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Rebeldes,
de Sándor Márai (tradução de Paulo Schiller;
Companhia das Letras; 220 páginas; 36 reais) Sándor
Márai foi um escritor bastante popular na Hungria, até
que a censura do regime comunista baniu seus livros. O autor partiu
para o exílio, em 1948, e acabaria cometendo suicídio,
nos Estados Unidos, em 1989. Redescoberta nos últimos anos,
sua obra tem uma certa tonalidade melancólica na observação
da natureza humana. Rebeldes, seu quinto romance traduzido
no Brasil, narra a convivência de quatro amigos adolescentes
em uma cidade da Europa Central, logo após a I Guerra. Em
face de uma sociedade arruinada que não consegue mais legitimar
seus valores, os garotos acabam optando pelo vandalismo e pela marginalidade.
Leia
trechos
O
filho do médico estava de cama, paralisado de cólicas.
O corpo inundado de suor, sentia-se febril. Espiava o recorte da
janela, em que o desenho angulado da rua - uma árvore, um
telhado, três janelas - se apagava lentamente. Da chaminé
em frente se alçava uma fumaça fina, retilínea.
No quarto, baixo e abobadado, os contornos eram ainda mais escuros
que na rua. Pela janela aberta se derramava o calor asfixiante do
início do verão, as lâmpadas de gás tinham
um brilho esverdeado no crepúsculo vaporoso. Às vezes,
nas noites de primavera, enquanto se resfriava, a neblina invisível
pintava de verde as luzes da rua. Na cozinha, a empregada passava
roupa e cantarolava. Refletido no painel de vidro da janela entreaberta,
crepitou num círculo em brasa o ferro de passar, como um
fósforo sulfuroso que se risca numa tábua na escuridão
- nesses momentos, a empregada rodava o caixote de ferro incandescente
sobre a cabeça. Deitado, com cólicas, ele olhava em
frente nauseado. Parecia que tinha acabado de despertar de um sonho
terrível; tudo haveria de se arranjar, bastaria acordar completamente,
entrar na vida e num estado de espírito resignado, com aplicação,
entregar-se a alguma coisa. Riu atormentado. Depois, ergueu-se devagar,
a consciência de cada membro, um a um, voltou, balançou
os pés fora da cama, percorreu o ambiente com o olhar perdido.
Arrastou-se da cama com movimentos pesados, foi até a pia,
tateou na meia-luz procurando o jarro, curvou a cabeça sobre
a bacia e umedeceu o cabelo e a fronte suados com a água
morna, parada. Pingando, meio às cegas, alcançou a
porta, às apalpadelas achou o interruptor. Sentou-se à
mesa e com a toalha felpuda começou a esfregar o cabelo,
distraído.
O
despertador tiquetaqueava sobre o criado-mudo. Eram sete horas;
já o esperavam. Tinha ficado deitado assim, imóvel,
com cólicas, durante quatro horas. Girou a cabeça
como quem trouxesse o colarinho apertado, e com o dedo entre o pescoço
e a gola aliviou a sensação desagradável. Engoliu
com dificuldade. Voltou à pia, lavou as mãos, verteu
água dentifrícia no copo, bochechou. Pela porta da
cozinha, a empregada notou a claridade no quarto do jovem e interrompeu
a cantoria. O rapaz tinha desabotoado a gola, andava para cima e
para baixo no quarto. Antes das oito, a velha não voltaria
para casa.
Havia
muito tempo, quando era criança, a velha lhe dissera que
deixaria a fortuna para ele. Na fala da velha, "a fortuna"
estava escondida num lugar seguro, onde "especuladores e agentes"
não a encontrariam. A velha odiava a bolsa de ações,
mas jamais explicara o ódio em detalhes. Na imaginação
da criança, a bolsa veio a ser uma caverna escura, cheia
de rochas na entrada, e diante dela Ali Babá e os quarenta
ladrões lutavam contra alguns homens valentes e decididos
que zelavam pelo dinheiro quase desarmados. Quando a velha discursava
sobre a fortuna, o sentido agourento das sextas-feiras também
tinha seu papel no falatório. Mencionava a fortuna com freqüência,
e numa entonação sugestiva contava às vezes
que acabava de se assegurar de que ela estava bem guardada no "lugar
seguro", Abel não teria de se preocupar com o futuro,
a fortuna seria dele e na vida nenhum mal o atingiria. Um dia, o
rapaz espiou o "lugar seguro" - uma caixa de plástico
na gaveta da pia em que a velha se lavava -, onde encontrou cartas
de crédito fora de circulação, algumas cédulas
Kossuth e bilhetes de loteria antigos. Se fosse aquilo, a fortuna
da velha de nada serviria. Parou diante do espelho, fitou desatento
o rosto amassado, voltou para a escrivaninha. O difícil era
saber, ponderou, se no seu caso dinheiro ajudaria. Talvez existam
situações em que o dinheiro, e tudo o que ele é
capaz de dar, liberdade, viagens, distanciamento, saúde,
não resolve. Sentou-se de novo à mesa. Abriu a gaveta
em que os cadernos e as páginas cheias de letras se empilhavam
em ordem. Tirou um verso ao acaso e o leu. Esquecido de tudo, leu
a meia-voz, curvado. O poema falava de um cachorro deitado ao sol.
Quando escrevera aquilo? Não lembrava.
A
empregada apareceu, parou à porta e perguntou se ele ficaria
para o jantar. Preguiçosa, apoiada no batente, as mãos
na cintura, exibia um sorriso atrevido. O estudante a examinou de
cima a baixo, deu de ombros. A empregada trouxe consigo um cheiro
corrosivo, azedo, de cozinha, cheiro rançoso alojado entre
as pregas da saia; ele torceu o nariz. Perguntou se a velha já
tinha chegado. Ela respondeu que só viria às oito.
Nesses
tempos, parecia às vezes que a cada instante vislumbrava
toda a sua vida. Era como se a transformação por que
passava preservasse na superfície tudo o que vivera; como
se ao mesmo tempo visse a infância, o pai, ouvisse a voz desaparecida
da mãe; "tia" Etelka aparecia diante dele nas mais
variadas situações. Olhou em redor surpreso. A moça
seguiu esse olhar desorientada.
O
quarto se achava num estado deplorável. O bando espalhara
tudo aos pontapés, livros rasgados no meio jaziam debaixo
da cama, um volume do Fidibusz nadava na poça grudenta
da garrafa virada de aguardente que exalava um odor adocicado, repugnante.
Uma pegada lamacenta vicejava no estofamento de uma cadeira. Havia
almofadas jogadas pelo chão. Às onze da manhã,
ele tinha feito o exame do bacharelado, e no jardim da escola esperara
os três integrantes do bando que terminaram a prova pouco
mais tarde, seguindo a ordem alfabética; depois, sem desvios,
vieram todos diretamente para a casa dele. Béla, o filho
do dono do armazém, telefonara dali ao pai para dizer que
não fora reprovado e pedir que não o esperassem para
o almoço. Tibor não mandara recado algum para sua
casa; pela notícia de que apesar do esforço evidente
havia fracassado, a mãe doente poderia esperar até
a noite ou mesmo até o dia seguinte. Naquela hora, essa questão
era tão irrelevante e contava tão pouco que nem falaram
dela. Em seis semanas teriam de vestir, contra a vontade ou não,
a roupa apropriada e - ainda que adiassem a formatura - no final
de agosto estariam livres.
Sentou-se
na cama. Olhou para a empregada. Se não fosse tão
covarde, pensou o estudante, eu a agarraria e aninharia a cabeça
nos seios dela. O sono pode curar tudo. Pena que ela esteja cheirando
a cozinha, o que não tolero por ter tido uma educação
nobre: meu avô era proprietário de terras, e meu pai
é médico e ainda exerce a profissão. Tudo tem
seu porquê. Talvez seja vergonhoso de minha parte, mas um
cheiro pode ser mais forte que a razão. É possível
que ela também não suporte o meu cheiro, como é
malcheiroso para os chineses o homem branco. Existem barreiras assim
entre as pessoas. A empregada trabalhava na casa havia um ano, e
suas curvas desconjuntadas despertavam às vezes fantasias
tentadoras; em sonhos, e nos males recorrentes secretos do menino,
era muitas vezes ideal e objeto de desejo. O rosto da mulher era
agradável, branco e suave, o coque loiro assentava-se com
graça no alto da cabeça.
A
empregada cuidou de arrumar o quarto, e ele, numa voz baixa que
não controlava, envergonhado pelo anseio infantil, pediu
um copo de leite. Tomou o leite em goles miúdos, a bebida
fresca e mansa da infância, porque havia dias tomavam vinho
e aguardente sem parar, líquidos doces e viscosos que ele
engolia numa fanfarrice muda; mas seu estômago não
os suportava nem os desejava. O leite caía bem, a bebida
do outro mundo, do mundo perdido. Foi até o armário
e, enquanto a empregada limpava o quarto e arrumava a cama, vestiu
um colarinho limpo e escovou o paletó. A empregada juntou
as cartas de um baralho espalhado debaixo da mesa; nessa hora, ele
se lembrou de que não tinha mais dinheiro. Nos vários
bolsos encontrou ao todo três coroas, que num primeiro momento
lhe pareceram incompreensíveis, pois de manhã a velha,
antes que ele saísse para o exame, lhe estendera impulsiva
uma nota de vinte. Em circunstâncias normais a quantia seria
elevada, e ele teve de pensar por um instante onde ela teria se
dissipado
Logo depois do almoço festivo da velha, começaram
a jogar ramsli, e ele perdera. Lembrava-se nebulosamente de que
nem queria jogar e, no entanto, alguém - Tibor ou Ernö?
- insistira no carteado. Amarrotou no bolso o dinheiro restante,
pediu à empregada que não o esperasse para o jantar,
pois era provável que voltasse tarde. Parou na porta, um
ás vermelho jazia atirado na soleira, pegou distraído
a carta engordurada e suja - o baralho estava sobre a mesa, desarrumado
como fora varrido pela empregada. Notou que a carta de cima era
outro ás vermelho. Estendeu dois dedos cuidadosos, examinou
bem a carta engordurada, revirou-a, comparou-a com a que pegara
no chão. De hábito, o baralho húngaro contém
apenas um ás vermelho. A despeito disso, os dois ases vermelhos
eram cartas igualmente gastas, com dobras, ensebadas, manchadas
e inspiradoras de confiança, ambas com o verso azulado. Sentou-se
à mesa e separou o baralho nas quatro cores. Encontrou mais
dois ases de paus, e dois dez verdes de ouros. No vinte-e-um, as
quatro cartas poderiam significar apostas seguras. Na maioria das
vezes, depois do ramsli passavam ao vinte-e-um. As duplicatas
não diferiam em nada das demais cartas do baralho. O trapaceiro
trabalhara com prudência, era possível que jogassem
com aquelas cartas havia meses; fosse como fosse, elas eram impecáveis.
Tinha sido ele que um dia desenterrara as cartas na escrivaninha
do pai. Era um baralho húngaro usado de muitos anos.
Enfiou
as cartas no bolso. Foi até o quarto do pai. Sabemos quando
deixamos para sempre uma paisagem, um quarto onde vivemos durante
um longo tempo. Não pensou em nada, mas na porta se deteve
e olhou para trás. Sua mãe havia morado nesse quarto
um dia. A família atravessara três gerações
na casa, e ali sempre fora o quarto das mulheres e das crianças.
Talvez por isso, entre os móveis de cerejeira clara, femininos,
elegantes, sob os arcos baixos, pairou sempre o aroma suave de doenças
infantis, de chá de camomila, de raiz de violeta, de leite
de amêndoas, cheiro de coisas de criança. Sua mãe
vivera ali por pouco tempo, talvez somente três anos; porém,
como os fortes perfumes orientais, cujos vidrinhos basta deixarmos
abertos durante um dia para que a emanação impregne
um quarto durante um ano, a lembrança da mãe também
tomava inteiramente a casa. Alguns objetos continuavam vivendo suas
vidas proibidas, o copo da mãe, a mesinha de costura, a almofada
de alfinetes - como se debaixo de uma cúpula, à parte;
mas disso não se falava nunca. Não conseguia pensar
na mãe a não ser como uma irmã mais nova, muito
frágil, e sabia que a mulher que partira cedo seguia vivendo
assim também na lembrança do pai. Olhou de novo para
o quarto onde passara a infância, onde nascera, onde a mãe
tinha morrido. Apagou a luz.
A
luz mortiça vinda da rua dava ao aposento do pai a aparência
de que pouco antes tinham levado alguém dali para o enterro
- alguém cuja lembrança os que ficaram não
ousavam tocar. Nos objetos havia certo encantamento, uma paralisia,
quase como a dos monumentos, que se apodera dos pertences pessoais
dos mortos. O pai ainda vivia e, se isso fosse mesmo verdade, nesse
instante estava de pé junto de uma mesa de operações
num hospital de campanha e serrava uma perna. Ou fumava num quarto,
acariciava a barba e tirava os óculos. Em casa, Etelka cobrira
a velha cadeira cirúrgica com uma toalha de crochê,
por reverência e gosto pela ordem, e, assim, ela também
lembrava uma cadeira de balanço fora de moda. Ele não
acendeu a luz. Ficou parado na porta, enfiou a mão no bolso
e apalpou as cartas com os dedos suados. Os jogos começaram
no Natal, quando despertara no bando a inquietação
irresponsável em que desde então viviam. Era possível
que alguém trapaceasse desde o primeiro momento; ele próprio
perdia o tempo todo. O dinheiro das aulas, as doações
da velha, as remessas ocasionais do pai, tudo. O vencedor trapaceava?
Quem sabe apenas o perdedor começasse a trapacear mais para
o fim? Viu três rostos. Fechou os olhos.
Havia
alguns dias, o pai estava de novo muito vivo. Durante a noite vinha
até sua cama e com os olhos graves e tristes se curvava sobre
ele, que dormia. É claro que todos têm pai. E todos
nascem em algum lugar. O que sabemos sobre essas coisas? Talvez,
depois que tudo passasse, e se o pai continuasse vivo, um dia, também
barrigudo e usando um bigode, ele estaria andando pela rua numa
cidade estranha e teria de parar de repente porque o pai viria em
sua direção, o rosto dele cresceria, como no cinema,
ficaria grande como se fosse sobre-humano, chegaria bem perto, abriria
os lábios enormes e diria alguma coisa, explicaria a vida
inteira numa única palavra. Às vezes é assim
que uma cidade emerge da escuridão, amanhece, clareia, vêem-se
cada vez melhor as folhas nas árvores, os portões
das casas se abrem, as pessoas saem à rua e começam
a conversar. No final, uma boca se curva sobre a outra, os olhos
se fecham desacordados.
O
quarto estava frio. Os instrumentos reluziam no armário de
portas de vidro. O pai guardava os trabalhos na gaveta de baixo,
as gravuras das transformações sofridas pelo cérebro
com a idade, sobre as quais escrevera havia muito um livro publicado
às próprias expensas. As várias centenas de
exemplares da obra ainda se espalhavam pela biblioteca. Naquela
época, pouco antes da guerra, o pai já não
atendia doentes, e o visitavam somente os três que conservara
dos velhos tempos da clínica: o juiz do tribunal de justiça,
a senhora de mais idade com a cabeça trêmula e o violinista
cigano maluco, que aparecia na hora das refeições
e entretinha os comensais com sua música. O pai tratava esses
três pacientes como se fossem da família. Os pacientes
o respeitavam. Na maioria das vezes, sentavam-se nesse quarto depois
do jantar como num encontro de parentes que se reúnem para
trocar elogios cordiais. A senhora de cabeça trêmula
e Etelka faziam crochê, o juiz sentava-se cerimonioso debaixo
do grande lustre, o olhar sério e atento, com o menino no
colo; o cigano, com o arco na mão e o violino debaixo do
braço, punha-se de pé junto do piano, meio tombado,
na pose desleixada dos artistas famosos nos cartões-postais.
Ficavam em silêncio durante horas, como se esperassem por
alguma coisa, sem dizer uma palavra, enquanto o pai remexia as gravuras,
debruçado sobre a mesa sem lhes dar nenhuma atenção.
Por volta das onze ele fazia um gesto com as mãos autorizando-os
a partir. Em resposta, eles faziam uma mesura e saíam. Durante
os encontros acontecia poucas vezes de o pai abrir a boca, e, nessas
horas, os três pacientes voltavam-se para ele com um ar respeitoso,
de uma reverência quase dolorosa; escutavam as observações,
quase sempre alguma coisa como: "Hoje fez um dia frio",
e depois, assentindo, voltavam ao mundo de suas reflexões
profundas. A senhora de cabeça trêmula asseverava,
piscando muito os olhos, que concordava com o que ouvira, e o juiz
e o cigano continuavam a meditar, com o cenho franzido, sobre o
significado maior do comentário. Sua infância tivera
muitas noites assim.
Lembrava-se
de dois episódios acontecidos naquele quarto. Um deles dormitava
por trás de todas as memórias ligadas ao pai. Deve
ter quatro ou cinco anos, está sentado no chão do
quarto e brinca. O pai entra, senta-se a seu lado no chão
e, sem nenhum aviso, começa a cantar:
Au
clair de la lune
Mon ami Pierrot
Conhece
a canção, Etelka a tinha ensinado. A boca do pai se
abre e se fecha, o rosto sorri numa careta estranha, o canto se
filtra suave pela enorme dentadura. Logo compreende que o pai deseja
reparar tudo o que houve entre eles desde o seu nascimento, o silêncio,
a solidão, a distância, todo o encantamento em que
até então viveram; com esse único gesto pretende
dissolver tudo, ao se acomodar junto dele e cantar brincando a canção
infantil. Ficou louco?, ele pensa. A voz do pai perde o ímpeto.
Ainda canta:
Non,
je ne prête pas ma plume
A un vieux savetier
Porém
depois entreolham-se em silêncio. Na praça há
uma estátua, um imenso soldado de bronze enterra a arma no
peito do tirano: para ele, é como se a estátua tivesse
saltado do pedestal e começado a correr de quatro, de uniforme
e equipamento. Vieux savetier
, repete, com a boca trêmula,
para consolar o pai; sente por ele uma compaixão infinita.
Cai no choro. O pai levanta-se devagar, vai até a mesa, remexe
os livros como se à procura de alguma coisa, percebe que
mesmo em meio às lágrimas o menino segue seus movimentos,
dá de ombros e sai apressado do quarto. Não se olham
nos olhos por muito tempo, como dois homens ligados pelo segredo
compartilhado de uma mentira vergonhosa.
Muito
mais tarde, dez anos mais tarde. O pai está sentado à
mesa, à luz da lâmpada, examinando uma gravura, quando
o rapaz entra. É começo de tarde, no inverno. Na meia-luz,
o rapaz se detém, mas o pai lhe estende a mão e acena
para que se aproxime. Grudada entre duas lâminas de vidro,
uma tela ressecada, com manchas e contornos, como o desenho do país
nas cartas geográficas. O dedo magro do pai acompanha as
linhas do mapa, palpa as ramificações, as elevações,
o dedo segue cuidadoso todas as inflexões de uma linha curva,
e onde a linha se interrompe, na borda da lâmina, bate no
vidro.
"Esta
é a minha gravura mais bonita", diz o pai.
O
rapaz sabe que o dedo do pai passeia sobre o desenho de um cérebro.
O desenho é variado, cheio de alternativas perigosas, excitantes.
Que mapa!, pensa. O pai se inclina sobre o vidro, o brilho faiscante
que ilumina o rosto dele revela um traço de curiosidade aflita,
curiosidade dolorosa, impotente - essa tensão distorce num
sorriso os contornos sempre contidos da face. O dedo do pai segue
tateando, em círculos, o ponto do desenho em que a linha
curva se rompe a partir de um nó em várias direções.
Como o geógrafo que no mapa da paisagem estranha não
se situa, como o médico que percute os segredos do corpo
do enfermo com impaciência, perdido.
"Era
um camponês ruteno", diz pensativo o pai. "Um dia
matou toda a família. Os pais, a mulher e os dois filhos.
Esta é a minha gravura mais bonita."
Curva-se
sobre a tela azulada, seca. No rosto do pai a curiosidade angustiada,
sofrida, se desfaz, o rosto se esvazia, inexpressivo, a mão
magra afasta o vidro, e os olhos se fixam em frente, sem vida. De
noite, o pai tocou violino. Tocava violino toda noite, e nessas
horas ninguém podia entrar no quarto. Depois do jantar, refugiava-se
ali e durante uma hora se debatia renitente, obstinado, com o instrumento,
do qual extraía sons torturados. O pai nunca aprendera a
tocar violino, a vergonha intensa e o pudor faziam-no resistir a
que alguém o ensinasse. Tocava mal e, o rapaz pensava, com
certa má vontade. Ele próprio sabia que sua interpretação
era um empreendimento teimoso e sem esperança. Não
tolerava que julgassem em sua presença o modo como tocava.
Essa luta reiterada, amarga, noite após noite, do pai com
o violino era como se o pai, toda noite, solitário, mas com
a ciência malevolente dos moradores da casa, se entregasse
a um sofrimento atroz e constrangedor. Nesses momentos, ele também
se trancava em seu quarto, sentava-se no escuro e, tapando os ouvidos
com as mãos, contemplava o vazio com os dentes cerrados.
Como se o pai produzisse alguma coisa vulgar e degradante. O violino
jazia jogado sobre o armário de portas de vidro onde guardava
os instrumentos.
Imaginava
a morte do pai como um deslizamento de terra. Até então
não lhe acontecera nada de especial; quando vinha de férias,
ficava mais silencioso que de hábito. Enterrou o chapéu
na cabeça, fez uma mesura para a escrivaninha como um autômato,
saiu do quarto.
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