À
Espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee (tradução de
José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 208 páginas; 37,50 reais)
O Nobel de Literatura Coetzee traçou cáusticos retratos de
seu país natal, a África do Sul, em romances como Vida e Época
de Michael K e Desonra. Em À Espera dos Bárbaros
livro de 1980 agora reeditado no Brasil com nova tradução, depois
de anos fora de catálogo , ele optou por desenvolver seus dilemas
políticos e morais num romance alegórico, sem definir o país
em que a história se desenrola. O personagem principal é o magistrado
de uma cidade de fronteira que se omite diante da perseguição e
da tortura que seu império promove contra os "bárbaros" mas
que mesmo assim desenvolve uma relação de afeto com uma jovem bárbara.
Leia
trecho Capítulo
1 Nunca vi nada
assim: dois disquinhos de vidro presos na frente dos olhos dele com aros de arame.
Ele é cego? Dava para entender se quisesse esconder olhos cegos. Mas ele
não é cego. Os discos são escuros, parecem opacos do lado
de fora, mas dá para enxergar através deles. Ele me conta que são
uma invenção nova. "Protegem os olhos contra o brilho do sol",
diz. "O senhor ia achar bom aqui no deserto. Evitam que fiquemos apertando
os olhos o tempo todo. Dá menos dor de cabeça. Olhe." Toca
de leve os cantos dos olhos. "Sem rugas." Recoloca os óculos.
É verdade. Ele tem a pele de um jovem. "Na minha terra todo mundo
usa isto." Estamos
sentados na melhor sala da hospedaria com uma garrafa entre nós e uma tigela
de nozes. Não comentamos a razão para ele estar aqui. Ele serve
aos poderes de emergência, isso basta. Em vez disso, falamos de caçadas.
Ele me conta do último grande giro que deu, quando foram mortos milhares
de veados, porcos, ursos, tantos que uma montanha de carcaças teve de ser
abandonada a apodrecer ("O que foi uma pena"). Conto dos grandes bandos
de gansos e patos que pousam no lago todo ano em suas migrações
e dos métodos nativos de capturá-los. Sugiro levá-lo pescar
uma noite num barco nativo. "É uma experiência que ninguém
pode perder", digo; "o pescador leva tochas acesas e toca tambores em
cima da água para atrair os peixes para as redes que colocou." Ele
concorda balançando a cabeça. Conta da visita que fez a outro ponto
da fronteira, onde as pessoas comem certas cobras como especialidades, e de um
imenso antílope que matou. Desloca-se
tateando em meio à mobília estranha, mas não remove os óculos
escuros. Retira-se cedo. Está aquartelado aqui na hospedaria porque é
a melhor acomodação que a cidade oferece. Fiz os funcionários
entenderem que se trata de uma visita importante. "O coronel Joll é
da Terceira Divisão", disse-lhes. "A Terceira Divisão
é a mais importante da Guarda Civil hoje em dia." Pelo menos é
isso que ouvimos nos rumores que nos chegam atrasados da capital. O proprietário
faz um gesto de concordância, as camareiras baixam a cabeça. "Ele
tem de ficar bem impressionado conosco." Levo
meu colchonete para a plataforma, onde a brisa da noite alivia um pouco o calor.
Nos tetos planos da cidade, dá para perceber ao luar outros vultos adormecidos.
Debaixo das nogueiras da praça ainda escuto o murmúrio de conversas.
No escuro, um cachimbo brilha como um vagalume, esmorece, brilha de novo. O verão
está rodando devagar para o fim. Os pomares gemem sob sua carga. Não
vou à capital desde que era moço. Acordo
antes do amanhecer, passo na ponta dos pés pelos soldados adormecidos,
que estão se mexendo e suspirando, sonhando com mães e namoradas,
desço a escada. No céu, milhares de estrelas olham para nós.
Na verdade aqui estamos no teto do mundo. Acordar à noite, ao ar livre,
é deslumbrante. O
sentinela no portão está sentado de pernas cruzadas e dorme profundamente,
aninhando o mosquete. O quartinho do porteiro está fechado, sua carroça
parada fora. Eu passo. "Não
temos instalações para prisioneiros", explico. "Aqui não
há muito crime, e a pena é sempre uma multa ou trabalho compulsório.
Esta cabana é apenas um depósito ligado ao celeiro, como pode ver."
Dentro está abafado, com um cheiro forte. Não há janelas.
Os dois prisioneiros estão amarrados, no chão. O cheiro vem deles,
cheiro de urina velha. Chamo o guarda: "Leve estes homens para se limparem,
e depressa, por favor". Mostro
a meu visitante a penumbra fresca do celeiro. "Esperamos três mil alqueires
da terra comunal este ano. Plantamos só uma vez. O tempo tem sido muito
bom conosco." Falamos de ratos e das maneiras de controlar o número
deles. Quando voltamos à cabana, ela cheira a cinza molhada e os prisioneiros
estão prontos, ajoelhados num canto. Um deles é um velho, o outro
um menino. "Foram presos faz poucos dias", digo. "Houve um ataque
a uns trinta quilômetros daqui. O que não é comum. Normalmente
eles ficam bem longe do forte. Esses dois foram capturados depois. Dizem que não
tiveram nada a ver com o ataque. Eu não sei. Vai ver estão dizendo
a verdade. Se o senhor quiser falar com eles, eu, é claro, ajudo com a
língua." O
rosto do menino está estufado e ferido, um olho fechado pelo inchaço.
Agacho-me diante dele e toco sua face. "Escute, menino", digo no patoá
da fronteira, "queremos falar com você." Ele
não responde. "Está
fingindo", diz o guarda. "Ele entende." "Quem
bateu nele?", pergunto. "Não
fui eu", diz ele. "Já estava assim quando chegou." "Quem
bateu em você?", pergunto ao menino. Ele
não está me ouvindo. Olha por cima de meu ombro, não para
o guarda, mas para o coronel Joll ao lado dele. Viro-me
para Joll "Ele provavelmente nunca viu nada igual antes." Aponto. "Os
óculos, quero dizer. Deve pensar que o senhor é cego." Mas
Joll não sorri de volta. Na presença de prisioneiros, ao que parece,
é preciso manter uma certa postura. Agacho-me
diante do velho. "Vovô, escute aqui. Trouxemos você para cá
porque te pegamos depois de um ataque ao rebanho. Sabe que isso é coisa
séria. Sabe que pode ser castigado por isso." Ele
põe a língua para fora para umedecer os lábios. Tem o rosto
cinzento e exausto. "Vovô,
está vendo esse cavalheiro? Esse cavalheiro é uma visita da capital.
Ele visita todos os fortes da fronteira. O trabalho dele é descobrir a
verdade. É só isso que ele faz. Descobre a verdade. Se você
não falar comigo, vai ter de falar com ele. Está entendendo?" "Excelência",
diz ele. Sua voz falha; ele limpa a garganta. "Excelência, a gente
não sabe nada de roubo. Os soldados pararam a gente e amarraram. Por nada.
A gente estava na estrada, estava indo ver o médico. Este é o menino
da minha irmã. Ele está com uma ferida que não sara. A gente
não é ladrão. Mostre a ferida para as Excelências." Esperto,
com mãos e dentes o menino começa a desenrolar os trapos que envolvem
seu antebraço. A última volta, dura de sangue e pus, está
grudada na pele, mas ele levanta a beirada para me mostrar a borda vermelho-vivo
da ferida. "Tá
vendo?", diz o velho, "nada cura isso aí. Eu estava levando ele
no médico quando os soldados pararam a gente. Só isso." Retorno
com meu visitante para o outro lado da praça. Três mulheres passam
por nós, voltando do dique de irrigação com cestos de roupa
na cabeça. Olham-nos com curiosidade, mantendo o pescoço rijo. O
sol castiga. "São
os primeiros prisioneiros que fazemos em muito tempo", digo. "Uma coincidência:
normalmente não teríamos nenhum bárbaro para mostrar ao senhor.
Isso que chamam de banditismo não é coisa grande. Eles roubam uns
carneiros ou retiram uma besta de carga de uma tropa. Às vezes, damos o
troco. São quase todos gente de tribo pobre com uns rebanhos minúsculos
na beira do rio, para sua própria subsistência. Vira um modo de vida.
O velho diz que estavam indo ao médico. Pode ser verdade. Ninguém
levaria um velho e um menino doente num grupo de ataque." Tomo
consciência de que estou falando em favor deles. "Claro
que não dá para ter certeza. Mas, mesmo que estejam mentindo, que
utilidade eles têm para o senhor, gente simples assim?" Tento
controlar minha irritação com seus silêncios crípticos,
com o bobo mistério teatral dos escudos escuros que escondem olhos saudáveis.
Ele caminha com as mãos entrelaçadas diante do corpo como uma mulher. "Mesmo
assim", diz, "tenho de interrogar os dois. Hoje à noite, se for
conveniente. Vou levar meu assistente comigo. Vou precisar também de alguém
que me ajude com a língua. O guarda, talvez. Ele fala a língua deles?" "Nós
todos nos fazemos entender. Prefere que eu não esteja lá?" "O
senhor ia achar maçante. Temos procedimentos preestabelecidos a obedecer." Dos
gritos que as pessoas afirmam ter ouvido do celeiro depois, eu não ouço
nada. A cada momento daquela noite, enquanto faço o que tenho de fazer,
estou alerta para o que possa estar acontecendo, e meu ouvido está até
sintonizado para o tom de dor humana. Mas o celeiro é um edifício
sólido com portas pesadas e janelas minúsculas; fica além
do abatedouro e do moinho no lado sul. Além disso, o que foi um dia um
posto avançado e depois um forte na fronteira cresceu até se tornar
um assentamento agrícola, uma cidade de três mil almas onde o barulho
da vida, o barulho que todas essas almas fazem numa noite quente de verão,
não cessa porque em algum lugar alguém está gritando. (A
certo ponto, começo a defender minha própria causa.) Quando
vejo o coronel Joll de novo, quando ele tem tempo, puxo o assunto tortura. "E
se o prisioneiro estiver dizendo a verdade", pergunto, "mas descobre
que não acreditam nele? Não é uma situação
terrível? Imagine: estar preparado para ceder, ceder, não ter mais
nada a ceder, estar quebrado, e ser pressionado a ceder mais! E que responsabilidade
para o interrogador! Como o senhor pode ter certeza de que um homem disse a verdade?" "Há
um certo tom", Joll diz. "Um certo tom que aparece na voz de um homem
que está dizendo a verdade. Treino e experiência ensinam a reconhecer
esse tom." "O
tom da verdade! Dá para perceber esse tom na conversa de todo dia? O senhor
consegue escutar quando eu estou dizendo a verdade?" É
o momento mais íntimo que tivemos até agora, o qual ele afasta com
um pequeno aceno de mão. "Não, o senhor está me entendendo
mal. Estou falando de uma situação especial apenas, estou falando
de uma situação em que estou procurando a verdade, em que tenho
de exercer pressão para descobrir a verdade. Primeiro eu consigo mentiras,
entende—é isso que acontece—, primeiro mentiras, depois pressão,
depois mais mentiras, depois mais pressão, depois a quebra, depois mais
pressão, depois a verdade. É assim que se consegue a verdade." A
dor é a verdade; tudo o mais está sujeito a dúvida. É
isso que concluo de minha conversa com o coronel Joll, a quem, com suas unhas
que tamborilam, os lenços roxos, os pés finos em sapatos macios,
fico imaginando de volta à capital pela qual ele está obviamente
tão impaciente, cochichando com os amigos nos corredores do teatro entre
os atos. (Por outro lado, quem sou
eu para afirmar minha distância dele? Bebo com ele, como com ele, mostro-lhe
os lugares, presto-lhe toda a assistência que a carta de comissionamento
dele requer, e mais. O Império não exige que seus súditos
amem uns aos outros, simplesmente que cumpram seu dever.) |