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A Noite de Cristal, de Martin Gilbert (tradução de Roberto Muggiati; Ediouro; 328 páginas; 44,90 reais) – Nas primeiras horas de 10 de novembro de 1938, a Alemanha nazista encenou um sinistro prelúdio ao genocídio dos anos seguintes. Em todo o país, houve saques a lojas judaicas, mais de 1.000 sinagogas foram destruídas e 30.000 judeus foram presos. Cuidadosamente orquestrado pelos nazistas, o episódio entrou para a história como a Kristallnacht, a Noite de Cristal. Com base em documentos da época e no testemunho de sobreviventes, o historiador inglês Martin Gilbert – o autor da biografia oficial do primeiro-ministro inglês Winston Churchill – fez uma reconstituição minuciosa dessa noite de terror.

Leia trecho

A violência mais amplamente divulgada da Kristallnacht aconteceu em Berlim, a cidade alemã em que se baseava o maior número de correspondentes estrangeiros. "Assisti a várias manifestações antijudaicas na Alemanha durante os últimos cinco anos", escreveu Hugh Greene, correspondente em Berlim do Daily Telegraph, "mas nunca a algo tão nauseante quanto isto." Iniciado nas primeiras horas da manhã e prosseguindo "até noite adentro", o pogrom — como o correspondente o chamou — "coloca o selo final na proscrição dos judeus da Alemanha". Mulheres alemãs que repreenderam crianças que fugiam com brinquedos de uma loja judia destruída "foram cuspidas e atacadas pela turba".

Max Kopfstein tinha 13 anos de idade. "Era hábito de meu pai ir à sinagoga toda manhã", lembrou, "e depois disso ele voltava para casa para o café-da-manhã e partia para o escritório. Na manhã de 10 de novembro de 1938, papai voltou para casa muito mais cedo, contando-nos que as sinagogas de Berlim estavam em chamas. Nossa própria sinagoga, na Münchener Strasse, não tinha sido incendiada, porque ficava num pátio e havia perigo de que as chamas pudessem se alastrar para os prédios vizinhos."

O relato de Max Kopfstein continua: "Sem saber o que o dia nos reservava, não tive permissão para ir à escola, mas papai, mesmo assim, foi trabalhar, não sem antes que um código — ‘Temos visitas’ — fosse estabelecido entre nós para "Vingança das turbas alemãs contra os judeus", Daily Telegraph, 11 de novembro de 1938. adverti-lo caso os nazistas viessem à sua procura. Mamãe e eu ficamos sozinhos em casa. Algum tempo depois, a campainha tocou. Mamãe abriu a porta da frente do nosso espaçoso apartamento. Lá estavam dois agentes da Gestapo à paisana, perguntando por meu pai, Walter Kopfstein. Ela respondeu que ele estava no escritório, ao mesmo tempo fazendo-me um sinal com a mão atrás das costas. Desci as escadas pela entrada dos fundos de nosso apartamento e corri até a cabina telefônica pública na esquina, de onde telefonei para o meu pai no escritório e disse: ‘Temos visitas.’ Então, voltei para casa."

Enquanto isso, a Gestapo havia pedido à mãe de Max Kopfstein que telefonasse ao seu pai e "o mandasse vir para casa imediatamente e para não falar nada mais, o que ela fez.

Então, eles esperaram. Depois de um tempo, perguntaram a minha mãe: quantos anos tem o seu marido? Mamãe respondeu, ignoro se intencionalmente ou não, dando a data do nascimento dele "— 85" em vez de sua idade, então 53. Eles entenderam mal, achando que ele tinha 85 anos, e exclamaram: ‘Como, tão velho?’, e foram embora".

Houve outros que também escaparam por pouco em Berlim naquele dia. Hannelore Heinemann ainda não tinha completado 3 anos quando dois agentes da Gestapo apareceram

à porta do apartamento da sua família perguntando por seu pai e seu avô, que já haviam scapado para um lugar seguro. Sua mãe, Paula, disse aos agentes que nenhum dos dois estava em casa e eles se foram. Na noite seguinte, os mesmos agentes da Gestapo voltaram. Desta vez, a porteira não-judia do edifício de apartamentos os deteve na entrada. "Herr Heinemann e herr Silberstein não moram mais aqui", disse-lhes. "Acreditem na minha alavra. Só sua mulher e a filha ficaram. Por que querem perturbar uma jovem e sua filha de 2 anos? Certamente, elas não são uma ameaça ao Reich." Os homens foram embora. Em anos posteriores, Paula Heinemann contaria à sua filha: "Pessoas como Frau Müller eram uma prova positiva de que nem todo mundo na Alemanha era anti-semita e de que algumas pessoas se preocupavam com os seres humanos." Heinrich Silberstein, que havia lutado no exército alemão na Primeira Guerra Mundial, não conseguiu acreditar, quando foi avisado, poucas semanas antes, de que estava na lista de detenções da Gestapo, que tal "traição para com os judeus alemães" fosse possível. "Mas eu sou um cidadão respeitador da lei", protestou com o soldado seu ex-camarada, um funcionário público graduado não-judeu que viera avisá-lo. "Isto é um absurdo! Deve haver um engano."


 
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