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City, de Alessandro Baricco (tradução de Roberta Barni; Rocco; 316 páginas; 38,50 reais) – Alessandro Baricco é uma das figuras mais festejadas da literatura italiana atual. Além de escrever obras de sucesso, ele faz barulho como agitador cultural: é ator, dono de livraria e promove cursos de incentivo à leitura em sua terra, Turim. City, seu mais recente romance, gira em torno de dois personagens. De um lado está um garoto tido como gênio precoce. Enquanto padece nas mãos de professores ambiciosos, ele divide sua solidão interior com dois amigos imaginários. Na outra ponta está uma telefonista que cultiva certas manias, como a de criar histórias de faroeste. O encontro da dupla é o ponto de partida para aventuras nada convencionais pelas ruas de uma cidade imaginária.

Leia trechos do livro

Prólogo

- Então, senhor Klauser, Mami Jane tem de morrer?
- Vão todos à merda.
- Isso é um sim ou um não?
- O que o senhor acha?
Em outubro de 1987, a CRB - há 22 anos editora das aventuras do fabuloso Ballon Mac - decidiu lançar uma enquete entre seus leitores para estabelecer se era o caso de "matar" Mami Jane. Ballon Mac era um super-herói cego que durante o dia era dentista e à noite lutava contra o Mal graças aos poderes muito peculiares de sua saliva. Mami Jane era sua mãe. Os leitores, em geral, tinham muito carinho por ela: colecionava velhos escalpos índios e à noite exibia-se, como baixista, num conjunto de blues totalmente composto por negros. Ela era branca. A idéia de fazê-la ter um troço fora do diretor comercial da CRB - um senhor muito tranqüilo que tinha uma única paixão: trenzinhos elétricos. Dizia que Ballon Mac estava num trilho morto, e precisava de novas motivações. A morte da mãe - atropelada por um trem quando estava fugindo da perseguição de um ferroviário paranóico - o transformaria numa mistura letal de raiva e dor, ou seja, no retrato cuspido e escarrado de seu leitor médio. A idéia era idiota. Mas o leitor médio de Ballon Mac também era.
Assim, em outubro de 1987, a CRB esvaziou uma sala do segundo andar e colocou lá dentro oito mocinhas com a tarefa de atender o telefone e coletar a opinião dos leitores. A pergunta era: Mami Jane tem de morrer?
Das oito mocinhas, quatro eram funcionárias da CRB, duas haviam sido mandadas pelos serviços sociais, uma era sobrinha do presidente. A última, uma moça de uns trinta anos que era de Pomona, estava ali com um contrato de estagiária que tinha ganho respondendo corretamente a um concurso radiofônico ("O que é que Ballon Mac mais odeia no mundo?" "Fazer a remoção do tártaro"). Sempre andava por aí com um gravadorzinho. De vez em quando o ligava, e dizia umas coisas para dentro dele.
Chamava-se Shatzy Shell.
Às 10:45h do décimo segundo dia de enquete - quando a morte de Mami Jane estava ganhando por 64 a trinta (os 6% restantes achavam que todos tinham de ir tomar no cu, e até tinham telefonado para dizer isso) - Shatzy Shell ouviu o telefone tocar pela vigésima primeira vez, escreveu no formulário que estava à sua frente o número 21, e atendeu. Seguiu-se a seguinte conversa:
- CRB, bom-dia.
- Bom-dia, Diesel já chegou?
- Quem?
- Ok, ainda não chegou...
- Aqui é a CRB, senhor.
- Sim, eu sei.
- Deve ser engano.
- Não, não, está tudo bem, agora ouça.
- Senhor.
- Pois não?
- Aqui é a CRB, é a enquete "Mami Jane tem de morrer?".
- Obrigado, sei disso.
- Então por gentileza, qual o seu nome?
- Meu nome não interessa...
- Tem de me dar, é a praxe.
- Ok, ok... Gould... meu nome é Gould.
- Senhor Gould.
- É, senhor Gould, agora, se eu puder...
- Mami Jane, tem de morrer?
- Como?
- O senhor deveria me dizer o que acha se Mami Jane
tem de morrer ou não.
- O céus
- O senhor sabe, não?, quem é Mami Jane?
- Claro, claro que sei, mas...
- Veja, o senhor teria de me dizer apenas se acha que
- Quer me ouvir um instante?
- Claro.
- Olhe, faça-me um favor, dê uma olhada à sua volta.
- Eu?
- É.
- Aqui?
- É, aí, na sala, faça-me esse favor.
- Ok, estou olhando.
- Muito bem. Por acaso está vendo um moço de cabeça raspada segurando pela mão um cara muito grande, mas grande mesmo, uma espécie de gigante, com uns sapatos enormes, e um casaco verde?
- Não, acho que não.
-Tem certeza?
- Tenho certeza.
- Muito bem. Então ainda não chegaram.
- Não.
- Está bem, então quero que saiba de uma coisa.
- O quê?
- Aqueles dois não são maus.
- Não?
- Não. Quando chegarem vão começar a quebrar tudo,
e com toda probabilidade vão pegar seu telefone e vão enrolá-lo em seu pescoço, ou coisas do tipo, mas não são garotos ruins, não mesmo, só que...
- Senhor Gould?
- Pois não?
- O senhor se incomodaria de me dizer quantos anos tem?
- Treze.


 
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