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O
que Eu Amava,
de Siri Hustvedt (tradução de Sonia Moreira; Companhia
das Letras; 510 páginas; 49,50 reais) – Professor universitário
de história da arte, Leo Hertzberg já está
ficando cego quando decide escrever sobre seu envolvimento com o
pintor William Wechsler, que ele conheceu nos anos 70. Os dois viveram
no mesmo prédio, em Nova York, e tiveram filhos pela mesma
época. A princípio uma tranqüila história
de amizade, a narrativa aos poucos vai desvelando um segredo perturbador.
Mulher do escritor Paul Auster, a poeta e romancista Siri Hustvedt
estará com o marido no Brasil nesta semana, participando
da segunda edição da Festa Literária Internacional
de Parati. O que Eu Amava é seu primeiro livro lançado
no país.
Leia
trecho
UM
Ontem,
encontrei as cartas que Violet escreveu para Bill. Estavam escondidas
entre as páginas de um dos livros dele, de onde escorregaram
e caíram no chão. Embora eu já soubesse da
existência dessas cartas fazia anos, Bill e Violet nunca me
contaram o que havia nelas. Contaram, no entanto, que minutos depois
de ter lido a quinta e última carta, Bill mudou de idéia
sobre seu casamento com Lucille, saiu pela porta do prédio
da Greene Street e foi direto para o apartamento de Violet, no East
Village. Quando segurei aquelas cartas com minhas mãos, senti
que tinham o peso misterioso das coisas encantadas por histórias
que já foram contadas e recontadas uma infinidade de vezes.
Enxergo muito mal atualmente e levei um tempo enorme para conseguir
lê-las, mas acabei conseguindo distinguir cada palavra. Quando
guardei de novo as cartas, sabia que começaria a escrever
este livro hoje.
"Deitada no chão do estúdio", Violet escreveu
na quarta carta, "eu o observava enquanto você me pintava.
Ficava olhando para os seus braços, para os seus ombros e
principalmente para as suas mãos enquanto você trabalhava
na tela. Queria que você se virasse, andasse até mim
e alisasse a minha pele como alisava a pintura. Queria que você
afundasse o polegar em mim como fazia na tela e tinha a sensação
de que enlouqueceria se você não me tocasse. Mas não
enlouqueci, e você não me tocou, nem uma única
vez. Você nem sequer me dava um aperto de mão."
A primeira vez que vi o quadro a que Violet se referia na carta
foi há vinte e cinco anos, numa galeria na Prince Street,
no SoHo. Na época eu ainda não conhecia Bill nem Violet.
Os quadros que faziam parte daquela exposição coletiva
eram na maioria trabalhos minimalistas insossos que não me
interessavam. A pintura de Bill estava sozinha numa parede. Era
um quadro grande, de cerca de um metro e oitenta de altura por dois
metros e meio de largura, em que se via uma mulher jovem deitada
no chão numa sala vazia. A mulher estava apoiada sobre o
cotovelo e parecia olhar para alguma coisa que estava fora dos limites
do quadro. Uma luz brilhante vinda daquele mesmo lado da tela invadia
a sala e iluminava o rosto e o peito da mulher. Sua mão direita
estava pousada sobre o púbis e, quando cheguei mais perto,
vi que com essa mão ela segurava um pequeno táxi -
uma versão em miniatura do onipresente táxi amarelo
que circula para cima e para baixo pelas ruas de Nova York.
Levei cerca de um minuto para perceber que havia na verdade três
pessoas naquele quadro. À minha direita, do lado escuro da
tela, notei que havia uma mulher saindo do quadro. Só dava
para ver seu pé e seu tornozelo dentro da tela, mas o mocassim
que ela usava tinha sido pintado com um capricho extraordinário,
e depois que o vi, volta e meia me pegava olhando para ele de novo.
A mulher invisível tornou-se tão importante quanto
a mulher que dominava a tela. A terceira pessoa era apenas uma sombra.
Por um momento, achei que a sombra fosse a minha, mas depois percebi
que o artista incluíra a sombra na obra. Aquela linda mulher,
vestida apenas com uma camiseta de homem, estava sendo olhada por
alguém de fora da pintura, um espectador que parecia estar
exatamente na posição em que eu estava quando reparei
na mancha mais escura que se delineava na barriga e nas coxas da
mulher.
À direita da tela, vi um pequeno cartão em que se
lia: Auto-retrato de William Wechsler. A princípio, achei
que fosse uma brincadeira do artista, mas depois mudei de idéia.
Será que aquele título ao lado do nome de um homem
estaria apontando para o lado feminino do pintor ou para um caso
de tripla personalidade? Talvez a narrativa oblíqua formada
por duas mulheres e um observador se referisse diretamente ao artista,
ou talvez o título não se referisse de maneira nenhuma
ao conteúdo da pintura, mas à sua forma. A mão
que pintara o quadro se ocultava em algumas partes da pintura e
se denunciava em outras. Desaparecia na ilusão fotográfica
do rosto da mulher, na luz que vinha da janela invisível
e no hiper-realismo do mocassim. O cabelo longo da mulher, no entanto,
era um espesso emaranhado de tinta, com enérgicas pinceladas
de vermelho, verde e azul. Em volta do sapato e do tornozelo, notei
listras grossas de tinta preta, cinza e branca que talvez tivessem
sido aplicadas com uma faca e, na superfície desses traços
densos, vi marcas deixadas pelo polegar de um homem. O gesto parecia
ter sido súbito, talvez até violento.
O quadro está aqui na sala comigo. Posso vê-lo quando
viro a cabeça, embora ele também tenha sido alterado
pela minha perda parcial de visão. Comprei-o do marchand
por dois mil e quinhentos dólares mais ou menos uma semana
depois de tê-lo visto. Erica estava a poucos centímetros
de distância do lugar onde estou sentado agora quando viu
o quadro pela primeira vez. Examinou-o com calma e disse: "É
como olhar para o sonho de outra pessoa, não é?".
Quando olhei para o quadro depois de ouvir o comentário de
Erica, vi que a mistura de estilos e a maneira como o foco parecia
se deslocar pela pintura de fato me faziam lembrar as distorções
dos sonhos. Os lábios da mulher estavam entreabertos e seus
dois dentes da frente se projetavam levemente. O artista tinha-os
feito muito brancos e um pouco longos demais, quase como os dentes
de um animal. Foi então que reparei na mancha logo abaixo
do joelho da mulher. Já a tinha visto antes, mas naquele
momento sua tonalidade roxa, que se tornava amarelo-esverdeada num
dos cantos, fisgou o meu olhar, como se aquele pequeno machucado
fosse o verdadeiro tema da pintura. Caminhei até o quadro,
pus o dedo na tela e tracei o contorno da mancha. O gesto me excitou.
Virei-me para Erica. Era um dia quente de setembro, e os braços
dela estavam nus. Inclinei-me sobre ela e beijei as sardas de seus
ombros, depois levantei seus cabelos e beijei a pele macia de seu
pescoço. Ajoelhando-me diante dela, puxei sua saia para cima,
deslizei os dedos por suas coxas e então comecei a usar a
língua. Seus joelhos se dobraram um pouco em minha direção.
Ela tirou a calcinha, atirou-a no sofá com um sorriso e me
empurrou para trás com delicadeza até o chão.
Erica montou em cima de mim e seus cabelos caíram sobre meu
rosto quando se inclinou para me beijar. Depois ergueu o tronco,
arrancou a camiseta e tirou o sutiã. Eu adorava aquele ângulo
da minha mulher. Toquei seus seios e contornei com o dedo o sinal
perfeitamente redondo que ela tinha no seio esquerdo, antes que
ela se debruçasse de novo sobre mim. Erica beijou minha testa,
minhas bochechas, meu queixo, depois, nervosamente, começou
a abrir o zíper da minha calça.
Naquela época, Erica e eu vivíamos num estado quase
constante de excitação sexual. Praticamente qualquer
coisa podia deflagrar uma sessão de atracamento selvagem
na cama, no chão e, uma vez, em cima da mesa de jantar. Desde
a escola secundária, eu tivera uma sucessão de namoradas.
Alguns relacionamentos eram curtos, outros mais longos, mas sempre
houve intervalos entre eles - períodos dolorosos sem mulher
e sem sexo. Erica dizia que o sofrimento tinha feito de mim um bom
amante - que eu sabia dar valor ao corpo de uma mulher. Naquela
tarde, no entanto, fizemos amor por causa do quadro. Já me
perguntei várias vezes, desde aquele dia, por que a imagem
de um machucado num corpo de mulher teria sido erótica para
mim. Mais tarde, Erica disse que achava que minha reação
tinha algo a ver com um desejo de deixar uma marca no corpo de outra
pessoa. "A pele é frágil", disse ela. "A
gente se corta e se machuca à toa. Não é que
a mulher pareça ter apanhado nem nada. É uma mancha
roxa comum, mas a maneira como foi pintada faz com que chame a atenção.
É como se o pintor tivesse adorado fazer essa mancha, como
se ele quisesse fazer uma feridinha que durasse para sempre."
Erica tinha trinta e quatro anos naquela época. Eu tinha
onze anos a mais, e estávamos casados fazia um ano. Tínhamos
literalmente esbarrado um no outro na biblioteca de História
e Humanidades da Universidade de Columbia. Era um sábado
de outubro, no final da manhã, e a biblioteca estava praticamente
vazia. Eu tinha ouvido os passos dela e sentido sua presença
atrás das sombrias fileiras de livros iluminadas por uma
luz de apagamento automático que emitia um leve zumbido.
Encontrei o livro que procurava e fui andando na direção
do elevador. A não ser pelo zumbido da luz, eu não
ouvia mais nada. Dobrei a esquina da estante e tropecei em Erica,
que se sentara no chão, no canto da estante. Dei um jeito
de não cair, mas meus óculos voaram do rosto. Erica
apanhou-os e, quando me abaixei para pegá-los de sua mão,
ela começou a se levantar e bateu com a cabeça em
meu queixo. Quando olhou para mim, tinha um sorriso nos lábios:
"Mais algumas trapalhadas como essas e talvez a gente consiga
chegar a alguma coisa - um verdadeiro número de comédia-pastelão".
Eu tropeçara em uma mulher bonita. Ela tinha uma boca grande
e cabelos cheios e escuros, cortados na altura do queixo. Ao colidirmos,
a saia justa que ela estava usando havia subido um pouco pelas pernas,
e eu olhei de soslaio para suas coxas enquanto ela puxava a bainha
para baixo. Depois de se ajeitar, ela olhou para mim e sorriu de
novo. Durante esse segundo sorriso, seu lábio inferior tremeu
por um instante, e eu interpretei aquele pequeno indício
de nervosismo ou constrangimento como um sinal de que ela estava
receptiva a um convite. Não fosse isso, tenho certeza de
que eu teria simplesmente pedido desculpas e ido embora. Mas aquele
tremor momentâneo no lábio, que desapareceu num segundo,
expôs uma brandura em seu caráter e me deu um vislumbre
do que julguei ser uma sensualidade cuidadosamente resguardada.
Convidei-a para tomar café. O café se transformou
em almoço, o almoço em jantar e, na manhã seguinte,
eu estava deitado ao lado de Erica Stein na cama do meu antigo apartamento,
na Riverside Drive. Ela ainda dormia. A luz entrava pela janela
e iluminava-lhe o rosto e o cabelo. Com muito cuidado, pus minha
mão em sua cabeça. Deixei a mão ali por vários
minutos, enquanto olhava para Erica e torcia para que ela ficasse
comigo.
Àquela altura, já tínhamos conversado horas.
Acabamos descobrindo que vínhamos do mesmo mundo. Os pais
dela eram judeus alemães que deixaram Berlim ainda adolescentes,
em 1933. O pai tornou-se um psicanalista conhecido e a mãe,
professora de canto na escola de música Juilliard. Ambos
já tinham morrido. Um morreu meses depois do outro, no ano
anterior àquele em que conheci Erica e que foi também
o ano em que minha mãe morreu: 1973. Nasci em Berlim e vivi
lá até os cinco anos. Minhas lembranças dessa
cidade são fragmentárias e algumas podem até
ser falsas: imagens e histórias que formulei a partir do
que minha mãe me contou sobre meus primeiros anos de vida.
Erica nasceu no Upper West Side, onde acabei indo parar depois de
passar três anos em Londres, num apartamento em Hampstead.
Foi Erica quem me instigou a sair do West Side e do meu confortável
apartamento da Columbia. Antes de nos casarmos, ela me disse que
queria "emigrar". Quando lhe perguntei o que queria dizer
com isso, respondeu que já estava na hora de ela vender o
apartamento dos pais na parte oeste da rua 82 e fazer a longa viagem
de metrô para downtown. "Eu sinto cheiro de morte aqui",
disse, "cheiro de antisséptico, de hospital e de torta
vienense estragada. Tenho que me mudar." Erica e eu deixamos
para trás a região familiar de nossa infância
e fomos demarcar novos territórios entre artistas e boêmios
ao sul da cidade. Usamos o dinheiro que tínhamos herdado
de nossos pais e nos mudamos para um loft na Greene Street, entre
a Canal e a Grand.
Nosso novo bairro, com suas ruas vazias, prédios baixos e
moradores jovens, me libertou de vínculos que eu nunca percebera
como limitações. Meu pai morreu em 1947, quando tinha
apenas quarenta e três anos, mas minha mãe ainda viveu
bastante. Sendo filho único, depois que meu pai se foi, compartilhei
seu fantasma com minha mãe durante muito tempo. Ela envelheceu
e passou a sofrer de artrite, mas meu pai continuou jovem, brilhante
e promissor - um médico que poderia ter feito muito. Esse
"muito" tornou-se tudo para minha mãe. Durante
vinte e seis anos, ela morou no mesmo apartamento da rua 84, entre
a Broadway e a Riverside, na companhia do futuro irrealizado de
meu pai. Quando comecei a lecionar, sempre que um aluno me chamava
de "dr. Hertzberg" em vez de "professor Hertzberg",
eu inevitavelmente pensava em meu pai. Morar no SoHo não
apagou meu passado nem fez com que me esquecesse de nada, mas quando
eu dobrava uma esquina ou atravessava uma rua não deparava
com lembranças de minha infância ou juventude perdida.
Erica e eu éramos filhos de exilados de um mundo que desapareceu.
Nossos pais eram judeus de classe média assimilados para
quem o judaísmo era a religião que seus bisavós
haviam praticado. Antes de 1933, eles se consideravam "judeus
alemães", uma expressão que já não
existe em língua nenhuma.
Quando nos conhecemos, Erica era professora assistente da cadeira
de inglês em Rutgers, e eu já lecionava na Columbia,
no departamento de História da Arte, havia doze anos. Eu
me formara em Harvard e ela, na Columbia, o que explicava por que
estava perambulando pela biblioteca naquela manhã de sábado
com um passe de ex-aluna. Eu já me apaixonara outras vezes,
mas em quase todos os casos acabara chegando a um momento de cansaço
e tédio. Erica nunca me entediou. Às vezes ela me
irritava e me enfurecia, mas nunca me entediava. O comentário
que fez a respeito do auto-retrato de Bill era típico dela
- simples, direto e perspicaz. Nunca precisei tratar Erica com condescendência.
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