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Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov (tradução de Jorio Dauster; Companhia das Letras; 466 páginas; 58 reais) – O russo Vladimir Nabokov (1899-1977) publicou seus primeiros livros em seu idioma natal, mas, graças a obras como Lolita, consagrou-se como um dos grandes estilistas da língua inglesa. Ada ou Ardor é um dos romances mais elaborados desse mestre dos jogos literários. O livro é uma paródia de crônica familiar que se passa na Antiterra, um planeta onde Rússia e América são lugares contíguos, sem um oceano a separá-los. No centro da história, há um trágico caso de amor incestuoso. O apêndice do livro traz notas de uma tal Vivian Darkbloom, uma brincadeira do autor: o nome é um anagrama de Vladimir Nabokov.

Leia trecho

Capítulo 1

"Todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes; todas as famílias infelizes são mais ou menos semelhantes", disse um grande escritor russo no início do famoso romance Anna Arkadievitch Kariênina (transfigurado em inglês por R. G. Stonelower, Editora Mount Tabor, 1880). Essa afirmação tem pouca ou nenhuma relação com o que será relatado aqui, a crônica de uma família cuja primeira parte talvez esteja mais próxima de outra obra de Tolstói, Diétstvo i Ótrotchestvo (Infância e pátria, Editora Pontius, 1858).

A avó materna de Van, Daria ("Dolly") Durmânov, era filha do príncipe Peter Zemski, governador de Bras d’Or, uma província norte-americana no Nordeste de nosso grande e variegado país. O príncipe se casara em 1824 com Mary O’Reilly, uma socialite irlandesa. Dolly, filha única do casal e nascida em Bras, casou-se em 1840, no frescor indócil de seus quinze anos, com o general Ivan Durmânov, comandante do Forte de Yukon e pacífico proprietário rural. Ele possuía terras nos Severn Tories (Siéviernia Territóri), o protetorado composto de pequenas tesselas que muitos ainda chamam carinhosamente de Estócia "russa" e que se funde, orgânica e granoblasticamente, com a Canádia "russa", também conhecida como Estócia "francesa", onde colonos não apenas franceses, mas também macedônios e bávaros, desfrutam de um clima aprazível sob as estrelas de nossa bandeira.

No entanto, a propriedade favorita dos Durmânov era Raduga, próxima do vilarejo de igual nome e já fora das fronteiras da Estócia, pois se situava na vertente atlântica do continente, entre a elegante Kaluga, em New Cheshire, EUA, e a não menos elegante Ladoga, no Mayne. Lá ficava a residência citadina dos Durmânov, e nela haviam nascido seus três filhos: um homem, que morreu jovem e famoso, e duas gêmeas bem difíceis. Dolly herdara não só a beleza e o temperamento de sua mãe, mas também, graças a fortes traços ancestrais, um gosto excêntrico e não raro deplorável, de que eram exemplo os nomes que deu a suas filhas: Aqua e Marina. ("Por que não Tofana?", perguntou o bom e muitas vezes corneado general com um risinho contido, seguido da falsa tosse que significava ter sido encerrada de vez a gracinha, pois ele morria de medo dos acessos de ira da esposa).

Em 23 de abril de 1869, enquanto uma chuvinha quente parecia encobrir com um véu diáfano a verdejante Kaluga, Aqua, com vinte e cinco anos e sofrendo de sua habitual enxaqueca primaveril, casou-se com o descendente de uma velha família anglo-irlandesa, Walter D. Veen, um banqueiro de Manhattan que por longo tempo mantivera, e em breve voltaria a manter (ainda que de forma intermitente), uma tórrida relação amorosa com Marina. A própria Marina, em algum dia do ano de 1871, casou-se com o primo em primeiro grau de seu primeiro amante, também chamado Walter D. Veen, tão rico quanto o outro, porém bem mais enfadonho.

O "D" no nome do marido de Aqua substituía a palavra Demon (uma forma de Demian ou Dementius), e assim o chamavam seus familiares. Em sociedade, era geralmente conhecido como Raven Veen ou simplesmente Walter Moreno, para distingui-lo do marido de Marina, Walter Durák ou simplesmente Veen Vermelho. O duplo passatempo de Demon consistia em colecionar velhos mestres e jovens amantes. Ele também apreciava trocadilhos de idade intermediária.

A mãe de Daniel Veen pertencia à família dos Trumbell, e ele estava sempre pronto a explicar detalhadamente — a menos que um especialista em chatos conseguisse desviá-lo do assunto — como, no curso da história norte-americana, um "bull" (touro) inglês se transformara num "bell" (sino) da Nova Inglaterra. Sabe-se lá como, aos vinte e poucos anos Daniel se interessara pelos negócios e, com uma desenvoltura que não lhe era nem um pouco característica, se havia transformado num marchand de arte em Manhattan. Não tinha — ao menos no início — nenhum gosto pela pintura, nenhuma aptidão pelo comércio e nenhuma necessidade de submeter aos azares de um "emprego" a sólida fortuna que herdara de uma série de Veens bem mais competentes e ousados do que ele. Confessando-se não muito chegado à vida no campo, passava apenas alguns fins de semana de verão (e assim mesmo cuidadosamente protegido do sol) na sua magnífica mansão em Ardis, perto de Ladore. Desde a infância, somente algumas vezes revisitara outra propriedade rural que possuía ao norte, no lago Kitej, perto de Luga. Na verdade, quase toda a área da propriedade era tomada por uma imensa massa d’água estranhamente retangular, embora seu formato fosse obra exclusiva da natureza. Certa feita, uma perca cronometrada por Daniel havia levado meia hora para cruzar na diagonal o lago, que também pertencia a seu primo, grande pescador na juventude.

A vida erótica do pobre Dan não era nem bela nem complicada, mas, de alguma forma (bem cedo se esquecera das circunstâncias precisas, assim como a gente se esquece das medidas e do preço de um sobretudo feito com todo o capricho e usado vez por outra durante uns dois invernos), ele se havia apaixonado comodamente por Marina, cuja família conhecia desde quando os Durmânov ainda possuíam a mansão de Raduga, vendida mais tarde para o sr. Eliot, um comerciante judeu. Certa tarde, na primavera de 1871, propôs casamento a Marina no elevador do primeiro edifício de dez andares construído em Manhattan; como sua proposta foi rejeitada com indignação no sétimo andar (Brinquedos), ele desceu sozinho e, para esfriar a cabeça, iniciou um périplo triplo em volta do mundo na direção contrária à de Fogg, retomando a cada vez, como se fosse um paralelo vivo, o mesmo itinerário. Em novembro de 1871, enquanto fazia planos para a noite com o mesmo cicerone que já contratara duas vezes (um sujeitinho meio fedorento mas simpático, vestindo um terno cor de café-com-leite) no mesmo hotel de Gênova, recebeu um aerograma de Marina (retransmitido por seu escritório de Manhattan com uma semana de atraso devido ao engano de uma secretária novata, que o havia arquivado no escaninho re amor). A mensagem, entregue numa salva de prata, dizia que Marina se casaria com ele tão logo retornasse à América.

Dentre outros velhos papéis que haviam sobrevivido no sótão da Mansão de Ardis, um jornal (que recentemente começara a publicar na seção de histórias em quadrinhos o há muito extinto "Boa Noite, Crianças", com o adorável casal de irmãos Nicky e Pimpernella que dividia uma cama bem estreita) informava em seu suplemento dominical que o matrimônio que unira as famílias Veen e Durmânov tinha sido celebrado no dia de Santa Adelaide, em 1871. Doze anos e uns oito meses depois, duas crianças nuas — um menino moreno queimado de sol, uma menina de cabelos negros e pele muito clara —, inclinando-se sobre caixas empoeiradas no feixe de sol quente que varava a lucarna da água-furtada, cotejaram essa data (16 de dezembro de 1871) com outra (16 de agosto do mesmo ano) anacronicamente garatujada na letra de Marina no canto de uma fotografia tirada por algum profissional. Enquadrada numa moldura de pelúcia cor de framboesa e exposta sobre a escrivaninha na biblioteca de seu marido, essa fotografia era idêntica à reprodução estampada no jornal em todos os detalhes — inclusive no indefectível movimento do véu ectoplásmico da noiva, parcialmente enfunado por uma brisa que vinha do interior da catedral e soprava obliquamente através das calças do noivo. Uma menina nasceu no dia 21 de julho de 1872 em Ardis, residência de seu suposto pai no condado de Ladore, e por alguma obscura razão mnemônica foi registrada com o nome de Adelaida. Outra filha, dessa vez realmente de Dan, nasceu em 3 de janeiro de 1876.

Além desse velho recorte ilustrado da Kaluga Gazette (ainda presente nas bancas, mas bastante gagá), nossos travessos Pimpernel e Nicolette encontraram no mesmo sótão um baú de metal que continha (segundo Kim, o ajudante de cozinha de quem se falará mais tarde) um volume enorme de microfilmes trazidos de suas viagens pelo globetrotter, com curiosos bazares, querubins exageradamente pintados e garotos no ato de urinar reaparecendo três vezes em lugares diferentes e em diferentes tons heliocrômicos. Naturalmente, no momento em que seu dono estava constituindo uma família, não ficava bem exibir certas tomadas de interior (tais como as cenas grupais em Damasco, em que ele aparecia no papel principal ao lado do arqueólogo de Arkansas, que não largava o charuto e revelava uma cicatriz fascinante na região do fígado, assim como as três prostitutas gordas e a ejaculação precoce do velho Archie, saudada com palmas brincalhonas pelo terceiro membro masculino da troupe, um simpático inglês). No entanto, a maior parte dos filmes, acompanhados de notas puramente factuais (nem sempre fáceis de achar devido à colocação errônea ou aleatória dos marcadores enfiados nos numerosos guias de viagem espalhados por toda parte), foi mostrada diversas vezes por Dan a sua jovem esposa durante a instrutiva lua-de-mel que passaram em Manhattan.

A melhor descoberta das duas crianças, entretanto, surgiu numa caixa pertencente a uma camada ainda mais remota do passado. Tratava-se de um pequeno álbum verde em que Marina havia colado com cuidado as flores que colhera ou ganhara em Ex, uma estação de férias nas montanhas perto de Brig, na Suíça, onde ela passara alguns meses antes de se casar, a maior parte do tempo num chalé alugado. As primeiras vinte páginas eram enfeitadas com diversas plantinhas colhidas ao acaso, em agosto de 1869, nas colinas cobertas de grama acima do chalé, ou no parque do Hotel Florey, ou no jardim do sanatório vizinho ("minha nusshaus", como o chamava a pobre Aqua fazendo um jogo de palavras com "nut house" — hospício —, enquanto Marina, mais contida, o identificava em suas anotações da localidade como "the Home" — a Casa). Essas páginas iniciais não apresentam grande interesse botânico ou psicológico, e as últimas cinqüenta permaneceram em branco; mas a parte do meio, com uma notável redução no número de espécimes, revelou-se um verdadeiro melodrama interpretado pelos fantasmas das flores mortas. Os espécimes estavam colados na página do lado esquerdo do álbum, com as notas de Marina Dourmanoff (sic) do lado direito.

Aqüilégia azul dos Alpes, Ex-en-Valais, 1.IX.69. De um inglês hospedado no hotel. "Columbina alpina, a cor de seus olhos."

Pilosela (Hieracium auricula), 25.X.69, Ex, ex do jardim alpino murado do dr. Lapiner.

Folha dourada (ginkgo): caída de um livro, A verdade sobre a Terra, que Aqua me deu antes de voltar para a Casa. 14.XII.69.

Edelvais artificial trazida por minha nova enfermeira com um bilhete de Aqua dizendo que a flor havia sido retirada da árvore de Natal "mizernoe e estranha" da Casa. 25.XII.69.

Pétala de orquídea, uma das 99 orquídeas (imagine!) enviadas ontem para mim, por entrega especial, c’est bien le cas de le dire, da Villa Armina, Alpes Marítimos. Separei dez para serem levadas a Aqua na Casa. Ex-en-Valais, Suíça. "Está chovendo na bola de cristal do Destino", como ele costumava dizer. (Data apagada.)

Genciana-dos-jardins, rara, trazida pelo lápotchka (querido) Lapiner de seu "gentiarium mudo". 5.I.1870.

[mancha de tinta azul com o formato acidental de uma flor, ou tentativa de cobrir alguma palavra embelezando o borrão com uma caneta hidrográfica] Compliquaria compliquata var. aquamarina. Ex, 15.I.70.

Flor de papel, encontrada na bolsa de Aqua, Ex, 16.II.1870, feita por um paciente da Casa, à qual ela não mais pertence.

Genciana vernal. Ex, 28.III.1870, no gramado do chalé de minha enfermeira. Último dia aqui.

Os dois jovens descobridores desse estranho e repugnante tesouro assim o comentaram:

"Deduzo", disse o garoto, "três fatos principais: que Marina, ainda solteira, e sua irmã Aqua, já casada, passaram o inverno no meu lieu de naissance; que Marina tinha, pour ainsi dire, seu próprio doutor Krolik; e que as orquídeas foram mandadas por Demon, que preferia ficar perto do mar, sua bisavó azul-escura."

"Posso acrescentar", disse a garota, "que a pétala pertence à bem conhecida orquídea-borboleta, que minha mãe era ainda mais louca que sua irmã e que a flor de papel, desprezada de forma tão arrogante, é uma reprodução perfeitamente reconhecível das sanículas que brotam no princípio da primavera e que eu vi em profusão nas colinas da costa da Califórnia em fevereiro do ano passado. O doutor Krolik, nosso naturalista local a quem você, Van, se referiu, tal como Jane Austen poderia fazê-lo, para tornar o relato mais rápido (você se lembra de Brown, não é, Smith?), identificou o exemplar que eu trouxe de Sacramento para Ardis como um Bear-Foot (Sanícula pé-de-urso), B, E, A, R, meu querido, e não bare foot (pé nu), como o meu, o seu ou o da Semeadora de flores estabiana — uma alusão que teu pai (que segundo Blanche também é meu pai) entenderia assim" (estalando os dedos no estilo norte-americano). "Você vai me agradecer", ela continuou, abraçando-o, "por eu não ter mencionado o nome científico da flor. Aliás, o outro pé — o pé-de-leão (edelvais) proveniente do triste pinheirinho de Natal — foi feito pela mesma pessoa, possivelmente um jovem chinês muito doente que saiu da Universidade de Barkley direto para a Casa."

"Muito bem, Pompeianella! A que você viu semeando flores num dos livros de arte do tio Dan, eu tive a oportunidade de apreciar diretamente num museu de Nápoles no último verão. E agora, garota, você não acha que devemos vestir nossos calções e camisas e descer para enterrar ou queimar este álbum imediatamente? Vamos?"

"Vamos", respondeu Ada. "Destruir e esquecer. Mas ainda temos uma hora antes do chá."

Voltemos à referência à "avó azul-escura", que ficou lá atrás sem explicação. Um antigo vice-rei da Estócia, o príncipe Ivan Temnossíni, pai da trisavó das crianças, a princesa Sófia Zêmski (1755-1809), e descendente direto dos soberanos de Iároslav dos tempos pré-tártaros, tinha um sobrenome milenar que significa em russo "azul-escuro". Van era imune às fortes emoções que muitos sentem com relação a suas origens ancestrais, além de indiferente ao fato de que os tolos atribuem ao esnobismo tanto o desinteresse quanto o fervor provocados por esses laços; todavia, não podia deixar de sentir um certo prazer estético ao entrever o pano de fundo aveludado que, como um céu de verão confortador e onipresente, se estendia por trás dos ramos negros de sua árvore genealógica. Entrado em anos, ele nunca mais pôde reler Proust (como nunca mais foi capaz de degustar a goma perfumada de um doce turco) sem que lhe subisse do estômago uma onda de náusea, um travo cortante de azia. E, apesar disso, sua passagem favorita continuava a ser aquela relativa ao nome "Guermantes", cujo tom purpúreo se mesclava em seu prisma mental com o vizinho tom ultramarino, espicaçando agradavelmente a vaidade artística de Van.

Palavras coloridas, prisma mental? Mais um ataque de sinestesia? (nota feita à margem na caligrafia de Ada Veen em anos recentes).


 
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