce é dois anos mais velha, mas ele tem um certo módulo
de imaturidade cuidadosamente fabricado com isolamento, alguma coisa tímida
e teimosa que assustava o pessoal do dinheiro. Ambos são muito bons no
que fazem, mas parece que nenhum dos dois tem a menor idéia de por que
isso ocorre. Coloque
Damien no Google e você encontrará um diretor de videoclipes e comerciais.
Coloque Cayce no Google e encontrará coolhunter, caçadora
de tendências, e se você procurar com mais atenção vai
encontrar sugestões de que ela é uma sensitiva de alguma
espécie, uma rabdomante no mundo do marketing global. Embora
a verdade, Damien diria, esteja mais próxima da alergia, uma reatividade
mórbida e às vezes violenta à semiótica do mercado.
Agora
Damien está na Rússia, evitando renovação e alegando
que está rodando um documentário. Cayce sabe que a tênue atmosfera
que o local tem hoje de ligeiramente usado é trabalho de um assistente
de produção. Ela
rola para fora da cama, abandonando a paródia sem sentido do ato de dormir.
Tateia à procura das roupas. Uma camiseta masculina pequena e preta da
Fruit of the Loom, completamente amarrotada, um pulôver cinza-clarinho com
gola em V adquirido num lote de meia dúzia das mãos de um fornecedor
de uniformes para escolas preparatórias na Nova Inglaterra e um par novo
e acima de seu tamanho de Levis 501, cada marca registrada removida cuidadosamente.
Até mesmo os botões dessa calça foram limados até
ficarem lisos, sem nenhuma marca, por um chaveiro coreano intrigado, no Village,
há uma semana. O
interruptor da luminária de chão italiana de Damien parece alienígena:
um clique diferente, projetado para conter uma voltagem diferente, uma eletricidade
britânica estrangeira. Agora
em pé, depois de vestir os jeans, ela endireita o corpo e estremece. Mundo-espelho.
As tomadas dos aparelhos eletrodomésticos são enormes, com três
pólos, para uma espécie de corrente que nos Estados Unidos só
alimenta cadeiras elétricas. Os carros são ao contrário do
lado de dentro: a esquerda fica à direita; os aparelhos telefônicos
têm um peso diferente, um equilíbrio diferente; as capas dos paperbacks
parecem dinheiro australiano. Pupilas
dolorosamente contraídas pelo brilho solar da luz halógena, ela
aperta os olhos para se enxergar em um espelho de verdade, encostado em uma parede
cinza, esperando que o pendurem, onde ela vê um boneco desconjuntado de
pernas pretas, cabelo dormido espetado para cima igual a uma escova de vaso sanitário.
Ela faz uma careta para ele, pensando por algum motivo em um namorado que insistia
em compará-la à foto de Jane Birkin nua tirada por Helmut Newton.
Na cozinha,
ela abre uma torneira que deixa a água passar por um filtro alemão
e cair dentro de uma chaleira elétrica italiana. Brinca com os interruptores,
um na chaleira, um na tomada do aparelho, outro na tomada de parede. Inspeciona
com neutralidade a vastidão amarelo-canário de gabinetes laminados
enquanto deixa a água ferver. Um saquinho de algum substituto para chá
californiano importado em uma caneca branca grande. Derrama água fervendo.
Na sala
principal do flat, ela descobre que o fiel Cube de Damien está ligado,
mas no modo sleep, o brilho de luz noturna de seus interruptores estáticos
pulsando suavemente. A ambivalência de Damien para com o design se revela
aqui: ele não admite que decoradores passem daquela porta a menos que basicamente
concordem em não fazer aquilo que eles fazem, mas ele se agarra a este
Mac pela maneira como se pode virá-lo de cabeça para baixo e remover
suas entranhas com um pequeno puxador de alumínio mágico. Como o
sexo de uma das garotas-robô em seu vídeo, agora que ela parou para
pensar no assunto. Ela
se senta na cadeira de espaldar alto da estação de trabalho dele
e clica no mouse transparente. Infravermelho piscando na madeira clara da longa
mesa armada sobre cavaletes. O browser aparece. Ela digita Fetiche:Filme:Forum,
que Damien, determinado a evitar contaminação, jamais colocará
entre seus bookmarks. A
página da frente se abre, familiar como a sala de estar de um amigo. Um
fragmento de frame do No 48 serve de fundo, escuro e quase monocromático,
sem personagens à vista. Esta é uma das seqüências que
gera comparações com Tarkovski. Na verdade, ela só conhece
Tarkovski de stills, embora uma vez tivesse caído no sono durante uma exibição
de Stalker, descendo em uma panorâmica infinita, a câmera apontada
direto para baixo, em close, em uma poça de água enlameada sobre
um piso de mosaicos arruinado. Mas ela não é uma daquelas pessoas
que acham que vão ganhar muita coisa analisando as pretensas influências
do cineasta. O culto ao filme está fervilhando com subcultos, cada qual
alegando uma influência possível. Truffaut, Peckinpah... O pessoal
do Peckinpah, que se encaixa na categoria dos mais improváveis, ainda está
esperando alguém sacar alguma arma. Então
ela entra no fórum propriamente dito, automaticamente escaneando com os
olhos os títulos dos posts e os nomes dos que postaram nos tópicos
mais novos, procurando amigos, inimigos, novidades. Mas uma coisa está
clara: não apareceu nenhum filme novo. Nada desde aquela panorâmica
da praia, e ela não é partidária da teoria de que aquilo
é Cannes no inverno. Fãs franceses do filme foram incapazes de traçar
uma correspondência com o local, apesar das incontáveis horas gravando
panorâmicas em cenários aproximadamente semelhantes. Ela
também vê que seu amigo Parkaboy está de volta a Chicago,
após férias viajando de trem pela Amtrak até a Califórnia,
mas quando abre o post dele, vê que ele está apenas dizendo oi, literalmente.
Ela
clica em Responder, declarando-se como CayceP. Oi
Parkaboy. Boa noite. Quando
volta à página do fórum, seu post já está lá.
Agora
isso é uma maneira, aproximadamente, de estar em casa. O fórum se
tornou um dos lugares mais consistentes em sua vida, como um café familiar
que existe em algum lugar fora da geografia e além das zonas de tempo.
Existem
talvez umas vinte pessoas que postam regularmente no F:F:F, e um número
muito maior, não contabilizado, de lurkers. E neste exato instante existem
três pessoas no chat, mas não há como saber exatamente quem
são até você entrar, e ela não acha a sala de chat
assim tão confortável. É estranho até mesmo com amigos,
como se você estivesse sentado em um porão escuro como breu conversando
com pessoas a cinco metros de distância. A velocidade louca e a brevidade
das linhas no tópico, além da sensação de que está
todo mundo falando ao mesmo tempo, com objetivos contrários uns aos outros,
a deixam travada. O
Cube exala um suspiro suave e faz sons subliminares com seu drive, como um carro
esporte vintage mudando de marcha em uma rodovia distante. Ela experimenta um
gole do substituto de chá, mas ainda está muito quente. Uma luz
cinza e indeterminada está começando a preencher o aposento no qual
ela está, revelando uma coleção de Damieniana que sobreviveu
ao recente remake. Robôs
parcialmente desmontados estão encostados numa das paredes, dois deles,
torsos e cabeças, como elfos, decididamente bonecos de testes de impacto.
Aquelas são unidades de efeitos de um dos vídeos de Damien, e ela
se pergunta, dado seu humor naquele momento, por que ela as acha tão reconfortantes.
Provavelmente porque são genuinamente bonitas, ela deduz. Expressões
otimistas do feminino. Nada de sci-fi kitsch para Damien. Coisas oníricas
à meia-luz do amanhecer, os peitinhos delas brilhando, o plástico
branco reluzindo de leve como mármore antigo. Mas de um fetiche personalizado;
ela sabe que ele mandou fazê-las a partir do molde do corpo de sua antepenúltima
namorada. O
Hotmail baixa mais quatro mensagens, nenhuma das quais ela tem vontade de abrir.
Uma de sua mãe, três spams. O aumentador de pênis ainda está
atrás dela, duas vezes, e também Aumente Drasticamente o Tamanho
de Seus Seios. Deleta
os spams. Toma um gole do substituto de chá. Observa a luz cinza ficando
aos poucos com mais cara de dia claro. Depois
de algum tempo, ela vai ao banheiro recém-renovado de Damien. Tem a sensação
de que é o lugar onde ela poderia tomar uma ducha antes de visitar uma
sonda esterilizada da nasa, ou como se estivesse saindo de algum cenário
de Chernobyl para ter seu traje de chumbo removido por dois técnicos soviéticos
com trajes de borracha, que então esfregariam seu corpo com escovas de
cabos longos. As torneiras do chuveiro podem ser ajustadas com os cotovelos, preservando
a esterilidade das mãos limpas. Ela
tira o suéter e a camiseta e, usando as mãos, não os cotovelos,
abre o chuveiro e ajusta a temperatura. Quatro
horas depois ela está em um reformer num estúdio de Pilates em um
beco de classe alta chamado Neals Yard, o carro e o motorista da Blue Ant
esperando na rua, seja lá qual for o nome dela. O reformer é uma
peça de mobiliário cheia de molas muito comprida e muito baixa,
ligeiramente sombria e com cara de móvel tipo República de Weimar,
sobre a qual ela se reclina agora, fazendo a posição em V contra
a barra para os pés na ponta. A plataforma acolchoada sobre a qual ela
repousa roda para a frente e para trás ao longo de trilhos de cantoneiras
de ferro dentro da estrutura, as molas rangendo suavemente. Dez assim, dez com
os dedos dos pés, dez a partir dos calcanhares... Em Nova York ela faz
isso numa academia freqüentada por profissionais de dança, mas ali
em Neals Yard, naquela manhã, ela parece ser a única cliente.
O lugar aparentemente acabou de ser inaugurado, e talvez esse tipo de coisa ainda
não seja tão popular aqui. Tem também aquela ingestão
de substâncias arcaicas do mundo-espelho, ela pensa: as pessoas fumam e
bebem como se isso fosse bom para elas, e parece que ainda estão em algum
tipo de lua-de-mel com a cocaína. Ela leu que a heroína aqui está
mais barata do que nunca, o mercado ainda está empanturrado com o dumping
inicial de carregamentos de ópio do Afeganistão. Assim
que termina nos dedos dos pés, ela passa para os calcanhares, virando o
pescoço para conferir se os pés estão alinhados corretamente.
Ela gosta de Pilates porque não é meditativo da maneira que ela
acha que o yoga é. Aqui, você precisa manter os olhos abertos e prestar
atenção. Essa
concentração contrabalança a ansiedade que ela está
sentindo agora, o nervosismo pré-trabalho que ela não vivenciava
já havia algum tempo. Ela
está ali por conta da Blue Ant. Relativamente pequena em termos de equipe
permanente, distribuída globalmente, mais pós-geográfica
do que multinacional, a agência desde o começo se anunciou como uma
forma de vida de grande agilidade em uma ecologia publicitária de herbívoros
lentos e desajeitados. Ou talvez como alguma forma de vida não baseada
em carbono, que saltou totalmente pronta da cabeça sem rugas e irônica
de seu fundador, Hubertus Bigend, um suposto belga que parece Tom Cruise depois
de uma dieta à base de sangue de virgens e chocolates com trufas. A
única coisa que Cayce gosta em Bigend é que ele parece não
ter a menor noção de que seu nome parece ridículo para todo
mundo, sempre. Caso contrário, ela o teria achado ainda mais insuportável
do que já acha. É
inteiramente pessoal, embora num grau apenas superficial. Ainda
nos calcanhares, ela dá uma olhada no relógio de pulso, um clone
coreano de um Casio G-Shock antigo, a caixinha plástica sem nenhum logotipo
com uma raspagem feita por um microabrasivo japonês. Ela tem que estar nos
escritórios da Blue Ant no Soho em cinqüenta minutos. Ela
joga um par de almofadinhas de espuma verde moles sobre a barra e posiciona os
pés cuidadosamente, levanta-os sobre sapatos de salto agulha invisíveis
e começa seu elever. |