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A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares (tradução de Samuel Titan Jr.; Cosac Naify; 136 páginas; 39 reais) – O nome de Adolfo Bioy Casares (1914-1999) ficou em certa medida vinculado ao de seu amigo Jorge Luis Borges, com quem colaborou numa série policial assinada pelo pseudônimo H. Bustos Domecq. Casares, porém, é um escritor original, como prova esse seu primeiro romance, de 1940, relançado em nova tradução. Verdadeiro clássico da literatura fantástica, A Invenção de Morel narra a história de um refugiado político que busca abrigo em uma ilha do Pacífico. Lá, ele descobre uma máquina capaz de gravar e reproduzir fielmente os mínimos detalhes da realidade – os habitantes da ilha, que já morreram há anos, ainda aparentam viver ali, graças às imagens produzidas pela máquina.

Leia trecho

Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou. Trouxe a cama para perto da piscina e tomei banho até bem tarde. Era impossível dormir. Dois ou três minutos fora bastavam para converter em suor a água que devia me proteger da espantosa calmaria. De madrugada, um gramofone me despertou. Não pude voltar ao museu para buscar as coisas. Fugi pelos barrancos. Estou nos baixios do sul, entre plantas aquáticas, indignado pelos mosquitos, com mar ou córregos imundos até a cintura, percebendo que antecipei absurdamente minha fuga. Acredito que aquela gente não veio me procurar; talvez não tenham me visto. Mas sigo meu destino; estou desprovido de tudo, confinado ao lugar mais parco, menos habitável da ilha, a pântanos que o mar suprime uma vez por semana.

Escrevo isto para deixar testemunho do adverso milagre. Se em poucos dias não morrer afogado ou lutando por minha liberdade, espero escrever a Defesa perante sobreviventes e um Elogio de Malthus. Atacarei, nessas páginas, os devastadores das selvas e dos desertos; demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, da imprensa, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um inferno unânime para os perseguidos. Até agora não pude escrever nada senão esta folha que ontem eu não previa. Quantos são os afazeres na ilha solitária! Como é insuperável a dureza da madeira! Como é maior o espaço que o pássaro movediço!

Um italiano que vendia tapetes em Calcutá me deu a idéia de vir; disse (em sua língua):

– Para um perseguido, para você, só há um lugar no mun-do, mas nesse lugar não se vive. É uma ilha. Gente branca andou construindo, mais ou menos em 1924, um museu, uma capela, uma piscina. As obras estão concluídas e abandonadas.

Eu o interrompi; queria sua ajuda para a viagem. O comer-ciante seguiu em frente:

– Nem os piratas chineses, nem o barco pintado de branco do Instituto Rockefeller passam por ali. É foco de uma moléstia, ainda misteriosa, que mata de fora para dentro. Caem as unhas, o cabelo, morrem a pele e as córneas dos olhos, e o corpo vive oito, quinze dias. Os tripulantes de um vapor que fundeara na ilha estavam pelados, calvos, sem unhas – todos mortos –, quando foram encontrados pelo cruzador japonês Namura. O vapor foi afundado a canhonaços.

Mas tão horrível era minha vida que resolvi partir... O italiano quis me dissuadir; consegui que me ajudasse.

Ontem à noite, pela centésima vez, dormi nesta ilha vazia... Vendo as construções, pensava em quanto custara trazer aquelas pedras e como teria sido fácil erigir uma olaria. Dormi tarde, e a música e os gritos me despertaram de madrugada. A vida de fugitivo tornou meu sono mais leve: tenho certeza que não chegou nenhum barco, nenhum aeroplano, nenhum dirigível. Ainda assim, de uma hora para a outra, na pesada noite de verão, os capinzais da colina cobriram-se de gente que dança, passeia e se banha na piscina, como veranistas instalados há tempos em Los Teques ou Marienbad.

»

Dos pântanos de águas salobras vejo a parte alta da colina, os veranistas que habitam o museu. Por sua aparição inexplicável, poderia supor que são efeitos em meu cérebro do calor da noite passada. Mas aqui não há alucinações nem imagens: são homens de verdade, ao menos tão de verdade quanto eu.

Estão vestidos com trajes iguais aos que se usavam há poucos anos: graça que revela (me parece) uma consumada frivolidade; de todo modo, devo reconhecer que hoje em dia é muito difundido admirar-se com a magia do passado imediato.

Quem sabe por qual destino de condenado à morte eu os observo, inevitavelmente, o tempo todo. Dançam entre os capinzais da colina, ricos em cobras. São inconscientes inimigos que, para ouvir "Valencia" e "Tea for two" – um gramofone poderosíssimo os impõe ao ruído do vento e do mar –, me privam de tudo o que me custou tanto trabalho e é indispensável para não morrer, me encurralam contra o mar em pântanos deletérios.

Neste jogo de observá-los vai algum perigo; como todo agrupamento de homens cultos, devem ter às escondidas um aparato de impressões digitais e de cônsules que me remeterá, se me descobrem, mediante algumas cerimônias e trâmites, ao calabouço.

Exagero: observo com algum fascínio – faz tanto tempo que não vejo gente – esses abomináveis intrusos; mas seria impossível observá-los o tempo todo:

Primeiro: porque tenho muito trabalho; o lugar é capaz de matar o ilhéu mais hábil; acabo de chegar; estou sem ferramentas.

Segundo: pelo perigo de que me surpreendam observando-os, ou em sua primeira visita a esta zona; se quiser evitá-los, devo construir refúgios ocultos nos matagais.

Finalmente: porque há dificuldade material para vê-los: estão no alto da colina e para quem os espia daqui são como gigantes fugazes; posso vê-los quando se aproximam dos barrancos.

Minha situação é deplorável. Sou obrigado a viver nestes baixios no momento em que as marés sobem mais do que nunca. Há poucos dias veio a mais alta que já vi desde que estou na ilha.

Quando escurece, procuro gravetos e os cubro com folhas. Não me espanto em despertar no meio da água. A maré sobe por volta das sete da manhã; às vezes chega adiantada. Mas uma vez por semana há cheias que podem ser o meu fim. Riscos no tronco das árvores são a contabilidade dos dias; um erro encheria meus pulmões de água.

Sinto com desagrado que estes papéis se transformam em testamento. Se devo me resignar a tanto, farei que minhas afirmações possam se comprovar, de modo que ninguém, por me suspeitar de falsidade, julgue que minto ao dizer que fui condenado injustamente. Colocarei este informe sob a divisa de Leonardo – Ostinato rigore – e tentarei segui-la.


 
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