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Anônimo Célebre, de Ignácio de Loyola
Brandão (Global; 380 páginas; 39 reais) Em
seu novo livro, o autor de O Verde Violentou o Muro e Veia
Bailarina debruça-se sobre um tema atualíssimo:
a indústria da fama. Embora seja sósia de um ator
famoso, freqüente as melhores festas e siga a cartilha das
celebridades, o protagonista não consegue desfrutar a mesma
projeção do artista com quem se parece. Isso é
motivo para angústias e reflexões sobre um tempo calcado
em aparências. Brandão não conta a história
de maneira linear, quebrando-a em vários fragmentos saborosos
muitos com cenas lúbricas. A literatura brasileira
não produziria algo melhor.
Leia
trechos do livro
Prólogo
É
delicioso não ser normal. Não ser homem comum.
Não ter bom-senso.
Não ser equilibrado, cheio de decoro, fiel às posturas.
Portanto, estúpido. Néscio.
Não ser sensato (existe palavra pior?), portanto patola.
Beócio.
Não ser igual. Destacar-me da gentalha (rima com merdalha)
que vive o cotidiano prosaico, doentio. Vocês lêem que
os não normais, os famosos, os célebres, os mitos
sofrem. São angustiados. Pagam um preço alto! Não
vale a pena! Ressentimentos.
Vontade de rir. Gargalhar.
Sofremos diferente. Sofremos com prazer. As pessoas seguem pela
mídia nossas angústias, depressões, melancolias,
enxaquecas, dores-de-corno, tristezas, infelicidades, doenças
e dores.
Lêem os jornais e ficam solidárias, é bonito.
Ao mesmo tempo, existe satisfação ao ver que o célebre,
o famoso, o ídolo está sofrendo, deprimido, arruinado,
falido, fodido, decadente.
Uns querem que a gente morra, saia do caminho. Eu mesmo tenho essas
intenções quando leio sobre competidores que fazem
sucesso.
O que interessa se me procuram pela minha fama, celebridade?
Não tenho complexo, não me neurotizo. Nem vou ao terapeuta.
Importa que me procurem e me idolatrem.
Não peço que gostem de mim, nem que me amem. Não
precisa. Apenas que me olhem como celebridade, me reconheçam,
admirem.
Invejem, respeitem, fiquem com ciúme, putos porque sou o
que sou e vocês não são ninguém. Nada.
Pó. Partícula. Corpúsculo. Borrifo.
Quantos milhões não têm ninguém, absolutamente
ninguém que as procurem? Conceitos de solidão e felicidade
devem ser transformados, reciclados.
Sofre-se mais sendo anônimo.
Pode ser impossível ao célebre sair à rua,
ir ao bar, comer tranqüilo no restaurante, entrar na loja,
passear no shopping (qual é mesmo o shopping que me paga
para passear nele?), ir ao cinema, ao show, ao teatro.
Pior é sair à rua e ninguém te conhecer, saber
quem você é.
Ninguém olhar com curiosidade, pedir autógrafo, o
número do telefone, não receber nenhuma cantada, nenhum
beijo, não ser apontado, observado com inveja e admiração,
com Curiosidade. Não ser seguido, nem fotogrado com essas
câmeras de R$ 1,99 feitas para turistas.
Sair à rua incógnito? Melhor não ter nascido,
é a mesma coisa!
O olhar dos outros é que me confere a identidade, me dá
a certeza: sou, existo, estou.
É agradável ser visto, reconhecido, é a mola
mestra de minha vida.
Ser amado e odiado, porque há os que me detestam, me odeiam,
os que gostariam de cuspir em mim.
Algum ídolo já recebeu uma cusparada em cheio, de
uma boca repleta de catarro?
Como é isso?
Perceber que naquela escarrada está toda a raiva pelo seu
sucesso, fama.
Quem cospe é verme, larva, microorganismo.
Inseto que pode ser esmagado.
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