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A Neve do Almirante, de Álvaro Mutis (tradução de Luis Carlos Cabral; Record; 210 páginas; 28,90 reais) – Nascido em 1923, o colombiano Álvaro Mutis não alcançou a fama de Gabriel García Márquez – talvez porque sua literatura não seja tão exuberante quanto a de seu compatriota e companheiro de geração. Mais contido, Mutis é ainda assim um ficcionista poderoso, como o leitor pode atestar nesse livro. A Neve do Almirante narra uma viagem de Maqroll – personagem que aparece em outros romances do escritor – num barco que sobe um rio no meio da selva amazônica. Mutis apresenta a selva como um mundo hostil, com alguns traços que beiram o grotesco. Embora tenha uma fugaz aventura erótica com uma nativa, Maqroll não consegue se entender com os índios que freqüentam o barco.

Leia trecho

Março 15

Os informes em meu poder indicavam que boa parte do rio era navegável até chegar ao pé da cordilheira, mas não é bem assim. Vamos em uma barcaça de quilha plana movida por um motor diesel que luta com asmática teimosia contra a corrente. Na proa, há um teto de lona sustentado por suportes de ferro de onde pendem redes de dormir, duas a bombordo e duas a estibordo. Quando há outros passageiros, eles ficam amontoados em metade da embarcação, sobre um piso de folhas de palmeira que protege os viajantes do calor emanado pelas placas metálicas. Seus passos ressoam no oco do porão com um eco fantasmagórico e grotesco. Paramos a todo momento para livrar o barco dos bancos de areia que se formam de repente e logo desaparecem, ao sabor da corrente. Duas das quatro redes são ocupadas por nós, passageiros que embarcaram em Puerto España; as outras duas são destinadas ao mecânico e ao prático. O capitão dorme na proa sob um guarda-sol multicolorido que ele vai girando conforme a posição do sol. Está sempre em uma semi-embriaguez, que mantém, sabiamente, ingerindo repetidas doses, de tal forma que jamais sai de um estado de ânimo em que a euforia se alterna com o torpor de um sono que nunca o vence por completo. Suas ordens não têm nenhuma relação com a trajetória da viagem e sempre nos deixam uma irritada perplexidade. "Ânimo! Coragem! Olho no vento! Vigor na luta! Fora as sombras! A água é nossa! Queimem a sonda!", e assim durante todo o dia e boa parte da noite. Nem o mecânico nem o prático dão a menor atenção a esta ladainha que, no entanto, de alguma forma os mantém despertos e alertas e lhes transmite a destreza necessária para driblar as infinitas armadilhas do Xurandó. O mecânico é um índio que parece mudo de tanto ficar calado e só se entende de vez em quando com o capitão em uma mistura de idiomas difícil de traduzir. Anda descalço, o torso nu. Usa calças jeans cobertas de graxa, amarradas sob o saliente e terso estômago; do umbigo, salta-lhe uma hérnia que se dilata e contrai à medida que seu dono se esforça para manter a marcha do motor. Sua relação com este é um caso claro de transubstanciação; os dois se confundem e convivem em um mesmo esforço: o barco deve avançar. O prático é um desses seres dotados de uma inesgotável capacidade de mimetismo; suas feições, gestos, voz e demais características pessoais foram levados a um grau tão perfeito de inexistência que nunca conseguem ficar gravados em nossa memória. Tem os olhos muito próximos do arco do nariz e só posso recordá-lo evocando o sinistro Monsieur Rigaud-Blandois de Little Dorrit [A pequena Dorrit]. Mas nem mesmo uma referência tão indelével serve por muito tempo. O personagem de Dickens se esfuma quando observo o prático. É um pássaro raro. Meu companheiro de viagem, no setor protegido pelo toldo, é um gigante louro que pronuncia algumas palavras mastigadas por um sotaque eslavo que as torna quase completamente indecifráveis. É tranqüilo e fuma sem parar os cigarros pestilentos que o prático lhe vende a um preço exorbitante. Seu destino, fico sabendo, é o mesmo que o meu: a fábrica onde se processa a madeira que descerá por este mesmo caminho e de cujo transporte supõe-se que eu me encarregue. A palavra fábrica faz a tripulação rir, mas eu não acho a menor graça e fico no desamparo de uma vaga dúvida. Uma lâmpada Coleman nos ilumina à noite; e nela se estatelam grandes insetos de cores e formas tão variadas que às vezes tenho a impressão de que alguém organiza seu desfile com um propósito didático indecifrável. Leio à luz das mechas de fio incandescente, até que o sono me derruba como uma droga repentina. A irrefletida ligeireza do duque de Orléans me ocupa por um instante e depois caio em um torpor implacável. O motor muda de ritmo a cada instante, nos mantendo em estado permanente de incerteza. Tememos que de um momento a outro pare para sempre. A correnteza se torna cada vez mais indomável e cheia de caprichos. Tudo isso é absurdo. Nunca saberei o que me levou a embarcar nesta história. Sempre acontece o mesmo no começo das viagens. Depois, vem a saudável indiferença que acaba curando tudo. Espero-a, ansiosamente.

Março 18

Aconteceu o que eu temia há tempos: a hélice chocou-se contra um fundo de raízes e o eixo que a sustenta foi torcido. A vibração se tornou alarmante. Tivemos que atracar em uma margem de areia de ardósia que exala um bafo vegetal adocicado e penetrante. Até conseguir convencer o capitão de que só endireitaria o eixo se o aquecesse, os homens passaram várias horas lutando para fazer manobras imprudentes e imprevisíveis em meio a um calor soporífero. Uma nuvem de mosquitos se instalou sobre nós. Por sorte, estamos todos imunes a esta praga, à exceção do gigante louro que suporta o ataque com olhar colérico e contido, como se não soubesse de onde vem o suplício que o acossa.

Ao anoitecer, apareceu uma família de indígenas; o homem, a mulher, um menino de uns seis anos e uma menina de quatro. Estavam todos completamente nus. Ficaram olhando a fogueira com indiferença de répteis. Tanto o homem como a mulher são extremamente belos. Ele tem ombros largos e seus braços e pernas se movem com uma lentidão que destaca ainda mais a harmonia das formas. A mulher, da mesma altura do homem, tem seios abundantes e firmes, e suas coxas terminam em pequenas cadeiras graciosamente arredondadas. Uma leve camada de óleo cobre todo o seu corpo e desvanece os ângulos das juntas e articulações. Os dois têm os cabelos cortados em forma de capacete que besuntam e mantêm sólidos com alguma substância vegetal que os tinge de ébano, e brilham com as últimas luzes do poente. Fazem algumas perguntas em sua língua que ninguém entende. Têm os dentes limados e pontiagudos e sua voz lembra o arrulho surdo de um pássaro adormecido. Já é noite quando conseguimos consertar a peça, mas ela só poderá ser colocada amanhã. Os índios capturaram alguns peixes perto da margem e foram comê-los em um canto da praia. O murmúrio de suas vozes infantis durou até o amanhecer. Fiquei lendo até conciliar o sono. À noite, o calor não cessa e, esticado na rede, penso longamente nas tolas indiscrições do duque de Orléans e em certos traços de seu caráter que se repetem em outros membros da branche cadette, sempre distintos, mas com as mesmas tendências à felonia, às aventuras galantes, ao nocivo prazer de conspirar, à avidez por dinheiro e a uma deslealdade permanente. Teria que pensar mais um pouco sobre as razões pelas quais tais constantes de conduta estão sempre, implacavelmente, presentes; elas vêm quase até os nossos dias, embora os príncipes tenham origens tão diferentes. A água golpeia o fundo metálico e plano com um borbulhar monótono e, por alguma razão que não consigo entender, consolador.


 
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